Meu pai, o conde e o rei da Itália.

Julho de 2011, uma notícia na Folha dando conta do destino final dado ao velho Hospital Umberto I, na capital paulista, trouxe-me queridas, ainda de doídas, lembranças. As últimas lembranças do meu pai.

“Hospital deve virar hotel de luxo até a Copa – O hotel de altíssimo luxo que será construído no prédio do antigo hospital Umberto Primo, na Bela Vista, centro de São Paulo, deve ficar pronto para a Copa do Mundo de 2014. O “hotel-palácio” vai funcionar no prédio da antiga maternidade, no centro do terreno de 27 mil m2, a uma quadra da Avenida Paulista”.

Foi lá, na sua recepção, que cheguei em alguma manhã de 1979 levando pela mão meu pai enfartado. Meu pai foi um velho imigrante português, imigrante dos tempos da guerra, chegou ao Brasil em 1940. Açougueiro por profissão, tirava um dia de férias por ano – sexta-feira da paixão. Sonhador por fé, tinha um lema de vida: “no fim tudo dá certo, se ainda não deu certo, é por que ainda não é o fim”. Jamais havia contribuído para a previdência social, tampouco tinha qualquer plano de saúde. Deveria ter algum dinheiro no bolso, mas, sem dúvida, não tinha o suficiente para pagar o taxi para chegar até lá. O fim começava naquele dia e nada estava certo.

Ele tinha a mim e eu tinha 19 anos. E tinha o velho e querido Umberto Primo.

Recordo a apreensão, o não saber o que fazer e o balcão de madeira. Entreguei para a atendente a recomendação escrita por um médico de bairro que havia atendido meu pai no dia anterior. Nada mais foi preciso.

O caso era grave. Em minutos, um enfermeiro apareceu, colocaram meu pai em uma cadeira de rodas e o levaram para dentro para fazer exames. Fiquei sentado, não sei por quanto tempo, nos bancos de madeira, duros e lustrosos da sala de espera.

Chamaram-me, depois, deram-me a notícia da gravidade, da necessidade de internação na UTI, da necessidade de alguns documentos para efetivar a internação. Deram-me ainda todas as explicações que eu pedi. Deram-me também alguns minutos para falar com o meu pai.

Não me deram mais nada. Não me deram nenhum boleto para pagar, nenhuma conta e nenhum pedido de caução. Apenas cumpriram com o seu dever, atenderam e salvaram a vida do meu pai.

Não creio que haja um céu ou um inferno. Mas se um céu houvesse, creio que, naquela hora, lá, o velho conde Francesco Matarazzo estaria orgulhoso. Apesar de nossa falta de recursos, fomos atendidos com respeito, prontidão e dignidade.

Imagino que era isso que ele, um imigrante como meu pai, queria quando contribuiu majoritariamente para construir um hospital beneficente para atender os trabalhadores das fábricas de São Paulo. Ah, São Paulo.

Lá meu pai se tratou por um ano e meio e era para lá que era levado quando do segundo enfarto. Não deu tempo. Foi o cardiologista de lá, um filho de imigrantes coreanos – ah, São Paulo, quem assinou o atestado de óbito do meu pai em uma noite dura, muito dura para mim. Um menino só se torna homem após enterrar seu pai. Até então é filho. Mas é duro o rito de passagem.

Anos depois, como meu pai, o Umberto Primo também morreu. Só que diferente de meu pai, sem ninguém para socorrê-lo. Não que não houvesse mais os Matarazzo ou Crespi, Pignatari, Gamba ou Falchi. Havia. Havia e há muitas fortunas em São Paulo. Velhas e novas. Ah, São Paulo.

Não critico ninguém, eu mesmo, o que fiz em favor do velho e saudoso Umberto I? Fez tanto por mim, e eu por ele? Pouco poderia fazer, mas nada fiz.

Os tempos do conde eram outros, os tempos do meu pai eram outros e meus tempos são outros. Os Matarazzo eram outros também.

Como bem lembrou Andrea Matarazzo, sobrinho-neto do conde, a respeito do evento da transformação dos prédios do hospital em hotel de luxo: “O fato de ser ocupado por cultura onde minha família implantou saúde é ótimo. Não poderia ter uso melhor”.

É ótimo e não poderia ter melhor uso. Um “hotel-palácio” no lugar de um hospital de operários. Ah, São Paulo.

Sim, os prédios e o terreno onde se encontram são belíssimos e precisam ser preservados. Quando passo pela Paulista, sempre procuro olhar para eles. Lembram meu pai. Não consigo, no entanto, ver onde há cultura em um hotel de luxo dedicado às plutocracias nacional e estrangeira.

Tenho várias ideias do que seria um uso melhor, mas não quero e não serei ingrato aos Matarazzo. Hoje, em um dia dos pais, tanto tempo depois, gostaria apenas de agradecer e lembrar. Lembrar um tempo em que meu pai, o conde e o rei da Itália tiveram algo que os uniu na minha memória de filho.

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1 comentário

  1. “O conde e o passarinho” é uma crônica de Rubem Braga que também fala do Conde Matarazzo, se não estou enganado. A não ser isso, não me lembro de mais nada dela. Mas recordo muito bem quanto me tocava o lirismo das crônicas do autor capixaba. Um lirismo que eu não via há bastante tempo, até ler a crônica acima, a qual ainda faz um importante registro histórico destes tempos cruéis. Parabéns ao autor!

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