poesia

Não solta da minha mão – nov18

Em um tempo de festas pelas ruas, guiados por insanos e devassas musas nuas, bêbados e cegos pisam flores. Um tempo de enjoo, um tempo de azia. Em um tempo de ressacadas, choramos pelas flores esmagadas. Nossos sonhos e nossas dores – nossos amores.

E há essa urgência em recolhê-las pisadas pelas calçadas e replantá-las em jardins e praças públicas. Mas os jardins, agora, estão fechados, noite e dia, a cadeado e há vigias e portões em suas cercanias e fronteiras.

Os jardins não abrem mais aos domingos. Todos os dias transformaram-se em segundas-feiras, com seus patrões, suas moendas e britadeiras. Todos os dias são agora dias santos com seus cânticos, sacerdotes e penitências. Todos os dias, feriados nacionais, com generais e gestos de continência.

Os jardins e as praças são agora campos de mineração.

E um tempo de razia, deixaram-nos vazias as vidas e as mãos. Perdi meu tempo e a razão. Neste tempo em que é necessário novamente dar-se as mãos – como meio de proteção – enterrei vários amigos. Um tempo de perdição.

Impedida a passagem, meus companheiros de viagem sentaram-se à beira do mundo. O mundo-meio-fio e a sua sarjeta. Em um tempo de vendeta que se avizinha, maus pressentimentos correm como dedos frios cada nó da espinha.

Estão exaustos. Gastamos as palavras e as solas dos sapatos. Em vão. Trazemos as roupas sujas. Mas as mãos estão limpas. E os sentimentos estão sãos.

Mudos, contemplam o horizonte perdido em um grafite colorido no muro da prisão. Um conselho de finados ou algo assim: quando os soldados, por fim, apagarem a luz e ficarmos na escuridão, procura por mim e não solta da minha mão.

 

O poema inserto – nov18

E se no último momento eu conceber um poema?

E se ele não for termo, mas for meu último momento? E se não houver mais tempo para escrevê-lo, lê-lo – aparar suas arestas – acariciá-lo?

E se não houver mais forças para pari-lo – dá-lo à luz? Forças para apartá-lo de mim, livrá-lo do meu fim? Abandoná-lo só no mundo, para que seja recolhido como um cão de rua.

Forças, ao menos, para sussurrá-lo como jura de amor à vida – deixá-lo como benção ou como maldição? Ouvida ou não. Mas havida.

Cintilará nos meus olhos mudos e se apagará desapercebido apenas?

E se no último momento eu não conceber um poema?

Ódio branco – nov18

Teu sincero ódio é revel de tua alma; que o encobre em tantos véus e o reveste de tantas vestes que, por fim, o traveste de amor. E assim, finges enfim essa tua quimera em que adulteras a verdade que não pode ser dita. Maldita. Tua derrota, tua desdita. Esconde-te nessa trapaça que tua boca afirma, mas teu olhar não disfarça. Ele te diz: farsa. Ele te desnuda. Ele te grita onde te queres muda. Teu sincero ódio é tão franco que te cabe menti-lo. Teu sincero ódio é tão branco que te sobra pintá-lo de vermelho. Teu engodo, então, é teu espelho. E o que é maior em ti te contradiz a partir do que tu tens de mais pequeno. Teu grande veneno. A úlcera que trazes no ventre como um rebento. O olho torto com que te miras na cara do outro. Tua maldição, teu encantamento.

Linhas suburbanas – out18

Divago pelas calçadas da minha rua deserta, ao final da tarde. Nenhum alarde. Onde estão as crianças que voltam da escola? As crianças foram embora. Há tantos anos não há crianças mais. Corre pela via só esse vento e seus ruídos incidentais.

Minha vizinhança cemitéria e suas casas silenciosas que me soam solitárias. Portas e janelas proletárias de assombrados assobradados de meio lote. Apertados como em um garrote.

Seus portões fechados, amedrontados e suas fachadas trincadas traindo a memória da pintura pretérita e dos tempos passados. Seus vasos descuidados em quintais vazios. Sombrios.

E essas almas a espiar pelas vidraças, por detrás de suas decadências, a desgraça de suas existências e as suas pequenas mortes cotidianas. Irrelevantes, suburbanas.

 

Sempre-viva – out18

Olho para a pequena flor e ela é forte. Como não havia percebido antes sua fortaleza?

A inútil beleza da flor me engana. Mas a força é o que resta e empresta a vida à flor pequena.

Toda pequena flor que vinga tem de ser forte – porque pequena em um mundo tão grande. Tão cheio de corte.

Mas, por pequena e flor, só havia percebido a flor. Agora a força. Essa força forjada em dor. Pequena flor.

Por que por tantos anos eu só vi a flor? Cego para a dor e essa força nascida dela. Flor bela. Por que a dor? Por que não só a beleza da flor?

Força e dor na flor. Por quê? Por que rimar a flor com dor? Por que não rimar a flor com sempre-viva – viva a flor?

Por que busco resposta? Só a flor não basta? Bosta.

 

Primavera de Julho – set18

Que importa o tempo que passe? Que importa mesmo que o tempo passe, se a Primavera será sempre menina?

Que importa quanto os anos passem, se a Primavera sempre renasce em Primeiro de Julho? Sim, que não haja engano, Primeiro de Julho é o primeiro dia do ano. Réveillon, dia de ano bom.

Que importa o que dizem os calendários? Todos falhos.

Que importa o que diz a ciência sobre o caminhar do planeta em torno do sol que o aquece? Explicando o que acontece com o clima. É frio embaixo, é quente em cima.

Importa abrir a janela e a manhã estar clara e a tarde estar morna. Importa nascer uma flor em mim, malgrado esteja cinza o jardim. Será primavera, mesmo assim.

Que digam os astrônomos que em julho é inverno no hemisfério sul.

No céu azul, nasceu uma estrela ao meio-dia. Estrela guia. Um brilho novo na Via Láctea que me envia um presente de aniversário envolto em um pacote de nuvens que desembrulho para ver a estrela nova e a flor da Terra trazendo a primavera em Primeiro de Julho.

Comentário: carta pré-datada para minha filha que fará 30 anos em Primeiro de Julho de 2019.

O baralho azul – ago18

Há um baralho azul com o qual se joga com cinco cartas salteadas. E uma carta dolorida.

A cada partida, da primeira a sexta, pula-se a quarta que volta ao final aumentada. Com o baralho azul faz-se uma dúzia de jogadas, mas as regras não são combinadas.

Basta lembrar que a terceira é menor e a quinta é diminuta de dor. Ao jogador, a sétima dá o tom. As cartas, cada um embaralha segundo lhe dá o dom.

No baralho azul, todas as cartas são tristes, porque são feitas de canção. No baralho azul, só três reis existem. Todos pretos como as fibras do algodão.

No baralho azul, há muitos ases, de toda cor. Mas os três reis pretos são as cartas de maior valor.

No baralho azul, há um coringa de mãos alucinadas. Há prostitutas, cleptomaníacos e um inglês viciado. E há um raio encantado que está no céu entre bons bombons bons.

Há uma dama que canta Blues e traja azul, com o vento em seu vestido.
E há, por fim, um valete assim: de ouvido atento e olhar perdido.

 

Não há Sol no país tropical – jul18

Uma história para entreter crianças durante a travessia de dias nublados e noites escuras.

Um dia os poderosos da terra se aborreceram com o Sol.

O Sol incomodava especialmente os poderosos da terra. É compreensível. O Sol brilhava mais que os poderosos; e os poderosos não gostam disso. Mais ainda, o Sol brilhava para todos. E como dizem os poderosos: de que vale o Sol sobre o país, se o porteiro do prédio também pode desfrutar do seu calor e da sua luz. O poder cobra exclusividade.

Poderosos também gostam de fazer bons negócios. Aliás, é assim que se tornam poderosos. Logo, o Sol era um dificultador. Como luz para todos? Suas ações igualitárias em nada contribuíam para aumentar os lucros dos poderosos – que, no país tropical, sempre lucraram muito vendendo o bem público. E com menos lucros, ficam menos poderosos os poderosos.

Decidiram apagar o Sol. Mas não tinham poder para tanto. O Sol tinha brilho próprio. Decidiram então decretar que o Sol não existia. Para os fins práticos, era o que bastava.

Buscaram junto aos juízes uma decisão irrevogável que determinasse a inexistência do Sol. E um decreto do síndico que puseram para cuidar do condomínio que determinasse o uso de cortinas grossas e escuras nas janelas e a proibição de olhar para cima durante todo o dia e para o horizonte, nas manhãs e ao anoitecer. Os decretos dos poderosos são detalhistas; contratam especialistas que buscam cobrir as brechas legais, antes que elas sejam percebidas pelo homem comum.

Tornou-se também malvisto e não recomendável falar sobre o Sol em praça pública. E havia fiscais para ouvir as conversas e repreender os falastrões.

O país tropical se cobriu sombras – as sombras acariciam a pele branca dos poderosos. Esse, inclusive, era outro motivo de incômodo dos poderosos com o Sol. O Sol favorecia as gentes de peles morenas e mais escuras e sujeitava seus alvos a queimaduras de primeiro grau.

Tempos depois, porém, foi necessário endurecer as medidas de censura ao Sol. Malgrado tivessem os poderosos controlado o dia, havia a noite. E com ela a Lua e as estrelas – as pequeninas, mas incontáveis estrelas no céu – como que a dizerem: “somos milhões de sóis”.

E sob a influência noturna, alguns lunáticos escreviam cartas e poemas e os colavam nos postes. Diziam que mesmo de olhos fechados é possível imaginar o nascer do Sol.

Os poderosos entendem frases cifradas. Enviaram seus fiscais para internar em hospícios tais insanos.

Não era possível correr quaisquer riscos. Qualquer lembrança do Sol era perigosa. Estenderam as limitações solares à lunares e estelares – tornaram-nas universais. Proibidas a visão da Lua e das estrelas – buscava-se também interditar qualquer ilusão poética – qualquer imagem de um outro mundo possível sob o Sol. O humanismo romântico – fonte de distração que reduz a produtividade e a competitividade da economia nacional.

E essa, por último, era a ideia força apresentada ao público, para encobrir os reais interesses do poderosos: todas aquelas medidas duras eram para o bem da pátria. O Sol enganava o povo com promessas de prazeres impossíveis para todos. O Sol os corrompia – os aturdia com a sua luminosidade distributiva – e os tornava indolentes com o seu calor. A verdade da escuridão nos libertaria.

Professores ainda tentavam ensinar aos seus alunos de que se víamos uns aos outros era porque a luz existia entre nós. E que se havia luz, havia o Sol – fonte da luz.

Enviaram então – os poderosos – seus fiscais para constranger os professores a não tomarem partido do iluminismo. A verdade da inexistência do Sol exigia uma escola sem partido.

Todas essas medidas, no entanto, trouxeram apenas efeitos de aparência. O Sol é o maior evento político do país tropical. Pode-se até calar sobre o assunto, mas quem com um mínimo de racionalidade acreditaria que o Sol deixou de existir somente porque os poderosos e seus serviçais assim passaram a afirmar? E, aos poucos, os poderosos – sem deixar de ser poderosos – passaram a se tornar ridículos. Ridículos como seus bobos-da-corte que nos circos midiáticos fanfarronam que o Sol não existia mais. E que era o momento de pensarmos o país pós-Sol, recomendavam os espertos.

O povo que é sábio, todavia, sabia em silêncio que o Sol estava onde sempre esteve. Por sobre todo o país tropical, apesar das nuvens carregadas, das pesadas cortinas e das cabeças abaixadas. Em extremo, a própria existência das sombras, que o povo enxergava, enquanto olhava para o chão, era prova da existência do Sol.

E assim segue a vida no país tropical.

Os jornais nada mais falam do Sol – nem da crise provocada por sua falta – depois de décadas de fortalecimento, a democracia no país tropical volta a sofrer de raquitismo – doença infantil provocada pela carência de exposição ao Sol. Em suas edições dominicais, as manchetes tratam de temperos para vatapá.

Quanto ao povo, segue sua vida esperando, mais uma vez, que os poderosos, outra vez, morram de podres e de velhos e que, pela força da natureza, o Sol amanheça no país tropical, dessa vez, de vez.

 

A luta contínua – jul18

Tenho mantido as janelas fechadas. E a porta da fachada.

Não abro cortinas e, tampouco, as folhas dos jornais.

Telas escuras, sonhos em clausuras – provocações e nada mais.

Versos entalados na garganta e passos atolados em lodaçais.

Quando tudo já foi dito e não faz sentido repetir. Tudo já foi rimado.

Prosseguir quando tudo já foi feito e resulta inacabado.

Desejos de fuga que cada madrugada e sua insônia acalenta e o dia subjuga.

Estes olhos já sabem da estrada e da chegada que leva a outra vez.

Em cada talvez há outro nada. Todo novo é de novo; tudo é vizinho. Já conheço.

O caminho já trilhado leva a lugar nenhum. Ao lugar comum do recomeço – reconheço.

Tudo tão constante. Como antes, o mesmo fundo do poço e a mesma escada.

A mesma corda no pescoço. As mesmas afrontas me constrangem.

As minhas mesmas falanges contra as mesmas facas e suas pontas afiadas.

 

Relatório sobre o passamento do pássaro expiatório – mai18

O teu corpo passarinho voa pelos céus da ilha e projeta uma sombra de luto e denúncia sobre teus assassinos. Teu corpo passarinho torna-se um indicador frente a fronte do teu acusador.

Teus assassinos, com as mãos sujas do teu sangue, buscam ocultar as marcas da infâmia, que trazem nas palmas, cerrando os punhos contra ti. Teu sangue, então, mina de entre os dedos dos teus assassinos. Escorre pelos antebraços que eles mantêm erguidos sobre nossas cabeças e pinga em nossas caras.

Trazidos à luz que a sombra do teu corpo passarinho lhes projeta, teus assassinos buscam cegar nossos olhos para que não os vejamos como são revelados – teus assassinos. Com suas canetas, vazam-nos as vistas.

E das nossas órbitas dilaceradas pelas palavras estacas dos teus assassinos, as nossas lágrimas lavam o teu cadáver que velamos todos os dias em câmara ardente – não podemos sepultá-lo. Tua tumba está interditada por um inquérito policial.

Teus assassinos observam-nos de trás de seus véus de imposturas e de suas vigias de poder.

Tomam-nos por sem luz. Lúcidos de dor, vemos o teu corpo passarinho voando sobre a nuca dos teus assassinos – cangando-lhes as calvas.

O clarão que nasce do teu voo passamento nos ilumina e enxergamos na escuridão deste momento.

 

Ferramenta da língua – mar18

A língua age em humanos, a língua age em desumanos. A língua age confessando o quanto há de sonho no ser humano. A língua age cuspindo o quanto o desumano é do humano a essência. A tautologia do humano desumano em cada palavra.

A palavra é a mão metafórica – a mão ferramenta do braço. E como as mãos, prenhas de carinho, a palavra, como as mãos, está também suja de sangue. As mãos e a palavra são a expressão da contradição humana. A contradição como condição do humano.

Humanas como as mãos, a palavra não é imune, a palavra não é impune.

A palavra não é só a palavra – a palavra é a menor parte da palavra. A palavra é o que havia antes da palavra – o desejo e o ódio – a palavra é tudo o que o depois tornará a palavra – nada. O beijo, as pedras … e as balas. A palavra é o meio como as mãos.

A palavra não é o cafetão, a palavra não é o devasso palavrão – a palavra é puta.

A palavra não é imune, a palavra não é impune. A palavra não é o estrume, ainda que dele se nutra. A palavra não é terra e a palavra não é água, a palavra não é sol – a palavra é a árvore – benditos são seus frutos e malditos os são. A palavra é ventre absurdo e paradoxal. Antinômico.

A palavra é o túnel que leva do escuro ao escuro das almas. A palavra é ponte ligando dois abismos.

A palavra – ferramenta da língua. A língua e o sentido do prazer humano que, tantas vezes, se encontra na dor.

 

Ainda que os versos sejam de dor – mar18

Não a questiono e, tampouco, espero dela qualquer voluntária resposta. Sigo o caminho, desde menino – eu e ela. No mais, seguimos sós. Ela que me escolheu entre os garotos imberbes da rua da minha infância e fez-se minha concubina, desde então. Ela me acorda à noite – não me permite dormir, apesar do cansaço cotidiano. Exige que a ame de imediato, como escravo. Ela me rouba beijos em praça pública, em momentos inadequados. Ela me presenteia com poemas – todos transcritos de outros corações. De onde busca-os não sei. E mais, se um dia eu soubesse como seus versos me chegam, ou aonde me levam, não haveria mais o mistério e tudo em mim seria terra batida. Se um dia eu tivesse que explicar a sua poesia que me assombra, teria conduzido minha companheira inconfidente abaixo da prosa e a rebaixado ao nível das teses acadêmicas. Seria-lhe indigno. Se um dia eu tivesse que abdicar da ironia – a adaga só de gume com que ela me presenteou – teria capitulado ao reducionismo mais tacanho – senão tão interesseiro como a demagogia. Minha amante morta e gélida como as linhas e pontos de um gráfico. Deixo, então, as janelas abertas – para resguardar-me do concreto previsível como a morte – por tais, por vezes, entram os ventanistas a buscar em minhas gavetas os trocados que não ganhei, mas também entram borboletas estranhas vindas das minhas entranhas. De suas larvas, que me roem, resultam os meus versos e as pontes que me levam até ela; ainda que as pontes sejam feitas das cordas dos enforcados e os versos que me enxadrezam sejam, uns brancos, outros negros de dor.

 

Versos para Marielle – mar18

Na cara preta, a bala é sempre um ornamento previsível.

Entre as sobrancelhas, como uma pinta, uma marca de nascença.

Não é algo que faça a diferença. Algo que distinguiria.

Quem olha não nota. Toma como um traço comum da etnia.

A menos que o conjunto resulte inesperadamente belo. O teu caso. Não por acaso.

A bala e teus cabelos anelados. A bala e teu sorriso aberto. De repente, descoberto.

A bala e essa tua cor de pele. Meu deus! Que é da bala e esse brilho nos olhos teus?

É quase uma afronta à ordem pública. Impudica, tanto que fascina.

Quando passas, enchem-se as praças – portas as bandeiras da raça.

Para te ver, encerro mais cedo os trabalhos da Oficina.

Mas lembra, mulher, que correm maior perigo as belas. Às balas.

Dos homens que te desejam impotentes. E de outras mulheres, naturalmente.

É deles que a bala virá, como presente. Como uma homenagem insolente.

De mim, apenas alguns versos imprudentes.

 

Caminho Suave – fev18

Como são arriscadas as tuas jornadas, atravessando nossa guerra e suas barricadas.

Como tua mochila vai carregada.

Há nela um helicóptero com meia tonelada de coca que decola dos teus ombros no caminho da escola.

Há fuzis e imbecis clamando por segurança. E um soldado que revista bolsa de criança.

O que encontra lá? Que arma, que droga pesada? Além do desejo de viver sem temer – nada.

Busca ali o responsável pela nossa desesperança? A desculpa pelas nossas urnas repletas de enganos?

Você tem só oito anos e – entre canos de carabinas – já esse olhar duro preso nas retinas.

Como um vampiro nos teus pesadelos noturnos. Há interesses inconfessáveis e planos soturnos.

Há ternos bem cortados, calções surrados e chinelos, barracos e castelos. Fardas verde-oliva e seus coturnos.

Tempos estranhos de homens de pouco tamanho.

Há praias, planaltos, asfaltos e encostas e toda essa bosta pesando em tuas costas.

Você menina de meias brancas e sapatilhas. Milha filha limpando as caras dos chefes da quadrilha.

 

Navio negrante – fev18

Somos todos a mesma carcaça animada pela mentira de uma alma imortal.

Somos todos a mesma carcaça montada com palha e cal.

Somos todos a mesma carcaça tocada pela fome que nos faz reféns da vida.

Somos todos a mesma carcaça adornada pela mesma pele ferida.

Somos todos a mesma carcaça recoberta da mesma carne que nos faz prisioneiros da mesma dor.

Somos todos a mesma caraça suporte do mesmo cansaço que nos dá algum valor.

Somos todos a mesma carcaça que copula e produz novas ossadas para repor as espinhas que fraturadas não valem mais nada.

Somos todos a mesma carcaça que carrega sobre as escápulas o mesmo deus pai e patrão.

Somos todos a mesma carcaça que moída em farinha de ossos polvilha o chão.

Somos todos a mesma carcaça que com a cervical ereta afirma ser homem, ainda que pela lida em carcaças de bestas nos tornem.

Somos todos a mesma carcaça – tétrico cortejo de esqueletos que andejam em marcha fúnebre.

Somos todos a mesma carcaça na mesma barcaça da mesma morte que por fim nos irmana e reúne.

PS: inescapável associar as imagens do quadro “Navio de Emigrantes” de Lasar Segall – de 1941 – com a obra “Navio Negreiro” de Rugendas – de 1830. E com elas os versos do samba-enredo da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti – de 2018: “irmão de olho claro ou da Guiné, qual será o seu valor?”.

 

Último baile – fev18

Na coincidência das datas inexatas dos feriados móveis, a quarta de cinzas é meu dia dos enamorados. Fantasiado com farrapos de quadriculados variados recortados de sonhos acordados de um platônico Arlequim, vou à festa que ainda resta nas cinzas da fogueira de Santo Antônio, na noite do Dia de San Valentin. Um momo iludido entre devaneios de cetim. E assim, entre abandonos de mestres-salas e porta-bandeiras, desfilo só – minha saideira – pela quarta-feira da avenida feita de mim. E brinco o que me coube neste festim. Em uma madrugada segurada pelos cabelos, tento retê-lo – um último baile que não quero que chegue ao fim. E assim engano outro engano enfim.

 

Água Azul do Norte – fev18

Onde era verde, agora é rio.

Onde era gado, agora é mar.

Onde era estrada, não é mais.

Onde era ponte, agora desvão.

Onde era azul, agora é cinza.

Onde era horizonte, a vista não mais alcança.

A neblina nasce junto dos olhos.

Manhã alta e o céu no chão.

Água, água, água, água, água.

Afogado em terras, afogado em gentes, afogado o ar,

é inverno no sul do Pará.

 

Carta à minha professora desaparecida – jan18

Não cultivo falsas memórias, apenas longos esquecimentos. Como uma benção ou uma maldição, esqueço pedaços inteiros da minha vida. E com eles se vão nomes e rostos e lugares e datas.

Os sentimentos ficam. Como silhuetas movendo-se na névoa. Isso quando não sou, por vezes, atropelado por uma lembrança extremamente vívida e que, no entanto, julgava completamente esquecida. Mas que estava, na verdade, somente adormecida, em algum lugar em mim. Espanto-me, então. Revelações.

Outras recordações, por algum motivo, sempre estiveram comigo. Sem nenhuma razão especial ou por alguma razão não sabida – como uma companhia ou uma companheira. E você é uma delas. Ou, talvez, eu devesse perguntar: é você uma delas?

É você a memória interrompida que me acompanha desde sempre? É você a moça morena de cabelos curtos – creio eu – nas minhas lembranças do ginásio? Tão jovem – hoje eu sei – poucos anos mais velha que eu – que me ensinava teatro no Colégio Vocacional Oswaldo Aranha – o Vocacional do Brooklin – aqui em São Paulo?

Lembro do teatro. Era anexo à escola, próximo às quadras esportivas, na parte dos fundos do colégio. Chegava-se a ele por uma escadaria.  Passei boas tardes naquelas escadarias.

Lembro das crianças em um exercício com você nos estimulando a expressar situações sem usar palavras – somente expressão corporal. Lembro de nós, depois, sentados no chão em roda – você entre nós – discutindo o que cada um tinha conseguindo entender do que o outro tentou expressar. Você a nossa professora – morena, de cabelos curtos e tão jovem.

Era você? Porque depois você desaparece das minhas lembranças. As aulas de teatro continuaram até o ano seguinte, pelo menos. Depois devem ter sido descontinuadas. Que importa? Fazem parte dos meus esquecimentos.

Você não. Você some de repente. E hoje eu sei por que. Sempre achei que era apenas mais um dos lapsos. Mas não. Eles haviam lhe capturado. E eles sumiram com você – calhordas – e você se tornou minha memória interrompida – e a lembrança que teimou em ficar. Era você? O ano era 1972 e eu tinha 12 anos.

Não queria lhe lembrar da data. Hoje eu sei o que aconteceu. O quanto lhe machucaram. Ocorre que, sem avisar, depois de tantos anos, você aparece em imagem na minha frente – em um vídeo inesperado, velho de quatro anos e só hoje assistido. Uma mera casualidade e explode minha memória. E me obriga a perguntar: era você?

A ditadura forjou minha infância, minha adolescência e parte da minha juventude – minha memória. Está lá, na minha repulsa a qualquer forma de poder despótico, mas também nas lembranças das festas democráticas com que celebramos o seu fim. Sim, porque houve sim festas democráticas, neste país que parece predestinado à subserviência e à vassalagem. Haverá novamente. E, nessa amalgama de recordações imprecisas e ainda assim tão fortes, você também está. Sempre esteve e eu não sabia. Quem diria?

Foi muito bom lhe reencontrar e afirmar o que ficou da memória – apesar da ditadura – esse vulto escuro que nos segue do passado e, não raro, cruza nosso presente e, como agora, tenta eclipsar nossa visão do futuro. Causa das tuas lágrimas em dia de festa. Mas também do teu sorriso de vitoriosa. De quem viveu para contar.

Para eu lembrar que – sei lá porque – nunca esqueci a professora morena de cabelos curtos e tão jovem. Hoje, por um desses sortilégios do tempo, estou mais velho que ela. Mas quero, mesmo assim, lhe deixar um beijo de aprendiz.

Um beijo, professora.

Comentário: carta aberta à atriz Cláudia Alencar, presa e torturada pela Ditadura de 64. Minha professora de teatro no ginásio.

O dilema do quarto macaco – jan18

São quatro macacos pelados diante dos fatos.

Há três deles aos quais fato algum importa: o distraído, o egoísta e o idiota. Há três tipos que com os fatos entram em litígio e afirmam seu contrário: o lunático, o romântico e o salafrário. O que se quer racional, por seu lado, como tal, reconhece os fatos como os fatos são – a realidade percebida. E, então, por vezes, se admira; por vezes, se horroriza. Mas não a nega jamais. Nem mais é capaz de ser alheio à ciência que assim lhe adveio. Pondera, estuda e busca a compreensão; ainda que nem sempre obtenha a explicação.

Ao quarto macaco, agora, parado diante dos fatos, desafia-o a ação movida a paixão, a interesse ou a necessidade que lhe vença o medo, o estupor ou a passividade.

O dilema diante do fato da racionalidade.

 

Missão cumprida – jan18

E quando um dia, por fim, eu me for, em meu último ato, devolverei

ao solo o pó das estradas que pela vida afora carreguei nos sapatos.

E quando eu cobrir o meu rosto com o lenço escuro que cobria os cabelos da minha avó,

não estarei, então, mais sozinho do que hoje estou só.

Fecharei, junto com meus olhos, outros rostos e nomes,

as datas e os lugares que venho esquecendo em vida.

Nenhuma despedida. Não deixarei lembrança de herança.

E deserdarei assim, como vingança, todos aqueles

a quem, enfim, jamais dei motivo para se lembrarem de mim.

Nenhuma cura cometida para nenhuma ferida.

Nada movi no mundo, além do vento, ao passar pela vida.

Missão cumprida.

 

Do poder hipócrita – jan18

a François duc de la Rochefoucauld

 

O pé tem a ver com o pontapé e com o balé.

A mão tem a ver com o afago e com a agressão.

A boca tem a ver com o beijo e com o vitupério.

Assim como a saliva tem a ver com o gosto e com o escarro.

E o riso com o gozo e com o escárnio.

Ambos a se opor. Não há como ser um, se o outro for.

Razão direita e relação causal. Para o bem e para o mal.

Mas afinal, o que a Justiça tem a ver com a justiça?

A Igreja tem a ver com a fé? A métrica tem a ver com a poesia?

O rito tem a ver com o ato? Estelionato.

Quando não a sua negação, quanto têm de simulação?

A forma que deforma o sentido e oculta interesses inconfessados.

A farsa como o disfarce que autoriza a mentira socialmente consentida.

Quando não o seu oposto dissimulado pela capa do ilusionista.

O exercício do poder hipócrita na lei escrita. Lei que é para todos?

Palavras homógrafas, mas cognatos enganosos.

 

Andarilho do nada –  Jan18

Não há começo e não há findar. Há trilhar

o não-caminho para o não-lugar.

Não há aonde ir e não há por que ficar.

Não há como partir e não há aonde chegar.

Vagar. Não há por que tardar.

Não importa por que porta,

não há por onde sair e não há como entrar.

E, ainda que tudo seja voltear, não há espaço a circular.

Não há nada em torno. Não há retorno

porque não há início a que voltar. Um não-sentido a me guiar.

Não há compasso a marcar o passo. Não há sinal para parar.

Não há pelo que esperar. Nada além de duas pernas a caminhar

o não-caminho para o não-lugar. Só o continuar e o errar.

 

PS: buscado uma imagem para ilustrar o poema deparei-me com este texto de Nietzsche – que não conhecia – até no título igual: “O andarilho – quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe”. Depois de 10 mil anos de escrita, não há mais nada novo a se dizer. Toda poesia é uma repetição do coração cíclico do homem.

 

Linhas de fuga II – jan18

Meus captores um dia me chegaram

E me roubaram as palavras.

Não as palavras da minha boca,

as palavras dos meus olhos.

Como quem roubasse meu horizonte,

como quem tapasse a janela da cela da prisão.

A janela da prisão que dá para o pátio da prisão.

Como quem descobrisse e vedasse o túnel da fuga.

Fechei então meus olhos inúteis e escapei pelo alçapão.

Pela ilusão, pela imaginação, pelo devaneio,

pelo delírio da liberdade.

Parti em metade e por inteiro.

 

Metortografia do sentido – nov17

Desacordo como em um samba assaltação

de medos e sobreassaltos de incertulidade.

Tudo que era sol agora mancha o ar de escoridão.

Tudo que era amar agora é ondiento e ressaca.

Busco refuga no universo que me réstia,

na luz que furúncula o zinco das tetas do mundo

e se infernaliza em mim. No que me rastro de luciferdez,

tortografo o diverso inverso, na contraversão dos acasos

por opção involuntariosa. Então, voutorno ao princípício.

É voltoutono. Não verão no incapaís distropical.

Entre o parapeito aberto e a bala de goma perdida,

vervoar, mais uma vez, por sobre a natureza morta,

vervoar pela paisagem torta

e outravestir de algumigalhas qualquer ideia de futudoounada.

Ainda verbolar a vida e reverbolar a palavra viva.

Reverbeirar as possibilidades dos alambrados heroicos,

de um povo retumbante. Tesionar vontades e despejos

no buscarpir de vertebrar estes sentimentos de não são.

 

Elefantes de outubro – out17

Elefantes são seres interessantes. Elucubro.

Dizem-nos extintos como os poetas. Como a poesia concreta.

E, de repente, descubro: ágeis como atletas,

todos reaparecem em outubro.

 

Poemina subversivo – out17

Ordem não é progresso.

A ordem não conduz ao progresso. A ordem conduz à estagnação.

A ordem é estática. A ordem é antinatural. O universo é fluxo.

O universo é expansão.

A ordem exige a energia inútil que não leva à transformação.

A ordem se antepõem à transformação.

Sem transformação não há progresso.

A ordem é a forma de manutenção do status quo.

Ordem é coisa de conservador decadente.

O caos exige mais energia que a ordem. Energia de ativação.

Mas o caos é o estágio intermediário da transformação.

Tudo tende a existir na sua forma de menor energia.

Assim, após cada transformação sucessiva, naturalmente, o universo estará em um estado menos ordenado e mais econômico de existência.

Por consequência, o caos devolverá ao universo mais energia do que a tomada para transformá-lo.

Quem se apropriará de tal saldo no balanço energético é questão ainda não resolvida das relações termodinâmicas e sociopolíticas da humanidade. Dúvidas não há, no entanto, em relação ao modelo: caótico.

Energia livre e reações espontâneas.

Base da físico-química e da economia de mercado.

O caos é o motor do progresso.

O poder advém do domínio dos meios de controle social da reação. A quem detém o poder, não interessa a explosão.

O desejo por princípio, o caos como meio e progresso por fim.

Assim falou Adam Smith.

Augusto Comte é coisa de país subdesenvolvido que ainda teme Karl Marx

 

O saco de Deus – out17

Os escrotos do Demônio saíram dos esgotos.

Soma a partir de noventa sua legião.

Os escrotos do Demônio são lambidos pelo cão.

Os escrotos do Demônio cagam regras celestiais.

Bestiais, louvurram a moral e os bons costumes.

Os escrotos do Demônio são feitos de estrume.

Os escrotos do Demônio tomaram as ruas agora,

de cabeças erguidas e bundas de fora. Bundas brancas

e pelancas donde pendem taras que esfregam em nossas caras.

Os escrotos do Demônio perderam as amarras.

Os escrotos do Demônio, contudo, têm medo da coisa inserta,

da nudez do desejo que carregam encoberta,

oculta sob bandeiras. O corpo nu lhes molesta.

E rasgando as vestes, como ferida aflita, a pele desnuda

grita o medonho cu que trazem na testa.

Os escrotos do Demônio. Seu arroto a tudo infesta.

No ar saturado das preces surdas da esganadura,

na garganta muda, nos lábios rachados sob a secura

da paz sepulcral das vidas escuras, o óleo do ódio

queima em sua fritura. E recende à ética fétida

como peido. Flatos feitos de amônio.

No saco de Deus, crescem os escrotos do Demônio.

 

Canção da primeira despedida – set17

Leva contigo esse nosso sentimento

Dobrado com as dobras do tempo

Como o tempo dobra as cartas de amor

Guarda contigo nossas lembranças sentidas

Nas retinas da memória retidas

Como a vista guarda as portas das casas

Como a boca guarda de alguns beijos o gosto

Como a vida guarda nas dobras do rosto

A história das despedidas

E já que agora não pisamos mais os mesmos passos

Desatamos outros nós, refazemos novos laços

Já que é tempo de estar distante

Deixa ao menos que neste instante

Eu tenha comigo teus olhos como amuleto

E cada um dos teus sorrisos como versos de um soneto

Que eu carregue tua imagem como um guia de viagem

E que ouça nossos antigos abraços como vozes em dueto.

 

Helicoca – ago17

Hélice de cola.

E ele coca, cola?

Como se com julga o verbo cocar?

Quem caiu na esparrela?

Corruptela do vernáculo pátrio.

Última de florada do Lácio.

Meia tonelada dê já mais.

A tudo que eleve se diz: faz. Não há mais ar.

Nêmesis de novo sobre o Sol ido que se diz mancha em pó.

Pó de mar? More, ou não pó demais?

O que Têmis é temer o poder?

Quem é o juiz

Que a juíza essa que estão?

Tal razão sem nação.

Zumbi.

 

Homenagem póstuma e algo tardia a Paulo Nogueira.

PS: em agosto de 2017, a Justiça proibiu o jornal DCM – Diário do Centro do Mundo, fundado por Paulo Nogueira, de usar o neologismo ”Helicoca” criado por ele para se referir ao caso da apreensão de meia tonelada de pasta base de cocaína em um helicóptero pertencente ao senador José Perrella.

 

Da sinistra humana – ago17

Por este mundo inteiro

de teu deus testamenteiro,

da rosa dos ventos,

só importa o lado da miséria:

se ele te traz ou leva o cheiro.

De toda merda,

só interessa saber à vida,

se é esterco ou excremento.

De tudo que te come por dentro,

parte é bactéria, parte é fermento.

E a fome que te empurra as mãos

leva para a cova ou teu filho ou teu irmão,

dependendo do que acolha,

do quanto se tem de escolha,

ou da falta de opção. Da tua posição resulta

o quanto você furta ao mundo ou o que reparte

e o quanto te roubam da tua melhor parte.

Da sinistra humana, senda ou ciência, resta o motivo,

ou a paciência, com tudo que ocorre com o que morre

e com o que resta vivo.

Sísifo de macacão – ago17

Na manhã fria e de garoa paulistana, o homem varia da calçada as folhas que caiam da árvore. Diligentemente. Enquanto outras folhas caiam sobre ele e sobre a calçada que ele varia. Diligentemente.

Dois passos e a eternidade para gravar na minha mente aquela cena. O inútil esforço daquele trabalhador da limpeza de um dos condomínios do Pacaembu. Esforço executado diligentemente, inutilmente.

Por um instante, lá estavam Sísifo, sua pedra e sua montanha. No movimento eterno de levá-la ao alto e vê-la rolar abaixo. E tudo recomeçar sem descanso. O trabalhador, sua vassoura e suas folhas.

E, logo à frente, a boca pantagruélica e escura de um bueiro que ele mantinha faminta com seu inútil ato de recolher as folhas que caiam, que caiam, que caiam. Diligentemente.

Um trabalho inútil e necessário. Repetido, repetido, repetido.

Sísifo continua a purgar sua pena pela eternidade sem o perdão da pedra que lhe esmagasse a cabeça quando não mais forças tivesse para sustê-la. Mas ao homem a condenação não é eterna – é tão somente perpétua.

Ao fim, um dia, ao chegar-lhe o cansaço, o bueiro comerá o trabalhador, sua vassoura e suas folhas. Outro assumirá o seu lugar diligente sob a árvore, ao pé da montanha, se equilibrando à beira do bueiro.

A maldição da causa operária. Inútil e essencialmente necessária.

 

Entre pai e filho – ago17

Hoje, não preciso mais falar do meu pai.

Já não faz sentido.

Resta carregá-lo no meu peito todo sentido.

Presente e recôndito.

Tampouco, falar do meu filho tem sentido.

Basta guardar nos meus olhos um menino refletido.

Mas há que ver o pai que há no meu filho convertido

e, entre esses dois homens repartido,

buscar para mim ainda algum sentido.

 

Dia útil – ago17

Abro os olhos na esperança de uma segunda-feira.

A manhã tardia que antecede um nada só marca a curva do Sol.

É o sábado que escorre pela minha janela e vai ferindo a tarde que se ensanguenta no horizonte.

Um prenúncio de morte, na noite inexistente e inútil que virá.

Domingo é dia santo.

Prometê-lo acorrentado – ago17

Amar é lo

não se caber e cabelo,

a tudo que pesa dê-lo

e a cara-a-cara melo.

Do lado de camelo,

me rastelo a um mundo

para lê-lo. Meu casta elo.

Tê-lo e me tê-lo o mar tê-lo.

A todo a pelo o entorno zelo.

E então, basta ao coto vê-lo,

para sê-lo assim tão sim gelo.

 

Associações Indevidas XII – ago17

A
palavra lavra
par lavra
Pá lavra
larva
palavra palarva
parva vá palavra vã o
lava vulva cão vulcão
palavra livre livro livra
parlivre parlivro parlivra
passivo passado possessivo
presente do indicativo
par lá minto parlatório par lamento
lá mente
lá se vai
lá si vá
lá si dāo
Lá Si Dó
Sol

mente
se mente
doce mente
só mente do ente de mente
a dor mente a par rente mente

a palavra mim a palavra Mi
a palavra lava a palavra Ré
leve vala vele – revele.
valha na valha
a palavra folha Fá lha
ex palha a palavra
a palavra escava, a palavra escassa
escrava a palavra escapa
escreve a palavra
caça-palavra casa à palavra
cava a palavra cassa a palavra
a palavra cansa a palavra alcança
a palavra-canção em cada palavra
cata-palavra gata engata a palavra
apalpa a palavra apalavra a palavra
escala a palavra crava a palavra

escalavra a palavra
a palavra lavra
a palavra
A

Não nasci para poeta – ago17

Escrevo a poesia que nasce dos escombros.

Escrevo a poesia que nasce do assombro.

Escrevo a poesia do que resta da palavra

Que escapa pela fresta. Que mina da lavra.

Palavra que não termina a labuta nem a ideia.

Que não me escuta a súplica ou grito do suplício.

Hospício, auspício, astuta, ausculto a palavra

Que não escorre, que não escoa, que não ecoa.

Voa. Foge.

Escrevo a poesia feita da palavra que me guia

Que me acorre, me ocorre, que me socorre.

Que corre nua, crua. Palavra que encrua,

Palavra que se revela, vela por mim, veleja.

Palavra que finge, que vai, que volta, que volteja.

Que me deseja. Que se despe. Que se despeja.

Palavra que não escolho, que me escolhe.

Que me acolhe.

Escrevo a poesia que me é incerta,

Que me é inserta. Que me desperta.

Que me acorda, que me acode, que me sacode.

Que me balança e que me lança. Que me alcança.

Palavra que não me basta,

Que me devassa, que me devasta.

Que me lasca.

Escrevo a poesia que me parte, que me reparte.

Que me guarda, que me resguarda.

A palavra que me aguarda. Que me atormenta,

Que me unguenta, que me agua, que me acua.

Que me acalenta. Que me arrebenta.

Benta palavra.

Escrevo a poesia que me aguenta.

 

A flor e o nojo – jul17

E o que me resta é esse nojo.

As ladeiras de Minas e sua flor.

Um tempo feito de túnel. Um tempo de anões.

Um tempo de maus presságios e maus patrões.

As ladeiras de Minas e sua flor.

Um tempo de gatunos. Um tempo de noites

Sem noturnos.

As ladeiras de Minas e sua flor.

Um tempo que não se presta, um tempo que não se preza.

Um tempo de grosseiras obviedades.

Um tempo de gosma que escorre em sua viscosidade.

As ladeiras de Minas e sua flor.

Um tempo sem roseiras, um tempo sem carmim.

Um tempo pesado. Um tempo de sangue pisado.

Um tempo de rapinas e butins.

As ladeiras de Minas e sua flor.

Um tempo de roubar no peso.

Um tempo de homens que valem menos do que pesam.

Um tempo feito de pouco e do que pouco vale.

Um tempo reto como um muro, um tempo sem detalhes.

Um tempo de muros cinzas e sepulcros caiados.

Um tempo de anjos caídos.

As ladeiras de Minas e sua flor.

Tempo de roxos e coisas escuras como as vestes da minha avó.

Um tempo sem dó.

Um tempo de desencanto, um tempo feito de esquinas.

Um tempo feito de cantos, um tempo mudo. Um tempo de becos e vielas.

As ladeiras de Minas e sua flor.

Um tempo de contrição e violação.

Um tempo de paspalhos e espantalhos, um tempo sem atalhos.

Um tempo de fim em mim.

E o que me resta é esse nojo.

As ladeiras de Minas e sua flor.

 

Ruas de Julho – jul17

Pelas ruas de Julho

Existem dias de lâminas

E noites de mergulho

Tardes feitas de agulhas

Fagulhas cortantes de orvalho

Fina garoa de agasalho

Nas manhãs de névoa escura

Céus carrancudos a procura

De caminhos de poucos amigos

De marquises, calçadas e abrigo

Cães de ruas sob o sol frio

Em calçadas úmidas de vazio

Pelas ruas de Julho, Ipiranga e São João

Cinza chumbo em meu coração

 

Iluminismo da escuridão jul17

Vivemos uma época em que o sal da terra causa hipertensão e a luz do mundo provoca câncer de pele.

Bloqueadores solares, antiansiolíticos e uma tomada de energia para recarregar as baterias de lítio. Oásis e paraísos artificiais.

Dos campos do senhor, as pragas nos alimentam de maldições e nos fartamos com seus gafanhotos. O leite sem lactose, o café sem cafeína e a cerveja sem álcool. A gordura deve ser magra e a alface que não é orgânica tampouco é mineral, sintética ou de origem animal.

A essência das coisas nos é prejudicial.

Certezas da idade da pedra e a era da incerteza da razão. Fé no iluminismo da escuridão. Um Jesus para cada um e ninguém para Cristo. Protestantes a favor e a reforma do retrocesso. Ata o ateu à estaca. Fogo. E os ricos em seus camelos atravessando o buraco da agulha como um trem sob o Canal da Mancha.

O direito ao descanso é inconstitucional. O deus do sétimo dia é passivo trabalhista. O bem-estar da população deprime a saúde das contas públicas. Por contenção de custos, cancelou-se a próxima campanha de vacinação. Não cabem todos no meu país. Não cabemos todos no mundo. E correm por aí muitos refugiados sem refúgio e muitas correntes de apoio e mensagens de ódio.

Não temos mais heróis. Do rebelde sem causa a causa nenhuma. Somos todos arreios sem ninguém para cavalgar-nos a esperança. Mas todos indignados com as últimas notícias. Há um salvador da pátria a cada manhã e um corrupto a cada amanhã. O sonho acabou e você pode até dizer que eu sou um tolo, mas eu não o único.

Mortos a tiros os que buscaram endurecer sem perder a ternura. Jamais. Ternura, não mais. E as privadas de Miami continuam cagando nas praias de Havana. As do Leblon vão bater na Favela da Maré e da Paulista flutua merda no Jardim Pantanal. Cagamos nas cabeças dos cadáveres que boiam no Mediterrâneo.

Ninguém me representa. E tudo que é sólido se desmancha no ar. A verdade é a ilusão em que eu queira acreditar.

Nunca correu tanto o sangue do inimigo e nunca tivemos tanto medo. Judiaria. O condomínio fechado e a comunidade virtual – os cercadinhos VIP da cidadania. A cripta profanada e o arquivo criptografado. Virótico e viral.

A eternidade por quinze minutos – a duração de uma pedra. O tempo do opróbio e o da fama são iguais e passageiros. Tudo mais é cobrador ou motorneiro – efêmero e incerto como a morte anunciada. Nada mais é clássico. Mas tudo é padronizado. Somos individualistas que odeiam a singularidade.

Repercutimos obviedades de internet e não há mais lugar para frases cifradas. O mistério em desencanto. Suzana escura e o celacanto. Nos muros, mais nenhum espanto. Tudo cinza. Lanço mensagens em garrafas no info-mar. Empino minha pipa no ciberespaço. Continuam ridículas todas as cartas de amor.

Nas academias, não mais discutimos poesia ou filosofia, mas nelas nos submetemos a trabalhos análogos à escravidão. Até a exaustão do corpo sarado, mas não exatamente são. Do suor do rosto não há pão. Não há corpo são sem a mente sanada. Narcisismo, evasão de privacidade e obsessão. A sedução saiu de moda. Faço pose para a câmera de segurança. Espelho-me no elevador.

Nunca fomos tão felizes. A cada aniversário uma mensagem no meu telefone celular e muitas fotos sorridentes de pessoas que eu não sei quem são. Amigos imaginários da maioridade. Redes nas janelas para o mundo. O social e o comunitário vagando nas nuvens. Mais das vezes estamos sós. As repostas ao vento ainda estão desconectadas. Mas as dúvidas de uma geração ganham o prêmio Nobel de Literatura.

A solidariedade tornou-se crime, o amor é escandalizado e a loucura é caso de polícia. Os loucos já não podem mais morrer em paz. Insanos tomaram o poder e restaram proibidos os poemas loucos, os poetas poucos e os amores enlouquecidos.

Agora, trepamos com camisinha.

 

Do caos ao pó … de estrelas – abr17

A poesia que surge dos escombros – a justiça poética.

Justiça que não traz em si a poesia não é justiça – é punição.

Punição sempre será a lei do mais forte.

A qual delas você se submete?

A verdade que surge do espanto.

A pós-verdade que surge da impossibilidade da verdade.

Só o espanto é possível, mas aí não é verdade – é revelação.

Epifania. O espanto é a verdade poética.

Verdade que não é poética não é verdadeira verdade.

Delação premiada. Ato falho. Não é oximoro, é imoralidade.

A verdade que não é poética comporta todas mentiras e todos interesses.

É verdade dos poderosos.

A verdade poética só se nutre da ilusão.

Qual verdade lhe engana mais?

Discutir o lugar comum na poesia. E a poesia feita de lugares-comuns.

O lugar comum é de todos. Inescapável. Senso comum. Recurso vulgar.

Lugar que não é comum é propriedade privada ou a solidão original.

No princípio, era o verbo e o verbo por princípio.

Quem conjuga teus verbos no imperativo, na segunda pessoa do singular?

Quanto grito te resta para um poema em rima pobre?

Quanta voz, quanto grito na rima dos pobres?

Deus e o ópio do povo. Deus é o ópio do povo.

E a voz do povo é a voz de Deus.

Mas Deus está morto. Morreu de overdose.

Silêncio obsequioso e ato de contrição.

Quanta voz te resta na garganta?

Quanta poesia resta após a execução sumária? Após a bala perdida?

Uma batalha de morte e vida entre duas ideias antagônicas de organização social:

o caos criativo e a ordem castradora.

Em qual delas você se sente mais seguro?

Pergunta ao teu cinza que o grafite no muro come de dentro para fora.

 

A questão e a rima – abr17

Frente a estes gráficos

que me tapam a boca de pão,

onde encontrar espaço para enfiar um verso

entre a média e a mediana?

Traz da mira do meu fuzil,

como enxergar poesia

nos olhos daquele que tenha à minha frente

ou desviar o olhar para contemplar um céu de anil?

Alerta para a necessidade de eterna vigilância,

como deixar-me distrair com a sonoridade

do jogo das palavras que me encanta,

mas que não faz sentido?

E quando a sobrevivência me cobra em dinheiro,

como encontrar onde vender meia dúzia de rimas pobres?

 

Verso a procura de um poema – mai17

De repente, esse seu gesto inesperado,

algumas flores regadas de ironia,

e tudo que é sólido se desmancha no ar.

Atravessei a soleira do seu quarto

como atravessasse as fronteiras do meu país:

para ser estrangeiro em nossa cama.

Não cultivo falsas memórias,

apenas longos esquecimentos.

PS: por vezes, as musas brincam de esconde-esconde. Como uma menina ou uma amante sensual jogam comigo de mostrar e esconder.

 

O mito da criação – abr17

No princípio era o verso branco

e um deus nu e mudo compunha poemas feitos de astros.

E, então, fez-se o verbo e na boca fez-se a voz.

E da voz fez-se o primeiro insulto que substituiu nos lábios o primeiro beijo.

Que sendo por si só e silente não carecia da palavra para se fazer ouvir.

E ainda do verbo, nas mãos, fez-se a ação.

E da ação a primeira agressão e o primeiro grito de dor.

E da dor primal fez-se o infinito.

E já deus não estava mais nu.

Vestia-se agora em trajes de sangue.

E, para conter o infinito, fez-se a métrica e da métrica fez-se a prisão.

Da prisão fez-se a razão de todo o poder e toda a riqueza.

E o primeiro pedido de perdão.

E do poder fez-se novamente o silêncio e desse silêncio fez-se a verdade.

E olhou deus para sua obra nascida do verbo

e julgou que era justa e bela pela eternidade.

 

Flor de outono – mar17

Então, em março, o outono chegou

trazendo flores para as mãos e branco nos cabelos.

Não trouxe a paz, nem o anúncio do fim da guerra,

mas trouxe flores, ou pelo menos, trouxe uma flor.

O outono ainda não trouxe suas tardes de sombras longas e reflexivas,

tampouco, seu pôr do sol sem pressa de chegar em casa,

mas agora há essa flor. E ainda é março.

E assim, ainda é fim de verão

e as margaridas guardam o sol entre suas pétalas brancas.

A flor é uma primavera em si mesma.

Haverá um inverno e suas formigas?

Quem saberá quando começa ou termina a estação,

nas cordas da minha cigarra?

É março e há essa flor.

Há um outono inteiro e há essa flor.

E há que viver o outono para viver a flor.

E há que viver a flor, porque a flor é preciso.

 

Quatro quadras do homem de bem – Fev17

Ah, essa mentira cômoda que acalanto,

esse meu ódio santo que me faz dormir em paz,

beijo a boca do inimigo necessário e em espanto

quebro espelhos e cristais.

 

Ah, esse calão bendito que me lava a alma,

que grito ao mundo de peito nu,

como um peido que me alivia e acalma:

vai tomar no cu.

 

Ah, esse delírio de poder imaginário,

minha covardia cotidiana que transmuta

impotência e medo em seu contrário

a cada “vaca, filha de puta”.

 

Ah, esse meu reflexo em teus olhos claros.

Teus olhos, onde me enxergo tal e qual,

quero arrancá-los, maldição que me jurou,

para não me ver como sou: abjeto e amoral.

 

 

Caminhando nu – fev17

As tardes têm ficado cada vez mais curtas

E o sol inclinado desce cada vez mais rápido

Mas as noites têm ficado cada vez mais curtas

As manhãs estão cada vez mais longas

E os dias intermináveis

Os caminhos da ida cada vez mais retos

E os da volta se cruzam sem destino certo

O horizonte é incerto, é imprevisto e mutilado

Os lugares se sucedem e as paradas já não importam tanto

As passagens se repetem e se repetem

As paisagens não se distinguem e a lembrança não se recorda delas

O centro do mundo é qualquer lugar ou lugar nenhum

Mas não é onde eu estarei amanhã

 

Ela – jan17

A morte cruzou minha calçada

em um ponto de não desviar,

esperou-me como quem não tem pressa

e então sussurrou:

“tenho algo para te contar”.

A morte cruzou minha esquina

e esquiva, passou-me um recado.

Com seu traço refinado, um aviso em um bilhete.

Um lembrete que me diz: “Desta vez, foi por um triz.

Mas não esqueça: fui eu que não quis”.

A morte cruzou meu caminho

outra vez. Como fez,

vez ou outra.

Quando ocorre de me encontrar,

sorri seus dentes de inveja

e pragueja: “você não perde por esperar”.

Sigo em frente, entre alívio e desesperança,

preso a um pensamento:

a morte fingi-se donzela que nos foi prometida em casamento.

Calculista e bela, faz-se da pudica que espera o seu momento.

 

O dia de amanhã – 31dez16

Amanhã será outro dia.

Soa-me como maldição.

Não quero outro dia,

não quero nenhum amanhã.

Quero o ontem,

quando você estava comigo.

E, então, queria que ontem não fosse um dia,

queria que ontem fosse o único dia.

E assim, que ele fosse eterno, que fosse sempre hoje.

Para não haver um ontem de que lembrar,

nem de que amanhã será outro dia.

Apenas isso: outro dia.

 

Canção para Olga – dez16

Olga é nome de quem nasce

nas margens do Volga.

Fosse do Amazonas, não seria demais.

Olga é nome forte como as sertanejas dos gerais.

Olga é nome de heroína de causas perdidas.

Olga é verbo raro de Portugal.

Eu olgo, tu olgas e ela Olga

Olga é flor de quintal.

Olga não rima com rosa.

Rosolga, em verso concreto

decreto:

Olga rima com flor de maracujá.

Olga exige rima heroica.

 

Canto do desterro – dez16

Frutos da pátria parida

em dores, três cores de pele e anil,

filhos do vosso ventre, Brasil.

Somos feitos da pátria não gentil,

da pátria fratricida,

mãe que nos pariu.

Partidos da pátria,

filho meu,

somos a parte perdida

da pátria partida.

O solo teu,

fi-lo da pátria repartida.

Filho da pátria de partida.

Filho da puta

quem nos partiu a pátria

em patrício e apátrida.

 

E por falar de amor… dez16

Não gosto de falar de amor.

Falo de amor quando não tenho assunto.

No mais, falo de dor.

E cuido de não rimar amor e dor,

pleonasmo vicioso e rima pobre.

Então, falo da dor, que em vida, por fim nos sobre.

E da dor semente, e assim, da dor que docemente,

no fim, nos cobre.

Da dor que enfim há em tudo.

Se não, resta-me falar de amor

para não restar mudo.

 

Correnteza – dez16

A lágrima solitária no instante da queda

do teu rosto, como de uma nuvem

ou de um precipício,

fez nascer um arco íris

refletindo a luz do teu olhar.

E o céu da tarde depois da chuva

vi pintado nos teus olhos úmidos

como em um quadro em preto e branco

e azul, como em uma tela,

a dor, às vezes, tem dessas coisas belas,

que teus cabelos encharcados emolduravam.

Uma cascata de cachos.

Fio a fio, gota a gota,

uma cachoeira, a sua maneira.

E teus lábios, como uma rosa pálida

sob a tempestade, em silêncio,

me chamaram como me chama o mar

a me afogar.

 

Entre a estrela e a serpente – DEZ16

para Aldir Blanc e Zé Ramalho da Paraíba

Há um brilho de faca

Onde o amor houver

E ninguém traça o mapa

Da vida que se quer

Ninguém sai com o coração sem sangrar

De um louco amor ardente

Esse ser maravilhoso

Entre a estrela e a serpente

Um grande amor do passado

Se transforma em recordação

E cada um do seu lado

Constrói a mesma paixão

Não existe lembrança mais presente

Que um segredo bem guardado

Entre silêncios e sussurros

Em algum lugar do passado

Tocando a vida em frente

Fingimos não sofrer

Mas o peito dormente

Ainda guarda o bem-querer

E eu sei que não será surpresa

Se o futuro nos trouxer

O passado de volta

De um homem e uma mulher

 

Letra reescrita da obra de Aldir Blanc “Entre a serpente e a estrela”

Composição original: “Amarillo by morning” de Paul Fraser / Terry Stafford

 

Como desenhos nas nuvens – dez16

Você se lembra daquelas tardes de varanda

em que olhávamos desenhos nas nuvens?

Você sempre tão linda e eu tão enamorado

que misturava aos cachos de nuvens

os cachos dos seus cabelos.

Você se lembra das nuvens?

Esqueço pedaços inteiros da minha vida.

Então, me recorde:

naquelas tardes de varanda,

em que olhávamos desenhos nas nuvens,

eu lhe disse o quanto lhe amo?

Esqueço pedaços inteiros da minha vida.

E quando tento lembrá-los,

só me veem à mente

aquelas tardes de varanda

em que olhávamos desenhos nas nuvens.

Falsas notícias sobre a morte do poeta

04 de dezembro de 2016 – Ao poeta Ferreira Gullar

Então chegam notícias de que o velho comunista está morto?

Nos últimos dias, vários comunistas se foram. Pensei mesmo se tratar de uma epidemia desconhecida que varre os ares da América Latina. De Valparaiso a Havana passando por Macondo e São Luís do Maranhão. Mas este comunista em questão morreu assassinado.

Em verdade, já estava morto há alguns anos.

Matou-o aquele que lhe era mais íntimo. Aquele com quem dividia paixões. Mas não matou-o por amores ou por ódios. Matou-o porque o velho comunista se tornara incômodo, renegado.

Crime político? Não, eutanásia.

Conquanto, pelos obituários, nos chegue que o poeta estaria morto.

Teria morrido de morte natural. Morte incomum para um poeta. Por cantos gerais, quando as balas não lhes alcançam o peito ou a corda se entrelaça em seus pescoços, simplesmente abrem o gás.

Mentem os jornais. E enganam-se os poetas. Os poetas suicidas e aqueles que tão somente se deixam morrer de velhos. Poetas não morrem.

Por certo que seu cadáver concreto como vil metal não tem a liberdade poética de negar o que acaba de afirmar. Mas não desce ao túmulo com seus poemas sujos. Tampouco em sua rigidez de métrica decassílaba se encerram suas lutas corporais.

Os poetas não morrem. Não lhes é dada tal remissão de pecados versejados em rimas ou livres, brancos como escravos libertos. Seus versos vagam dentro da noite veloz a assombrar corações desabrigados e a amaldiçoá-los com seus mistérios

Um beijo desconhecido – out16

Quero você em um encontro sem hora marcada

Como a paixão ou a morte – não anunciada

Sem razão e sem norte

Só acaso e sorte

Só sua boca sugando meu ar

Azar

Um beijo desconhecido

Todo sexto sentido

Inexato e preciso

Só querer sem querer ou motivo

Certo e subjetivo

Só o incerto a nos guiar

para o mesmo lugar

Oficial de Plantão – set16

Meu nome é Sérgio Saraiva, não tenho outro de pia. Professor por profissão. Mas como há outros Sergios Saraivas por estas sesmarias, e professores em profusão, permitam que me apresente, para evitar confusão. Começo pelas negativas, como forma de distinção. Não sou o Sérgio Saraiva diretor de petroleira e palestrante aclamado, não sou o Sérgio Saraiva escritor premiado. Não sou o Sérgio Saraiva fotógrafo de mulheres lindas e peladas, não sou o sanfoneiro da cantora afamada. Gostaria, mas não sou. Eles também são Sérgio Saraiva e julgo que têm raiva de mim. Homônimo, às vezes, é castigo, enfim. Não sou o Sérgio Saraiva professor que os alunos chamavam de Pantera. Não sou o Sérgio Saraiva meu filho professor que leciona em outras terras. Mas sou responsável por tudo o que cativo com versos e substantivos, daí esta explicação. Sou o Sérgio Saraiva operário do conhecimento, servo da ironia e amante da provocação. Mas não busco causar aborrecimento, apenas reflexão. Ouso pensar porque ouso pensar que ouso pensar. Narciso do avesso, vejo feio no que me é espelho, naquilo a que me assemelho. Elogio em boca própria é vitupério, mas autocrítica não é palavrão. Se você não concordar, não lhe tiro a razão. Mas não posso me desculpar, sou aluno de poeta, aprendi a dizer não.

Um ano que se embaralha de canalha a canalha – set16

De um setembro traidor a um agosto canalha,
um ano só de migalha.
No qual um coração valente em descompasso se atrapalha
na crença de que a justiça que hoje tarda, tarda, mas não falha.
A esperança e o fio da navalha,
na tarde cinza, minha criança grisalha.
A ilusão ensandecida dançando envolta em sua mortalha
é a amada enlouquecida que em seus braços me agasalha.
Na névoa descida sobre o campo de batalha,
vultos buscam o caminho de um futuro que lhes valha.
Um futuro que por ora se fechou em sua crisálida.
Tramando um setembro partido em um agosto que se cisalha,
um ano que se embaralha em um fio que se contorce
de canalha a canalha.

Ando por caminhos ensimesmados – ago16

Ando por caminhos ensimesmados em tempos de lamber feridas,

em tempos de velhas enlutadas e velhas lutas não vencidas.

Ando por caminhos ensimesmados ladeado por amaldiçoados e anjos caídos.

Ando por caminhos ensimesmados em tempos de tramas e urdidos.

Ando por caminhos ensimesmados em tempos de traidores travestidos.

Ando por caminhos ensimesmados em tempos de lamentar o que não é,

não é, mas poderia ter sido. Ando em silêncio por caminhos ensimesmados

em tempos de mudança das estações,

em tempos da colheita dos limões.

Ando por caminhos ensimesmados em tempos de nuvens escuras

de homens escuros, de sentimentos nublados.

Ando por caminhos ensimesmados em tempos de horizontes estreitos,

esperanças incertas, fortunas obscuras e futuros furtados.

Ando por caminhos ensimesmados em tempos de certezas partidas,

dúvidas renovadas, casas divididas, novas e antigas dívidas.

Ando por caminhos ensimesmados por terras desconhecidas

em tempos de tardes perdidas.

Em tempos de perguntas não feitas

e respostas não recebidas, cartas não enviadas

e paixões não correspondidas.

Ando por caminhos ensimesmados como se andasse triste.

Em verdade, ando por caminhos ensimesmados

com os passos de quem insiste

na procura de um sonho que, por sonhador, sonho que ainda existe.

Linhas de fuga jul16

Para interromper um pensamento basta abrir olhos.
Para interromper um sonho basta abrir os olhos.
Para interromper uma visão basta abrir os olhos.

Nenhuma canção é possível com os olhos abertos.

Meus olhos são meu capataz, veraz e cruel.
Minha condenação à realidade.
Meus olhos grilhões são os dois elos da minha prisão.

Com a qual me conformo em cada lágrima,
em cada pedaço de pão.

Da qual fujo em asas de pássaros, em cada pétala de flor.
Da qual fujo pelo túnel dos seus olhos.

Como um presente para uma menina – 01jul16

E aí acontece de eu não ter nada nas mãos,
no bolso nenhum tostão,
no peito, versos confusos sem tradução.
No não jardim, nenhuma flor para um mau ladrão.
E aí acontece você,
e eu queria ter algo mágico pra te dar.
Algo pra te encantar, enamorar o teu olhar.
Sem nada nas mãos e com bolsos rotos,
os versos revoltos, sem flor no jardim,
o que será de mim, se você não me notar?

Ousadia  – jun16

Ouso pensar que ouso pensar porque ouso pensar.

Ouso pensar porque ouso pensar que ouso pensar.

Ouso pensar porque ouso pensar que tenho poder

para tanto.Portanto, ouso pensar por tanto ousar.

Logo, existo por ousar pensar que ouso pensar.

Azar, viver é ousar pensar que se vive,

penso eu.

Em frente ao verso – jun16

Todo verso é o depois
da folha em branco.
Todo verso branco e toda rima
é revés. Todo verso é dorso.
Todo verso é cisma.
É consonância do pressentido.
Do que é sujeito ao oculto,
do que é incerto e insabido.
Tudo que traço é risco.
É consoante com o senso impreciso.
Todo sentido.
Tudo que entrelaço está entrelinhas.
Entre duas linhas, o tempo e o espaço.
Um universo escuro, uma porta e um muro.
Toda palavra é butim de batalha.
Todo poema é também mortalha.
Cada frase é coberta de sangue.
Tudo que é verbo é sudário.
Cada oração, um sacrilégio.
Toda dúvida é fonte.
Cada vírgula, uma ponte.
A cada ponto, algo me escapa.
Todo verso é fronte.
E minha cara dada a tapa.

O insentido das coisas – jun16

Tudo que se assina é uma mentira,
o meu nome numa lápide
atestando uma realidade fugitiva.
Tudo que se assassina
é uma verdade incômoda,
é um encontro marcado,
com um segredo revelado.
Todo teorema anunciado
no enunciado do problema.
Sem solução, tudo que é feito
já está inacabado.
Tudo que me mata,
uma necessidade intestina
que em vida me destina
a olhar-me nos olhos
do verme que me aguarda.
Tudo que me fortalece é morte… adiada.
Tudo que me impede é uma vontade,
uma placa de contramão,
o sentido anti-horário do turbilhão.
Tudo que me impele é desejo,
um beijo úmido e vital,
uma fissura no meu túmulo imortal.
Todo patrimônio é dúvida.
Tudo que me afirma, indecisão.
Tudo que me satisfaz é ilusão.

O cão e o sonho – mai16

O cão necessita de pão.

Pão como símbolo

do que vai pela boca do cão.

O homem necessita de pão.

Mas, mais necessita do que o cão,

o homem necessita de sonho e de pão.

O cão, não.

Ao cão basta o pão.

Ao homem, não.

O céu ao homem, o chão ao cão.

De sua parte, o homem

necessita em igual parte

de pão e sonho, de sonho e pão.

E não se estranhe que, não

podendo ter a ambos

à um só momento,

o sonho como alimento

vão,

do pão abra mão.

Por que não?

Vida sem sonho,

não é vida de homem,

é vida de cão.

O leito de morte do prudente – mai16

Teu palmo e meio de terra,

teu quadrilátero de tijolo,

teu pão sovina,

teu viver aos poucos.

Tua guia e tua ordem,

teu bocado comedido,

teu apetite contido.

Teu prazer miúdo,

consentido e não roubado,

não tomado de ninguém.

Teu salário e teu vintém.

Teu amém.

Teu olhar mesquinho,

teu guardado e teu resguardo,

teu temor do amanhã.

Teu orgulho de medíocre,

teu cuspir nos descaídos.

Teu desejo recôndito,

tua maldição nunca rogada.

Deixarás para teu filho

como forma de consolo,

já que não lhe deixas ouro?

Teu amar a crediário.

Os teus sonhos?

Roupas velhas no armário.

Teu querer nunca pleno,

teu café pequeno.

De que te valeu tanto cuidado?

Grita, então, teu “filho-da-puta” sufocado.

Teu tempo de pecado está perdido,

vá para o inferno

como um homem abençoado.

O menino triste e sua mãe – mai16

A mãe do menino triste

nunca deveria estar triste.

A mãe triste do menino triste

entristece o menino triste

e a tristeza persiste

hereditária.

A mãe do menino triste

não deveria trazer nos olhos

o triste estampado,

deixar nos olhos do menino triste

um olhar abandonado.

A mãe do menino triste não deveria

ter nos lábios a tristeza emoldurada.

Beijo de mãe triste não é beijo

é lágrima beijada,

é menino deixado na calçada

aguardando a chegada

de quem lhe abra a porta trancada.

Namorada.

Presságio – mai16

A insensatez ainda me protege,

mas já se dá por certo

que a razão irá raiar

com a sua escuridão.

O sonho ainda me protege,

mas o pesadelo já me assusta

que a realidade irá raiar

com a sua escuridão.

O passado ainda me protege,

mas o presente já me avisa

que o futuro irá raiar,

traz com ele a escuridão.

A noite ainda me protege,

mas a lua já me alerta

que o dia irá raiar

e, com o sol, a escuridão.

O caminho ainda me protege,

mas o errante que me guia

já pressente que o precipício principia

dentro dele a escuridão.

A esperança já é última,

e a agonia anuncia

que a luz que era prenha

já pariu a escuridão.

O tão perto ficou longe,

o quem sabe será nunca,

o talvez já é certeza

de que o sim agora é não.

A memória e o epitáfio – abr16

O corpo do herói e o do traidor aos vermes pertencem

Seres operosos que roem os ossos dos poderosos.

O corpo do homem comum aos vermes pertence.

O corpo do mártir e do algoz aos vermes pertencem.

Mas não se vão por inteiro ao término do dia do coveiro.

Suas lembranças ficam como herança em aberto.

Pertencem, contudo, a herdeiro incerto.

Umas duram o tempo breve do que é próximo.

Findam com ele.

Ao esquecimento pertencem.

Outras duram como relíquia de família, como parte da mobília.

Orgulhos e maldições purgados por gerações.

Pertencem às tradições.

E há as que constroem nações e as noções da humanidade.

Essas pertencem à eternidade.

Resta, porém, um último bem incomum.

Pessoal e intransferível, a memória pertence a cada um.

A única verdade inescapável e iniludível.

Feita dos valores e das ações apaixonadas,

sabidas e não reveladas, feita dos feitos e dos nadas.

O epitáfio interior do herói e do traidor,

do mártir e do algoz, do poderoso e de cada um de nós,

a ser escrito a sós no átimo do corte entre a vida e a morte.

Um nada a temer – abr16

Nada de temer o traidor.

A traição e o calvário

e o Judas necessário.

A traição é natural,

tanto quanto a podridão.

A podridão não é estranha,

é das entranhas do que já é morto.

Nada a temer.

A podridão

é, por vezes, a emissária

fétida da boa nova.

A traição intermediária

entre o começo e o recomeço.

O podre eu reconheço,

não me contamina e não o esqueço.

Nada a temer.

Nada de temer o sujo,

a sujeira há no mundo.

Nada de temer o que é imundo,

enquanto os sentimentos se mantiverem sãos.

Nossas duas mãos e os sentimentos do mundo.

Nada de temer o homem paradoxal,

o homem sem a luz e sem o sal,

o amoral sem nada o que valha,

o que se situa entre o idiota e o canalha.

Que não tendo a grandeza trágica para ser qualquer,

dos dois inteiramente, um sequer,

acaba por sê-los, ambos, na sua totalidade.

O homem paradoxal e sua completa nulidade.

É nada em tudo. Em tudo é um nada.

Um nada a temer.

Paixões vermelhas – abr16

Que vermelho é esse nos teus olhos?

Reflexos de paixões inflamadas,

revérbero de fogueiras apaixonadas.

Tua mentira assim revelada,

teu juramento traído,

teu engodo, teu erro e teu engano em vermelho incendido.

Tua verdade incendiada.

Paixões escarlates ou febril de escarlatina?

Prosa púrpura e purpurina.

Que vermelho é esse nos teus olhos?

Ódio rubro ensandecido,

ódio de fraternos divididos,

ou rútilo de rubi dos amores incontidos?

Que vermelho é esse nos teus olhos?

Herança de lágrimas,

ou lembranças umedecidas,

amanhecidas tingidas de carmim?

Que vermelho é esse em teu rosto?

O vermelho da vergonha

ou o vermelho do gozo desavergonhado,

do gozo encarnado?

Que vermelho é esse em tua boca?

O salgado vermelho da agressão,

ou sal vermelho dos beijos tresloucados?

O batom borrado de lábios delirantes

ou o tinto em brasas de lábios dilacerados,

como uma rosa vermelha,

lábios despetalados?

O vermelho já não está nas tuas mãos?

Já não basta o sangue derramado?

Que vermelho é esse em teu peito?

O vermelho do teu coração pulsante,

ou o vermelho do teu coração clivado?

Que vermelho é esse em tuas palavras?

O vermelho da luta ou o vermelho da guerra,

o vermelho da lâmina ou o vermelho da terra?

Que vermelho é esse em tuas ruas?

Que vermelho é esse entre tuas pernas nuas?

O vermelho de tua Pátria desvirginada.

O vermelho de tua irmandade violentada.

O vermelho em tua bandeira,

verde-amarela ensanguentada?

O vermelho dos sacrifícios,

ou o vermelho dos fogos de artifício?

Tua escolha avermelhada.

Saudação ao idiota – mar16

Saudemos os idiotas.

Saudemos a ascensão do idiota

à condição de mestre do mundo.

Saudemos entre nós sua chegada,

após uma sempre presença ignorada.

Bem-vindos sejam à nossa morada.

Saudemos os idiotas.

O futuro não lhes pertence,

mas eles festejam pelas ruas

o passado de maldição.

Seu herói é seu algoz,

sua liberdade, obediência,

sua recompensa, servidão.

Mas eles lhe dão vivas

e salvas de canhão.

Saudemos os idiotas.

Eles não têm a luz,

pois festejam a escuridão.

Aguardam o raiar do sol

nascido da bolsa do mal ladrão.

Saudemos os idiotas,

felizes eles são,

na ignorância como benção,

louvam sua perdição.

Saudemos o idiota,

sua voz se ouve ao largo,

suas patrióticas canções,

suas rimas de toleirões

e seus versos de parvo.

Saudemos os idiotas,

eles festejam a diferença

sendo todos tão iguais.

Idiotas todos são,

mas não se saberão jamais.

Festejam-se como doutos,

como tolos, sonham-se

artífices da história.

Acordarão em glória,

herdeiros da vitória,

derrotados por si próprios,

enganados por si mesmos,

néscios e boçais.

Mas felizes, todavia,

felizes como tais.

Saudemos os idiotas.

Receberão como paga sua praga.

Mas não desejavam mais.

Passos em silêncio e prontidão – mar16

Ando por estas ruas carregando um segredo.
Velhas ruas de desespero.
Um crime mal resolvido,
um delito escondido,
uma condenação e um degredo.
Uma causa perdida, uma luta vencida
uma guerra sem fim.
Ando por estas ruas refugiado em mim.
Ando por estas ruas
com um olhar estrangeiro.
Velhas ruas de desespero.
Ando por estas ruas como um bandido.
Em cada esquina uma patrulha,
uma fagulha de ódio e uma gota de medo.
Em cada olhar cúmplice,
mais um banido,
mais um sonho traído,
mais um forasteiro.
Ando por essas ruas como um guerreiro.
Velhas ruas de desespero.
Minha lâmina no bolso
aguarda o momento certeiro.
No rosto do meu irmão
os olhos do embusteiro,
o acusador sem perdão,
o caluniador sorrateiro.
No companheiro ontem,
o Judas traiçoeiro.
Ando por estas ruas
como andasse pelas terras do desterro,
pelos tempos do fim do mundo.
Velhas ruas de desespero.
Ruas de desencontro,
buscando um amor derradeiro.

Oração de marquise, cimento e asfalto – fev16

Anjo de rua,

pela noite crua e

pelo dia de castigo,

pela vida em perigo,

pelo pouco pão e pelo pouco trigo,

pelo pouco abrigo e

pelo muito amigo,

eu te mendigo,

eu te bendigo

por estar comigo.

Lanternas cegas – fev16

Olhando te,

busquei-me em teus olhos.

Meu rosto

eles não refletem mais.

Surpreso, não me vejo

em teus portais.

Em ti, velejo

navegando entre brumais.

Ademais,

uma explicação ao menos,

um esquecimento de menos,

não encontrei jamais.

Teus olhos,

um espelho castanho.

No teu mundo,

um estranho a mais.

João e Maria – fev16

Paixão e traição,

verso vulgar,

rima pobre,

pleonasmo vicioso.

Oximoro.

Amantes e serpentes.

Cada sorriso, entrementes,

entre dentes,

ódio eterno.

Em cada jura, uma mentira.

Em cada afeto, um suicídio.

Cada eterno, um só momento.

Cada juramento, condenação.

Trair é libertar.

Solidão,

pena de amar.

Rima de mina – jan 16

Poetisa.

Chamar uma mulher de poeta soa-me como chamá-la de soldado Silva.

Por mais que seja correto, é coisa de homem.

Poeta é coisa de quem nasceu para ser gauche na vida.

Poetisa.

A linguagem sibilina

contida no som das suas rimas.

Sacerdotisa, profetisa, pitonisa.

Sortilégio.

Versos de mulher

Oculto e secreto, sedução e encantamento.

Poetisa.

Uma mulher que verseja não há que ser mundana como um poeta.

O poeta é cavalo de musa.

Musa é mulher.

Logo, uma mulher que verseja é em si um pleonasmo poético.

Poetisa.

O verso encarnado.

Centro Velho – 25jan16

Caminho pelo centro da cidade

entre mendigos e fantasmas,

passado e insanidade,

drogados e saudade.

Antigos poderes, santos e barões.

Rio Branco, Ipiranga e São João.

São Bento e Santa Efigênia.

Rogai por nós, Consolação.

Decadência, abandono e solidão.

Ocupação.

Paissandu e rock’n’roll.

Favelifícios.

Chá com ratos e rabiscos.

No grafite, o céu azul.

Anhangabaú.

Estou em casa.

Ode à tolerância – jan16

Respeita o meu tão só querer,
meu querer quem eu quero,
meu ser e paixão.
Não os quero porque quero,
servo do o meu coração.

Às vezes, concorda a razão,
às vezes, é um só querer,
às vezes, é como um dever,
às vezes, é total devoção.

Respeita as minhas bandeiras e cores,
por elas não fiz opção.
Elas buscaram por mim.
Mas não quero ser outro,
e não posso ser outro, enfim.

Do malquerer, inúteis conselhos.
Distorcendo o que se crê e se vê.
A alma é um quarto de espelhos.
Quantas vezes, em secreto assim,
me olho e vejo você,
e você se sabe em mim?

Só quero ser e querer.
Singular e qualquer.
Seja quem queira você,
seja você quem queira e é.

Não nos amamos, por certo.
Díspares em um mundo ruim.
Mas do incerto do futuro,
quem sabe, de você e de mim?
Viajamos um túnel escuro,
busquemos a luz do seu fim.

A quem culpar? – jan16

A quem devo culpar

por não ter amado

o todo que podia amar,

o tudo que devia amar

e que a quem,

por estar com você,

eu não amei?

A quem devo culpar

pelo morno e pelo normal,

pela não lágrima e pelo não grito,

pela porta não batida

e pelas não lembranças

dos amores não desfeitos

e, ainda assim,

desesperados?

A quem devo culpar por restar

ser quem sou

e não ser quem não sou?

Pela não música,

pela não noite e

pela não dor,

a quem devo culpar?

A quem devo culpar

por não ter

do que me arrepender?

Castelo de uma carta só – jan16

Construí, ao longo da vida, um castelo de pessoas,

como quem construía um castelo de cartas.

Poucas, cinquenta e duas, se tanto.

Cada uma com sua efígie, cada uma com seu valor.

Montadas em um arranjo instável

como são os castelos de cartas.

Marcadas

cada uma com sua efígie, cada uma com seu valor.

Jamais joguei com elas, pensava eu.

O jogo era minha própria construção.

Elas jogavam comigo.

Cada uma com sua efígie, cada uma com seu valor.

Delas, quantas ainda tenho nas mãos?

Delas, quantas guardo nas mangas?

Quantas eu descartei, quantas me descartaram?

O jogo, acabou?

Ainda não.

O castelo se concluiu?

Jamais?

Ruiu?

Tampouco.

Apenas, as cartas têm vidas próprias,

cada uma com sua efígie, cada uma com seu valor.

De dois a dez,

ás, valete e dama.

Rei de mim mesmo e só,

eu sou carta

também.

Papai Noel Coxinha – dez15

Apareceu na Oficina

um tipo estranho e barbudo,

grisalho,

branco e barrigudo,

tinha cara de burguês.

Vejam vocês:

de saco e cheio e protestando.

“Fora Dilma!”, foi gritando.

Já foi posto para correr.

Tinha vindo da Paulista.

Mas na Oficina se ministra

que Papai Noel é marxista

e simpatizante do PT.

A moça da tarde paulistana  – 13dez2015

Algumas ideias ficam, moça.

Algumas ideias são moças

E essas ficam, fixam-se.

Alguns sonhos ficam, moça.

Alguns sonhos são moços.

E esses ficam, fixam-se.

Alguns amores ficam, moça.

Alguns amores são moços.

E esses ficam, fixam-se.

Em vão nossas unhas vãs

vilãs

tentam raspá-los dos corações.

Mas alguns corações são valentes, moça.

E esses ficam, fixam-se.

E esses resistem aos riscos.

Não desistem.

Algumas moças ainda existem, moça.

E essas insistem.

Perfume de mulher – nov15

Doce como dama da noite,

como lírio do brejo,

teu cheiro de banhado

assanha meus sentidos

vespertinos.

Mas como Vênus

na casa do sol do matutino,

alvorada noturna e insônia do mundo,

teu cheiro de feitiço e de desdém

desperta a todos e é de ninguém.

Doce como dama da noite,

como lírio do brejo,

teu cheiro de banhado,

quando você passa,

devassa,

devaneio,

teu beijo é meu

desejo.

Sonho-o

só para mim.

Só sonho, enfim.

Deixa assim,

só perfume de jasmim.

Sextas-feiras de trevas – 13nov15

Há momentos em que as palavras são inúteis,

ainda que o silêncio seja desrespeitoso.

Há momentos em que buscar qualquer lógica é ofensivo,

em que qualquer raciocínio é um ato de insensibilidade.

Há momentos que clamam por ação imediata,

mas os braços pendem e a cabeça curva

impotentes.

Há momentos em que a dor nada ensina

e a derrota é só derrota.

Há momentos em que a vergonha de ser humano

é o único refúgio para a dignidade.

O que dizer a vocês que são mortos tão jovens?

PS: dedicado à todas as crianças das praias da Turquia, dos becos do Alemão, dos vales de Mariana e das praças de Paris.

Quando a razão se torna irracional, meu coração se esconde na Oficina de Concertos Gerais e Poesia.

Despedida – nov15

Não mais caminharemos juntos

como caminhamos até aqui.

Cada um no seu passo,

cada um no seu traço,

rumo ao mesmo lugar.

Lugar comum?

O seu lugar, o meu lugar,

lugar nenhum.

Cada um na sua hora,

os dois no mesmo momento.

Um lamento?

O depois será de tristeza?

Solidão?

O triste é sempre agora,

o desapegar das mãos.

O depois será depois.

Seremos, então, um?

Continuaremos sendo dois.

Uma história de um amor ordinário – out15

A poesia entrou na minha vida, eu não a sabia, quando ainda menino.

“Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou. E a menina que gostava tanto do bichinho, chorou, chorou, chorou, chorou”.

Quanta tristeza.

Mas nosso vizinho tinha muitos passarinhos engaiolados e eu não ficava triste quando eles fugiam, ficava alegre. Havia qualquer coisa na forma como aquela cena comum era descrita que me emocionava. Eu não sabia que o sabiá sabia assobiar.

A poesia voltou na escola.

Nos versos de Tomás Antônio Gonzaga e seus shakespearianos versos para Marílias e Dirceus, I-Juca Pirama, Gonçalves Dias, se se morre de amor. Não, não se morre de amor. Morre se da tuberculose escarrada em nossas bocas pelas bocas que beijamos. Cassimiro de Abreu contado por Augusto dos Anjos.

Segunda geração romântica – mal do século. Depois de ti, só Cazuza e Renato Russo.

Arcadistas, simbolistas e parnasianos.

“Ora, direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, que, para ouvi-las, muitas vezes, desperto e abro as janelas, pálido de espanto”.

Que alívio em saber que minha insônia e essas vozes não são coisas de louco. Pelo menos, não de um só louco só.

Depois vieram Cecilia Meireles e Vinícius de Moraes. Como românticos, uns cantando a pátria, outros o amor. Em uma época da minha vida em que era sempre prudente ter à mão um ou dois sonetos de Vinícius. A oportunidade é uma deusa que se agarra pelos cabelos.

Hoje, quando passa por mim um carro gritando por seus mil alto-falantes algo como: “vem cachorra, rebolar na minha rola”, esboço um sorriso sarcástico e recito: “oh, minha amada, que olhos os teus. São cais noturnos cheios de adeus”. Funk proibidão é coisa de punheteiro com a cara cheia de cerveja. Para não ir sozinho para cama, um homem tem que ter feito a lição de casa e estudado Vinícius. Os da minha geração, por certo.

Aprendi com Vinícius que não pode ser condenado por roubar versos, trata-se de furto famélico.

Mas Cecilia e Vinícius, Gonzaga e Bilac tinham uma coisa que os unia, seus versos me emocionam, mentia-os para minhas amadas, mas não eram os versos que eu faria.

Foi quando fui atropelado por dois caminhões: Pablo Neruda e Carlos Drummond de Andrade. Não que eu não soubesse dos tais versos brancos, era que, até então, não havia entendido seu significado: poemas feitos de todas as palavras, sobretudo os barbarismos universais, de todas as construções, sobretudo as sintaxes de exceção.

Sim, era isso que eu escreveria, se pudesse.

Então vieram Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima.

Se o que eles faziam era fazer poesia, estava acima das minhas forças. Eu deveria estudar a língua portuguesa por mil anos e tornar-me um fingidor como Pessoa e ser culto e formal como um diplomata se quisesse Cabral. Jorge de Lima e seus sortilégios construídos em forma de versos são coisas para ocultistas. Para os iniciados no oculto das palavras.

Tornei-me inseguro e assustadiço. Desisti de cometer versos. Não ofenderia os deuses. Não me condenaria ao opróbio público.

Já ia pelo estudo das primeiras fórmulas de um livro de termodinâmica quando eles apareceram – os preceptores. Sim, eles existem, tanto quanto as musas existem. E as bruxas, também.

O primeiro que chegou se a mim era um senhor extremamente magro, de cabelos todos brancos e grandes óculos. Apresentou-se: Ferreira Gullar. E passou-me um longo poema escrito de um só fôlego, “O poema sujo”.

– Dá uma lida nisso, garoto.

O título já era um verso. Rima rica, rima heroica, na circunstância em que foi escrito.

Não podia acreditar:

– Isso é o “Canto Geral”!

– É e também não é. É, se esse sentimento for despertado em você. São dois homens diferentes cantando suas mesmas épocas e seus mesmos lugares. Disse-me ele.

– Mas suas palavras são tão simples, comuns. Suas imagens tão cotidianas. São belíssimas e eu não havia ainda percebido sua beleza, apesar de já tê-las visto no meu dia-a-dia tantas vezes. Teu lindo simples é simples e é lindo, mas não é fácil. Conclui.

– Pois é. O simples é simples e você ainda o quer fácil? Então, vou te apresentar outra pessoa.

E trouxe- me uma senhora que parecia se com a minha avó. Ela era branca, minha avó era índia, mas todas as avós se parecem. Chamava-se Cora Coralina, já um verso aliterado no nome. Falou-me dos becos de Goiás e de outras histórias mais.

– Seus versos são saborosos, parecem ter sido feitos na cozinha, em fogão de lenha. Disse-lhe.

– Por que o espanto, menino? Poesia é para quem sabe cozinhar, para quem tem mão para o tempero e para o ponto dos versos, sem deixar desandá-lo.

Claro, por quantas vezes o caldo do feijão não teve, em minha boca, o gosto de poção? Como não havia pensado nisso? Em tal feitiço?

– O que você sabe de forno e fogão?

– Sei o trivial simples, frito um ovo sem me queimar… na maioria das vezes. Respondi.

– Já é o suficiente, para começar. O demais, você aprende fazendo e prestando atenção no que os outros fazem. Incentivou-me, como uma avó não deixaria de fazer.

– Mas, para você não achar que cozinha e coisa de mulher, vou te apresentar um gaúcho da simplicidade dos churrascos de fogo de chão.

E assim, conheci Mario Quintana. Li suas reticências e ele me contaminou com essa mania de dar nome aos poemas. Seus poemas curtos, de meia dúzia de versos. Construídos como alguém, que vendo uma folha voando ao vento, pelas ruas de Porto Alegre, decidisse descreve o efêmero balé da folha e do ar. Um inusitado pas de deux contemplado por olhos distraídos.

Ensinou-me da mesma forma econômica:

– Quem faz um poema abre uma janela. Por ela, teus versos passarão, se tu passarinho.

Estava eu pensando se o homem usara uma conjunção condicional ou o verbo ser na segunda pessoa do imperativo afirmativo, quando um senhor com ar de diretor de colégio público cortou meus pensamentos:

– Não racionalize, jovem, apenas sinta a frase como uma oração. Manuel Bandeira, ao seu dispor.

– O senhor usou de duplo sentido?

– Não resisti ao trocadilho, riu o mestre.

– Meu jovem, existe o pensar e o sentir. E existe o guardar consigo e o dizê-lo aos outros. A decisão de fazer um ou outro vai da tua ânsia ao teu egoísmo. Para dizer o que você pensa, há a prosa e suas orações principais, coordenadas e as suas subordinadas, como em um organograma. Para dizer o que se sente, há a poesia e sua anarquia. Para essa:

– apenas faça versos como quem morre.

Das dos nomes e das cores do Brasil – set15

Qual o tamanho do ventre da mãe gentil?

Qual é a sua cor?

Homens brancos, mulheres negras,

mulheres brancas, mulheres índias.

Força e compadrio.

Toda Iracema é Maria Rita de Jesus.

Nomes de mulheres:

Gisele e Pinah, Olga e Erundina.

Todas Sônia Braga, todas Rose di Primo.

Todas Amanda, todas amadas.

Todas Ângela, todas anjos.

Zezé, Zuzu e Pagú.

Nomes de cores:

verde, amarelo, azul e branco,

preto e vermelho.

Nada é cinza e nada é pardo.

Só os gatos noturnos o são.

Tudo é mulato, na ironia trágica do termo.

Marrom é a cor da Terra. Tudo é terno.

Tudo ébano e argênteo. Tudo é cúpreo e dourado.

Nomes de famílias:

Orléans e Bragança, Bourbon.

Guimarães apaixonados,

Brizola e Ribeiro, Inácio de Paiva,

Herzog, Lamarca e Marighella.

Matarazzo e Watanabe.

Klein, Lee e Stuart.

Nassif, Jatene e Maluf.

Romério, poetas vários.

De Moraes e de Andrade.

Saraiva conselheiro,

leões e perdidos no mundo.

Brasileiro não é gentílico, é profissão.

Somos todos cozinheiros do cadinho do demônio.

Somos todos Silva, somos todos Santos.

Santos como a mãe, como as mães de santo.

Associações Indevidas XI

Set15

doído

doido

dos idos

tempos passados

doa a quem doer

doar

aéreo aerado

arado arejado

calejado

trabalho atrapalhado

trapalhão

sonso sonado

sedado

sem dor

doído

Amor de faca.

Ago15

Ah, minha Charlotte morena de sorriso afiado,

como eu queria que você me amasse

com seu amor de faca.

Que você abrisse meu peito

com a sua juventude posta a risco,

a risco de faca.

Com a sua certeza, vingativa e cortante

como as facas, a ironia e as amantes.

PS: dedicado a Manu Thomaziello.

Do que morre minha geração?

ago15

Do que morre a minha geração?

Não morremos na guerra, não morremos na prisão.

Morremos do prazer pequeno e da sua ilusão.

Quando meninos, morríamos de desaceleração

contra o poste, dentro do túnel, na contramão.

Nossos ídolos morreram de amores vãos,

de compartilhar corpos e agulhas de injeção.

Do que morre minha geração?

Morre de pequenos vícios.

Não pulamos de edifícios,

em desencanto,

não abrimos o gás do fogão.

Morremos de prazer barato e inconsequente

do fígado deliquescente

e de câncer no pulmão.

O Dilema de Pirro.

Ago15

E, então, quando, no último momento da última batalha, estava pronto para atravessar com minha lança o peito do chefe dos inimigos, olhei em volta para contemplar meus companheiros de luta.

Formavam um bando de salteadores e bandidos. Alucinados, fediam a ódio santo ou a ódio puro. Facínoras aos quais eu não poderia apresentar meu filho e dos quais deveria proteger minha bolsa, minha esposa e minhas filhas. Dos quais deveria proteger a mim mesmo.

E, no entanto, vencida a guerra, dali para frente, era com eles que eu deveria partilhar o futuro.

Em pouco tempo, meus aliados tornar-se-iam a oitava praga do meu povo. Frente a qual, o vencido de hoje tornar-se-ia o mártir de amanhã. Seria em sua memória que as gerações buscariam o exemplo e o ensinamento.

A vitória me derrotaria.

Abracei o inimigo, cofiei suas barbas e agarrando-me a um fio de esperança, questionei-me: ainda haveria tempo?

Das crianças, anjos e cães II.

Jul15

Eu não acredito em deuses,

mas acredito em anjos.

Eu acredito em anjos estranhos.

Eu acredito em anjos pretos e castanhos.

Eu acredito em anjos-mães,

Eu acredito em anjos-cães,

Eu acredito em anjos-meninas.

Eu acredito em anjos que se procuram,

Eu acredito em anjos que se encontram.

Anjos que por momentos se desencontram.

Anjos que entram porta adentro,

anjos que saem porta afora.

Anjo que ri, anjo que chora,

anjo que morre

e vai embora.

Anjos que pedem e que dão,

que me acompanham na multidão

onde ando sempre sozinho.

Anjos que quebram meu coração.

Anjos que juntam os pedacinhos.

Junho

06/15

para Alceu Valença e Antonio Ateu.

Junho, carrancudo

como um velho avarento.

Envolto na bruma das almas

e na garoa gelada

de ensimesmado pensamento.

Junho, solitário da estação

contando as moedas da passagem

para o trem da primavera

que conduz ao sol do verão

Junho, e o ano partido

em dois hemisférios de tempo.

A vida suspensa para rateio.

O fim mediano e o começo contido no meio.

O tempo do homem que eu sou.

                                               Jun15

Envolto no que é de sombras,

quando só os insanos professam inocências,

o homem que eu sou sabe-se condenado.

Crer na imparcialidade das leis é uma temeridade.

Partido em tempo e coração, o homem que eu sou

sabe que almejar a liberdade e a igualdade de direitos

como uma marca de nascença

é um crime contra a propriedade.

Lesa-majestade.

E como recurso inútil e desesperado,

tal qual um cão desamado

atado pelo pescoço

ao poste de sua pequenez inescapável,

o homem que eu sou canta e chora seu tempo

como em Itabira ou a leste de Berlim,

em Ipanema ou nas quatro esquinas

da Ipiranga com a São João

outros o choraram na vez de cada um.

E, então, o homem que eu sou

forma em batalhões de indignados

para, em nome da Pátria, da família e da moral,

justiçar pelas ruas os Cordeiros de Deus.

Responsáveis pelas minhas derrotas intransferíveis

e pelos meus pecados inconfessados,

pela minha libido insatisfeita

e pela minha ganância insaciada.

Suas faces ensanguentadas

resgatam para meus olhos cegos

a faculdade de, por fim, poder

olhar meu rosto no espelho

sincera e enganosamente

orgulhoso de ser

o homem que eu sou

no tempo que me é dado viver.

Tempo algum.

jun15

Imóvel como tudo que é sólido,

o primeiro segundo é o único segundo.

Eterno.

O tempo não passa.

Em nossa ilusão de sê-lo transitório,

passamos todos por ele.

Que como um busto na praça

ou o portal do cemitério,

espera sempiterno

ver passar o féretro da próxima geração.

Os olhos do meu pai morto cruzam

o olhar do meu neto falecido.

Olhos marejados de negro

 mai15

Olhos marejados de negro.

Nenhum homem merece a deferência

de um rímel borrado de lágrimas,

mas como fica lindo.

O 1º de Maio não é mais dia santo.

                                                                  Mai15

Hoje, abro os jornais e as manchetes nada falam de nós. Deixamos de ser sagrados.

Houve tempo em que, como em uma oração em um templo sem religião, a evocação do nosso nome gerava no peito o sentimento de pertencimento, o calor reconfortante da solidariedade e dos grandes sonhos coletivos construídos de pequenos sonhos cotidianos.

Hoje, o termo que nos designa tem a irrelevância que é dada a palavra povo, que é dada a palavra gentes. Não por acaso, já fomos sinônimo de povo, de gente e de gente do povo.

Hoje, abro os jornais e as manchetes nada falam de nós. Tornamo-nos invisíveis.

Não andamos mais pelas ruas em uniformes que nos tornavam um respeitado exército sem armas e sem patentes.

Houve tempo em que o poderoso patrão dos papéis e das palavras, o proprietário de tudo que se move pelo etéreo temia que nos revoltássemos se víssemos nele nosso reflexo invertido. Então, usando seus pesos e medidas, premiava os que dentre nós julgava ser padrão. Cínico e velhaco adulava-nos. Queria-nos gratos, subalternos e servis.

Não nos temem mais, tomam-nos por impotentes e emasculados, o patrão passou a premiar a virilidade dos juízes.

Hoje, abro os jornais e as manchetes nada falam de nós. Nossos crimes não são mais motivos para reforçarem os gradis dos palacetes.

A cadeia nunca nos foi estranha. E, mesmo hoje, alguns dos que nos representam estão confinados às masmorras. A elas, como tradição, são mandados sem julgamento ou julgados por leis que a outros não se aplicam.

Mas antes, mandavam para a cadeia os de nós que nos prometiam a perda dos nossos grilhões. Hoje, prendem os nossos que venceram jogando com as regras e as cartas marcadas do patrão. Acusam-nos de roubar no jogo.

Hoje, abro os jornais e as manchetes nada falam de nós. Os corpos dos nossos soldados tombados e as nossas batalhas não são notícia.

Não somos mais revolucionários. Mas já fizemos a revolução.

Já movimentamos e paramos fábrica, bancos e repartições.

Já enchemos com nossos lemas as ruas, as praças e as vilas euclidianas.

E nesse movimento, construímos casas e democracias. E sonhamos, em algum momento, estarmos construindo um país, se não de iguais, de cidadãos iguais em direitos.

Hoje, abro os jornais e as manchetes nada falam de nós. Nossas vidas não merecem mais qualquer traço de preocupação.

Somos como construções inconclusas, obras abandonadas.

Se gritamos, quando não negam a existência do nosso grito, nos surram por gritarmos nas mesmas praças e casas que deveriam ser nossas.

Há tempos chamam nossos velhos de vagabundos, não nos permitem descanso. Tornamo-nos animais de descarte. Se nossas carcaças nada valem depois de mortos, tampouco devem gerar despesas desnecessárias, enquanto vivos.

Tomam-nos o que guardamos para nossas viúvas, o que guardamos para nossas doenças, para a nossa velhice e para os diais em que não houver o que fazer. Dizem que o que julgávamos nosso por direito, não nos pertence mais. Tornaram-nos terceiros de nós mesmos.

Hoje, abro os jornais e as manchetes nada falam de nós. Nossos movimentos estão controlados.

Já fomos as engrenagens dos tempos modernos. Mas hoje, em tempos pós-modernos, não somos mais que do que um dado que não altera o resultado. O que pensamos não é levado em consideração no momento de tomarem as decisões.

Hoje é 1º de Maio, abro os jornais e as manchetes nada falam de nós – os trabalhadores.

Ode ao amor completo.

mar15

Eu sou volúvel.

Reconheço e confesso-o

Sem nenhum cuidado maior.

Antes, com um certo orgulho.

Que só não digo depravado,

Pois que todo orgulho é depravado.

Este, deliciosamente depravado.

Meu coração não é volúvel,

Nada tem de leviano.

Meu coração é fiel.

Ama todas as mulheres da minha vida.

Cada uma delas,

Um amor único e insubstituível.

Complementar,

Como o almoço o é do jantar.

Ode aos medíocres.

dez14                                  

Malditos sejam os medíocres.

Ou, jingle bells, jingle bells, meu Papai Noel é cruel.

Permito-me, por vezes, a fantasia

Da mesma sorte de um mundo em paz, a ilusão de um mundo sem medíocres.

Fora dos devaneios, abomino o medíocre ainda que o creia tão inevitável quanto as bactérias que povoam o meu redor.

Apenas que nenhuma bactéria é medíocre, mas os medíocres são bacterianos – patológicos oportunistas.

Medito, no entanto, sobre tal condição humana – a mediocridade. Medito sobre os medíocres que, por humano, sou um deles.

Medito, então, não sobre o que temos de pequenos, pois que há pequenos grandes, mas sobre o que temos de apequenados. Não sobre como são comuns os medíocres, cotidianos, mas sobre como somos vulgares, quando não grosseiros.

Não ególatras, já que mesmo para tanto faz se necessária a noção de grandeza. Egoístas. Os medíocres não desejam, não anseiam, se recolhem no seu conformismo invejoso. Nem humildes, nem orgulhosos, nem iguais – subalternos mesquinhos.

Sem a grandeza nobre dos mendigos, sem a grandeza trágica dos ensandecidos, sem a grandeza torpe dos escroques e traidores. E, ainda, assim perigosos e traiçoeiros.

Dissimulados na sua desimportância, no seu não se fazer por que notar, estão sempre atentos às migalhas que possam alcançar.

Sendo-lhes impossível qualquer solidariedade, reconhecem-se, no entanto, pelo olhar esquivo, e rejeitam-se. Seu enorme espírito de corpo, sua figadal solidão.

Malditos, por quanto carreguem nos alforjes, suas vidas serão sempre maiores que se seus sonhos.

Olhando meu filho de trinta anos.

                                               19JUL2014

Meu filho faz trinta anos.

O que tenho para dar-lhe de presente?

Um par de sapatos gastos e uma cesta de sonhos adiados?

Uma lista de planos não realizados?

Não posso lhe dar a parte da vida que economizei para ter o dobro de sua idade.

Chegando até aqui, ele também já tem sua poupança.

Fez homem, não morreu garoto.

Talvez pudesse simplesmente dizer:

Bem vindo, filho, ao mundo dos que cresceram.

Bem vindo, filho, ao tempo de plantar

o dia-a-dia de grão em grão

e observar as nuvens

na esperança da colheita.

Bem vindo ao tempo de cultivar a paciência e a determinação.

Talvez ainda pudesse lhe dar um conselho:

Ouça os velhos, eles podem lhe ensinar seus fracassos,

porém, daqui para frente, você dependerá cada vez mais

do que puder conversar com seu menino.

Só se envelhece quando o menino morre.

Mas não farei nada disso.

Apenas olharei para seu rosto de homem feito

e sorrirei feliz.

O pássaro expiatório e o Dia da Danação.

Para Joanas e Mirunas – Mai14

E chegou aos Seus ouvidos que ao pássaro expiatório era dedicado amor.

Encolerizou-se o Senhor.

O pássaro expiatório, por óbvio e função, não existe para ser amado.

Não trata-se do cordeiro de Deus, cujo sangue em sacrifício retira os pecados do mundo.

Não. O pássaro expiatório deve ser e permanecer o símbolo do pecado do mundo. Deve ser, aos olhos do homem, a mácula indelével que o lembre, a cada dia, dos seus próprios pecados e da punição consequente.

O amor redime e o pássaro expiatório não pode ser redimido.

Ao pássaro expiatório havia o Conselho dos 11 Sábios, os guardiões da Lei, condenado a voar durante o dia para lembrar aos homens o valor da liberdade e a grandeza do Conselho que a permite mesmo aos não livres. Mas ser engaiolado a cada noite para igualmente lembrar ao homem da fragilidade dessa liberdade e do poder do Conselho dos 11 Sábios em retira-la dos desobedientes.

Ai do homem livre que atentasse contra as leis ou contra o pudor.

Ocorre que as bocas da delação fizeram chegar aos Seus ouvidos que uma linda jovem amava por demais o pássaro expiatório e que, estando esse engaiolado, abrira-lhe, sem autorização, por instantes a prisão e o tomara entre os dedos. Após um terno beijo filial, recolocara-o na gaiola, fechara a portinhola e se retirara.

Havia os olhos vigilantes dos patrulheiros voluntários da moral, e eles estavam atentos. Viram esses olhos que a jovem fora ajudada furtivamente por guardas que, inversamente, lá estavam para impedir qualquer contato com o pássaro aprisionado.

O coração da Guarda havia se enternecido pelo amor da jovem pelo pássaro expiatório.

Teve então o Senhor a prova da qual necessitava, o amor a tudo degrada. O poder e a ordem são inimigos do amor. O amor é terrorista.

Determinou o Senhor que não mais o pássaro voaria. Nem com o sol nem com a lua. Passaria, dali para frente, os dias enclausurado. E assim permaneceria enquanto durasse Sua ira eterna.

O amor da jovem havia desafiado o Seu poder e sem o Seu poder não haveria a ordem. Deveria, então, o amor ser punido punindo-se o ser amado, de tal sorte que, quanto maior fosse o amor, maior seria a punição.

Mesmo o amor dever ser reverente e subalterno ao poder e a ordem. Mesmo o amor necessita de autorização superior.

Decretou-se oficialmente a danação do pássaro expiatório. E fez-se o decreto ser sabido de todos os homens.

Perguntaram ao Senhor se o Conselho dos 11 Sábios não deveria ser consultado antes de tal alteração daquilo que o próprio Conselho havia decidido. Mas disse o Senhor: Eu presido o Conselho, logo, como o Conselho me afrontaria com decisão diferente da que já tomei?

Lembraram ao Senhor que a jurisprudência e a doutrina eram valorizadas pelos homens livres, davam-lhes segurança. E a jurisprudência e a doutrina não recomendavam o engaiolamento perpétuo do pássaro expiatório.  Respondeu o Senhor: Eu sou a decisão da qual nasce a jurisprudência. O Meu entendimento é a exegese e a hermenêutica. Eu sou a fonte do saber que faz a doutrina.

Alertaram, então, ao Senhor que outros pássaros, alguns de belas e coloridas plumas, mas a maioria pardais, também eram pecadores e também gozavam do voar diurno e penavam a gaiola noturna. Esses também eram secretamente amados pelos que lhes eram caros. Engaiolar o pássaro expiatório poderia levar a necessidade engaiolar a todos os outros pássaros.

Isso pouco me importa, bradou o Senhor. Minha ira é a santa ira, ela mantém a unidade do povo e a linha reta a ser seguida. Portanto, deve ser terrível, para não ser desafiada. Se para punir um, for necessário punir quinhentos, que assim se faça, determinou.

Desesperam-se os carcereiros, como obter de pronto tantas gaiolas, como conviver com o montante de dor que o cumprimento da ordem traria?

Magnânimo, o Senhor concedeu: perdoo a todos os outros, o pássaro expiatório expiará os demais.

Indagaram-se, então, por ciosos que são, aqueles aos quais cabia cumprir a ordem: se a Justiça se aplica a um, mas não se aplica aos demais que lhe são iguais, ainda assim é Justiça?

Eu sou a Justiça, finalizou o Senhor.

E cumpriu-se a danação do pássaro expiatório


O abecedário ensimesmado de Dona Mathilde D’Antanho.

Mathilde

Em honra de Dona Mathilde D’Antanho

Dona Mathilde D’Antanho é morta
mas eu a desposo
como fora eu Pedro – o plebeu
e ela a rainha Inês.
Dona Mathilde D’Antanho me beija a boca
com volúpia e insensatez.
Seus beijos têm o sabor da embriaguez.
Dona Mathilde D’Antanho me sopra aos ouvidos
as coisas que eu lhe minto,
as coisas que eu não sei,
as coisas que eu sinto e
as coisas que não sei que sinto.
Dona Mathilde D’Antanho é flor de absinto.
Bêbado, me traduz as palavras
que a mim sóbrio não fazem sentido.
Seu abecedário ensimesmado
entre o doido e o doído.
Dona Mathilde D’Antanho me socorre
no campo de batalha onde me encontro caído,
me guarda em sua tumba
como fora eu que houvera morrido.

A

A vida é bela

A James Dean, à inglesa romântica, ao romântico de Cuba e aos meninos do Brasil.

Tanto amor no peito

E uma vida longa demais.

Longa o suficiente

Para ver

Tanto amor morrer.

Adeus, espero.

Existem tantas vidas secas

Precisando de um pouco de água,

Existem tantas vidas desgostosas

Necessitadas de um pouco de sal,

Que não é direito

Desperdiçar nem uma lágrima,

Água e sal,

Por mim.

Não estou alegre,

Nem desejei estar.

Tampouco estou triste.

Estou quieto dentro de mim.

Estou bêbado e bem.

Caminho pelas ruas urbanas

Do lado sem a luz do sol

E os meus olhos se iluminam

Refletindo luzes humanas

Noturnas de música e neon.

Eu sou amargo e confortável

Como um blues.

Ainda mais uma vêz, obrigado.

From my heart for all women of my life

Quem vocês pensam que são ?

Se,

Cada uma,

Uma a uma,

Não outra coisa

Que

Mulher.

Mulheres.

Mulheres da minha vida.

Alcaparras 

Tudo que é sabor lembra

Sal e saliva

E céu

Da boca.

Lembra choque

Entre dentes

E lábio e língua

Ansiedade

De repente, não é apenas a música que a gente canta,

De repente, é a vida brotando na garganta.

De repente, não é asfixia,

É a incapacidade de tragar a vida

Para dentro da alma vazia.

De repente o engasgo, a falta de ar

É o que me resta de rebeldia,

É a incontível emoção a escapar

À noite, na hora de dormir

No prosáico ato de tossir.

De repente, a taquicardia, a palpitação

Marcam o rítimo da evasão,

E a sudorese das mãos,

É o sentimento transpirando por cada poro,

Se esvaindo enfim, fugindo de mim.

E o desespero é a antecipação

Do perdão, da benção alcançada

Na agradável sensação

De nada.

Apito Final – 04/12/2011

Perguntei ao doutor

o que fazer da minha vida.

Seja moderado e consciente,

abstêmio e consequente

para atrasar sua hora de partida.

Busquei saber do filósofo clássico,

professor dos escolásticos:

“Mens sana in corpore sano”,

para adiar o momento em que cai o pano.

Busquei uma recomendação com técnico da seleção.

Disse me ele na preleção:

O medo da derrota impede a vitória, mantenha-se na disputa,

pois não está morto o que luta.

Faça o que fizer, busque o que quiser, vá atrás da ilusão.

Antes que te atropele o caminhão ou a convulsão.

O que te espera ao fim de qualquer caminho,

não é rosa, é espinho. É a queda do avião torino,

a laje do primeiro andar ou um acidente vascular.

Lembrei me do meu pai falecido,

tantos acertos e erros cometidos,

e, ainda assim, inspiração

para os dias de reflexão.

O início e o fim são momentos,

a vida é o caminhar,

A vida não traz resposta, a vida é o perguntar,

é o aprender.

Viver não é o acender, ou apagar,

viver é o queimar. A vida é o intentar,

com respeito aos outros e a mim.

E assim, estar pronto a qualquer momento

para o último evento, o fim.

Comentário: publicado originalmente em setembro de 2011 com o título de “Ciclope e o olho do futuro” trazia a seguinte dedicatória: “Pensando no Dr. Sócrates e em Ricardo Gomes. E, apesar do tom funesto, os meu votos de sucesso”.

Associações Indevidas I

FLOR        FESTA

FLORESTA

ESTA FLOR

RESTA

VOCÊ       FERA

VOCIFERA

DOCE

DULCÍFERA

FERIADO

SABADO     DOMINGO

SEGUNDA

NÃO!

NISTO

NÃO EXISTO

RESISTO

NÃO REGISTRO

ANÔNIMO

HÁ NO NINHO

PASSARINHO

BEIJA-FLOR

EM FESTA

A FLORESTA

Associações indevidas II

Espero.

Desespero

De esperar.

Enlouqueço,

Destempero.

Sem sal.

Insípido.

Sem gosto.

Desgosto.

Doce.

Amargo.

Amareto.

Amarei-te

Desesperadamente,

Ainda,

Espero.

Associações indevidas III

Longevidade.

Longe a vaidade

Humildade

Umidade

Dores várias

Variedade

Longe vai a idade

Longévolo

Longe velho

Longa vida

Hora da morte

Oração,

Recordação, consolação,

Cemitério do Araçá.

Túmulo,

Cova, cimento.

Convencimento.

Falecimento, esquecimento.

Amnésia.

Magnésio

é bom para a memória?

Memorial

Arquivo

Ordem alfabética

Cronológica

Tempo

Temporal atemporal

Sem tempo

Apressado, afobado,

Afogado em coisas

Morto

Fim do caminho

Longo caminho

Caminhão

Vida pouca

Para tanto caminhar

Vida breve

Brevidade

Lonjura, longidez, longidade

Longevidade.

Associações indevidas IV

Fumo

Fumaça

Fôlego falido

Traga o ar

Tragar

Cansa

Câncer

Mau ar

Malar

Molar mole

Placa bacteriana

Maleita

Malária

Mal

Mal estar

Estrago

Trago comigo

No bolso meu mal

Dez minutos de prazer

Estragar

Estraga o ar

Fumaça

Fumo

Associações Indevidas V 

 Alarde

Alarme ardido

Alarido sem sentido

Afobação, açodamento

Abafamento

Abafa som

O som não passa

Pelas mãos

O ouvido

Comprimido

Na boca de porco

Os dentes

Podres

De ricos

De ouro nos dentes

Na língua do povo

A voz de Deus

Não trovão em vão

Fala baixo

Fala dentro

Da alma

O fogo arde

Sem

Alarde

Associações indevidas VI

AAA

Álcool absoluto

Absorto alcoólico

Absurdo acólito

Absinto abissal

Abismo de rosas

Abstêmio

AAA

Associações Indevidas VII

Decepção

Desilusão, dez ilusões

Desencanto

Canto de sereia

Engano

Canto de cisne

Desengano, consciência

Consciente paciente

A vida é mesmo assim

Não há o que fazer

Revolta, resignação

Responsabilidade

A vida é assim mesmo

Fazer o quê?

Beco sem saída

Marginal sem número

Descarte, desconhecido

Esperança, futuro

Sem futuro

Desesperança, desespero

Insegurança

Resignação

Nada espero

Assim é a vida

Nada a fazer

Tanta vida ainda

Viver

Decepção

Associações indevidas VIII

Organização

Ordem

Ordenação

Grupo, proteção

Exclusão

Poder

Podridão

Interesses próprios

Negócio

Negado o ócio

Negação

Não

Caos

Começo de tudo

Criação

Criatividade

Atividade

Ativo

O que me sobra

Minha dúvida

Passivo

Minha dívida

Minha tão grande culpa

Confissão, salvação

Prisão

Prisioneiro

Bom comportamento

Condicional condição

Liberdade vigiada

Minha vida

Meia vida

Contenção, contrição

Contração

Contra a ação

Inação

Fim

Fim da ação

Fim do mundo

Findação, danação

Fundação

Organização

Associações indevidas IX

Empresa do ano

Presa

Apresar

Presas

Dentição

Mandíbulas do cão

Prisão

Fatias do mercado

Público cativo

Prisioneiro

Serviçal servidão

Companhia Solidão

Das Índias Ocidentais

Japão

Escravidão

Artigo de exportação

Nossos filhos

Fome, fomento

Não há almoço grátis

Refeitório industrial

Empresa do ano

Associações Indevidas X

Paz

Temporariamente

Tempo, mente e mentira

O tempo me diz

Mente

Eu minto

À minha mente

Mentira providencial

Mente provisória

Auto-engano

Por algum tempo

Temporariamente

Paz

B

Belonave

Armada.

Mar armado, Armando.

Amada, Amanda minha.

Pai do seu,

filha e

espírito,

santos meus.

Bico de luz

Pontos luminosos.

Pequenas estrelas urbanas

Acesas na minha noite.

São pobres, simples

Lâmpadas.

Pontos de luz

Que mal se sustêm no ar.

Por trêmulas, débeis

Tremelicam no espaço.

Breu.

E ainda assim, ou por isso

Cintilam na minha imaginação,

Brilham.

Visagem, visão.

Como se no veludo azul e verde escuro

Brilantes dentes

Reluzentes

Sorrissem.

C

Caetaneando Marilena

Jul13

Para a profª. Marilena Chaui

Acordo versos marilenos

Que nutrem minha fé

O meu ódio e minha fome sagrada

Vaca profana que me guia

Bota teus cornos

À frente e acima da manada

Oh! vaca de divinas tetas

Derrama o leite bom na minha cara

E o leite mal na cara dos caretas

Vaca vermelha, rosa luxemburga

Rosa vaca rubra

Das gentes sinistras pelas ruas

Em sangue e fogo desgarradas

Pela direita só a máscara

Da vingança, num sorriso,

Mal disfarçada.

O povo branco em micareta

Rezando o pai-nosso no Congresso Nacional

Assusta a moça bonita da cara preta

Intolerância e ódio, um horrendo carnaval.

Oh! vaca farta e generosa

teu leite ralo não lava a cara

Da moça loura e agressiva

de faces verde-amareladas.

Comentário: homenagem à professora Marilena Chaui parafraseando a canção “Vaca Profana” de Caetano Veloso.

Caninos

Abro um sorriso largo

E mostro todos os meus dentes.

Os meus dentes de morder.

Como os dentes do meu cão,

Carinho canino e nada mais.

Entre as fibras do algodão

Sua pele acaricia as presas.

Presas, sem pressa, livres,

Prisioneira dos meus dentes.

O sal dos teus poros

Confundindo palato e papilas.

E o gosto do cheiro do teu suor

Escorrendo pelos teus pêlos.

E a suave compressão, pacto

De gengivas, carnes e dentes.

Cavalo

Cavalo encilhado passo

Na casa da musa posto.

Pasto.

Triste figura, pangaré,

Cavalgadura qualquer.

Nem Troia me quer.

Mas, musa é mulher,

E mulher ama o feio

Porque senão ninguém amaria.

E assim troto um pouco.

Tratante,

Não mereço,

Tal trato,

Maltrato o vernáculo,

Troco o verbo

E de troco

Tropeço, trôpego.

Trote bêbado, desacostumado.

Porém, enfim, não estou parado.

Avanço.

Vencida vem ser

A batalha.

Batatas aos vencedores,

Bananas aos indiferentes,

Aos mortos, mortalhas.

E ao fim do curso

Discurso.

Deixo,

Desleixo,

Em terra batida,

As marcas duras,

Ainda que poucas,

De algumas

Outras

Palavras.

Clow insano.

Não é dado aos que escrevo em solidão

o auxílio do copydesk, do corretor ortográfico

ou da correção pelos pares.

E, a quem é dado tal privilégio?

Assim, sendo um entre tantos,

que tenho a temer em meu anonimato ágorico?

A morte inobservada e desimportante,

a galhofa momentânea do povaréu ignaro e folgazão?

A isso, de tão vivido, sou imune, ainda que doa.

Como resistir, eu, garoto tímido e voluntarioso,

cruzar o desvão tendo por mim apenas a fina e corrompida linha

que liga meu coração aos teus olhos?

Desafiá-los, chamar-lhes a atenção sobre mim.

Eles que, críticos ou indiferentes,

tirante teus ouvidos surdos,

caso me fosse dado a arte de cantar ou de soar,

já que, mal grado, seja minha boca muda

e minhas mãos incompetentes

para qualquer tipo de corda, chave ou couro,

são o caminho restante e, então, no meu caso,

único, ao teu igualmente falho, mas querido coração.

Pago o preço.

Não o acho caro, não o acho justo,

apenas ignoro-o

e sigo em frente

em busca de ti.

Coconut

            Luanda, 04/06

A originalidade nos cobra,

por vezes, o preço da solidão.

E a exclusividade é, então,

almoçar nua

olhando o mar de Angola.

A baía de Luanda às tuas costas

e teus olhos contemplando as ladeiras de Olinda.

Você tão linda,

e os teus olhos negros, atrás de lentes escuras.

Tua pele negra, tua alma azul-marinha.

Tão sozinha,

tão nublada, tão entardecida.

Iluminada pelo sol da África,

pelo sol da África, pelo sol da África.

Congregados Marianos 

Maria Rita de Jesus,

que é de Jesus

porque não é

de ninguém.

Cardial

O seio da mãe

Memória mamária

E duas pontes de safena

Que o rio assoreado da vida

Me deu.

Contemplação

Se me apresento ao mundo

com olhos de estar distantes,

pode parecer aos que são contentes

desinteresse, descaso ou desquerer.

Eis que não são olhos de enxergar.

São olhos de olhar, não são olhos de ver.

Se meus olhos não perguntam,

é porque não são olhos de inquirir.

Não procuram no que vêem

nenhum sentido a se buscar.

Têm à vista horizonte tão largo

e tão plano,

nem um único, um só ponto

a chamar sua atenção.

Entre confusos e perplexos,

contemplantes.

Não são olhos de argüir,

não procuram,

são olhos de achar.

Crianças, anjos e cães.

23/07/2011 – para Amy Winehouse

As crianças necessitamos de anjos e de cães,

de guarda e de guia.

Mas anjos são como cães, inúteis hoje em dia.

Anjos são como bagos de uvas, morrem esmagados.

Anjos são nuvens baldias.

Anjos são como suicidas,

caem desiludidos, desesperançados.

Anjos são como cães, morrem atropelados.

D

Das facas, das amantes e da ironia.

Ah, as facas e a ironia!

Musas traiçoeiras,

há que tratá-las com o cuidado

com que trataríamos a uma amante.

Outra das musas intrigantes.

Qualquer desatenção

e uma atitude mal calculada,

atrevida ou impensada

ser-lhe-ão o tinto da vingança.

Néctar sanguinolento.

As facas, as ironias,

e, creio, as amantes,

exigem-nos o prudente e reverente

respeito do acrobata

pela corda esticada

entre o desvão do abismo.

Tal qual a luxúria e a vida ávida.

Declarações de amor? Tolices.

Elas já nos sabem prisioneiros.

Ao que nos oferecem de gozo

nada nos cobram de cotidiano.

Comuns, seriam vulgares,

tornar-se-iam cegas e grosseiras.

Módicas e fáceis seriam as amantes.

Não, essas putas pérfidas e caras

nos cobram a continência

gulosa e insaciada.

E a subserviência

dos insatisfeitos,

mal resignados e relutantes.

Finas, cuidam-se, resguardam-se.

Deusas vadias,

arrogantes e impertinentes

nos querem reverentes e submissos.

Para o nosso bem,

Sobrevivência e servidão.

Desponteio

Viola caipira,

eu sei de onde vem

o teu chicote.

Vem de uns cantos doídos

da minha alma.

À qual não é dado,

por imerecido,

o consolo das lágrimas.

Vai então buscar

nos acordes agudos e

nas dissonâncias das cordas

algum doce, algum mel

para servir as suas mágoas.

Deusa

Sonha, deusa.

Sonha e deseja,

Que eu fui feito por Deus operário

Para construir de sonho em realidade

Tua menor vontade.

Sonha e anseia,

Que eu fui feito por Deus

Para lavrar na pedra teu mais supérfluo desejo,

Teu mais ínfimo querer.

Queira, e eu me deito ao solo

Para que teus pés não pisem nada que não seja morno.

Queira, e eu cresço atrás dos teus ombros

Para projetar a sombra que proteja tua pele do sol

E que escureça de medo à alma dos que não te querem bem.

Porque tu tudo podes

E eu sou teu instrumento.

Divino blues

O preto não entendia o que acontecia,

O preto só tocava e sorria.

O preto batia os dedos nas cordas

E tirava delas um som celestial.

O preto tocava do jeito que o diabo gosta.

Do jeito que o mundo gosta.

O diabo escutou a música e subiu

Para ver o que ouvia, o que havia.

O diabo ouviu, gostou e resolveu ficar,

Feliz.

A Terra toda ficou feliz.

De repente não existiam mais guerras,

Só aquela música enchendo o planeta

Do desejo de ser feliz.

O preto não entendia o que acontecia,

O preto só tocava e sorria.

O diabo se juntou com uma negra latina

De Nova Orleans, chamada Maria Magdalena.

O diabo passava o dia inteiro bêbado

Dançando no cais da beira do rio.

Dava gosto ver aquele homem grandão,

Ruivo, de cara vermelha

Rindo feliz

Como um bebê rosado

Com a barriga cheia de leite.

Um mundo de bêbados se abraçava a ele.

Passavam-lhe a mão na bunda

E ele dizia com a língua enrolada:

“Aí não! “.

O bafo de cerveja e enxofre assustava

Mas, mais mal do que isso não fazia.

O preto não entendia o que acontecia,

O preto só tocava e sorria.

Deus entendia.

E não gostava do que via,

Daquela quebra de hierarquia.

Aquilo começava nos domínios do demônio

Mas só Deus sabe onde acabaria.

Restabelecer a ordem então cabia.

Matou o preto,

Tomou uma guitarra emprestada com o Papa,

Levou o preto pra tocar só para Ele

No céu.

O preto não entendia o que acontecia,

O preto só tocava e sorria.

O diabo acordou com o silêncio, mal humorado.

Abandonou Maria Magdalena e os filhos dela

E enfiou a cara no mundo

Arranjando encrenca por aonde ia.

Tudo voltou ao normal.

E agora eu estou aqui,

Tentando inventar um blues

Pra distrair o capeta.

Mas nem preto eu sou,

E as coisas não têm andado muito fáceis

Ultimamente.

Comentário: escrito em 2002, uma homenagem a B.B.King que as musas me pintavam com pinceladas de Ray Charles e Stevie Wonder.

E

Eterno amor

Amor que não convive

Dura para sempre.

Razão esta, pela qual

O primeiro e o último amor são eternos.

Eu que sempre tive a morte nos meus calcanhares

Tive um único e último amor

Que me acompanha a vida inteira.

Etna, a bela

Há um vulcão desapercebido

dentro da menina tímida.

Mal disfarçado nos gestos contidos,

nos modos discretos.

Mas vivo,

denunciado no brilho ativo,

no brilho ígneo

dos olhos dela.

A menina tímida beijou minha boca.

E a lava incandescente descendo

da sua saliva

incinerou

e o vapor do seu hálito

sufocou,

do meu querer

todo o desejo de fuga.

Cinzas,

menina tímida.

Eventos independentes

As estrelas brilham independentes de você.

As estrelas nascem e morrem

E bricam de esconde-esconde com o tempo

Independentes de você.

As estrelas não ligam para você.

E os rios correm e soam

Independentes de você.

E cada gota de chuva,

Independente do seu querer,

Desdobra a luz do sol

Para se enfeitar de cores.

Porque ela quer para si , não por você.

E nem o mais insignificante grão de pó

Que pousa sobre a pedra, jamais pensou

Em te pedir permissão para descansar.

Só eu não.

Só eu não vivo,

Só eu não existo sem você.

F

Fazer amor

Somente os meninos e os velhos

Conseguem fazer poesia.

Só os que não têm o passado de que se culpar

Ou o futuro para se arrepender

Podem amar.

A poesia só é possível

A quem tem diante de si o mistério,

O abismo.

A poesia exige incerteza e risco.

Tal qual o amor,

Não é coisa para adultos.

Feliz aniversário

Dos filhos do meu pai

Não há um que eu não trate de irmão.

Mas depois do rio ter cavado seu leito

O mesmo tanto que a árvore ergueu a rama,

E agora, que rio e árvore dobraram as distâncias

Em um lento afastamento mútuo,

Desses que ocorrem frente aos olhos

E não se vê

Se não a conseqüência,

Só que então imediata

Como uma revelação,

Encontro por aí velhos desconhecidos.

E novos desconhecidos

Nos olhos dos netos do meu pai.

E um desconhecido permanente,

De há pouco percebido,

Como espelho, refletido

Na imagem destorcida,

Que sei,

Não sou eu.

Feliz aniversário II

O gole d’água empurra os dois grãos amargos

garganta abaixo como em um desjejum.

E na boca, o resíduo amaro,

despertador dos que não têm tempo que fruir,

avisa que é preciso sair à rua e ir

alcançar o com o que viver por mais um dia

em busca do sono, essa pequena morte diária,

com a qual nos acostumamos  e  pagamos

a derradeira morte em prestações cotidianas.

Com o tempo quitamos a dívida

e, assombrados  de medo,

corremos a pagar os juros ,

a usura que nos protege de receber

o que nos foi  prometido no dia do parto.

Ah, os jornaleiros dois grãos amargos,

companheiros de jornada

tanto quanto são companheiros prisioneiros

acorrentados uns aos outros caminhando

juntos rumo ao cadafalso.

E assim, dia a dia, outro dia,

outra primavera que traz o mesmo medo

que me faz ficar vivo,

nenhum outro motivo.

Fez-se “B …” o quê?

O que foi ser do que você crê ser?

O foi ser do que você crê seu?

Fez-se “b…” o quê?

Fez-se “b…” oca?

“B…” oca do quê?

De ouro, de fumo,

Da noite ou do mundo?

Fez-se “b…” o quê?

Fez- “b…” ocada?

Fez-se “b…” oquete?

Fez-se “b…” uquê?

Fez-se “b…” o quê?

Deu no que

Você deu?

Cedeu?

E o que foi ser você afinal,

Ao seu juízo final?

Fez-se “b…” o quê

De você,

Do que

Você queria ser,

Do que podia ser?

Do que é você,

Fez-se “b…” o quê?

Fissura

Por  vezes, em momentos distraídos

sou assaltado por essa angústia

travestida de ansiedade.

A mesma que deve assolar os famintos.

A mesma sensação

de urgência desesperada,

o mesmo mal estar no estômago,

a mesma boca salivando.

O mesmo paraíso trancado por fora,

a mesma chave na mão.

O mesmo sim impossível,

E a mesma impossibilidade do não.

Fortuna

Tempo, massa

De modelar a vida.

E o teu querer,

Teus dedos de fazer

A hora, o agora.

Mas não a dicha buena,

A dicha dura,

O vendaval do tempo mal,

O temporal.

A esses, cuidam a circunstância,

A inconstância.

Mãos  estranhas

Que forjam as condicionantes da tua escolha.

Condição e opção,

Se repetindo na tua história,

Formando o patrimônio vitalício da tua memória.

Doa-o enquanto vivo,

Pois que os mortos não o deixam de herança

Teu passado não tem serventia para ti.

Nele se encontram o tempo bom

Das dores acalmadas

Mas também o tempo inútil

Do momento de prazer emoldurado

Como um quadro na parede.

Teu futuro, ainda que pouco,

É tudo que te resta.

Vai, que para ele

Ainda há tempo.

De ser feliz?

Não,

De ser diferente.

Frase solta, quase heresia.

Deus em traje social

Eterno e gravata

Frases.

Do que vale uma longa vida vivida

No último minuto de vida

Na hora da morte ?

Eu queria que a música de fundo da minha existência

fosse

¨Impossibile Dream”,

vai acabar sendo.

” Réquiem para um homem comum”.

G

Giant –  Assim caminha a humanidade

                        (1914 – 1975)

O homem sempre matou.

Matou bicho e matou homem,

Por comida, por água

Por raiva.

Pelo rei, só matou

Após ser coroado.

Daí em diante o homem matou

Por nada.

Linhas imaginárias

Sobre a terra única

Dividindo homens e

Gerando inimigos

Pelo acaso do nascimento

Em um dos lados da fronteira.

Um Deus único

E seus fiéis soldados

Destruindo se mutuamente,

Cada um certo do engrandecimento da fé

Pela morte do incréu.

Trapos coloridos

Na ponta de um mastro

E mães, sempre as mesmas mães,

Chorando e aplaudindo

A morte do mesmo filho.

Honras de assassinos

Festejados como heróis

E o mesmo suicídio coletivo

A cada menino morto

Em cada lado do campo de batalha.

Greypeace

Repare no vento,

Repare como parece o respirar,

O respirar do planeta.

A Terra é viva, a Terra respira.

O vento é o sopro do mundo.

Que me transmuta, que me transmite

Cheiros e carinhos.

A Terra fuma, a Terra tosse.

A Terra sofre

De asma e tuberculose.

Aterra.

O vento é o hálito de todo mundo.

Que nos contamina e adoece,

Que nos comunica e comuniza

A nossa insânia.

H

HERANÇA

Dinheiro não me deixou.

Ensinamentos?

Só o que aprendi com seus erros.

Virtudes?

Só se for virtude a confiança nos autoenganos.

Meu pai era um sonhador.

Deixou-me essa herança maldita.

I

Impressões de viagem.

Quando a luz da frente se apaga

E eu já sei que não vou dormir

A noite já é mais de meia

E eu preciso de você.

A Cristiano Machado é longa

Como a vida toda, imensidão,

Noturna e iluminada

Não dá acesso à minha solidão.

Ouro, minas,

Meus Olhos d’Água choram.

Sagrada Família.

Vocês caminham

sobre a garoa fina de São Paulo,

belo casal pisando o mosaico

falho e colorido do Santa Ifigênia.

Estação Armênia.

Curitiba, Chapecó, Xaxim e Xanxerê.

Concórdia, afinal.

Joinville e Blumenau – 40 graus

Enquanto minha linda loura,

Musa da elite branca,

Desfila despreocupada

Sobre os telhados de Porto Alegre

Os alemães comemoram a colheita

Da cevada

Sob o gelo de Guarapuava.

E daí?

O tambaqui come o açaí

Que flutua sobre o igarapé da Fortaleza.

Ceará? Amapá.

Província do Grão Pará.

Farol da Barra – B.A.

Ondina e Jardim de Alah.

Eu, sob o sol de anil do meu Brasil,

Velo pelas castanheiras

Mal plantadas

No solo de caulim de Paragominas,

Solo vil como metal,

Samba hardcore.

E espero por um impossível,

Insensato Blues, letal.

Inútil

Eu empilho palavras

porque não aprendi

a empilhar tijolos.

Espalho pelo papel

verbos inúteis

porque não sei

espalhar cores.

E busco na sonoridade

muda das letras

o som que não sou  capaz

de tirar de nenhum instrumento.

J

Já é 8 de março.

Eu , decididamente, sou um homem de sorte;

Porque no substrato da minha formação

Há muito menos homens que mulheres

Fosse o oposto e seria eu outra pessoa;

De certo pior.

Hoje, neste quadrante da minha existência,

Olho-me no espelho e sou forçado a concluir

Que todos nós, homens, somos patéticos.

Patéticos e maravilhosos.

Maravilhosos na nossa total carência.

Patéticos na nossa ilusão de poder e força;

Quando não, e muitas vezes,

Ridículos nas nossas lastimáveis encenações

Fálicas, adrenalínicas,destemperadas.

Eu, enquanto homem, não sou nada mais

Do que aquilo, que as mulheres, a quem pertenço,

Fizeram de mim.

E a minha trajetória sobre a capa deste planeta

Tem me mostrado que,

Muito mais que “eu te amo”,

Uma frase ecoa do meu coração

Para todas as mulheres da minha vida:

“Muito obrigado”.

L

Leitura Labial

Sua boca se move e eu não ouço.

Como com meus olhos teu falar.

Teu linguajar é meu manjar

Teu verbo a merejar,

O meu jantar.

Queria ter a tua língua em minha língua

Para entender teu idioma.

Meu axioma

Que não se prova enquanto não me provas.

Provar-te, como eu poderia?

Vivo de sonho, basta-me a teoria.

Danem-se os fatos,

Quase surdo,

Quase bumbo,

Quase bobo, quase louco.

Das tuas frases

Me faltando sempre um pouco.

Olho tua boca,

Uma imagem rouca

Nos teus lábios movediços

Qual areia pantanosa

Completa tua prosa.

Perigosa.

Nada me dizes

Em teus deslizes.

Lira dos 40 anos, aos 36.

Eu estou só.

Quando eu era jovem,

Se um dia eu fui jovem,

Fazia me acompanhar ,

Das minhas próprias palavras.

Elas me eram fáceis:

“Eu te amo”, “Meu amor”

E, não raro,

Em pleonasmo vicioso,

“Eu te amo, meu amor”.

Mas, hoje, mudo

Eu estou só.

Quisera amar

E me acompanhar do meu amor

Como os que amam

Em segredo, em solidão.

Esse tipo de amor quase egoismo,

Quase injusto de tão afortunado,

Não se corrói na rotina

Nem se magoa com o dia-a-dia de amar.

Ou , então , ao menos

Um pequeno amor

De fim de tarde, de bela da tarde,

De boca da noite, porque

Os que amam, enfim e de qualquer forma,

Podem estar sozinhos

E não estão sós,

Eu estou só.

Little match

Venham todos assistir

à grande luta

de mim comigo mesmo.

Público pagante:

Um, eu próprio;

Público passante:

a humanidade e a natureza

desinteressadas

do resultado desse confronto

levado à cena em praça pública.

Luanda

O vermelho e o negro

Detalhes em dourado.

O seu sorriso branco

Como a lua cheia

Contra o fogaréu do sol poente.

Prata e sangue em brasas.

Tudo mais é cinza.

Mar e terra cinzas,

Cinzas como cinzas,

Cinzas como pó,

Como cimento,

Cinzas como chumbo.

M

Medo de avião. 

Menino brincando de anjo.

Prazer à força.

Anjo medroso,

Sem asas,

Voando

Acima das núvens.

Medo.

Medo de vertigem, não de morte.

Medo de cair em desgraça,

Medo da consciência

Da consequência.

Medo do inevitável,

Do irremediável

Da queda.

N

Nação Indígena

A roleta é russa.

Assim, como a salada,

De alface romana.

A fila indiana,

O corredor polonês.

Veneziana, persiana,

O azul é da prússia

E o salitre chileno.

De nacional só mesmo

Uma insaciável antropofagia

E a amálgama deliciosa

Da farofa brasileira.

Namorada

Antigos amores são tão doces

Que eu os uso para umedecer

Seu lábios ressequidos.

E o cheiro da uva,

A violeta uva dos seus lábios

Revividos os meus.

Lembranças verdes

E vinho e mel.

Necessidade fisiológica

A água é límpida

A urina idem

Há água salgada

A urina também

A chuva é xixi de nuvem.

O

O 1° dia de amanhã .

O desafio é sacar o novo

Do que ainda não é velho.

É enxergar o horizonte

Do que ainda não é muro.

É viver o tempo

Do que ainda não é findo.

Mas não é jovem,

Não é começo

Nem é infinito.

O fim da poesia.

O primeiro egípcio

Que caminhou à beira do Nilo

Tinha no peito um coração.

O meu coração;

Que também pulsava no hindu

Que ergueu um templo às margens do Ghangis

E no chinês

Que empilhava pedras ao longo do Amarelo.

E no de Davi que cantou,

E no peito do Rei do Congo

Que amou, mas nada deixou escrito,

E no peito de cada um dos seus súditos

Que amaram também.

O coração do homem é cíclico.

Não acumula sentimentos

Do mesmo modo que seus livros

E seus cérebros

Acumulam ciências.

Assim, cada geração,

E cada ser que a compõem,

Vive os mesmos sentimentos

De  toda a geração que já houve antes de si,

Que cada homem

Que já pisou sobre a Terra viveu.

A mesma paixão e compaixão,

E o mesmo ódio dentro delas,

Repetidas

Como únicas, particulares, originais.

Os homens marcam as paredes e os papéis

Com essa inquietação permanente

Como forma de aliviar suas dores

Tornando-as públicas.

Logo, após dez mil anos

De escrita

Não há mais nada a dizer.

E resta a cada homem o espanto

De encontrar nos versos de outro homem,

De qualquer língua e de qualquer tempo,

O seu próprio coração.

Cabe apenas, então, tomá-los como seus,

Roubá-los,

Como forma de os comungar.

Qualquer verso novo não existe.

Todo verso é roubo, falsificação.

A poesia é plágio, repetição.

O MEDO E O NADA .

Por que outra vez estou triste?

Por que o fim outra vez?

Não o fim como morte,

O fim não é morte, é desencanto.

É a certeza que a falta de esperança traz.

Não a desilusão e sim, a ausência

De qualquer ilusão.

E o recomeço do nada,

E o nada e o medo,

E o medo prendendo ao chão,

Ao inútil chão inútil.

Inútil diante da premonição

Do salto no escuro

Outra vez.

O sonho como auxílio.

As maçãs ficaram vermelhas,

Não como maçãs,

Como rosas.

Rubras rosas,

As maçãs do teu rosto,

Contrastando com a brancura

Das folhas do livro aberto.

Não, por favor, não um não.

Permita-me um irresponsável

E descompromissado talvez.

Nenhuma esperança concreta

Porém, dez centavos de sonho

Como uma esmola.

Olhando meu filho de trinta anos.

Meu filho faz trinta anos.

O que tenho para dar-lhe de presente?

Um par de sapatos gastos e uma cesta de sonhos adiados?

Uma lista de planos não realizados?

Não posso lhe dar a parte da vida que economizei para ter o dobro de sua idade.

Chegando até aqui, ele também já tem sua poupança.

Fez homem, não morreu garoto.

Talvez pudesse simplesmente dizer:

Bem vindo, filho, ao mundo dos que cresceram.

Bem vindo, filho, ao tempo de plantar

o dia-a-dia de grão em grão

e observar as nuvens

na esperança da colheita.

Bem vindo ao tempo de cultivar a paciência e a determinação.

Talvez ainda pudesse lhe dar um conselho:

Ouça os velhos, eles podem lhe ensinar seus fracassos,

porém, daqui para frente, você dependerá cada vez mais

do que puder conversar com seu menino.

Só se envelhece quando o menino morre.

Mas não farei nada disso.

Apenas olharei para seu rosto de homem feito

e sorrirei feliz.

Olhando na chuva.

Da janela a imagem

De uma cidade umedecida

Da varanda um alento

Dentro de um janeiro calorento

E sua quase-noite esmaecida

Suas poças e árvores agradecidas

À luz, ao calor e à água sobrevinda

Seus telhados vermelhos

Soando allegro tamborilado

Essas antenas passarinhas

Pouso seguro de andorinhas

Em vôo de brincadeira

Entre as gotas dessa chuva criadeira

Um domingo esquecido

Vivendo nas retinas da minha memória

Que olha o presente como se passado fosse

E encontra nesse agora

Um fio-novelo de outra minha história.

Olho mágico.

Todo poema

Não é nada

Que não lhe queiram

Que seja.

Caracteres impressos,

Nenhum poder próprio contido

Nas rimas, métricas

Ou na alvura dos versos.

Símbolos sobre a folha branca,

Nenhuma mensagem secreta

A se revelar.

Obra aberta,

O poema é um espelho.

Reflete aquilo ao qual é exposto

E projeta para dentro da alma

De quem o lê

Aquilo que lá já existia.

P

PERVERSÃO 

Eu me odeio em ti

o tanto quanto te amo em mim.

Logo,

te fazer sofrer

é uma forma de me penitenciar,

assim como te adoro ao me amar.

Visto de modo torto

parece crueldade ou egoismo,

mas, por ser o reverso do verso,

sou o oposto disso.

De tal sorte, que tanto faz

se me entristeço contigo

ou se me alegro,

já que,

posto pelo avesso,

toda alegria é uma forma de penar.

Ponto de vista

Hoje, enquanto voltava

para traz do meu muro,

algo interessante me aconteceu.

Foi que no céu todo escuro

uma única estrela apareceu.

E nessa só estrela que surgia,

estranhamente eu via

a imagem do rosto teu.

Por todo esse amor que você me dá.

Leio

Sânscrito arcaico,

Aramaico

Castiço,

Linguagem cuneiforme,

Hieróglifo.

Leio.

Gol de letra,

Tiro de letra,

Tiro de guerra.

Leio.

Leio estrelas,

Leio mãos,

Leio sorrisos,

Pára-choques de caminhões.

Leio muros e suas ramificações.

Leio letras de músicas,

Olhos de musas,

Lábios de menestréis.

Leio.

Leigo, leio bulas,

Leio leis,

Leio fórmulas e instruções.

Leio fábulas e cabalas,

Maquinações

Dos astros,

Notícias e informações,

Opiniões.

Leio traços.

Pelas linhas tortas

O certo, pelas retas

Pelo errado me apaixono.

Leio.

PORÇÃO INDIVIDUAL

E se por fim eu reconhecesse que você não virá?

E se, então, eu não saísse às ruas nessa procura

Desnecessária,

Que ao final só me conduzirá ao mesmo de ontem?

Se eu não contasse com seu lugar à mesa,

Se não houvesse, como não há, razão para contigo

Ou teu, ou nosso,

Conosco, nós ou você?

E se eu, finalmente, eu, desse razão ao espelho,

Olhasse em volta e

Enxergasse que não há motivo ou porquê;

Que tudo está bom como está,

Que, para um, o que existe já dá,

Que não há pretexto para uma mesa,

nem toalha de mesa, nem copo, nem taça;

E que, logo, são dispensáveis  a  meia-noite,

O bom natal ou o ano bom,

Já que tudo é simples, único, individual?

Se no término da mão pendente só restasse a madrugada de amanhã

Com o sol já nascente,

Não haveria véspera de nada,

E, portanto, não haveria a espera por algo,

que, afinal, não existe, nem existirá.

Só mais um dia, outro dia,

Nenhum significado especial

Que o somar inútil do tempo

Em inexorável contagem regressiva.

E se ao fim e ao cabo, eu, sempre eu, decidisse

Reservar lugar para um,

Para então descobrir,

Que tudo é assim mesmo,

Que vida não é substantivo coletivo?

Progressão continuada

Beije minha boca,

mas não como quem

quer me ensinar a beijar.

Eu não sei beijar,

e não tenho mais tempo de saber,

de entender

a técnica, o engenho e precisão.

Beijo por intuição, por pretensão.

Beije-me por caridade, por compaixão,

por amor à profissão.

De amador à amante,

de diletante à entusiasta,

por amor à arte,

tua saliva é dádiva, doação,

benção, resgate,

alforria, redenção.

Beijo por beijar,

beijo por prazer, por não ter o que fazer.

Não sei beijar, mas gostaria de aprender.

Seja minha mestra.

Você que sabe as práticas de ensino

beije-me como eu homem, ainda que eu menino.

Beije-me não como quem me carrega pela mão,

beije-me como quem me ensina o caminho.

Faça da minha pouca paciência sua técnica de indução,

de motivação,

e da minha sofreguidão,

tua didática,

tua prática de educação.

Q

Quase surdo, olhar vadio.

O vento é meu animador de plateias.

Em frente à minha casa há

palmas e palmeiras

de um jardim em desuso e abandono,

quando o vento passa sobre elas

ouço o som de aplausos.

Sonho.

Pela minha calçada

passa gente atarefada,

batem seus pés na rua

em passo marcado

como em uma parada.

O som mudo dos apressados,

quase surdo

de marcação,

procissão,

quase nada,

marcha fúnebre

ou batucada.

Da minha janela

vejo o outro lado da rua.

Vejo quase nada.

De dentro de minhas

quatro paredes

vejo, porém,

no pouco divisado,

o lado de fora

do meu coração aprisionado.

R

Recife

Janeiro e o mar eterno

Em sua boa viagem,

Cíclico como o tempo.

A sujeira humana corre para o interior

E os rios como veias

Devolvem ao mar o sangue aos pulmões.

Pontes.

A areia em festa,

O coqueiro e o vento.

O vento morno, a água morna

Como num ventre.

A alma calma

E as lembranças guardadas

Em velhas catedrais.

Firmes como arrecifes

E eternas como o mar.

Jogando xadrez com o tempo

Relatividade

A luz veio da mais distante galáxia

trazendo toda a sua vida.

Toda sua beleza de presente.

Mas é tão grande a nossa distância

e tão lenta a luz

que só me alcançou no seu passado.

Risada rainha.

Riso, risada.

Riso raso, riso largo,

riso ruço, roto.

Risoto.

À bandeiras despregadas,

gargalhadas.

Riso irrazoável.

Sem razão.

Grato, gratuito,

impagável.

Genuíno e vulgar,

franco e barato.

Para todos, popular.

O sorriso vazio

na boca sem dentes.

Indecente

como beijo em praça pública.

Liberado, libertário.

Incendiário.

Fogo d’alma,

seu riso.

Seu siso, sua palma,

seu regozijo.

S

SAMPA BLUES

Que terra é essa,

que desconheço

desde o dia em que aqui nasci?

Que terra é essa,

única,

onde me sinto em casa

por não ter mais aonde ir?

Que terra é essa,

que me acolhe em seu seio

aos bofetões e nomes feios?

Que terra é essa,

que é minha e que sou dela

por direito de nascença

e que nos tratamos, ambos,

com tão grande indiferença?

Que terra é essa?

Que amor insano,

que me faz desejar a fuga,

que me faz ansiar a volta,

que me agrada, que me revolta,

que me faz pedir desculpas,

aos que ofendes e insultas

e doido de amor perdoar

os teus meus erros e enganos.

Que peito é esse,

paulistano?

Comentário: Sampa Blues é o título de um disco do músico Robson Fernandes. É também, por si só, um verso que descreve como nada a minha cidade. Tomei-o para mim, na certeza de que Robson Fernandes saberá entender que quem dá aos pobres, empresta a Deus.

Saudades de mim.

Vivo ultimamente

como quem vive de maneira provisória.

Vivo enquanto não tenho

nada melhor para fazer.

Assim, me faltam sonhos.

Um sono profundo não descansa.

É como emendar um dia no outro

sem ter vivido a noite.

Então, tudo o que vivo é cotidiano.

É vida do prato para a boca,

e cama e mesa

e copa e cozinha,

coisa comezinha.

Não tenho ilusões nem objetivos.

E, se aos últimos tivesse,

não teria condições de atingi-los.

Vivo, desse modo, uma vida

menor do que minha alma pede.

Esta que, insatisfeita,

me pressiona e dói no peito,

como um balão de gás

envolto em concreto.

Sem destino, predestinado.

Em todo sofrimento humano eu estou presente,

com toda dor ou humilhação eu me identifico.

Todo jugo pesa sobre mim,

e eu sou escravo, prisioneiro, prostituído, refugiado.

Toda chaga me corrói e eu doo.

Toda a fome me acossa e eu definho

olhando um céu branco e fugidio.

E se nada disso sou, nem por isso

o medo menos me sufoca.

Em toda a história da humanidade,

na história de todo homem branco, negro ou amarelo,

em fim, dispensando-se todo o multicromatismo

que tenta descrever o mesmo homem,

de todo aquele cujos hematomas são roxos e o sangue vermelho,

em algum momento, e ainda hoje,

o cotidiano é o do jugo, da chaga e da fome.

Nem posso crer na minha força de luta,

pois, no peito de todo escravo, prisioneiro,

prostituido, refugiado, lazarento ou famélico

bate um coração tão humano quanto o meu,

e eles se agarrariam a qualquer chance de salvação,

num deus ou em uma ideologia,

e se salvariam se salvação houvesse.

Mas ela não há.

Fossem outras as minhas circunstâncias e eu os seria.

Nada do que eu tenho é meu, senão, antes,

está comigo e me pode ser tomado.

Tudo o posso fazer é sofrer e sonhar,

e o que me espera é a morte,

como redentora ou maldição,

se a dor for maior que o sonho

ou o sonho me seduzir de vez.

SENHORIA

Senhora dona do meu juízo,

Desatino.

Senhora dona da minha razão,

Desvario.

Senhora dona do meu tempo,

Sumarizo.

Senhora dona do meu futuro,

Ciclotímico.

Senhora dona das minhas forças,

Desanimo.

Senhora dona do meu compasso,

Descoordeno.

Senhora dona do meu progresso,

Retrocedo.

Senhora dona da minha vida,

Agonizo.

Senhora dona do meu lugar,

Vago no limbo.

Senhora dona de mim,

Teu.

SERRA  DO  MAR

Fiapos de nuvens presos na serra,

nas copas das árvores da serra.

Serra do Mar.

Nuvens do mar presas na terra.

Serra que aprisiona o mar.

Serra do Mar.

Nuvens, neblina,

gotas de água no ar.

Beleza presa na mata

à beira do abismo

de onde se avista o mar.

Serra do Mar.

Planalto, serra, mar

e as nuvens a os igualar.

T

Tempo Livre

Alguns foram beber,

aqueles jogar bola,

ou ainda outros

andar à toa em conversas.

Eu fui orar ao senhor,

em silêncio e só,

para garantir meu lugar no céu.

Eles celebravam a vida,

eu adulava a morte.

Ou a vida após a morte,

que não é menos morte,

e, por eterna,

condenação.

U

Último Trago

                                                               Que o amigo receba este
                                                               como quem receberia
                                                               uma maldição.

Que líquido é esse

em teu copo ?

Não o tinto vinho

comum e proletário

de cálice e meio

dos jantares em família

seguido dos sonos dos justos.

Não o tinto sangue das ruas,

sempre jovem,

de luas e lutas

derramado

jor justas causas

ou causa nenhuma.

Não o douro velho,

extrato das cascas,

bagaceira áurica,

o conhaque noturno

e solitário

das reflexões maduras

e ensimesmadas,

que queimam a garganta

mas reconfortam a alma

acalmada pelo tempo decorrido.

Não o dourado solar

loiro e urínico

da cerveja de riso aberto

e seguro por estar entre amigos.

Não.

É um caldo betuminoso.

Sem o violáceo da jabuticaba

licor negro,

sumo das tuas causas próprias,

dos teus motivos e valores

que frio como a vingança

te é dado a beber.

Um anjo, o tempo e a graça.

Seus olhos perscrutam o tempo

e, num dado momento,

seus olhos param em mim

por um segundo

e observam minha alma

que sorri para você

sem obter resposta.

Pois, no instante seguinte,

seu olhar me abandona.

Igualmente encantado,

agora, por qualquer coisa

que não sou eu.

Sua alegre indiferença,

e sua volúvel curiosidade

fazem me tão bem

que à toda hora

retornam à minha memória

associadas a palavra graça,

associadas a palavra anjo.

V

VIAGEM 

Vou até onde voo.

Aos teus lábios, tua vulva,

grandes lábios, tua língua.

Minha língua

num salto cego no espaço,

no espaço compreendido pelo céu,

pelo céu da tua boca.

Vício

Você é droga pesada.

Alucina, cocaína

circulando no meu sangue.

Brilha nos meus olhos fechados,

drogados de sonho.

Entorpeço-me de você.

Minha alma sedada,

sem dor, só gozo,

foge de mim em ti.

Atemporal prazer,

onírico tudo

e nada,

quando acordo só.

Vida em linha reta

Ah! Feliz sou eu

que não fui condenado

a viver a maldição dos poetas.

Não me encanto e não engano.

No que vejo nem um signo,

nenhuma mensagem secreta.

Sempre certo e assertivo

sigo a vida em linha reta.

Ah! Feliz sou eu

que não sofro do dilema dos estetas.

Nem beleza nem arte.

Concreto e metal, dinheiro para o que resta.

Minha barriga cheia, minha bolsa completa.

Com o futuro certo e seguro,

sigo a vida em linha reta.

Ah! Feliz sou eu

que não me consumo

na dúvida dos sábios

ou na triste certeza dos profetas.

Caminho para a morte

com um sorriso nos lábios,

sigo a vida em linha reta.

Vivo, por enquanto.

Eu gosto dos cortes que cicratizam

porque eles me afirmam vivo.

E das dores e Dolores,

dos cortes e recortes do relevo e da carne.

Dos veios de vales, dos seios e das rugas.

Entre outras fugas,

estradas com um mau final,

um ponto de chegada

rumo norte,

a indesejada, a morte.

E ainda que me seja negada opção,

por agora não.

E, assim, vou me ferindo pelo caminho

como opção, e confirmação

da desdita bem-vinda

a vida.

X

X como charada

Houvera pedra no meio do caminho

Haveria ao menos caminho.

Caminho não há.

O caminho se faz a cada passo.

Mas como é duro caminhar.

A decisão, a direção,

O próximo ato

E o abismo

Na ponta do sapato.

Livre arbítrio.

Z

Zero = zeta.                                  

Neste mundo, vasto mundo

das palavras, dos verbos

e dos versos vagabundos,

meu versículo.

Cubículo.

Meu textículo, óbolo, contribuição.

Oração, discurso.

Discussão.

Sou,

somos? Seríamos

todos sãos?

Seria outra história,

oratória,

discurso em voz alta,

não

fizesse o que você me diz falta?

Chamasse você Raimunda,

podia rezar minha macumba,

cuspir na minha tumba.

Bela bunda.

Seria eu louco,

tentar rima heroica,

para paranoica, heroína

cocar ou cocaína.

Mas escrever uma oração

no meu epitáfio?

Nem a tu ou ao rabo do tatu,

à pau, à Nicolau

ou à Epitácio.

Isso cabe a quem ora,

Horácio.

Resta então o quê

a você?

Zelar para que o poema

zere em “Zê”.

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1 comentário

  1. Parabéns pelos bons/excelentes poemas aqui mostrados. Não li todos mas os cinco ou seis primeiros (lá em cima, os mais recentes) me revelaram, além de alguns outros lidos aleatoriamente, me revelaram um grande poeta, de muito boa qualidade, com uma excelência constante ou muito frequente que eu quisera ter para mim mesmo (também escrevo poemas/poesia e, de vez em quando, alguma Poesia mas sem a admirável propriedade poética vista nestes poemas daqui). Bom saber que ainda há muito bons (e/ou, mesmo, excelentes!) poetas por esse imenso Brasil de tanta e tão variada poesia. Avante ! ! ! ! !

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