Os doze meses que decidiram o golpe

Três textos vistos em retrospectiva mostram como, em doze meses, o poder econômico foi do apoio à Dilma ao golpe do impeachment.

Um mês de cachorro louco na política

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Em meados de julho de 2015, o mês de agosto daquele ano era esperado como o início do fim do Governo Dilma. Mas agosto não foi o mês de desgostos que todos previam. Ao contrário, representou uma virada no quadro político. O impeachment parecia afastado.

A garantia da ordem democrática no Brasil tornara-se uma a ideia-força que uniu do PCO ao New York Times pelo “Fica, Dilma”.

O governo Dilma recebia o aval da FIESP e FIRJAN, do BRADESCO, do Financial Time, do NY Times e até da Globo na figura de ninguém menos do que um representante da família controladora do grupo, João Roberto Marinho.

E em relação a esse último, o aval não poderia ser mais explícito: “Dilma deve ser sucedida por quem ganhar em 2018”.

Um ano depois, Dilma sofreria um golpe na figura de um impeachment apoiado pelas mesmas forças que lhe foram avalistas.

O que teria mudado nesses doze meses?

Quem pagará a conta da normalidade democrática?

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Ocorre que a instável manutenção da ordem democrática fora obtida por uma concertação à direita do espectro político. Dela participaram a mídia mainstream, empresários, entidades de classe patronais e fortemente o poder financeiro.

A esquerda, as centrais sindicais e os movimentos populares demoraram muito em perceber a bandeira da manutenção da ordem democrática. A classe artística e a intelectualidade, com as raras exceções de praxe, sequer participaram. Não que a esquerda tenha vindo a reboque do patronato, não. Mas vieram tarde e vieram fracos. A esquerda era adjutória nas forças que davam apoio do governo.

Não era difícil perceber-se o risco – o custo da manutenção da ordem democrática ser pago pela classe trabalhadora. Transformando 2º governo Dilma no 3º governo FHC.

Em setembro o que era risco, tornou-se ultimato.

Última chance – os fiadores apresentam a conta

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Menos de um mês após os apoios, um editorial de primeira página da Folha de São Paulo verbalizava o que os donos do poder haviam definido para ser o programa de governo de Dilma.

Do editorial da Folha de São Paulo de 13 de setembro de 2015 – “Última chance”.

“É imprescindível conter o aumento da dívida pública e a degradação econômica. Cortes nos gastos terão de ser feitos com radicalidade sem precedentes…

A contenção de despesas deve se concentrar em benefícios perdulários da Previdência…

Deve mirar ainda subsídios a setores específicos da economia e desembolsos para parte dos programas sociais.

As circunstâncias dramáticas também demandam uma desobrigação parcial e temporária de gastos compulsórios em saúde e educação…

… devem-se providenciar mecanismos legais que resultem em efetivo controle das despesas –incluindo salários para o funcionalismo, condicionando sua expansão ao crescimento do PIB.

Não há como fugir de um aumento de impostos, novas alíquotas sobre a renda dos mais privilegiados e a ampliação emergencial de taxas sobre combustíveis…”

Da queda da taxa de juros, nenhuma palavra.

Mas o editorial ia direto ao ponto:  a administração Dilma Rousseff está por um fio”.

Dilma até tentou a quadratura do círculo com o Ministro Joaquim Levy – indicado pelo setor financeiro. Mas não encontrou o ponto de equilíbrio entre o compromisso com seus eleitores e as determinações do patronato. E não o encontrou porque não havia. Era cumprir as ordens ou cair. Em dezembro de 2015, com o pedido de demissão de Levy, estava dada a senha para o golpe. Dilma não cumprira as ordens dadas – cairia.

No mesmo dezembro, Eduardo Cunha aceitaria o pedido de impeachment, em maio de 2016 a Câmara aprova a sua admissibilidade e, no último dia de agosto, com o impeachment de Dilma, Temer assume o mandato.

Compare-se agora o editorial ultimato da Folha com programa de governo de Temer.

posse de Temer

PS: os que acreditam que a terceirização trará aumento do número de empregos devem ser lembrados de que, durante o período escravagista no Brasil, por 350 anos, os escravos viveram em regime de pleno emprego desfrutando de um único direito trabalhista – o de morrer.

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