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15/12/2014

O Caso Venina-Petrobras: contando outra história.

A reportagem do Valor Econômico de 12/12/2014, com as declarações de Venina Velosa da Fonseca é uma enorme mistura de dados, personagens e, principalmente, datas. A ordem cronológica é atropelada e tenta envolver a atual presidente da Petrobras, Graça Foster, com o escândalo da Operação Lava Jato. Quando se colocam nomes, fatos e datas em sequência lógica, outra história é contada.

Antes de qualquer coisa, algumas datas e personagens são importantes:

Sergio Gabrilelli – presidente da Petrobras de 2005 a 13FEV2012. Substituído por Graça Foster a partir de então.

Graça Foster – diretora de óleo e gás até FEV2012 e presidente da Petrobras a partir de 13FEV2012.

Paulo Roberto Costa – diretor de abastecimento da Petrobras a partir de 2004. Responsável pelas obras da Refinaria Abreu e Lima. Demitido por Graça Foster em 02MAI2012.

Operação Lava Jato da Polícia Federal – deflagrada em 17MAR2014, Paulo Roberto Costa é preso em 20MAR2014.

Venina Velosa da Fonseca – gerente da Petrobras durante a gestão de Paulo Roberto Costa e por ele afastada em OUT2009. Em FEV2010 assume a chefia do escritório da unidade da Petrobras em Cingapura, cargo que manteve até NOV2014 quanto foi afastada da função.

Jornal Valor Econômico – 12DEZ2014 – Venina denuncia que alertou a presidente Graça Foster do que ocorria na Petrobras.

Contando outra história.

Venina é geóloga e foi gerente de uma área técnica da Petrobras – a Diretoria de Abastecimento sob a direção de Paulo Roberto Costa. Gerente de que setor, não logrei identificar em nenhuma matéria que li sobre o caso. Mas é certo que era poderosa a ponto de interferir na condução das obras que a diretoria realizava e que era muito, muito próxima de Paulo Roberto Costa – o diretor.

Pelo menos é o que se depreende de seu email a ele em 16JAN2009.

Nele, diz que desde 1999, quando conheceu o então diretor, teve muitas oportunidades de crescimento. Destaca que “tendo a sorte de trabalhar com ele, saí de uma situação de extrema pobreza e dificuldade na infância para o cargo de gerente executiva da Petrobras, atuando na diretoria de abastecimento”.

Venina aparentemente havia batido de frente com outros gerentes da diretoria de abastecimento. Questionava vários valores relacionados às obras da Refinaria de Abreu e Lima, começadas em 2007. Denunciava-as :

“Nos últimos tempos tenho vivido momentos difíceis… diariamente me deparo com situações que geram um grande conflito de valores. Não vou entrar em detalhes porque sei que você sabe do que estou falando… Quando me deparei com a possibilidade de ter de fazer coisas que supostamente iriam contra as normas e procedimentos da empresa, contra o Código de Ética e contra o modelo de gestão que implantamos não consegui criatividade para isso. Foi a primeira vez que não consegui ser convencida a fazer. Não consegui aceitar a forma. No meio do diálogo caloroso e tenso ouvi palavras como ‘covarde’, ‘pular fora do barco’ e ‘querer me pressionar’. Confesso que eu esperava mais apoio e um pouco mais de diálogo”.

Procurava apoio do Diretor:

“Jamais foi a minha intenção forçar a implantação de alternativas de forma irresponsável, sem entender o contexto e abrangência das consequências, o que te colocaria numa situação difícil. Durante o período que trabalhei na diretoria da Abastecimento, eu ‘cresci’ e entendo perfeitamente o contexto político do nosso negócio. Naquele momento em que expus meu ponto de vista eu queria dizer que aquela forma poderia nos colocar numa situação de risco e numa exposição desnecessária.”

Mas deixava claro que não estava para brincadeiras e queria conservar a sua posição:

“Se for necessário falar coisas que vão contra o que você está dizendo, eu falarei. Sempre com a intenção de construir, nunca de emperrar ou de criticar.”

Entenda-se o que se quiser, para o bem e para mal, com uma frase, tal como, “…entendo perfeitamente o contexto político do nosso negócio”. A verdade é que de nada adiantou, pois Paulo Roberto Costa afastou Venina em outubro de 2009 e a enviou para Cingapura em fevereiro de 2010.

O interessante é que Venina nada relata a Sergio Gabrielli, então, o presidente da Petrobras. E parte para Cingapura, onde fica quietinha, fazendo cursos de aperfeiçoamento profissional e cuidando da vida. Estamos em 2010, lembremos.

Em 2011 Dilma assume o poder e a situação de Gabrielli se complica. Em fevereiro de 2012 ele é substituído por Graça Foster. Sabendo da ascensão eminente de Graça Foster, Venina tenta se aproximar da futura presidente. Não é possível saber se por revanche, por dever de ofício ou se em uma ação preventiva, Venina, em um email de outubro de 2011 para Graça Foster, ainda diretora da área de óleo e gás, entrega Paulo Roberto Costa:

Do imenso orgulho que eu tinha pela minha empresa passei a sentir vergonha…Diretores passam a se intitular e a agir como deuses e a tratar pessoas como animais. O que aconteceu dentro da Abast (Diretoria de Abastecimento) na área de comunicação e obras foi um verdadeiro absurdo. Técnicos brigavam por formas novas de contratação, processos novos de monitoramento das obras, melhorias nos contratos e o que acontecia era o esquartejamento do projeto e licitações sem aparente eficiência… Gostaria de te apresentar a documentação que tenho, parte dela eu sei que você já conhece. Gostaria de te ouvir antes de dar o próximo passo”.

O que Graça Foster, diretora de óleo e gás, poderia fazer com essas informações eu não sei, trata-se de uma comunicação quase pessoal, sobre um assunto que não é da sua alçada, nada pede e mais insinua do que relata. Agora, o que Graça Foster faz a partir de assumir a presidência da Petrobras é sabido de todos: Paulo Roberto Costa é demitido por ela em 2 de maio de 2012.

Com Paulo Roberto Costa fora da Petrobras, Venina retorna ao Brasil e tenta reassumir sua função. Talvez confiasse em uma recompensa pelos bons préstimos à presidente. Não obteve sucesso e voltou para Cingapura.  O Valor Econômico relata assim: “Em 2012, a geóloga voltou ao Rio, onde ficou por cinco meses sem nenhuma atribuição. A alternativa foi retornar a Cingapura, agora, como chefe do escritório”.

De 2012 até março de 2014, nada mais se sabe de Venina. Esteve por mais 2 anos cuidando de sua vida.

Fim da história? Não.

Acompanhemos a cronologia:

17 de março de 2014 – deflagrada a Operação Lava Jato pela Polícia Federal.

20 de março de 2014 – Paulo Roberto Costa é preso e busca uma delação premiada.

25 de março de 2014 – depois de 4 anos em Cingapura e dois anos após assumir a chefia do escritório, Venina envia um email a José Carlos Consenza – substituto de Paulo Roberto Costa na Diretoria de abastecimento da Petrobras. Venina encaminhou um e-mail a Cosenza sobre perdas financeiras em operações internacionais da estatal que ela identificou a partir do trabalho em Cingapura. As perdas ocorrem quando previsões no ponto de carga não refletem o que foi descarregado.

O interessante aqui é como Venina ficou sabendo das irregularidades. Segundo o Valor Econômico, “A geóloga contratou um escritório em Cingapura que obteve cópias das mensagens das tratativas entre os bunkers [negociadores de óleo com a Petrobras] com “fortes evidências” de desvios”.

Como é que se contrata um escritório desses? E como é que eles atuam sem violar as leis de proteção à privacidade?

Bem, seja lá como for, aparentemente não tem nada a ver com a operação Lava Jato. Mas a essa altura, a Lava Jato já tinha extrapolado de muito o superfaturamento da Refinaria Abreu e Lima e se espraiado para toda e qualquer suspeita de corrupção envolvendo funcionários da Petrobras. E mais uma vez, no limite, Venina entrega uma situação que já poderia ser do seu conhecimento há muito tempo. E se previne documentando-a através de um email.

Sabemos que a Petrobras contratou empresas de auditoria externa e formou comissões internas para fazer um pente fino em todas as suas operações.

Alguns meses depois, quando Venina, em 20NOV2014, envia novo email à Graça Foster, agora presidente da Petrobras, nele relata:

“Desde 2008, minha vida se tornou um inferno, me deparei com um esquema inicial de desvio de dinheiro, no âmbito da Comunicação do Abastecimento. Ao lutar contra isso, fui ameaçada e assediada. Até arma na minha cabeça e ameaça às minhas filhas eu tive… Tenho comigo toda a documentação do caso, que nunca ofereci à imprensa em respeito à Petrobras, apesar de todas as tentativas de contato de jornalistas… Levei o assunto às autoridades competentes da empresa, inclusive o Jurídico e a Auditoria, o que foi em vão”.

A citação “Até arma na minha cabeça e ameaça às minhas filhas eu tive…” se dá porque Venina teria sofrido um assalto ou ato de intimidação no bairro do Catete-RJ. O Valor Econômico não relata que Venina tenha feito um boletim de ocorrência desse atentado.

Interessante a frase de 2014 dirigida a Graça Foster: “Tenho comigo toda a documentação do caso, que nunca ofereci à imprensa em respeito à Petrobras, apesar de todas as tentativas de contato de jornalistas”. Parece-se muito com a de 2009, então dirigida a Paulo Roberto Costa: “Se for necessário falar coisas que vão contra o que você está dizendo, eu falarei”. Aparentemente, Venina não mudou nada desde os tempos da Diretoria de Abastecimento.

O porquê do email?

No dia anterior, 19 de novembro de 2014, Venina foi afastada do cargo que ocupava.

Em nota de 12DEZ2014, a Petrobrás afirmou que Venina foi responsabilizada por “não conformidades relevantes” pela comissão interna que apura os procedimentos de contratação nas obras da RNEST – a Refinaria Abreu e Lima e que ela fez ameaças a seus superiores para se manter na gerência.

Nesse mesmo dia o jornal Valor Econômico circulara com as declarações de Venina. Apenas apresentando-as em uma ordem cronológica bastante suis generis.

Referências:

http://www.valor.com.br/politica/3814406/diretoria-da-petrobras-foi-alertada-de-desvios

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/12/funcionaria-alertou-presidente-da-petrobras-sobre-irregularidades.html

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/11/1548049-entenda-a-operacao-lava-jato-da-policia-federal.shtml

http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/esclarecimento-sobre-as-materias-publicadas-na-imprensa-a-respeito-de-denuncias-feitas-pela-empregada-venina-velosa.htm


 

07/12/2014

Aécio falta ao próprio protesto e a Folha infla os participantes “contra Dilma”.

Vai indo que eu não vou. Piada pronta, Aécio Neves convoca o povo às ruas, mas não comparece ao próprio protesto.

A ausência de Aécio Neves deixou seu mentor e musa do movimento, Lobão, indignado. Aqui.

“Com uma fala inflamada, ele cobrou a presença dos políticos que usaram as redes sociais para mobilizar pessoas a participar do ato. “Cadê os parlamentares? Só tem ‘inimigo’ aqui. Cadê o Aécio, o Caiado? Se eu passo aqui e vejo esse pessoal, acho que é tudo a mesma coisa. Estou pagando de otário.”

Ainda segundo a Folha, parece ter sido bem confuso o mais recente protesto contra Dilma:

“O ato foi marcado por uma divisão entre manifestantes contra e a favor de uma intervenção militar no país. Os organizadores do primeiro grupo chegaram a pedir ajuda da polícia para excluir de sua passeata os simpatizantes da intervenção militar. Houve um princípio de confronto entre os grupos ainda na avenida Paulista”.

 

Mas quantos foram, afinal? Os protesteiros podem ter sido setenta, oitocentos, dois mil ou cinco mil. Tem para todos os gostos a contabilidade da Folha.

O protesto dos 70.

Pedindo intervenção militar eram cerca de 70. Após serem impedidos de seguir pela Paulista, dirigiram se ao Quartel do Exército no Ibirapuera onde foram pedir “socorro”, ameaçar dar tiros no Presidente Lula e cantar o Hino Nacional.

O protesto dos 800.

No vão livre do MASP – Museu de Arte de São Paulo – eram 800. Depois, dependendo  do gosto do freguês e do editor da Folha o número sobe.

O protesto dos 2 mil.

O protesto dos 5 mil


 

16/11/2014

Comédia divina – a Operação Lava Jato chegará ao PSDB.

Percam todas as esperanças, vós que acreditais que a maldição do PT arrastará junto o amaldiçoado PSDB.

Vejo pelas terras do reino da esquerda a esperança de que, a partir da Lava Jato, o republicanismo tome conta do nosso sistema judiciário e que passemos o país a limpo, punindo todos os envolvidos, sejam de que partidos forem.

Não são em outro sentido as declarações da presidente Dilma neste domingo, 16/11/2014.

“[A Operação Lava Jato da Polícia Federal] mudará para sempre a relação entre a sociedade brasileira, o Estado brasileiro e a iniciativa privada. O Brasil mudará para sempre porque acabará a impunidade”.

O passado recente não me permite nutrir tais esperanças.

Ao PT será cobrado que desça ao nono ciclo do inferno. Para os outros, os corruptores, creio que tudo não passará de uma estada dura, ainda que breve, pelo Vale dos Ventos. Sem dúvida, neste instante, a vida deles foi colhida em um vendaval, mas eles têm nas suas contabilidades paralelas o passaporte para o purgatório e, de lá, a passagem para um dos sete céus.

Agora, e para alguém do PSDB pego em caso de fogo amigo? Para esse, haverá sempre o limbo. Junto aos pagãos virtuosos.

Não existe, por certo, corruptor ideológico ou doleiro de esquerda. PT e PSDB dividem o poder há duas décadas utilizando-se dos mesmos métodos. Mas não são tratados, de modo algum, da mesma maneira pela imprensa e pela Justiça. Sobre o segundo, recai o protetor manto da invisibilidade midiática que retarda a cobrança de ação do letárgico braço judiciário sempre para tempos ainda vindouros.

Vejamos.

No que este escândalo da Petrobras é diferente do escândalo envolvendo a Alston-Siemens em São Paulo? As propinas milionárias do trensalão, chamadas eufemisticamente pela nossa imprensa de “cartel”.

Há a delação premiada da Siemens, informações suficientes vindas da Suíça, sabe-se quem pagou, quanto pagou e para quem pagou. Um presidente do TCE – Tribunal de Contas do Estado, apontado como beneficiário do esquema, tinha, ou ainda tem, uma ilha em Paraty-RJ e uma mansão no Morumbi, o bairro dos milionários de São Paulo.

Um envolvido no esquema, filho da nossa alta burguesia, foi indiciado pela PF, mas isso não o impediu de ser coordenador da campanha de Aécio, nem lhe trouxe maiores problemas na Câmara dos Vereadores de São Paulo.

Um procurador que cuidava do caso literalmente engavetou-o por dois anos. Declarou que havia, pasmem, colocado o pedido de informações da justiça suíça na “pasta errada”.

A que levou tudo isso? Como está o caso do trensalão?

Já ouço que o Caso Petrobras-Lava Jato é o “maior escândalo da história” do Brasil. Ora, esse não era o mensalão do PT?

Afundar a P-36, na época, a maior plataforma de petróleo do mundo, ao custo de 11 trabalhadores mortos não é escandaloso, por certo. Quem fim deu esse caso? E o da Petrobrax, dos asfaltamentos da Baía de Guanabara e dos rios Birigui e Iguaçu no Paraná?

E FHC diz que está envergonhado com o que o PT fez com a Petrobras.

Pois bem, os petistas foram condenados na AP470 e estão cumprindo pena.

Mas e o mensalão do PSDB?

Os PSDBista não serão julgados.

Eduardo Azeredo renunciou ao mandato na ultimíssima hora para escapar do julgamento no STF. E, embora já houvesse consenso de que isso não o livraria – ver caso Donadon e desdobramentos do caso Cunha Lima, livrou-se. Seu caso foi enviado à primeira estância mineira onde aguarda a prescrição. Pimenta da Veiga, que levou R$ 300 mil de Marcos Valério por “serviços internos” está soltíssimo. Foi até candidato a governador de Minas Gerais.

José Roberto Arruda, do mensalão do DEM, foi “atrevido” ao se candidatar a governador do DF. Acabou, para desgosto de FHC, seu benfeitor, tendo a candidatura impugnada, mas chegou a liderar a campanha e está por aí, livre, leve e solto. A impugnação revoltou de tal maneira ao ministro Gilmar Mendes que este chegou a classificar a Corte que assim decidiu como um “tribunal nazista”.

Alguém se recorda de como foi a atuação do ministro Gilmar Mendes no caso do mensalão do PT?

Soltos também estão Cachoeira e Demóstenes Torres. Falar de Policarpo Jr. seria um ataque contra a liberdade de imprensa.

Sem maiores cuidados está o pessoal da “Castelo de Areia”.

Assim como José Serra e a “privataria tucana” feita no “limite da irresponsabilidade”. E seu envolvimento no “cartel” do metrô paulistano – sobre o qual só deu depoimento à PF depois de eleito senador? E o Paulo Preto?

Assim como Alckmin e o buraco do metrô – mais sete mortos. Fora alguns massacres. Quem se lembra do Pinheirinho ou da Castelinho? Quem não reagiu está vivo. E a eminente crise humanitária por falta de água, mas com alguns bilhões de reais pagos aos acionistas da SABESP, aqui e em Nova York? Ninguém se interessa em saber quem são eles, os acionistas?

A FHC, nada o perturba. Nem os R$ 200 mil por cabeça para comprar a emenda da reeleição, nem os seus apartamentos. Um, em Higienópolis-SP, comprado do mesmo banqueiro envolvido na lavagem de dinheiro do trensalão, o outro, em Paris, não sei se já foi declarado à Receita Federal. Nem sua fazenda em Burutis-MG.

Não, FHC não é o dono da Friboi, essa é do filho do Lula. Mas quando FHC começou a carreira política, que eu saiba, de terras, só possuía um pequeno sítio em Ibiúna-SP. Ninguém parece ter estranhado tal aumento de patrimônio, fora da política, FHC era um professor aposentado da USP. Nem ele parece estar preocupado em explicar nada.

É pouco?

E o aeroporto construído pela Camargo Correia na fazenda vizinha a de FHC e gentilmente cedido para seu uso? Que coincidência feliz.

PSDBista gosta de aeroporto particular, quem gosta de miséria é intelectual.

Veja Aécio Neves e seus dois aeroportos em Minas. Um em Claudio – fazenda do tio, outro em Montezuma – empreendimentos do pai já falecido. Aécio está se empenhando em conseguir um terceiro turno para as eleições de 2014 e não em dar explicações sobre essas duas “obras públicas”.

E tome Lista de Furnas, pasta Rosa e caso SIVAM.

Assunto nunca faltou, mas o PSDB ser responsabilizado, algo respingar-lhes as penas?

Não, de tapioca à Lava Jato, passando pela AP 470, é o PT o partido mais corrupto da história brasileira. E só.

Todo o mais que poderia acrescentar aqui fica por conta da ironia sábia e desesperançada de Stanislaw Ponte Preta:

“Que se restaure a moralidade, ou que nos locupletemos todos”.

Fora disso, é comédia.


 

12/11/2014

Entre Tancredo e FHC. Na encruzilhada da vida, Aécio fez a escolha errada.

“E agora, José?”, inescapáveis os versos de Drummond, do mineiro Drummond. Como Shakespeare, universais, pois falam do homem que chegou a uma situação limite e tem, agora, de repensar sua vida. Inescapável relacioná-los com o momento atual de Aécio Neves.

E agora, José? 

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, e agora, José?

Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho. Já não pode beber, já não pode fumar.

A noite esfriou, o dia não veio, não veio a utopia, e agora, José? 

Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta. Quer morrer no mar, mas o mar secou. Quer ir para Minas, Minas não há mais.

José, e agora?

Aécio é um político nascido em Minas Gerais.  É neto de Tancredo Neves que era um político mineiro. Nada os une, no entanto, enquanto políticos.

Lembro-me de memória algumas frases de Tancredo:

“Um louco não é um problema. Em Minas, há muitos loucos. Nascem loucos, são meninos louquinhos, crescem, casam, têm filhos e morrem. Sempre loucos. Um louco não é um problema. Um louco só é problema quando assume o poder.”

“Um político, quando assume o Executivo, deve pensar duas vezes em tudo que faz. Até para descer da calçada deve ter cuidado. Pode escorregar e bater a cabeça, morrer e colocar o governo em uma situação de crise.” Tristemente profético.

Esse era Tancredo, que, acima de mineiro, soube-se fazer um político brasileiro. Seus contrapontos, Brizola e Ulisses eram apaixonados. Quando o país esteve em crise institucional, soube ser a resposta institucional à crise. A solução ponderada. Seja com Jango, seja ao final da Ditadura.  Sempre apresentou à nação ideias, uma alternativa, quando não um sonho, como solução aos impasses. O parlamentarismo e a “Nova República”, jamais buscou o confronto.  A ideia, a solução ou o sonho eram seus argumentos.

Mas Aécio não foi formado para ser Tancredo. Sua carreira de político não passou pela forja da adversidade, da necessidade de sobreviver e manter a coerência e a integridade ideológica frente a um poder adversário maior e ameaçador. Desde o começo protegido pelo sobrenome, o que construiu, construiu em Minas. Fora de Minas, seu sobrenome não lhe bastou. Parecia ser um conciliador como o avô, seria apenas fraco. Quando não, indolente como os herdeiros da fortuna costumam ser.

Seu desafio não foi os dois mandatos de governador. Estava em Minas. Seu desafio foi o mandato de senador. O de se fazer uma liderança no Congresso. O pensamento conservador estava órfão em 2010. Hoje, têm muitos pais de caras feias e cinta na mão.

Era, então, ter voltado aos livros de economia, às bases do liberalismo americano, aos clássicos do pensamento econômico inglês. Era então, ter ouvido nossos conservadores. Eles estão aí, de Delfim a Bresser-Pereira, passando por Lembo.  Era, então, ter formatado uma proposta alternativa a socialdemocracia encampada pelo PT. Haveria muito espaço e aceitação popular para a centro-direita em um país que passa, já há alguns anos, por viés conservador, inclusive nos costumes. Onde estão os fios-dentais das garotas de Ipanema? Só nos restou a deselegância discreta das meninas de Sampa.

Mas não, passou quatro anos exercendo a política do “besouro rola-bosta”. Nenhuma proposta, só acusações ao partido no poder. Falou dos outros, não falou de si. Tornou-se o anti-PT e não o pró-Aécio.

Na campanha, propriamente dita, cometeu o erro que nem Serra, nem Alckmin cometeram. Permitiu colar sua imagem a imagem de FHC. Trouxe imediatamente para a discussão a comparação dos governos Lula X FHC. Sua adversária era Dilma.

FHC é um buraco negro na política, uma enorme gravidade no centro do PSDB, suga toda a energia que está ao seu redor e não emite nenhuma luz.

A partir desse “pecado original”, não mais conduziu sua campanha. Foi conduzido, paradoxalmente, pelo PT.  Aécio deve ao PT ter chegado ao 2º turno das eleições de 2014. Marina Silva foi destroçada pelo PT. O PT o escolheu, Aécio, como adversário.

No pós-eleição, cometeu seu “pecado capital” – a ira. Aliou-se aos loucos problemáticos. Permitiu sua imagem ser associada ao que não se curva a vontade das urnas, ao antidemocrático – ao golpismo.

Cuspindo na biografia do avô, recusou-se ao diálogo. Sua última esperança. Dilma fez-lhe passar o cavalo encilhado à porta. Ele não montou. Onde a prudência de quem desce da calçada cuidadosamente?

A noite esfriou, o dia não veio, não veio a utopia, e agora, José?

Agora? Agora a roda rodou e é Alckmin outra vez. Alckmin é o delfim da plutocracia paulista, é a sua cara.

Dezembro está logo aí, as festa de fim de ano, janeiro em férias de verão, o carnaval em fevereiro e a nova legislatura em 2015, a partir de março. O velho Senado com outros nomes.

E se Anastasia, agora, tão senador quanto Aécio, mas com fama de bom administrador e com uma trajetória vencedora, em seu primeiro discurso no plenário, trouxer uma proposta viável e independente? O que fazer com ele? Despacha-lo para BH?

O que ser agora, ser o Aloysio Nunes, fazer o serviço sujo? Já há Aloysio Nunes.  E ser o que então, após o leviano dedo em riste?

Fora isso, Aécio é um problema pra a candidatura Alckmin. Será bombardeado pela grande imprensa sediada em São Paulo. Não poderá dar as costas a José Serra – seu escorpião desde sempre e agora no mesmo Senado que Aécio.

Quer ir para Minas, Minas não há mais.

Ser ele o candidato a prefeito em 2016, tentar o governo mineiro em 2018, conformar-se com o Senado? Viver a maldição do eterno retorno de Nietzsche? Um samba de Vanzolini para dar a volta por cima ou a única coisa a fazer é tocar um tango argentino de Manuel Bandeira?

Entre Tancredo e FHC. Na encruzilhada da vida, Aécio fez a escolha errada.

E agora, José?

Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio – e agora?

Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José!

José, pra onde?


 

28/10/2014

Brasil, um pais como nunca. Mas com feridas a serem lambidas e espaços de convivência a se construir.

Num domingo qualquer, qualquer hora, ventania em qualquer direção, sei que nada será como antes, amanhã.

São versos da belíssima “Nada será como antes” de Milton Nascimento. Vieram-me à mente ao relembrar o domingo, 26/10/2014.

Talvez ainda não nos tenhamos dado conta que existe um novo Brasil após a reeleição de Dilma Rousseff. Um Brasil como não existiu antes. No passado, em situações limites como a que vivemos no biênio 2013-2014, a “solução” para o enfrentamento entre duas correntes políticas distintas veio através da ruptura democrática.

Pela primeira vez em nossa história, a solução de uma situação política extrema se dá com o respeito à ordem constitucional. E esse é um Brasil como nunca.

Malgrado os radicais insanos que chegam a pregar a divisão territorial do Brasil, o país segue em frente, ainda aparentemente despercebido do enorme salto democrático dado. Como em um aforismo de Ibrahim Sued: “os cães ladram e a caravana passa”.

Não que o processo eleitoral esteja isento de perdas e danos e de riscos, de feridas a serem lambidas. E da necessidade de invenção, ou aceitação, de novos espaços de convivência, nosso maior desafio.

Mas, deste instante e deste lugar, já me arrisco a fazer algumas observações.

O TSE sai enormemente fortalecido. Não foram poucos e não sem motivos os que falaram em fraude, falaram em golpe. A vitória do PT por tão pequena margem de votos, diante do poder das forças que lhe eram contrárias, e a enérgica e tempestiva ação em relação ao seja lá que nome se dê praticado pela Revista Veja às vésperas da eleição não deixaram dúvidas sobre a sua capacidade e autoridade em conduzir o processo eleitoral.

O PT ganhou? Se dúvida. Neste segundo turno, sua coligação teve literalmente contra si todas as outras, a exceção do pequeno PSOL, que, mesmo assim, se declarou neutro. A imprensa, o empresariado, o setor financeiro e malucos de toda ordem se uniram contra ele. Se saiu vitorioso, é porque teve a favor de si um povo maior do que todas essas forças. E isso é vitória.

Mas o PT foi surpreendido também.

São… São Paulo meu amor. São… São Paulo quanta dor”.

Em São Paulo, seu berço, o PT praticamente não existe mais. Como foi duro estarmos de repente tão sozinhos, tão expostos, como exigiu firmeza declarar-se paulista e petista.

PT – como foi possível que o povo pobre, que o povo operário o rejeitasse? Quando esse povo não o apoiou antes? Eis a principal reflexão que todos os de esquerda precisamos fazer. A partir daí, será possível entendermos o que se passou no sul e no centro-oeste.

Não, para 2018 não é Lula. Ele tem uma missão maior.

Talvez estejamos assistindo o fim de um ciclo, o fim do ”lulismo”. E isso não é ruim. Não é o fim de Lula, por óbvio, é o fim da imagem linda do operário que chegou a presidente ou do fincador de postes que iluminam o Brasil. O fim dessas imagens não se dá por que elas se desvanecem e sim porque, vitoriosas, cumpriram sua missão. Vejo Lula como o construtor do PT socialdemocrata alinhado com o que houver de progressista na nossa sociedade. Vejo Lula como o construtor do PT pós-Lula. Ainda não sei como, mas sinto que é por aí.

A grande mídia ganhou? Ganhou e perdeu. Não derrubou, nem fez o presidente, sai exaurida e mais desacreditada. Mas ainda é um poder enorme e assustador de persuasão.

A internet ganhou? Tanto quanto há ganhos em um campo de batalhas.

Aécio ganhou? Obteve a maior votação desde a chegada do PT ao poder no governo federal.

Não, Aécio perdeu. Perdeu porque não ganhou, perdeu porque teve todas as forças da oposição ao seu favor, porque teve a tragédia a seu favor e isso não foi o suficiente. Quando isso ocorrerá novamente?  Mas, principalmente, Aécio perdeu, porque perdeu Minas. Quem conhece Aécio não vota em Aécio. Enquanto não desfizer essa maldição, ou castigo, Aécio não ganhará.

O PSDB sai das eleições novamente dividido e velho. José Serra, Alckmin, Tasso Jereissati serão esse os líderes da mudança? Matarão se para escolher o candidato à presidência em 2018. Trairão o escolhido.

De Marina e do PSB talvez seja mais generoso nada falar. Perderam perdendo.

E, por fim, Marilena Chauí ganha onde a nação mais perdeu. Como não lhe dar razão na leitura que fez da nossa classe média:

“A classe média é uma abominação política porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”?

Como isso se mostrou verdade nestas eleições, ainda que, paradoxalmente, dessa mesma classe média comece a resurgir uma revivida, jovem e ainda tímida parcela dizendo não ao preconceito. São maravilhosos, são ainda poucos e, assim, a cara com que a classe média saiu na foto é feia.

Meninas branquinhas, loirinhas com dentes perfeitos e uma boca imunda e um coração mesquinho. Jovens adultos igualmente brancos, com nível educacional superior, vestidos com roupas de grife como em uma propaganda de shopping center e agindo com a truculência e a boçalidade das nossas abomináveis torcidas organizadas em dia de clássico.

Sempre foram assim? Não, morreram nos porões da ditadura e inundaram as praças nas “Diretas Já” para construir um Brasil democrático. Quando e por que mudaram?

Não é o caso de não terem identificado o PT como um partido que defendesse o seus interesses. Isso até seria entendível. Não é o caso de lhe fazerem oposição. Foi a forma como essa oposição se deu, transbordante de ódio cego. Adotaram a máxima fernandina – “pode ser qualquer um, desde que não sejam eles”. E esse “eles” é o PT, mas também são os nordestinos ou qualquer um que lhes seja diferente. Que grande contribuição desse sociólogo para o nosso quadro social. Sem dúvida, não é necessário esquecer apenas o que ele escreveu. Necessário e profilático.

Uma classe média que participa de uma odiosa luta de classes, mas acusa Lula de jogar pobres contra ricos. Filiam-se aos ricos, sem deles obterem o seu quinhão e sem perceber que são tão somente pequeno-burgueses, em sua maioria. Tão próximos do proletário, tão distantes. Não se sentem beneficiados pelo crescimento econômico e social da era Lula-Dilma, talvez não tenham sido beneficiados mesmo. Assusta-lhes ver que os pobres se aproximam, odeiam os por isso. Desejam que lhes sejam restabelecidas suas vantagens comparativas. Esperam que a não luta de classe se dê pelo pobre aceitar passiva e pacificamente seu lugar de inferior. Nossa luta de classes é invertida.

Essa talvez seja a nossa maior perda. Não, com uma classe média assim, não construiremos uma nação. Um mercado consumidor, com certeza, mas não uma nação.

E, no entanto, eles estão nas ruas gritando por algo. Deram lhes ódio, disseram lhes que era esperança,  que era o caminho da mudança. Eles acreditaram, ódio embriaga, fascina.  Mas não lhes deram mais nada.

Uma vez, o PT tomou a bandeira da socialdemocracia que o PSDB usava como engodo, tomar essa classe média que o PSDB hoje usa como massa de manobra é o seu grande desafio. Mas para isso, o PT tem de deixar de se orgulhar de em seu governo os ricos terem ganhado dinheiro como nunca.


 

17/08/2014

O discreto charme de Marina Silva

Marina Silva personifica uma contradição sedutora, sorri para a modernidade enquanto se apresenta confiável ao conservadorismo. Depois de Collor de Mello e FHC, é o novo ilusionismo da direita.

Marina e o olhar as nuvens.

Marina é um caso de radicalismo improvável de ser posto em prática. Alimenta simultaneamente esperanças nos extremos do nosso espectro político. A extrema esquerda e a direita se unem para apoia-la. “Terceira via” paradoxal, Marina faz oposição ao centro.

Um governo Marina é a garantia da traição a um dos lados que hoje a apoiam.

No entanto, messiânica, parece trazer em si a certeza das ações necessárias para a consecução de cada uma dessas esperanças. Marina não tem a solução dos problemas, Marina é a solução. Mas uma solução que não se dá à maçada de apresentar propostas concretas.

Marina encarna um discurso de crítica ao sistema. Mas é algo pensado para ser vago, fugidio. É como olhar as nuvens. Cada um vê nelas o que quer ver, as nuvens em momento algum se responsabilizam por nossos sonhos, apenas os inspiram.

Marina tem um que de modernidade que se expressa em um falar protofilosófico que parece ser compreensível apenas aos iniciados, mas, sem dúvida, transmite confiança no que fala. E, assim, afasta o contraditório. Para fazer o contraditório é necessário entender os argumentos do interlocutor. Se o que se ouve não passar de um jogo de palavras pretensamente modernoso, como contraditá-lo?

Marina pode ser tudo, mas tola ela não é, vai adiar o quanto puder o debate sobre suas contradições.

Marina Silva é um poço de contradições.

Marina tem origem no movimento ecológico, mas há muito isso deixou de ser seu campo de militância. Alguém se lembra da última causa na qual Marina esteve à frente, dando a cara à tapa?

Vinda das classes populares, de pequenos agricultores e extrativistas da floresta amazônica, Marina tornou-se ícone da classe média urbana do sudeste e sul. Já há tempo que o Acre deixou de ser seu referencial.

Na Folha de São Paulo, a colunista Eliane Cantanhêde, dias atrás, saudava uma das características de Marina que deve ajudá-la em muito na conquista de votos – é evangélica. Mas Marina não encarna a “nova política”, aquela na qual não se trata eleitores como se fossem parte do “curral eleitoral” do candidato?

Questionar Marina sobre sua posição em relação à descriminação do aborto é ocioso. Mas ninguém ainda perguntou à Marina a sua posição sobre o ensino religioso nas escolas públicas. Ou sobre o currículo escolar das aulas de ciências no ensino fundamental ou de biologia no ensino médio. Musa dos “verdes”, é criacionista. Sua posição sobre esses assuntos seria muito relevante para seus eleitores.

Apesar de ser lembrada pela causa ecológica, Marina é apoiada por banqueiros e industriais. A Natura e o Itaú são quase parte do seu partido. Se é que não são o seu “partido”, já que o Rede ainda habita o campo das possibilidades.

Alguém já ouviu uma palavra de Marina sobre a manutenção das conquistas sociais dos últimos 12 anos? O Bolsa Família, o PROUNI, o PRONATEC, o “Mais Médicos” e a recomposição do valor do salário mínimo, por exemplo?

O que sabemos de Marina a respeito da política econômica? Que Marina defende a ortodoxia neoliberal expressa no tripé – metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante.

Música para os ouvidos da especulação financeira.

Metas de inflação são alcançadas, no mais das vezes, com juros altos e trazendo a inevitável redução da atividade econômica, mas altos ganhos ao setor financeiro. O superávit primário vai garantir os recursos necessários para pagar os tais juros, mas, com a redução da atividade econômica, a solução é o corte dos gastos sociais. E o câmbio flutuante garante os ganhos de capital pela simples intermediação financeira praticada por fundos de investimentos internacionais ou sediados em “paraisos fiscais” e nos coloca vulneráveis a ataques especulativos que realimentam o processo de especulação. Por fim, com a livre circulação de capitais, base da idéia de câmbio flutuante, está assegurada a expatriação integral dos lucros dos “investidores internacionais” e dos investidores internacionais.

Algum jornalista já questionou Marina sobre isso e se isso não seria uma retomada do modelo do governo FHC?

E quanto ao papel do Banco Central na condução da política econômica? Bom, em relação a isso, Marina já se posicionou. E claro, ela é favorável à autonomia do Banco Central – não autonomia formal, mas autonomia de facto.

Nós não defendemos a formalização da autonomia do Banco Central. Na realidade, a autonomia já faz parte das leis que pertencem a esse ramo do direito. Mesmo que (a autonomia) não seja formalizada ela se estabelece a partir do consenso social, político cultural. (Se isso fosse para o debate do Congresso), criaria um risco de colocar em discussão uma questão como essa. Se um grupo decidir que não terá autonomia, nós estaríamos diante de uma fragilização dos instrumentos de política-macro econômica que não é desejada. Não há necessidade de institucionalização”. Aqui.

Um exemplo da prolixidade a serviço da dissimulação de intenções.

E pensar que Aécio apanhou um bocado por ter se comprometido com as tais “medidas impopulares”.

Há ainda outras questões em aberto em relação a um hipotético governo de Marina Silva.

Marina é uma adversária do agronegócio – os tais “latifundiários”.  Ocorre que o agronegócio não é mais, no Brasil, apenas a agricultura e a pecuária tradicionais. O conceito correto para nós é o da agroindústria. Trata se da nossa área de maior desenvolvimento tecnológico, um dos nossos maiores empregadores, inclusive com empregos de nível superior, e a principal fonte de exportações brasileiras e uma das nossas garantias contra a inflação.  Qual será a fonte de receitas que Marina irá buscar para substituí-lo? Turismo ecológico?

É bom que se pergunte isso a Marina. Como também sobre qual a sua opinião em relação área da mineração, da exploração do pré-sal e da geração de energia elétrica.

E sobre a privatização e o papel do Estado como indutor do desenvolvimento econômico.

Precisamos conversar sobre Marina.

Aécio não conseguiu formar empatia com o eleitor, patina na casa dos 20% de intenções de voto há meses. Só cresce agregando “in extremis” o voto de ódio antipetista. Mas nem assim as pesquisas apontam uma vitória, sequer um segundo turno é garantido. Tem, além disso, todo o passivo dos seus governos e correligionários em Minas.

Marina não. Pode-se molda-la às expectativas dos sonhadores, dos indecisos e dos insatisfeitos. E, com ela, é possível odiar o PT sem ter de baixar ao nível do calão, de mandar a presidente da República tomar no cu.

Garante a volta do conservadorismo ao poder, mas com a leveza de uma “sacerdotisa dos povos da floresta”.

Um símbolo charmoso e dissimulado como o foram os ares de modernidade e dinamismo com Collor de Mello e de intelectualidade com Fernando Henrique Cardoso. E esses governos foram o que foram.

Por tudo isso, aqueles que defendem a posição da esquerda, da social democracia, precisam muito falar sobre Marina, apontar mais uma tentativa de engodo.

Depois de Collor de Mello e FHC, Marina é o novo ilusionismo da direita.


 

01/08/2014

Sininho e o dia seguinte na Terra do Nunca.

Sininho como representação e o desencanto de uma geração adultescente que acreditou na inconsequência como ação de transformação revolucionária da realidade.

Não há como não se enternecer, de alguma forma, com a figura da personagem Sininho. Traz em si a figura da filha adolescente, frágil e radical.

Até o codinome – Sininho – lhe cai apropriadamente bem. Uma personagem que saiu da “Terra do Nunca” da internet e inspira a tropa dos “meninos perdidos” na sua tentativa de alcançar a utopia pela destruição do mundo real.

Sintomático dos dias atuais é que há Sininho e há meninos perdidos, mas não há um Peter Pan. Sininho é a líder dos meninos perdidos.

Mas Sininho é uma ficção. Não é professora, não é sindicalista, não é bailarina, não é socialite. É qualificada ora como “ativista”, ora como “produtora cultural”.

Seu cavalo, Elisa Quadros Sanzi, no entanto, chegou à casa dos trinta, muito provavelmente com formação superior e tendo recebido da família a estrutura necessária para ser, hoje, uma jovem adulta de quem se espera a consequência nas ações.  E a consequência é o que se espera de adultos, mesmo, e talvez principalmente, em ações que busquem a transformação da realidade.

O oposto disso é a principal característica do que chama “movimento” – a inconsequência.

Quem forma esse movimento?

Anarquistas de internet, carbonários anacrônicos, incendiários saídos da Academia ou de histórias em quadrinhos, punheteiros imberbes, a criminalidade comum e os oportunistas de toda ordem.

Isso forma um movimento?

Lênin – Vladimir Ilitch Ulianov, já dizia que batatas dentro de um saco formam um saco de batatas, mas não formam uma organização.

Pena que Sininho e seus amigos não tenham lido “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”.

Teriam aprendido com um mestre revolucionário que a transformação do mundo se faz num passo-a-passo onde a revolução não é sequer o primeiro passo, quanto mais o último ou o fim.

A transformação do mundo não é nada divertida. Assemelha-se mais ao trabalho de operários.

Ao invés disso, Sininho e seus amigos retomaram o grito de “não sabemos o que queremos, mas sabemos o que não queremos”. E o que não queremos é o sistema – seja lá o que entendam como sendo “o sistema”.

Nada disso é novo. Quem empunhava essa bandeira aos dezoito anos hoje já está na terceira idade – é provavelmente um aposentado de 65 anos. Isso se sobreviveu a “sexo, drogas e rock and roll”.

Lutar contra o sistema traz em si um dilema a ser resolvido de antemão, quando não um paradoxo. Quando se destrói o sistema, algo deve ser colocado, ou se coloca por si próprio, em seu lugar. E, então, outro sistema se estabelece.

Essa é a lição de Lenin que Sininho e seus amigos não aprenderam.

Na Terra do Nunca não há dia seguinte, logo, não há um sistema a ser substituído por outro sistema. Mas Sininho e seus amigos não estão mais na Terra do Nunca, foram trazidos a força à terra dos homens.

Não admira que estejam todos sem chão diante da responsabilização judicial. O que esses “revolucionários” esperavam das forças da repressão, das forças do partido da ordem? Que se se limitassem a fazer a segurança do playground e os deixassem brincar em paz?

Interessante também é notar que essa geração é ingênua a ponto de não ter percebido o quanto a sua ilusão de transformação radical foi instrumentalizada pelo reacionarismo.

Serviram a quem interessava criar um ambiente de instabilidade que ajudasse a enfraquecer o governo da esquerda democrática para facilitar o retorno ao poder do conservadorismo.

Sininho e os meninos perdidos não são mais úteis a essas forças. Podem ser descartados.

Aprenderão da pior forma que o Judiciário é o lixeiro do sistema ao qual serviram pensando que o estavam combatendo.


 

14/07/2014

Seleção brasileira, uma vítima da nossa guerra fria tardia.

Caía a tarde feito um viaduto.

Lembrei-me desse verso de Aldir Blanc olhando para o estado de ânimo da nossa seleção na derrota para a Alemanha. A imagem de uma estrutura que se colapsa sob um peso para o qual não estava preparada nem era de sua responsabilidade suportar.

Não está sendo fácil, mesmo para os mais experimentados comentaristas esportivos, explicar o “apagão” da seleção brasileira de futebol nesta Copa do Mundo do Brasil. E que o assunto seja, nos nossos jornais, tão comentado nas colunas de política quanto nas sobre futebol é sintomático da dificuldade que nossos cronistas esportivos terão para fazer um diagnóstico, se é que um dia o farão.

Falam dos jogadores, falam do esquema tático escolhido pela nossa comissão técnica. Não, isso explicaria as derrotas de 2006 e 2010, mas não a de 2014.

Em 2006, claramente tínhamos uma seleção motivada para tudo, desde que esse tudo não incluísse jogar futebol. Com jogadores bacantes acima dos 100 kg de massa corpórea e outros veteranos com interesses outros, que iam das cartas de vinhos finos ao automobilismo, nossa seleção foi a mais completa tradução do termo “blasé”.

Já em 2010, estávamos, sim, emparedados pelo esquema tático 4-4-2. Quatro zagueiros, quatro volantes e dois meias de contenção. Éramos a seleção da retranca carrancuda e furibunda.

Em uma pecamos pela falta na outra pelo excesso. Mas não hoje.

Nossos jogadores não são piores que os de nenhuma seleção, nem foram convocados deixando de fora grandes craques, como outras vezes aconteceu. Ainda que façamos restrições a um ou outro nome, dois vindos de longos períodos de pouca ou nenhuma atividade, quem é o grande jogador que ficou fora?

Quem é o grande craque que não temos? Robben e Van Persie? O que fizeram contra Costa Rica e Argentina? Messi? Desequilibrou mesmo os jogos? Que grande nome da seleção alemã era conhecido da torcida brasileira antes do início do mundial?

Paramos de gerar craques? Não, formamos e os desgastamos como perdulários, tal a nossa fartura. Estamos realmente carentes de Kaká, Ronaldo, Ronaldinho Gaucho e Robinho, entre outros? E se fossemos a Argentina? Basta recordar a “musiquinha”, ainda citam Maradona e Caniggia.

O que nos faltou foi o craque? É possível formar-se uma fantástica seleção com jogadores de países que não se classificaram. Mas mesmo assim, não temos somente Neymar e mais dez. Temos uma seleção na sua maioria formada por talentos valorizados e atuantes no futebol europeu.

Seria, então, o esquema tático superado?

Não, não vimos uma Holanda de 1974 onde posições se alternavam em campo como imagens se alternam em um caleidoscópio, levando os adversários a uma fatal confusão mental. Não vimos um Barcelona, a melhor síntese entre o futebol e o balé clássico.

O que vimos de Holanda e Alemanha, nossos dois carrascos? Equipes essencialmente defensivas que descem em contra-ataque pelas laterais e cruzam a bola para a entrada da grande área. Algo revolucionário? Não, o exemplo acabado do “jogo feio” que tanto abominamos. É com eles que devemos aprender?

Mas, então, por que nossos jogadores pareciam chutar de canela e estar perdidos em campo? Arrisco-me a dizer que isso é consequência e não causa. Arrisco-me a dizer que a causa está na resposta de por que desabaram em prantos. Tentavam se desvencilhar com as lágrimas do enorme peso que carregavam sobre as costas.

São jogadores de futebol, estão preparados para lidar com a pressão e a cobrança por resultados esportivos. Mas não estavam preparados para suportar a tremenda pressão política que foi colocada sobre eles. Não tinham o ferramental emocional necessário para lidar com tamanhas questões extra-campo.

Não lembro-me de nenhuma outra Copa onde a pressão política tenha influído tanto. Talvez 1978, mas não afirmo com certeza. As pressões extra-campo colocadas sobre nossos atletas estão mais para certas olimpíadas. Mais precisamente para as de Berlim de 1936 e para as de Moscou em 1980 e as de Los Angeles em 1984.

Três eventos mais políticos que esportivos. Na primeira tratava-se de provar a superioridade ariana, nas outras duas, tratava-se de provar a superioridade dos modelos comunista e capitalista, cada uma a seu tempo.

Nesta Copa do Mundo, o mesmo clima de tensão política, tratava-se de derrubar o governo. Não era uma Copa, era uma revolução. E assim tinha sido desde a Copa das Confederações, no ano anterior, disputada sob protestos violentos na porta dos estádios a ponto da FIFA cogitar um plano B. O mesmo era prometido para esta Copa.

Qual foi a campanha levada a efeito pela nossa grande mídia e por grupos de extrema direita e extrema esquerda?  Do terrorismo da Veja, basta lembrar a capa dos estádios só prontos em 2038. A Folha de São Paulo criou o serviço “protestômetro” para facilitar a vida dos “protesteiros” e manteve a editoria “A Copa como ela é”, inicialmente, para divulgar, mais do que para noticiar, os tais “protestos contra a Copa”.

Era outra a intenção do candidato que entrou no STF com ação para liberar os protestos dentro dos estádios? Quantas vezes as palavras caos e vergonha foram associadas à Copa?

Nas vésperas da Copa comentei:

“Essa campanha de desconstrução já não pode ser encarada como parte da estratégia eleitoral do nosso maior partido de oposição – a grande mídia. Passou a ser um dado sociológico. Foi capaz de modificar a auto-imagem do brasileiro. O brasileiro passou de um povo alegre, hospitaleiro, festeiro e laissez faire para um povo capaz de ameaçar turistas estrangeiros como fossemos um terrorista do oriente médio. Carrancudo a ponto de não participar da própria festa pela qual esperou mais de meio século. Oportunista a ponto de agredir um símbolo como a seleção brasileira de futebol para chamar atenção para suas reivindicações salariais e intolerante e violento a ponto de linchar meninos carentes e senhoras emocionalmente desajustadas”.

Vivíamos uma era de absurdos.

Tudo era permitido sob o manto do #nãovaitercopa, de greves abusivas a linchamentos, passando por passeatas violentas, ocupações e até ataques de índios. Sem falar no ônibus da seleção cercado e apedrejado. Uma cena desse nefasto oportunismo ao qual estavam sendo levados os que tinham uma causa justa a defender, mas também os que defendem causas inconfessáveis.

E, em meio a tudo isso, a convocação e preparação de uma equipe para disputar um torneio de alto nível. Como isolar aquelas pessoas, protagonistas involuntários desses conflitos políticos?

Não houve como e a pressão e a apreensão se instalaram em seus corações e mentes. Era, nossa seleção, em última instância, a responsável por faltar escola para nossas crianças e nossos doentes morrerem no chão dos hospitais “deitados em cima de um paninho”.

Por fim, a Copa começou e, do nada, nossa brasilidade falou mais alto. Tudo se inverteu, era a Copa das Copas, tudo funcionava como no primeiro mundo, dos aeroportos ao transporte público e à segurança. A festa estava nas ruas. Nossos jogadores passaram a ser os cavaleiros da República, não houve candidato que não envergasse a camiseta amarela em público. A boca que antes escarrava era a mesma que agora trazia beijos e juras de amor.

Ocorre que o amor que substituiu a agressão era um amor doentio, contaminado pelo sentimento de culpa. Quase uma ordem: “Joga pra mim!”. E esse tipo de amor cobra a submissão incondicional do objeto amado. E aí veio a obrigação de ganhar a Copa, a derrota não era a contra-face da vitória, era o opróbio nacional. E o Hino gritado a capela era um aviso muito claro da torcida, mas não exatamente do povo, para a seleção. E da seleção respondendo à torcida que a havia entendido e aceito o compromisso. Entendido e aceito, mas não suportado.

Esgotados emocionalmente por tal redemoinho de paixão política, o colapso, a derrota e o choro de alívio foram as consequências.


04/06/2014

Ferreira Gullar – do Poema Sujo ao argumento raso.

O Poeta Ferreira Gullar morreu assassinado.

Mas não em uma sala de torturas dos porões da ditadura. Foi assassinado em algum momento pós-democratização. Foi assassinado não por um militar ou policial depravado, mas pela pessoa mais próxima de si que houvesse.

Seu assassino é conhecido, trata-se de José Ribamar Ferreira. Esse José Ribamar não só assassinou o Poeta, como tomou seu lugar. Na mais perfeita forma de ocultação de cadáver, faz se passar por ele e, hoje em dia, escreve crônicas dominicais em seu nome.

Ninguém soube cantar tão belo e doloroso o “sufoco”, os anos de chumbo, o país em estado de opressão pela ditadura e o último fio de esperança como Ferreira Gullar em seu Poema Sujo:

“E também rastejais comigo
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais, esperais
que o dia venha”.

Tal beleza trágica é a melhor prova do assassinato do Poeta quando comparada com os argumentos rasos de José Ribamar Ferreira em seu texto de 01/06/2014 na Folha de São Paulo, ”A Copa custou caro mesmo?”. Onde, achando-se ainda o Poeta, tenta um jogo de dizer e negar para reafirmar o que foi dito. José Ribamar não competência para tanto.

Logo no início, roga uma praga contra a Copa no Brasil, malsinando tumultos na porta dos estádios impedindo o acesso dos torcedores que desistiriam de assistir aos jogos temendo por sua integridade física. Para, logo em seguida, afirmar que não deseja tal desgraça, ainda que ela possa acontecer. Quem sabe? Eu também não creio em bruxos, mas que eles existem, existem. Eis um.

Depois do que ocorreu na Copa das Confederações e ninguém deixou de ver aos jogos ou para isso teve uma unha quebrada, só rogando praga mesmo.

Segue o bruxo, ou corvo, falando de estádios caríssimos em cidades onde pouco se pratica o futebol e cita, como exemplo, Brasília. Ah, que bola fora. O belíssimo “Mané Garrincha” será palco, se não de futebol, de memoráveis shows de músicos sertanejos a atrações internacionais. É o mais rentável dos estádios multiusos. Mas José Ribamar ainda acha que em estádios de futebol só se joga futebol.

Depois, deblatera contra a corrupção e os altos custos das obras que nunca ficam prontas no prazo. Do que fala, não sei, já que não cita onde houve a tal “corrupção” nas obras da Copa e os estádios estão prontos e já sendo utilizados no Campeonato Brasileiro deste ano. Os aeroportos estão sendo entregues, assim como as obras viárias.

Não vendo o que está à frente dos olhos, diz tratar-se, tal situação, de uma vergonha. Vergonha e envergonhados, sem dúvida, estão na moda.

Denuncia o mal uso do dinheiro público, que seria melhor utilizado em educação, saúde e infraestrutura(sic).

Em seguida, reconhece que os custos com a Copa não afetaram os gastos com educação. Os gastos com a Copa representam um duodécimo do que o Governo gasta com educação. Ele sabe, o jornal para o qual escreve, ele mesmo, noticiou isso em manchete.

Cabe, então, sair-se com o argumento de que, enquanto não tivermos a condição de educação da Finlândia, não poderíamos gastar um tostão sequer com a Copa. Não creio que a Alemanha, penúltima sede da Copa, tenha resolvido todos os seus problemas, educacionais inclusive, antes de promovê-la. Nem os EEUU, nem a Espanha, nem a Itália e mesmo nem a Coréia ou o Japão. Todos, países sedes. Imagino que a Copa tenha sido importante para o orgulho nacional dos sulafricanos, independente de seus problemas muitos e dos custos que sediar a Copa trouxe-lhes. Mas, que importa? José Ribamar é mais um brasileiro indignado, mais uma alma com complexo de vira-latas. Parece, esse complexo, ser o “mal do século” de intelectuais, artistas e ex-atletas brasileiros há algum tempo longe de seu maior brilho.

Por fim, em sua última maldição, prevê que a Presidente não comparecerá ao jogo inaugural por medo de ser vaiada. Não sei se a presença de um presidente é protocolar na cerimônia de abertura da Copa. Se for, ela lá estará presente. Esqueceu se José Ribamar do lema de vida da Presidente: “A vida quer é coragem”. Em nome dele, enfrentou a prisão e a tortura. O que uma claque de apupadores amestrados poderia fazer-lhe de mal?

São constrangedores argumentos tão rasos. Lamento. Em vida, Ferreira Gullar não os usaria. Lamentaria se do que seu assassino faz  em seu nome, tendo feito o tanto que o Poeta fez:

“Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada”.

Sinto, do profundo do coração, ver mais um poeta morto.


 

01/05/2014

De Getúlio a Dilma, o passo bêbado do país que não foi para frente.

No discurso da Presidente Dilma Rousseff, neste 1º de maio de 2014, ouvi os ecos de todas as nossas crises recentes, passadas e não resolvidas. Como se não fossemos capaz de superá-las e seguirmos para a frente.

Dos dias tormentosos que vivemos os nossos mortos se riem. Somos herdeiros de sua maldição e da sua incapacidade de encontrar o espaço de convivência que permitisse a obra do país. Como bêbados ou sonâmbulos marchamos em círculos em torno de suas tumbas.

Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, Leonel Brizola, Roberto Marinho, Assis Chateaubriand, Julio Mesquita Filho e Samuel Wainer. Alguns nomes da crise que levou ao suicídio de Vargas. Todos mortos. Poderia acrescentar a esses nomes os de João Goulart, Janio Quadros, Ulisses Guimarães e mais outros da crise que levou-nos a ditadura. Todos mortos.

E, no entanto, no discurso da Presidente Dilma Rousseff ouvi os ecos de todas essas crises passadas, como se não fossemos capaz de superá-las.

No texto abaixo, estão mesclados o pronunciamento da Presidente Dilma Rousseff  neste primeiro de maio, o discurso de João Goulart no célebre comício da Central do Brasil e acarta testamento de Getúlio Vargas. Parecem formar um preocupante conjunto unitário. Quem puder, encontre nele os pontos de ruptura que permitiriam identificar quando se trata de um ou dos outros.

De Getúlio a Dilma, passando por Goulart, mantemos o mesmo passo bêbado do país que não foi para a frente.

“Trabalhadores e trabalhadoras,

neste primeiro de maio, quero reafirmar, antes de tudo, que é com vocês e para vocês que estamos mudando o Brasil. Vocês que estão nas fábricas, nos campos, nas lojas e nos escritórios, sabem que estamos vencendo a luta mais difícil e mais importante: a luta do emprego e do salário.

Nosso governo tem o signo da mudança e, juntos com vocês, vamos continuar fazendo todas as mudanças que forem necessárias para melhorar a vida dos brasileiros. Continuar com as mudanças, significa, também, continuar lutando contra todo tipo de dificuldades e incompreensões. Porque mudar não é fácil, e um governo de mudança encontra todo tipo de adversários que querem manter seus privilégios e as injustiças do passado.

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.
Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. 

Mas nós não nos intimidamos.

Vamos continuar lutando pela construção de novas usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor; mas sabemos que nada disso terá sentido se ao homem não for assegurado o direito sagrado ao trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.

O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que vivemos. E realidade há de ser também a rigorosa e implacável fiscalização para que seja cumprido. 

O governo, apesar dos ataques que tem sofrido, apesar dos insultos, não recuará um centímetro sequer na fiscalização que vem exercendo contra a exploração do povo. E faço um apelo ao povo para que ajude o governo na fiscalização dos exploradores do povo, que são também exploradores do Brasil. Aqueles que desrespeitarem a lei, explorando o povo – não interessa o tamanho de sua fortuna, nem o tamanho de seu poder, esteja ele em Olaria ou na Rua do Acre – hão de responder, perante a lei, pelo seu crime.

Temos o principal: coragem e vontade política. E temos um lado: o lado do povo. E quem está ao lado do povo, pode até perder algumas batalhas, mas sabe que no final colherá a vitória. 

Hoje, com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil.

Viva o primeiro de maio!

Viva a trabalhadora e o trabalhador brasileiros!

Viva o Brasil!”.


 

26/04/2014

Gabeira e a Maldição do mito morto

Fernando Gabeira foi um ícone da minha adolescência e juventude. Ele, e não José Dirceu, era o candidato a Che Guevara verde e amarelo.

Hoje, José Dirceu ainda é o símbolo da resistência dos valores e lutas da sua geração, ainda pode erguer com legitimidade o braço esquerdo com o punho cerrado à frente de uma prisão e despertar na militância o sentimento de que há um líder a ser defendido. Gabeira, por seu lado, parece que, como outros da sua geração, tornou-se apenas mais alguém que chega à velhice com a alma curtida em ressentimentos.

Não é o único, há quase uma doença ou maldição atacando expoentes da rebeldia e da contestação das duas últimas gerações, algo como uma “síndrome de reacionarismo” da madureza e senescência.

É isso que deixa transparecer em seu artigo de 25/04/2014, no Estadão, “Bom dia, Cinderela“.

Essa Cinderela é a Presidente Dilma Rousseff e, se Gabeira pretendia ser irônico ou mordaz com o tal título, acabou sendo apenas deselegante, senão grosseiro. Até onde eu saiba, este ainda é um caso de um homem se dirigindo a uma senhora.

O artigo em si é um longo texto repetitivo, um “samba de uma nota só”, carregado de preconceitos e ilações sobre Petrobrás e Copa no Brasil. Temas que, para quem tem informação, já encheram o saco.

“São cada vez mais claras as evidências de que se perdeu muito dinheiro em Pasadena.”

Verdade? Quais são essas evidências? O jornalista Gabeira não diz.

“Desde o ano passado ficou claro que muitas pessoas não compartilham o otimismo do governo nem consideram acertada a decisão de hospedar a Copa”.

Não, Gabeira. Não desde o ano passado. Desde a década de setenta há os que sonham que se o Brasil perder a Copa do Mundo o povo derrubaria o governo. Só foi invertido o sinal, na época, era a esquerda que sonhava com a derrubada da ditadura e hoje é a direita que sonha com um atalho para voltar ao poder. Paradoxalmente, Gabeira, você conseguiu estar nos dois grupos.

A Copa das Confederações demonstrou que foi um acerto. O povo, mesmo durante os maiores protestos desde os anos 80, lotou os estádios, cantou o Hino Nacional à capela, vibrou com a conquista e a Copa deu lucro. Isso na Copa das Confederações, imagina na Copa do Mundo, então.

“Bom dia, Cinderela. O mundo mudou. Dilma e o PT não perceberam, no seu sono, que as condições são outras”.

Mudou mesmo, Gabeira? Vejamos.

No plano internacional os EEUU [Gabeira irá, no final do artigo, se referir a eles como “grandes centros tecnológicos”], pois bem, os EEUU estão em pé de guerra com a Rússia, disputando poder de influência na Europa. Invadiram e destroçaram dois países, um no oriente médio e outro na Ásia. Guantánamo está repleta de prisioneiros de guerra. Da África partem ainda barcos de refugiados em direção à Europa. São os que ainda fogem da fome e da guerra. A Europa reage com um recrudescimento do nacionalismo e da intolerância com os imigrantes.

No plano nacional, José Dirceu e José Genoino estão presos. Acusaram-nos de “domínio do fato”. Nos jornais, a grande imprensa denuncia um “mar de lama” e a classe-média pede uma intervenção dos militares. A presidente, durante a campanha de 2010, foi acusada de ser terrorista e a direita católica, bradando pelo reestabelecimento da moral e dos bons costumes, acusou-a de “aborteira”. Isso é os anos 60 redivivos.

Parece até aquela coisa do Nietzsche, o “eterno regresso”.

Mas você tem razão, Gabeira, o mundo mudou.

Nos EEUU há um presidente negro. Tecnicamente é mulato, sua mãe era americana branca e seu pai um preto africano, do Quênia. O que, em termos americanos, tornaria impensável sua eleição. Pois ele foi vencedor até em Estados de maioria branca.

Fidel Castro não governa mais Cuba. Não, não foi derrubado pelos cubanos de Miami. Declarou ao mundo que já havia cumprido o seu papel e retirou-se. Na América Latina, a esquerda chegou novamente ao poder por vias democráticas. Lembra até o Chile e o Brasil da década de 60. Só que está firme e fazendo sucessores. Não que não aconteceram tentativas de golpe contra ela, aconteceram. Os EEUU, como sempre, apoiaram os golpistas. Gabeira, que loucura, o Brasil foi contra e saiu-se vencedor.

Poderia falar da China e da Rússia que, agora, têm economias capitalistas, mas acho mais relevante o Brasil ter a 6ª economia mundial, à frente da Inglaterra.

Aliás, no Brasil, um professor da USP, um metalúrgico do ABC e uma “guerrilheira” foram democraticamente eleitos presidentes. Não era seu sonho, Gabeira? A intelectualidade, a classe operária e seus colegas de lutas da juventude assumiram o poder.

Gabeira, no Brasil, agora, temos cotas para negros nas universidades e programas de acesso dos mais pobres à educação como o PROUNI e o PRONATEC, 15 mil médicos atendem a população carente dos locais mais pobres do Brasil, há um programa de construção de casas populares que já entregou mais de um milhão e meio de residências. Há um programa de transferência de renda que ascendeu mais de 22 milhões de pessoas à classe C. Somos agora um país de classe média.

Gabeira, sei que você não confia nas estatísticas oficiais: “O papel do IBGE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por exemplo, começa a ser deformado pelo aparelhamento político. Pesquisas que contrariam os números de desemprego são suspensas”.

Mas, Gabeira, para verificar in loco como o pleno emprego e a melhoria de renda está transformando a nossa sociedade, basta visitar um dos shoppings da elite paulistana. Neles, a classe média está botando a polícia para por para correr os filhos dos pobres que insistem em frequentá-los como clientes e usando roupas de grife.

Escolha sua realidade, Gabeira, o copo meio cheio ou o meio vazio, porque é aquilo mesmo que você afirma: “Sabemos que a verdade é mais nuançada. E não uma visão rancorosa onde “tudo o que escapa, evidências, vozes dissonantes, estatísticas indesejáveis, tudo é condenado à lata de lixo da História”.

No mais, o texto de Gabeira é pura distorção de informação e preconceito.

Distorce a informação quando afirma “o PT estigmatiza a oposição como força do atraso. Ele se comporta como se a exclusão dos adversários da cena política e cultural fosse uma bênção para o Brasil”.

Parece até piada quando comparamos as CPIs que são aprovadas e funcionam nos governos do PT e as que são aprovadas e funcionam nos governos do PSDB.  Não, se a oposição está excluída da cena política é por falta de propostas e não por falta de liberdade para atuar. Liberdade para atuar mesmo quando recorre às mais hipócritas escandalizações.

Gabeira pratica o preconceito quando se sai com pérolas destes quilates:

“E o Ipea foi trabalhar estatísticas para Nicolás Maduro, que acredita ver Hugo Chávez transmutado em passarinho e, com essa tendência ao realismo mágico, deve detestar os números.”

“Será a hora de pôr de novo em xeque a onipotente tática de eleger um poste”.

“Nem o poste nem seu inventor hoje conseguem iluminar sequer um pedaço de rua. Estão mergulhados no escuro e comandarão um exército de blogueiros amestrados para nublar as redes sociais”.

“Até nas relações exteriores o viés partidário sufocou o nacional, atrelando o País aos vizinhos, alguns com sonhos bolivarianos, e afastando-o dos grandes centros tecnológicos”. 

Que pena, Gabeira, logo você que já foi vítima de tanto preconceito. Veja, se quisesse, bastaria dizer que esse seu texto não passa de efeito de uma síndrome de abstinência.  Mas não, Gabeira, isso é prática usada por seus novos companheiros de luta e de imprensa.

Entendo seu ressentimento e o lamento profundamente, mais um dos meus ícones que se vai. Para você, reservo versos de Bandeira que também, ao fim, cantou dolorosamente “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Ou a maldição que você mesmo roga, a de se afogar nos próprios mitos”.


 

19/04/2014

Os idiotas perderam a modéstia?

Vivemos momentos em que a modéstia, a prudência e o resguardo parecem ter sido deixados de lado.

Poucos souberam ler tão bem o momento em que o Brasil e eles mesmos viviam como Nelson Rodrigues. Cruel e visceral, como só os que têm uma úlcera como companheira podem ser, decretou: “Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia”.

Pois bem, vivemos momentos de um recrudescimento tal da intolerância que parece-me que alguns agentes políticos se acham, se não a salvos de críticas, imunes à suas conseqüências e, assim, se permitem declarações que em momentos de maior cuidado não cometeriam.

O Ministro Joaquim Barbosa resmungando entre dentes, mas não em baixo tom como quem falasse a si, saiu-se com o revelador “Foi por isso mesmo, ora” e desnudou a manipulação das sentenças da AP 470 para garantir a condenação a regime fechado dos réus.

Depois, o Senador e candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2014, Aécio Neves, em uma recepção em que era homenageado pela fina flor da plutocracia nacional, provavelmente sentindo-se protegido por estar entre iguais, entregou-nos sua proposta de governo: “Estou preparado para tomar as medidas necessárias, por mais que elas sejam impopulares”. Como não falava a populares e foi aplaudido, é certo que tais medidas não seriam o aumento dos impostos para os ricos.

Agora, outro senador pelo PSDB, Álvaro Dias, em entrevista relâmpago a Noblat nos deixa a todos boquiabertos com a sinceridade da revelação da estratégia de campanha tucana: Ao mesmo tempo, precisamos desconstruir a imagem do governo, alimentando o noticiário negativo com ação afirmativa. A instalação da CPI da Petrobras vai ajudar nessa desconstrução”.

Sem dúvida, vivemos momentos em que parece que a modéstia, a prudência e o resguardo, assim como os pruridos de consciência em 68, foram mandados às favas. E por personagens que podem ser acusados de muitas coisas, mas não de serem idiotas.

Sinais de tempos novamente imprudentes?


30/03/2014

Folha de São Paulo – um jornal em conflito com o seu passado.

“Hoje sinto a mesma dor, talvez menos que você, e… E depois do que eu disser, me perdoa se quiser, mas… Finge que está tudo bem. Minta pra mim pra que eu viva meu sonho feliz assim”.

São extratos da doída e bela canção de Jorge Aragão – “Minta meu sonho”.

É nesse campo, o do autoengano, que devemos entender o editorial de domingo, 30/03/2014, véspera dos 50 anos do golpe de 1964. Aliás, é esse o título seco do editorial“1964”.

Soa acaciano dizer que só pode se fazer afirmações sobre o que ocorreu. Tais afirmações poderiam ser verdadeiras ou falsas, mas se apoiariam em fatos. Sobre o que não aconteceu, porém, pode se criar suposições, teorias até bem elaboradas ou simples ilusões. Pode se criar mitos. É desse material onírico que a Folha de São Paulo tenta se valer para relativizar a ruptura democrática de 1964, o golpe que derrubou um presidente democraticamente eleito, e os crimes lesa-humanidade que se seguiram a ela, com a aparente pretensão de relativizar sua própria participação em tais atos.

“Aquela foi uma era de feroz confronto entre dois modelos de sociedade –o socialismo revolucionário e a economia de mercado. Polarizadas, as forças engajadas em cada lado sabotavam as fórmulas intermediárias e a própria confiança na solução pacífica das divergências, essencial à democracia representativa.” Diz o editorial.

Não, tal qual como hoje, a esquerda no Brasil havia chegado ao poder por vias democráticas, não revolucionarias. Tal qual como hoje, tímidas mudanças de quebra do monopólio da plutocracia sobre as riquezas da nação ensejaram uma reação autoritária e golpista como forma de manutenção do establishment conservador. Tal qual como hoje, a Folha estava alinhada a essas forças reacionárias.

“Logo após 1964, quando a ditadura ainda se continha em certas balizas, grupos militarizados desencadearam uma luta armada dedicada a instalar, precisamente como eram acusados pelos adversários, uma ditadura comunista no país”.

Mais uma vez a impostura de dar o status de “forças beligerantes” para um pequeno grupo de resistentes radicalizados, sem a menor condição prática de se opor a um golpe patrocinado pela burguesia, empresariado, Igreja, grande imprensa, Forças Armadas e pelos Estados Unidos. Só o povo não estava presente, nem foi convidado. Bastaria a Folha ter lido “A ditadura envergonhada” e “A ditadura escancarada”, dois livros de uma série de seu jornalista Elio Gaspari, para perceber a impropriedade de tal argumento, dada a imensa disparidade de recursos.  Elio nota que os guerrilheiros do Araguaia, movimento posterior ao de Caparaó, que parece ser o citado pela Folha, não possuíam sequer uma “arma longa”, revólveres tão somente. Quase flores enfrentando canhões. Caparaó mesmo não passava de algo em torno de vinte homens.

Como então afirmar “As responsabilidades pela espiral de violência se distribuem, assim, pelos dois extremos,…”?

Igualmente é a defesa que a Folha faz a seguir dos êxitos econômicos da ditadura:

“Em 20 anos, a economia cresceu três vezes e meia. O produto nacional per capita mais que dobrou. A infraestrutura de transportes e comunicações se ampliou e se modernizou. A inflação, na maior parte do tempo, manteve-se baixa”.

Ato falho, pois fez me lembrar do filme “Hitler”, propaganda da própria Folha que, referindo-se ao ditador nazista, começava por:

“Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu orgulho ao seu povo. Em seus quatro primeiros anos de governo o número de desempregados caiu de seis milhões para 900 mil pessoas. Este homem fez o PIB crescer 102% e a renda per capta dobrar… e reduziu uma hiperinflação a, no máximo, 25% ao ano”.

Para concluir: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”.

Até porque tal “exito” nos custou “duas décadas perdidas”.

Por que a Folha pisaria o terreno pantanoso da revisão histórica? A resposta é freudiana. A Folha tenta rever a sua própria história:

“Às vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro”.

Sem dúvida, o julgamento moral de um ato deve levar em conta o lugar e o tempo onde o ato aconteceu. Ocorre que dessa atenuante a Folha não pode se socorrer. Já na década de 60, um golpe contra a democracia era algo inaceitável e já era crime contra a humanidade fazer da “tortura uma política clandestina de Estado”. Era isso que a Folha apoiava, na época. Com todo o conhecimento de quem, mais do que apoio ideológico, é acusada de prestar apoio material, na forma de empréstimos de viaturas, aos torturadores para o transporte dissimulado de suas vítimas. E acusada ainda do silêncio, quando não da propaganda, cúmplice e conveniente sobre tais crimes.

Portanto, soa como uma reação de defesa psicológica ao conflito entre os fatos e a imagem que a Folha quer cultivar de si própria, o seguinte parágrafo do editorial:

“É fácil, até pusilânime, porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias”.

Não, não são os covardes que hoje condenam a Folha por “agir como lhe pareceu melhor naquela circunstância”, são os que sobreviveram. São, indiretamente, as suas vítimas.

E isso em momento algum deve lhes ser fácil.

Quanto à Folha, parece que ainda não reuniu forças para fazer o que propõem aos outros neste seu editorial, ou seja, o “longo e doloroso aprendizado para todos os que atuam no espaço público, até atingirem a atual maturidade no respeito comum às regras e na renúncia à violência como forma de lutar por ideias”.

Que não continue assim.


 

19/03/2014

Vigiar e punir – o jornalismo como carrasco.

O jornalismo e o poder hipócrita.

“Se trazes no bolso a contravenção, muambas, baganas e nem um tostão, a lei te vigia, bandido infeliz, com seus olhos de raios X. E se, definitivamente, a sociedade só te tem desprezo e horror e, mesmo nas galeras, és nocivo, és um estorvo, és um tumor, a lei fecha o livro, te pregam na cruz, depois chamam os urubus”.

São versos de “Hino de Duran” de Chico Buarque de Holanda e faixa do álbum Ópera do Malandro, lançado em 1979 em plena ditadura. E, se parecem atuais em relação à imagem que é criada na grande imprensa dos encarcerados do “mensalão”, é porque eles tratam de um tema atemporal. Da prerrogativa dada aos poderosos de vigiar e punir os indivíduos sob seu poder. E porque não são outras as ações a que grande imprensa tem se dado ao trato, desde que Partido dos Trabalhadores assume algum cargo ou governo.

Tratamos aqui, portanto, do exercício do poder. Do uso da informação e dos meios de sua divulgação como exercício do poder.

Desde que o homem se organizou coletivamente e estabeleceu os códigos de conduta dentro dos grupos formados, a infração a esses códigos é motivo de punição. E decidir pela culpabilidade de um indivíduo externo a quem julga e lhe impor sofrimento em função disso é exercício de poder.

Supérfluo lembrar o quanto os meios de comunicação, e dentre eles a imprensa, em especial, exercem de poder sobre a sociedade na formação de consensos e definição de padrões de comportamento.

A imprensa, ao longo da história da humanidade, exerce o papel, entre outros, de tornar públicas as infrações e, através da pressão popular oriunda dessa publicidade, constranger os governantes a tomar providências que restaurem na sociedade a confiança na validade dos códigos estabelecidos. A punição dos infratores é uma das providências esperadas.

Ocorre que, por mais que se queira que o exercício desse poder seja inerente e necessário à vida em sociedade, quando ele é exercido a favor ou contra determinados grupos de interesses, segundo os interesses dos donos dessa imprensa, a ética seletiva contida nele torna esse poder hipócrita.

Supérfluo também recordar que casos como o do chamado mensalão do PT são tratados, pela nossa grande imprensa, de forma diferente em relação a outros casos similares. Em casos como os Mensalões do PSDB e do DEM, Privataria Tucana, Lista de FURNAS, as relações promíscuas entre figuras expoentes da política e da própria imprensa com Carlinhos Cachoeira, o Trensalão do PSDB de São Paulo, nossa grande imprensa está sempre cheia de dedos ao trata-los, quando não são simplesmente ignorados ou papeis são invertidos. Alguém ainda tem alguma recordação da máfia das aprovações de licenças para edificações, comandada diretor do Departamento de Aprovação e Edificações do governo Kassab – ex-prefeito de São Paulo e nomeado por José Serra? E Haddad do PT, atual prefeito de São Paulo, é ou não responsável pela Máfia do ISS, que atuou nos governos do PSDB de Serra-Kassab? Eles, outra vez. Ou, que fim levou das denúncias de licitações combinadas para a cosntrução da linha 5 do Metrô paulistano na gestão Serra? Sempre ele.

Supérfluo, logo, demonstrar a hipocrisia contida no exercício de poder pela nossa grande imprensa, quando esta clama por punição exemplar ao PT, dando a entender que bastaria tal punição para se restabelecer a moralidade pública.

Estranho que tal estratagema se dê e obtenha êxito no viger de uma democracia. O que só demonstra o quanto os mecanismo de controle social da nossa democracia são incompletos. Tão incompletos que ainda comportam o exercício do poder hipócrita.

Vigiar e punir, o jornalismo e o corpo dos condenados.

O que está ocorrendo com José Dirceu na Penitenciária da Papuda é um caso de assédio continuado, já de algum tempo. Publiquei o post abaixo em 03/12/2013, as atualizações estão entre [colchetes].

Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Trata-se do artigo V da Declaração Universal dos Direitos Humanos e também está expresso no inciso III do artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988.

Em um post anterior, “Vigiar e punir – o jornalismo e o exercício do poder hipócritatratamos do jornalismo como forma de exercício do poder. E de como esse poder pode se tornar um poder hipócrita, quanto colocado a serviço de grupos de interesses específicos.

Aqui, trataremos de como o jornalismo, além de ser exercício de poder, pode ser praticado como parte da execução da pena dos condenados, como parte de sua punição.

Teremos como guias dessa empreitada matérias da nossa grande imprensa a respeito da prisão dos condenados da AP 470 – o mensalão do PT e a obra “Vigiar e punir” de Michel Foucault.

Não é supérfluo, e nunca o será, lembrar que o exercício desse poder hipócrita se recobre de uma camada especial de crueldade quando é exercido em relação a pessoas, a indivíduos, no sentido do quanto a palavra “indivíduo” carrega de impotência e de solidão, de sofrimento e morte.

Quanto à punição do indivíduo pelas forças de coerção da sociedade, o livro “Vigiar e Punir” de Michel Foucault é uma obra seminal. Impossível não fazer uma analogia com o que temos visto na grande imprensa, desde a prisão dos “mensaleiros” [José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, especificamente].

Prisão, aliás, que foi seletiva. Há já um hiato de mais de quinze dias entre os que estão presos e os outros condenados ainda soltos e nenhuma palavra sobre isso na grande imprensa [o hiato foi, na verdade, de 4 meses até Roberto Jefferson, o último dos condenados na AP 470, se entregar em 24/02/2014]. O silêncio da imprensa sobre isso é tão eloquente que aparenta traduzir que, para ela, quem importava estar preso já o está, e que se outros condenados nunca começassem a cumprir suas penas, isso seria esquecido em dias [o esquecimento dos outros condenados e a fixação da grande mídia nos três petistas, Genoino, Delúbio e Dirceu, este em particular, mostra que isso era uma verdade].

Mas, afinal, o que tem a ver o “Vigiar e punir” com as posições da nossa grande imprensa em relação à prisão dos condenados do mensalão?

Vamos a isso.

“Vigiar e punir” é um livro difícil de ser lido, não só pela sua redação, mas também por ter de se passar pelo descrito no início do seu primeiro capítulo – “O corpo dos condenados”. Nele, somos apresentados em detalhes ao suplício infringido ao condenado Damiens. Torturado em praça pública, teve a mão cortada, foi queimado com fogo de enxofre e finalmente esquartejado e seus restos incinerados em uma fogueira como pena pelo crime de parricídio. Isso na Amsterdam de 1757. Foucault parte desse ponto para notar que, 50 anos após, a noção de justiça reformada não mais tolerava o suplício físico dos condenados. Seus corpos deveriam ser resguardados do sofrimento no cumprimento da pena que lhes fosse imposta. E a espetacularização do cumprimento dessa pena passa a ser considerada como atentatória a moral pública.

“No fim do século XVIII e começo do XIX, … a melancólica festa de punição vai-se extinguindo. A punição pouco a pouco deixou de ser uma cena. E tudo o que pudesse implicar de espetáculo, desde então, terá um cunho negativo; …ficou a suspeita de que tal rito, que dava um “fecho” ao crime, mantinha com ele afinidades espúrias: igualando-o, …  fazendo o carrasco se parecer com criminoso, os juízes aos assassinos, invertendo no último momento os papéis, fazendo do supliciado um objeto de piedade e de admiração”.

Fácil perceber o grande erro cometido pelo Ministro Joaquim Barbosa na espetaculosa prisão dos condenados do mensalão em um feriado nacional – justamente o dia da proclamação da república [fácil perceber que a campanha de linchamento a que estão sendo submetidos terá por fim o resultado de torná-los herois, a campanha de solidariedade que receberam quando do pagamento das multas a que foram condenados e, sintomáticamente, a participação nela de personalidades não petistas demonstra isso]. Mais ainda, e principalmente, José Genoino arrancado da convalescência de uma extensa cirurgia cardíaca e trancafiado em uma cela em regime fechado. O corpo do condenado, outra vez, estava em perigo, em sofrimento.

Como se porta, então, a nossa imprensa? Passa a relativizar o fato. Genoino é levado a um hospital, de lá para a prisão domiciliar, o Ministro Barbosa providencia uma junta médica escolhida a dedo para um laudo médico do prisioneiro. E a grande imprensa relata em manchete:

O Globo:  “Laudo médico diz que Genoino não precisa ficar em casa e que doença não é grave”

“o procedimento (cirurgia) representou tratamento definitivo da referida condição patológica, encontrando-se o paciente a este respeito em excelente condição clínica atual, sem expectativa em qualquer prazo futuro de eventual insucesso cirúrgico ou complicação, resguardado o controle adequado permanente dos fatores de risco (hipertensão arterial, dislipidemia), em que pese a maior morbi-mortalidade inerente ao agravo”.

A doença não é grave, pronto, o corpo do condenado estava novamente a salvo de sofrimento imposto … “resguardado os fatores de risco e em que pese a maior morbi-mortalidade inerente ao agravo”.

Note-se, aqui, que a intervenção de uma junta médica não é estranha ao “Vigiar e punir”. Lá está:

 “O juiz de nossos dias … não julga mais sozinho. Pequenas justiças e juízes paralelos se multiplicaram em torno do julgamento principal: peritos psiquiátricos ou psicológicos, … fracionam o poder legal de punir; dir-se-á que nenhum deles partilha realmente do direito de julgar; … e principalmente – os peritos – não intervêm antes da sentença para fazer um julgamento, mas para esclarecer a decisão dos juízes. Mas … se eles podem pôr um termo à sua tutela penal, são sem dúvida mecanismos de punição legal que lhes são colocados entre as mãos e deixados à sua apreciação; juízes anexos, mas juízes de todo modo. Pode-se dizer que não há nisso nada de extraordinário …  Mas uma coisa é singular na justiça criminal moderna: se ela se carrega de tantos elementos extrajurídicos, não é para poder qualificá-los juridicamente e integrá-los pouco a pouco no estrito poder de punir; é para evitar que essa operação seja pura e simplesmente uma punição legal; é para escusar o juiz de ser pura e simplesmente aquele que castiga”. 

Apesar de toda a evolução do modelo penal, a punição física ainda está muito presente na nossa psique nacional – “bandido bom é bandido morto” e congêneres a respeito dos direitos humanos aplicados a criminosos. No entanto, ainda que a punição física esteja sub-reptícia no modo como crimes são noticiados na nossa grande imprensa – e não tão velada nos programas “mundo-cão” televisivos, advogá-la em textos jornalísticos, e, principalmente, para os apenados do mensalão, seria absurdo. Então, nossa imprensa se alinhou ao conceito de Foucault:

“Desde então, o escândalo e a luz serão partilhados de outra forma; é a própria condenação que marcará o delinquente com sinal negativo e unívoco: publicidade, portanto, dos debates e da sentença; quanto à execução, ela é como uma vergonha suplementar que a justiça tem vergonha de impor ao condenado; ela guarda distância, tendendo sempre a confiá-la a outros e sob a marca do sigilo. É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir”.

Destaco: “é a própria condenação que marcará o delinquente com sinal negativo e unívoco: publicidade, portanto, dos debates e da sentença; quanto à execução, ela é como uma vergonha suplementar …”.

No dia 23/10/2012, a Folha de São Paulo trazia, na primeira página, uma manchete sóbria sobre a condenação dos réus mais importantes do mensalão – o chamado núcleo político. Sugestiva era a manchete interna a respeito do assunto:

“Supremo condena Dirceu e mais nove por quadrilha”.

“EX-HOMEM FORTE DE LULA É CONDENADO JUNTO COM PETISTAS E OPERADORES DO ESQUEMA – STF COMEÇA HOJE A DEFINIR PENAS”

“Supremo condena Dirceu e mais nove por quadrilha”, parece com – “a seleção brasileira é Neymar e mais dez”. Ato falho? Dirceu é quem interessava condenar?

Mas o uso da publicidade como parte da condenação pode ser melhor percebido na própria Folha do dia seguinte, referindo-se a como a Rede Globo de televisão tratou do assunto:
“’JN’ dedica quase 20 minutos a balanço do julgamento

O “Jornal Nacional” da TV Globo, programa jornalístico mais assistido da televisão brasileira, dedicou ontem 18 dos 32 minutos de sua edição a um balanço do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal.

O telejornal exibiu oito reportagens sobre o tema, contemplando desde o que chamou de “frases memoráveis” proferidas no plenário do STF às rusgas entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, respectivamente relator e revisor do processo na corte.

O segmento mais “quente” do telejornal, dedicado às notícias do dia (debate do tamanho das penas e a decisão de absolver réus de acusações em que houve empate no colegiado) consumiu 3min12s. O restante foi ocupado pelo resumo das 40 sessões de julgamento.”

Há, no entanto, um aspecto, novamente, da psique nacional que destoa do conceito de Foucault – “É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir”.

Em relação ao julgamento do mensalão, nada parece ser mais glorioso que punir, se considerarmos a capa da revista Veja de 10 de outubro de 2012, referindo-se ao juiz relator do processo do mensalão, nas vésperas da condenação citada acima.

Sob uma foto do Ministro Joaquim Barbosa aos 14 anos de idade no “Colégio Estadual Antônio Carlos”, em Paracatu-MG, a chamada grandiloquente – “O MENINO POBRE QUE MUDOU O BRASIL”.

Algo da punição física, porém, ainda persiste no sistema prisional moderno, segundo Foucault:

“O sofrimento físico, a dor do corpo, não são mais os elementos constitutivos da pena. O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos. … Porém, castigos como trabalhos forçados ou prisão – privação pura e simples da liberdade – nunca funcionaram sem certos complementos punitivos referentes ao corpo: redução alimentar, privação sexual, expiação física, masmorra. … Na realidade, a prisão, nos seus dispositivos mais explícitos, sempre aplicou certas medidas de sofrimento físico”.

Se não, como explicar esta manchete na Folha Online de 16/11/13 e o detalhado conteúdo sobre a vida na prisão que esperava os condenados do mensalão?

“Condenados do mensalão terão banho frio em prisões de Brasília”

“Os presos do mensalão que chegarão a Brasília neste sábado (16) terão de se adaptar a condições espartanas de acomodação na cadeia. As celas individuais que abrigarão os réus não têm mobília e comportam apenas uma cama, um lavatório e um vaso sanitário. O banho é frio e a comida é servida três vezes ao dia. De acordo com o subsecretário do Sistema Penitenciário (Sesipe), Cláudio Magalhães, as celas têm, em média, seis metros quadrados.

Cabe aos presidiários levar a sua própria roupa de cama e de banho, além das vestimentas. Pelas regras do sistema, todas as roupas têm de ser brancas ou em tons pastéis. Os detentos podem receber visitas de familiares a cada 15 dias. Nessas ocasiões, segundo Magalhães, as famílias podem levar comida para os detentos. Todos os alimentos são inspecionados pelos agentes penitenciários antes de serem entregues.”

Entramos, agora, na parte mais sombria da relação de poder e o suplício do condenado. Foucault nos faz ver que, no modelo penal moderno, o suplício do condenado não acabou, ele mudou de objeto mas ainda faz parte da punição.

“Se não é mais ao corpo que se dirige a punição, em suas formas mais duras, sobre o que, então, se exerce? A resposta dos teóricos  …  é simples, quase evidente. Dir-se-ia inscrita na própria indagação. Pois não é mais o corpo, é a alma.”

O suplício continua sendo parte da punição, porém, agora suplicia-se a alma do condenado. Como os meios de comunicação participaram desse novo modo de infringir sofrimento aos condenados, no caso do mensalão?

Durante todo o processo do mensalão e mesmo depois de preso, José Genoino foi vítima de escárnio público por bufões travestidos de jornalista. O ponto mais baixo, com certeza, se deu em uma segunda-feira (25/03/2013), quando a TV Bandeirantes levou ao ar o programa CQC onde Genoino é, durante longos minutos, perseguido pelos corredores da Câmara dos Deputados por um “jornalista” e constrangido por perguntas embaraçosas e de duplo sentido. Não satisfeitos com o constrangimento imposto, e diante do silêncio de Genoino, os responsáveis pelo programa lançam mão de um ardil. Uma criança que se faz passar pelo sobrinho de um fictício admirador de Genoino para assim conseguir dele imagens e declarações. O enredo todo é vil e, no entanto, a “vitória” é comemorada às gargalhadas pelo grupo CQC. Havíamos retroagido às humilhações em praça pública da Idade Média, mas o pessoal do CQC argumentava que fazia jornalismo.

Há, contudo, formas mais sutis de se supliciar a alma de um condenado. Destruindo ou desconstruindo sua imagem, por exemplo:

Eliane Cantanhêde na Folha de São Paulo de 17/11/2013 – De Collor a Dirceu.

Comenta as prisões de José Dirceu e Genoino, reconhece a história de cada um, mas, a certo momento, eis a desconstrução dessa mesma história:

“Joaquim Barbosa, levado por Lula, foi o homem certo na hora certa da história. Negro e da maioria pobre que lota as cadeias, foi a estrela do julgamento que impõe penas e prisões para os da minoria rica, até então impune.”

Trata-se, agora, da vitória do bem contra o mal. Joaquim Barbosa, o negro, representante da maioria pobre encarcerando Dirceu e Genoino, os representantes da minoria rica (Cantanhêde não usa o termo branca, nem cheirosa) e, até então, impune. Genoino, que tudo que conseguiu acumular de patrimônio, durante sua vida, foi um sobradinho geminado em um bairro periférico de São Paulo, passa a ser representante dos exploradores dos proletários.

Continuando com o “De Collor a Dirceu” de Cantanhêde:

“Quando o PT entrou no vácuo do PRN, Dirceu aderiu aos métodos de Collor, a vitória subiu à cabeça de Lula e os fins –fossem quais fossem– justificaram todos os meios, tudo poderia acontecer. E aconteceu.

De Collor a Dirceu, uma evolução: só a punição política já não basta.”

Não há como, seriamente, comparar Dirceu a Collor. Até porque, se houve adesão a métodos, foi aos métodos do PSDB de Eduardo Azeredo. Além do que, havia contra Collor sérios indícios de locupletação, Collor foi absolvido pelo STF, por falta de provas. Não foi apresentado qualquer prova ou indício contra Dirceu. Dirceu foi condenado no STF pelo “domínio do fato”. No texto de Cantanhêde, contudo, ambos são indistintos. Note-se, ainda, que em “De Collor a Dirceu”, convenientemente, Cantanhêde não intermedia os governos FHC, nem a privataria tucana, nem a compra de votos para a reeleição.

Fernando Rodrigues na mesma Folha em 23/11/13 – Direitos e Privilégios.

“José Genoino teve um problema cardíaco grave em julho.

Alguém nessas condições deve receber tratamento adequado quando é preso? A resposta sensata é sim. Mas, para o senso comum, ninguém, exceto algum privilegiado, é tratado com a humanidade devida no sistema prisional brasileiro.

Genoino passou mal na quinta-feira devido à pressão alta. Foi para um hospital. Antes, teve tempo suficiente para dar uma entrevista e posar para uma fotografia -material publicado neste fim de semana pela revista “Isto É”. O título da reportagem: “Jamais deixarei a luta política”.

Ontem, telefonei para a assessoria do governo de Brasília. Queria conhecer dados sobre a administração da Papuda. Ou quantos presos por lá têm pressão alta. Não tive resposta.

Esses são os fatos. Fico aqui na torcida pelo pronto restabelecimento de José Genoino. E para que todos os presos da Papuda tenham o mesmo tratamento recebido até agora pelo deputado e ex-presidente do PT.”

Por certo, Genoino deveria estar simulando a doença para fugir à dureza da prisão. Trata-se de um malandro. De qualquer sorte, é um privilegiado, foi tratado com humanidade. Submetê-lo à desumanidade reinante nas prisões brasileiras seria uma questão se justiça social. Ah, o recurso à demagogia.

Ainda na Folha, Reinaldo Azevedo – 22/11/2013. Puxa-sacos de ladrões!

Alguma dúvida de como são considerados, por ele, os solidários a Genoino e a Dirceu?

Não vou me ater à diatribe com a qual Reinaldo pretende defender Joaquim Barbosa dos racistas que ele, aliás, não nomina quem sejam. Lembro alguma coisa das opiniões de Azevedo sobre Joaquim Barbosa, antes, deste, assumir a relatoria do mensalão. Tampouco acrescenta algo o seu jogo de palavras: “A doença do petista é real; a construção do mártir é uma farsa”.

Interessa sim o jogo cruel que ele estabelece entre o “de facto” e o “de jure” para se escarnecer com a inevitabilidade do cumprimento da pena, frente ao justo inconformismo dos que se acham injustiçados:

 “No Brasil, não há presos políticos, mas políticos presos. … Se, no entanto, houvesse, a carcereira seria Dilma Rousseff. Ela pode fazer o STF sair com a toga entre as pernas. Basta evocar o inciso 12 do artigo 84 da Constituição: “Compete privativamente ao presidente da República (…) conceder indulto e comutar penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei”… Indulto já, presidente!”.

Aqui, há pouco o que comentar sobre o suplício imposto à alma dos condenados. Basta aprender com o Evangelho segundo Mateus, onde ele narra os últimos momentos do Cristo crucificado: “E os que passavam blasfemavam dele, meneando as cabeças e dizendo: Tu, que destróis o templo e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da cruz”.  Mateus 27:39-40.

Voltando a Foucault: A alma do criminoso não é invocada no tribunal somente para explicar o crime e introduzi-la como um elemento na atribuição jurídica das responsabilidades; se ela é invocada com tanta ênfase, com tanto cuidado de compreensão e tão grande aplicação “científica”, é para julgá-la, ao mesmo tempo que o crime, e fazê-la participar da punição.”

O último lance do suplício da alma do condenado tem uma componente política. Trata-se de isolá-lo da comunidade a que pertencia antes da prisão, negar-lhe a solidariedade, abandoná-lo à solidão. Há algo mais doído para alma que a solidão?

Há três momentos, nos últimos poucos dias, onde essa tentativa de isolamento é praticada em matérias da Folha de São Paulo.

29/11/2013 – “Juízes do DF exigem igualdade entre presos

A Justiça de Brasília determinou ontem que os condenados do mensalão presos no Complexo Penitenciário da Papuda tenham tratamento igual aos demais detentos.

Uma das principais reclamações de familiares de presos foi que os condenados do mensalão -como José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino- receberam visitantes fora do dia estabelecido e que, nos dias de visita, não tiveram de esperar nas longas filas, formadas já na madrugada.

Parte dos condenados do mensalão também recebeu visitas de caravanas de deputados e senadores e do governador Agnelo Queiroz (DF).

Na semana passada, o MPDFT (Ministério Público do Distrito Federal e Territórios) havia criticado o “tratamento diferenciado” dado a internos do DF e recomendado à Secretaria de Segurança Pública que fosse observado o princípio da isonomia.”

Aqui, outra vez, o recurso à demagogia. Haveria um estado de animosidade entre os familiares dos outros presos e os “privilégios” dos “mensaleiros”. Realmente, as condições de recepção dos parentes de prisioneiros parecem ser desumanas, na Penitenciária da Papuda. Ocorre que, pela lógica defendida pela mídia, a pretensa “justiça social” seria rebaixar a condição “mensaleiros” e não melhorar a condição dos outros presos. O que os incomodava era a solidariedade demonstrada a Dirceu e Genoino, veja o tratamento jocoso dado às visitas de parlamentares e do próprio governador do DF– “caravana”. Em outras matérias, “romaria”. Tratava se de impedir que essa demonstração de solidariedade fosse continuada.

Outro momento interessante foi em relação ao empresário que deu emprego a José Dirceu. Aqui, o recurso não é à demagogia, mas ao constrangimento, ao mesmo “vigiar e punir”. Até esse episódio, o empresário era um ilustre desconhecido, a partir dele:

28/11/2013 – “Emissora de TV do futuro chefe de Dirceu foi beneficiada pela Anatel

O futuro chefe do ex-ministro José Dirceu, o empresário Paulo de Abreu, foi beneficiado nesta semana com uma medida do governo aprovada mesmo contra relatórios elaborados por técnicos.”

Acautele-se todo aquele que de alguma maneira beneficiar os condenados. Terão suas vidas reviradas. Reparem que o destaque é dado ao “futuro chefe de Dirceu”. Um claro caso de favorecimento pelo favor prestado? Não. Vai-se ao texto e está lá:

“Na segunda, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), a pedido do Ministério das Comunicações, permitiu que algumas emissoras mudassem suas antenas para a capital, o que melhora a cobertura dessas TVs em São Paulo e aumenta o potencial de telespectadores.”

“Algumas emissoras”? Quais são as outras? Que importa que existam outras, as outras não são a do “futuro chefe de Dirceu”.

E, finalmente, o terceiro momento na tentativa de isolamento. Aqui, o recurso é inusitado. Recorre-se à estatística. É quase ridículo, se não ridículo mesmo. Lembrem-se do início deste post.

01/12/2013 – “Prisão de condenados pelo mensalão é aprovada por 87% dos adeptos do PT
Para 86% dos brasileiros, o presidente do STF agiu bem ao mandar prender os mensaleiros condenados no feriado de 15 de Novembro, dia da Proclamação da República. O mais interessante é quando esse dado é estratificado por preferências partidárias. Entre os simpatizantes do PT, 87% dizem que Barbosa agiu bem ao mandar prender os mensaleiros no feriado”.

Parece haver uns números um tanto estranhos, a porcentagem de aprovação atribuída aos petistas – (87%) é maior que a média (86%) da pesquisa, ou seja, os petistas aprovam quem mandou prender seus companheiros mais do que a população em geral aprova. A Folha explica, foi “empate técnico”. Tampouco a Folha nos informa como distinguiu quem era petista no meio da população consultada. Mas que importa, detalhes. Pobres condenados, nem seus antigos companheiros lhes prestam solidariedade. Ao contrário, dão razão a quem os mandou prender da maneira mais midiática que conseguiu.

Os condenados da AP 470 estão encarcerados, pelo menos, até aqui, os que interessavam estão, e sujeitos, além da privação de liberdade, às privações do sistema carcerário. Receberam multas. Tiveram seus direitos políticos cassados e, provavelmente, nunca mais assumirão um cargo eletivo.  Porém, isso só não basta.

A grande mídia cuidou de que os condenados tivessem suas condenações e penas apregoadas de modo a que não houvesse quem delas não tomasse conhecimento e que isso – a condenação, fosse motivo de vergonha. Não é à toa o uso do pejorativo “mensaleiro”. Foram humilhados em praça pública, tiveram desconstruída sua imagem e buscou-se privá-los de qualquer solidariedade; aliás, onde houvesse, pelo menos, dois níveis de tratamento, o mais baixo deveria ser reservado a eles.

[a partir da volta dos feriados de fim de ano, neste primeiro trimestre de 2014, a grande mídia retoma a campanha em busca de transformar em regime fechado, junto à VEP – Vara de Execuções Penais, a pena de semi-aberto, decidida, aliás, em julgamento no STF dos embargos infringentes interpostos pelos réus. Usa para isso o subterfúrgio contido no termo novilinguístico “regalias”, textos escritos com verbos no futuro de pretérito, o abjeto “teria ocorrido” e abusa do “suposto”. Assim, “suposto” uso de celular vira fato (grampo sem áudio já sofrera tal transmutação, no passado), uma costela de porco em lata, comprada na cantina da prisão, diga-se, e um hamburguer de lanchonete transformam-se em “alimentação diferenciada”, visita de Governadador e Defensor Público autorizadas pela direção da penitenciária são consideradas “fora do horário regular” e o uso de um vaso sanitário torna-se previlégio. Não passaria de rídículo se não encontra-se eco na VEP – presidida por juíz escolhido a dedo pelo Ministro Joaquim Barbosa]

Seria o caso de citarmos Jaucourt: “é um fenômeno inexplicável a extensão da imaginação dos homens para a barbárie e a crueldade”? Não.

Cruel, sem dúvida, mas não bárbaro, muito menos inexplicável, neste caso. Tratamos, aqui, do exercício do poder. Como nos ensinou Foucault:

“O suplício penal não corresponde a qualquer punição corporal: é uma produção diferenciada de sofrimentos, um ritual organizado para a marcação das vítimas e a manifestação do poder que pune: não é absolutamente a exasperação de uma justiça que, esquecendo seus princípios, perdesse todo o controle. Nos “excessos” dos suplícios, se investe toda a economia do poder”.

 

Referências:

“Vigiar e Punir” – Michel Foucault – tradução Raquel Ramalhete – 20ª edição – Editora Vozes.

http://oglobo.globo.com/pais/laudo-medico-diz-que-genoino-nao-precisa-ficar-em-casa-que-doenca-nao-grave-10884069#ixzz2mEIsWYeM

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/73562-supremo-condena-dirceu-e-mais-nove-por-quadrilha.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/73771-jn-dedica-quase-20-minutos-a-balanco-do-julgamento.shtml

http://www.biblioteca.itamaraty.gov.br/periodicos/v/veja/veja-o-menino-pobre-que-mudou-o-brasil/image_view_fullscreen

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/11/1372450-condenados-do-mensalao-terao-banho-frio-em-prisoes-de-brasilia.shtml

http://www.youtube.com/watch?v=ijlSiT_2Dak

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/139295-de-collor-a-dirceu.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/140285-direitos-e-privilegios.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/140141-puxa-sacos-de-ladroes.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/141260-juizes-do-df-exigem-igualdade-entre-presos.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/141090-emissora-de-tv-do-futuro-chefe-de-dirceu-foi-beneficiada-pela-anatel.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/12/1379018-acao-de-joaquim-para-prender-mensaleiros-no-feriado-e-aprovada-por-87-dos-adeptos-do-pt.shtml

Atualizações:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/154303-stf-volta-atras-e-inocenta…

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/11/1375938-juiz-de-execucao-pena…

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/01/1402572-justica-manda-governo…

http://www.dcomercio.com.br/2014/02/24/dirceu-quita-multa-com-vaquinha

http://g1.globo.com/politica/mensalao/noticia/2014/01/genoino-arrecada-e…

http://noticias.r7.com/brasil/gilmar-mendes-ve-sinais-de-lavagem-de-dinh…

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/delubio-recebe-advertencia-por-r…

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2014/02/26/advogado…

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/03/1422328-para-governador-do-df…

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,corregedoria-vai-apurar-visi…

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/dirceu-na-papuda-tem-ate-po…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/156764-o-linchamento-de-jose-dirc…


 

24/01/2014

Índice de desemprego da Folha – ou a arte de engarrafar fumaça.

“Algumas pessoas usam a estatística como um bêbado usa um poste de iluminação – para servir de apoio e não para iluminar” – Andrew Lang – historiador.

Os americanos têm um ditado bem interessante sobre uso de estatística como argumento: “os números não mentem, mas você conhece quem coletou os dados?”.

Há outro também muito interessante: “se torturarmos os dados por bastante tempo, eles acabam por admitir qualquer coisa”.

Essa desconfiança com dados estatísticos veio-me a mente quando dei com a seguinte manchete da Folha de São Paulo deste sábado, 18 de janeiro de 2014, no caderno “Mercado”:

61 milhões estão fora da força de trabalho.”

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/01/1399413-61-milhoes-estao-fora-da-forca-de-trabalho.shtml

Esclarece o primeiro parágrafo: Um contingente de 61,3 milhões de brasileiros de 14 anos ou mais não trabalha nem procura ocupação – e, portanto, não entra nas estatísticas do desemprego”.

Parece um número absurdo, e o é. Poderia sugerir que nada menos do que 38,5% da população economicamente ativa no Brasil (159,1 milhões de pessoas) está desempregada.

Isso seria particularmente preocupante se levarmos em consideração que a nova pesquisa do IBGE, a PNAD contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) com 3.500 municípios pesquisados aponta para um desemprego de 7,4%, ou seja, 11,8 milhões de pessoas. E a pesquisa realizada até então, a PME (Pesquisa Mensal do Emprego) que mede a taxa de ocupação nas seis maiores regiões metropolitanas aponta para um desemprego da ordem de 5,9%, ou 9,4 milhões de desempregados no país, usando os números da Folha e de seus infográficos.

E a seguir, no texto da Folha: “Referente ao segundo trimestre de 2013, o dado brasileiro ajuda a ilustrar como, apesar das taxas historicamente baixas de desemprego, o mercado de trabalho mostra sinais de precariedade”.

E mais adiante: “… Esse número supera o quádruplo dos 7,3 milhões de brasileiros oficialmente tidos como desempregados nas tabelas do IBGE – o que dá uma ideia de quanto o desemprego poderia crescer se mais pessoas decidissem ingressar no mercado e disputar vagas”.

Estariam os números oficiais errados? O governo estaria falseando informações para mostrar um quadro róseo quando na verdade a situação do emprego no Brasil é sombria?

Não, a manchete é apenas fumaça. O Brasil continua em pleno emprego ou bem perto dele.

Basta continuar o texto da Folha para começarmos a ver a manchete ser desmentida.

Analisemos este parágrafo:

“Mesmo tirando da conta os menores de 18 e os maiores de 60 anos, são 29,8 milhões de pessoas fora da força de trabalho, seja porque desistiram de procurar emprego, seja porque nem tentaram, seja porque são amparados por benefícios sociais”.

Para não perder viagem, notemos a insinuação de que o Bolsa Família é incentivador da vagabundagem: “… desistiram de procurar emprego… seja porque são amparados por benefícios sociais”.

Mas como assim? O número de desempregados cai repentinamente de 61,3 milhões para 29,8 milhões? Uma redução de mais de 50%?

E candidamente o jornalista nos explica: é que, na sua contagem inicial, ele considerou a garotada que ainda está na escola e as pessoas que já se aposentaram.

Ou seja, duas boas notícias, os brasileiros estão completando a sua educação básica antes de entrar no mercado de trabalho e os aposentados não estão mais precisando continuar a trabalhar após se aposentarem, passam a ser evidência de que o mercado de trabalho mostra sinais de precariedade”.

Mesmo assim, 29,8 milhões de pessoas é um número díspar em relação aos 11,8 milhões oficiais pela PNAD. Seria, caso não houvesse um outro “pequeno detalhe” apresentado no texto da Folha logo a seguir:

“Os dados sugerem que grande parte dos que estão fora da força de trabalho é dona de casa: 40,9 milhões são mulheres”. 

Esse “detalhe” é muito importante, porque a PNAD contínua, agora, considera também as áreas rurais, onde o trabalho da mulher é ainda, em muito, o trabalho doméstico.

Resumo da ópera, na estatística da Folha, até dona de casa entra na composição do número de desempregados.

Mas, então, se descontarmos dos números da Folha as senhoras que ainda são “donas de casa”, ou seja, cuidam do lar e não trabalham fora, restaria um número de desempregados maior do que o que oficialmente é informado?

A Folha não nos diz, desconversa e sai-se com essa:

“O ministro do Trabalho, Manoel Dias, disse que a pasta ainda está avaliando os resultados da nova pesquisa. Ele ressaltou que não é possível dizer que houve alta do desemprego, já que se trata de nova metodologia”.

Voltando ao ditado americano “os números não mentem, mas você conhece quem coletou os dados?”, eu conheço, pelo menos, a Folha de São Paulo eu conheço.


 

20/01/2014

Aécio e Alckmin, a análise combinatória e a matemática do jogo.

O adversário de Aécio para 2018 é Alckmin em 2014. Um Alckmin forte em São Paulo é o candidato natural do PSDB. Com ele fraco, Aécio tem chances, para Marina é um investimento a longo prazo e para Campos é indiferente.

O colega Neotupi nos traz um texto muito interessante: “O jogo de xadrez entre Alckmin e Campos para 2014 e 2018”.

É um belo trabalho de análise combinatória.

Realmente, a política de alianças permite combinações muito interessantes. Porém, diferente do que o artigo trata tão bem, o não apoio de Campos a Alckmin favorece muito mais a Aécio e a Marina. A Aécio favorece muito, para Marina é um investimento a longo prazo e para Campos é indiferente.

Demo-nos tratos à bola.

No início de 2013, Dilma era “pule de dez” para as eleições de 2014, e, então, o jogo dos outros concorrentes estava direcionado para 2018. Junho de 2013 pareceu uma obra de Lampedusa, mudou tudo para deixar tudo como estava. Ou seja, neste início de 2014, Dilma é novamente “pule de dez” para a eleição à presidência e o cenário de vitória no 1º turno não parece nada implausível.

Outra vez o jogo passa a ser 2018. Salvo chuvas e trovoadas já programadas e outras inesperadas. Os “protestos contra a Copa” são as combinadas. Vão começar a tentá-las em 25 de janeiro, aqui em São Paulo. Não deve dar em nada. Não nos esqueçamos de Marx: “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

As não combinadas são, por exemplo, os “rolezinhos”. Qualquer evento que convulsione o país será usado pelas forças reacionárias, a grande mídia como ponta de lança, para tentar desestabilizar o panorama político e “ver no que dá”, já que a agitação pode não favorecer aos outros candidatos, mas, sem dúvida, é desfavorável para Dilma.

Se nada acontecer, e é pouco provável que algo aconteça, é 2018 que deve estar nos planos da oposição e também do “novo PT” que terá de surgir com o encerramento do ciclo “lulista”.

Nesse cenário, olhando deste início de 2014, Marina Silva, Aécio ou Alckmin, Eduardo Campos e Haddad são possíveis candidatos.

Nestas eleições, a exceção de Haddad, estarão formando o recall para 2018.

Marina e Eduardo Campos são um caso inusitado. Têm, cada um, um partido para chamar de seu. Marina o Rede e Eduardo o PSB. O casamento entre eles é de conveniência e termina assim que o Rede estiver aprovado junto ao TSE.

Marina vem a calhar para Campos. Dá a Campos a visibilidade no sudeste que ele precisava e aproxima Campos do empresariado paulista.

Campos vem a calhar para Marina. Mantém-na viva no ano e nas eleições de 2014 e permite a ela ir construindo o seu Rede para 2018.

Para isso, ela precisa demarcar espaços em São Paulo e Rio. Marina é um caso interessante, é do Acre, da “rainforest”, mas seu principal eleitorado e apoiadores estão no sudeste. Não dá para ser linha auxiliar de Alckmin. Aécio agradece.

Mas este casamento mostra também uma mudança de rumo de Eduardo Campos. Marina inviabiliza um apoio do PSB ao PT no 2º turno. Ou vai exigir uma engenharia política que não vislumbro, por enquanto. Supondo que Aécio sobreviva ao 1º turno.

No mundo ideal, pela ótica do que era o início de 2013, Campos seria o “herdeiro de Lula” com o fim do “PT original”, seja por que Lula e Dilma – sua continuação – completaram seus ciclos, seja porque a AP 470 inviabilizou quadros poderosos, seja porque outros nomes envelheceram sem se viabilizar.

Lula chegou a ensaiar uma candidatura de Temer ao governo de São Paulo em troca da vice de Dilma para Eduardo Campos, mas não teve jogo com o PMDB. Restou a Campos sair candidato.

Aqui, o normal seria Campos levar a eleição para o segundo turno, batendo muito mais em Aécio que em Dilma, ficar em terceiro e no 2º turno apoiar Dilma, garantir um ministério com verba e ser o candidato do PSB-PT em 2018.

Algo mudou, e mudou na cabeça de Lula.

E a mudança foi Haddad e Padilha.

A lógica, talvez, tenha sido simples, partindo do gênio que Lula é. A eleição de Haddad mostrou um Lula poderoso, capaz de fincar “postes” e não é de hoje que Alckmin e o PSDB paulista mostram claros sinais de fadiga do material, e isso antes do atual escândalo do “trensalão” e do julgamento do “mensalão tucano”. Com Haddad eleito e com Dilma se recuperando das “Manifestações de Junho” muito melhor que Alckmin, Lula deve ter intuído que Padilha era viável não apenas para uma renovação do PT mas para a vitória na eleição para o governo paulista. Paradoxalmente, o PT paulistano, com Marta e Mercadante, não é dócil a Lula, o “Mais Médicos”, no entanto, tornou o nome de Padilha indiscutível dentro do PT.

Lula resolveu apostar.

Essa aposta muda o quadro da eleição de 2018 completamente, no curto prazo, e inviabiliza a chapa Campos presidente e o PT de vice em 2018. Pelo menos até 2016 – eleições municipais, onde Haddad deverá tentar a reeleição.

Com Padilha eleito governador e Haddad re-eleito prefeito da capital paulista, ele, Haddad, se torna o candidato natural do PT para 2018.

E mais, com Pimentel forte em Minas, Gleisi no Paraná e Lindbergh no Rio mais Tarso no Sul e Wagner na Bahia, estará feita a transição para o novo PT “pós-lulista”.

É “sonho de uma noite de verão” para Lula? É. Mas Lula se alimenta de sonhos, e esse não parece, visto daqui, do início de 2014, tão mirabolante assim.

Logo, Campos ficaria na chuva mesmo tendo apoiado Dilma e sido seu ministro. Campos deve ter percebido isso ou, mais ainda, conversado com Lula a respeito. Assim, inviabilizada a aliança PSB-PT para 2018, restou a ele buscar o confronto direto com o PT já em 2014, para marcar posição.  A fragilidade de Aécio só ajuda Campos a chegar ao segundo turno, o que antes não lhe convinha. Sem mandato, Campos necessitará de algo que o mantenha em evidência até 2018, para não perder o recall conseguido em 2014. Mas lembremo-nos, Marina só fica no PSB até viabilizar o seu Rede. Isso deve ser dar em 2015. Aí, com Marina e seu grupo fora do PSB, quem sabe, PT e PSB voltem a conversar? Hoje, Campos não tem opção.

Aécio e Alckmin – O PSDB foi e continua sendo um partido dividido.

Pela primeira vez, desde as eleições de FHC, o nome de Aécio poderia ter sido um unificador. A ambição de José Serra, mais uma vez, não permitiu. Pior ainda, Aécio não conseguiu viabilizar o seu nome como aquele que agregaria o pensamento conservador brasileiro.

Alckmin personifica o conservadorismo retrógrado paulista e brasileiro. Eleito em São Paulo em 2014, será o candidato natural do PSDB nas eleições de 2018.

O adversário de Aécio em 2018 é, portanto, Alckmin em 2014. Um Alckmin forte em São Paulo é o candidato natural do PSDB, com ele fraco, Aécio tem chances.

Mas que chance é essa?

A chance de concorrer contra Haddad, Marina Silva e Eduardo Campos. A primeira eleição onde Lula e FHC serão nomes do “ancien régime”, a eleição que representará o início de um novo ciclo político no Brasil.

Aécio tem mandato até 2018, se perder em 2014, retorna ao Senado e recomeça de lá. Alckmin, se perder em 2014, retorna imediatamente a 2008 – irá dar aulas de anestesiologia.

Eduardo Campos e Marina Silva prestam um grande favor a Aécio Neves ao dificultar a vitória de Alckmin em 2014 para o governo paulista.


 

31/12/2013

2014 – um ano de crise, ou seja, de riscos e oportunidades.

O saudoso Franco Motoro costumava falar sobre o ideograma chinês para crise – ele significa também risco e oportunidade, ensinava.

Fiz um exercício neste o último dia do ano. Recordar o que foi 2013 e tentar imaginar 2014 na pele de alguns de seus principais protagonistas.  Já havia dito que 2013 foi um ano mesquinho e 2014 pareceu-me, ao fim do exercício de imaginação, um ano de crise. De uma crise a Montoro, felizmente.

14 personagens de 2013 para 2014.

1 – Aécio –perdeu a sua grande chance.

Em fevereiro de 2013 escrevi sobre ele: não conseguiu até agora encampar um discurso de pensamento conservador, que é o espaço político que restou à oposição. O pensamento conservador – não confundir com reacionário – está órfão no Brasil, mas teria, sem dúvida, aceitação junto ao eleitorado brasileiro. Ficar nessa tática de “besouro rola-bosta” não vai levá-lo a nada. Tem de buscar um discurso propositivo e esse discurso terá de sair do pensamento conservador, pois o socialdemocrata está com o PT. É reler Roberto Campos e Delfim Neto e preparar uma proposta de governo palatável à nova e à antiga classe média. Seu avô foi capaz de se mostrar e se viabilizar como a alternativa a Jango e a Maluf, Aécio é capaz de tanto?

Não foi.

Tivesse sido, e as manifestações de junho teriam sido seu momento. A classe-média conservadora estava nas ruas à procura de um líder. Aécio não tinha o discurso pronto.

Com mandato de senador até 2018, para 2014, deve continuar com o mesmo discurso “rola-bosta” e a mesma falta de proposta. Resta-lhe a candidatura à presidência para fazer recall para 2018.

2 – Alckmin – é o um dos mais fracos governadores de São Paulo dos últimos 60 anos, pelo menos. Só não é o mais fraco devido à figura, hoje esquecida, de Antonio Fleury Filho. Mas como compará-lo a Ademar de Barros, Jânio Quadros, Maluf, Montoro ou Covas? Mesmo governadores discretos como Laudo Natel, Paulo Egydio Martins e Abreu Sodré, durante a ditadura, tiveram mais influência que ele. Mantém-se devido à inércia da política e conservadorismo paulistas.

Em 2013, as manifestações de junho mostraram que seu governo sofre de uma grave “fadiga do material”. Arrasta toda uma história de massacres em seus governos e, agora, corrupção.  Em 2014, vai enfrentar uma dura campanha contra o “novo” Alexandre Padilha. Não é de se espantar que perca.

3 – Blogueiros – foram a grande novidade da campanha de 2010. Formaram a linha de resistência à campanha suja. Em 2013 estão consolidados e aparecem como o futuro do jornalismo. Deram furos de notícias e trabalho à grande imprensa. 2014 pode ser o momento em que o futuro terá chegado para eles.

4 – Dilma – a grande vencedora de 2013. Sua grande hora foi as manifestações de junho. Saiu dela uma outra Dilma, não é mais “o poste de Lula”. Em 2014, disputará a sua sucessão à presidência com a autoridade de quem está no comando. Deve ser reeleita.

5 – Eduardo Campos – fez o que devia fazer e cometeu um grande erro. Não tinha escolha, ou era vice de Dilma ou candidato a presidente. É candidato a presidente. Em fevereiro escrevi sobre isso: “Sua campanha deverá ser coordenada por um relojoeiro suíço. Não tão forte que arrisque ser o segundo nem tão fraca que o faça ser o quarto, atrás de Marina Silva, por exemplo.”. Ainda achava que Marina viabilizaria sua candidatura, que Aécio iria para o 2º turno e que Eduardo Campos apoiaria Dilma, seria seu ministro e candidato do PT-PSB em 2018.

Seu erro foi Marina. Enquanto ela estiver no PSB, estará inviabilizada uma aliança com o PT. Em 2014, é possível até que Eduardo chegue ao 2º turno, dada a fraqueza de Aécio, mas não é provável que ganhe. E aí, sem cargo até 2018 poderá perder todo o recall conseguido com a campanha de 2014.

6 – Fernando Haddad – em 2013 teve seu batismo de fogo. Enfrentou as manifestações de junho e a guerrilha judicial contra o Controlar e o IPTU. Em 2014, acabará por ganhar as duas questões. Termina o ano íntegro. Tem a seu favor duas grandes vitórias. Uma medida simples e que melhorou substancialmente a velocidade dos ônibus urbanos. Simplesmente pintou-lhes faixas exclusivas. E o combate à corrupção da máfia do ISS. A máfia dos transportes públicos, no entanto, é sua esfinge e seu grande desafio.  De como vai enfrentá-la depende grande parte de seu futuro político. É o quadro político melhor preparado intelectualmente desde Fernando Henrique Cardoso, deve ter aprendido muito neste ano. Em 2014, insuspeitamente, um componente desse futuro estará sendo decidido. Uma vitória de Padilha para o governo do Estado coloca Haddad como virtual candidato do PT à sucessão de Dilma. Claro, desde que Haddad se reeleja em 2016. É muita coisa para alguém que está vivendo o primeiro ano do seu primeiro mandato, mas Haddad é o homem a se prestar atenção nos próximos anos.

7 – Imprensa – sua única vitória foi contra os réus do mensalão. Em 2013 não acertou uma. Tentou influir nas expectativas racionais da população através de uma campanha de terrorismo econômico. Termina ridicularizada, fazendo cambalacho estatístico para “provar” que tudo vai mal. Não poderá utilizar o discurso do moralismo. Sob esse aspecto, seus aliados é que estarão na berlinda. E o discurso do caos econômico ficou velho. Está economicamente enfraquecida, mas ainda é muito poderosa. Aí mora o grande risco, o desespero e suas medidas desesperadas. Em 2014, dá sinais de que tentará, pelo menos no 1º semestre, incendiar o país convocando manifestações para causar tumulto na Copa do Mundo. Não deverá conseguir nada, ou quase nada. Mas é um jogo perigosíssimo.

8 – Joaquim Barbosa – só não é o grande perdedor de 2013 porque tomou aos prisioneiros da AP 470 a liberdade e seu direito à dignidade. Esses, sem dúvida perderam muito mais. Mas Joaquim Barbosa, que já não tinha o respeito da corte que preside, perdeu qualquer respeito que pudesse ter no meio jurídico. Em relação a isso, as manifestações são públicas. Joaquim Barbosa se sustenta graças a grande imprensa e aos seguimentos mais retrógrados ou influenciáveis da nossa sociedade. 2014 é uma sinuca de bico para ele. Pode ficar na presidência do STF até novembro. Mas, então, finda seu mandato. Após 3 anos de intensa exposição pública e prepotência, exposição e prepotência às quais deu sinais de curtir cada minuto delas, terá condições de voltar a ser o obscuro ministro que era até o mensalão cair-lhe nas mãos? Voltará a sentir fortes dores nas costas e precisará de longas licenças para tratamento médico? Se aposentará e irá viver em Miami? Em 2014, o problema de Barbosa será 2015.

Pior será se aventurar se na candidatura política. Barbosa não parece ter a menor capacidade de lidar com o controverso. E controvérsia e contas a justar não lhe faltam. Não é à toa que vários partidos já se manifestaram refratários a tê-lo como possível candidato. Como candidato, estará exposto às mesmas regras dos outros, será vitrine. E, sem a toga para usar como navalha não tem lá muita chance.

9 – José Serra – Em 2013, não saiu do PSDB. Foi desafiado a fazê-lo, por FHC, e arregou.  Em 2014, ficará no PSDB como uma alma penada, uma assombração. Estará sempre a espera de uma oportunidade. Essa oportunidade é uma desistência de Aécio, logo, trabalhará contra essa candidatura.  Não tem nada a perder, já perdeu tudo.

10 – Lula – foi a grande ausência de 2013. Pode ter aprendido a trabalhar nas coxias, pode ter sido estratégia. Durante as manifestações, escreveu um artigo, em inglês, para o NYT. Nada mais, que eu me lembre. Reconheceu a legitimidade das manifestações e elogiou o governo Dilma, soou algo que acaciano. Enfim, melhor para Dilma. Em 2014 é Lula de novo. Lula deve estar salivando, mais uma eleição, mais um “poste”. É disso, da adrenalina de uma campanha política, que ele gosta.

11 – Manifestações – foram o grande acontecimento político de 2013. E, no entanto, ainda não surgiu um cientista político para explicá-las.  Não é tarefa fácil. Escrevi na época: “Os “protestos de junho” atravessaram todo o espectro ideológico nacional, foram da extrema esquerda a extrema direita em 15 dias”.

Apesar disso, nunca vi tamanho consenso. Todo agente político que ouvi falando do assunto reconhece que foram importantes, válidas e legítimas. Após algum tempo, os partidos, nos seus programas de TV, as apresentavam como se tivessem sido parte de sua estratégia política. Quando não se apresentam, até agora, como seus donos.

Vou desafinar o coro dos contentes.  Afora o MPL (Movimento pelo Passe Livre) que inicialmente organizou as manifestações e obteve uma enorme vitória ao conseguir a revogação do aumento das passagens de ônibus urbanos, afora os que oportunisticamente aproveitaram as manifestações para inviabilizar politicamente a aprovação da PEC 37 e afora os que protestavam contra a Rede Globo – veja a multiplicidade dos que, pelo menos, tinham uma causa, os demais não sabiam por que estavam lá. Eram as turmas do “contra tudo o que está aí”, “não é só pelos 20 centavos”, “a favor de qualquer coisa padrão FIFA” ou, simplesmente, do “vem para a rua”. Foi em grande parte um “espasmo cívico”.

Por que essa análise é importante? Porque a imprensa, nosso mais poderoso partido de oposição, vai tentar aparelhá-las em 2014. Não acho que vão conseguir. Ninguém sabe o que bota o povo na rua. Nem o povo sabe.

Mas vão conseguir alguns babacas nas portas dos estádios querendo aparecer para as câmeras.  E aí mora o perigo, estúpidos fazem coisas estúpidas – midiáticas, mas estúpidas. Aliás, quanto mais estúpidas, mais midiáticas.

Aqui, pelo menos no 1º semestre, o preço da liberdade será a eterna vigilância.

12 – PT x PSDB – o PT não é mais o PT.  O “PT de Lutas”, o grande “PT de Lutas”, com sua poderosa base sindical e movimentos populares não resistiu ao “PT do Lula Lá” que assumiu o governo. Por que esse enorme capital político duramente amealhado não soube ir para as ruas e defender o “seu” governo ainda é coisa para a qual não tenho explicação. Mas lamento profundamente.  O “PT do Lula Lá” estará, com a vitória de Dilma em 2014, no seu último mandato. O PT que emergirá do final do mandato Dilma, em 2018, estará baseado nos Estados e não mais em Brasília e na figura central de Lula. Será o PT de Tarso Genro no Rio Grande do Sul, de Patrus Ananias e Fernando Pimentel em Minas, de Haddad e, talvez, Padilha em São Paulo, de Lindberg Farias no Rio e de Jaques Wagner na Bahia. Que PT será, não sei. Mas 2014 é o início de sua transição.

O PSDB corre o risco de se tornar insignificante. Se perder a presidência, Minas e São Paulo, já não tendo o Rio e com uma campanha dura no Paraná, o que restará ao PSDB?  Mudar sua sede para a Goiânia de Marconi Perillo?

Esse é o risco, o fim. A visão da forca aguça a mente e FHC já avisou: “serve qualquer um, menos eles”. E “eles” é o PT.

Não gostei nada, nada dessa declaração. Cabe muita coisa ruim dentro dela.

13 –Prisioneiros do mensalão – Em 2013, foram a demonstração do quanto há de doentio no nosso sistema judiciário e de vilania na nossa grande imprensa. Estão sendo tratados como se fossem propriedade de Joaquim Barbosa, seus animais. E Joaquim Barbosa maltrata animais. Terão de encontrar uma maneira de sobreviver a 2014 com Joaquim Barbosa ainda presidente do STF. Em 2015, com Joaquim Barbosa em Miami fazendo tratamento para suas dores na coluna, com Dilma reeleita, com Ricardo Lewandowiski na presidência do STF e, talvez, com o mensalão tucano sendo julgado, a racionalidade deverá voltar a ampará-los.

Até lá, só espero que uma tragédia não venha resgatá-los.

14 – Skaf e Feliciano – por fim, 2013 reservou-nos também dois outsiders na política. Em comum, ambos têm um profundo senso de oportunismo e a rara capacidade de usar o dinheiro dos outros em benefício próprio.

Que tenham obtido sucesso mostra o quanto ainda somos um povo despolitizado.  Para 2014, Feliciano deverá ser reeleito. Mas não estranharia se começasse a apanhar justamente dos seus. No campo em que ele atua existem muitos, mas os votos são os mesmos. E aí vale a máxima – “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Skaf talvez nem se candidate. Rouba votos de Alckmin e foi muito acintosa a sua “pré-campanha”. Não estranharia se tivesse sua candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral por abuso poder econômico.

Que venha 2014 com seus riscos e oportunidades e que nele cuidemos apenas das coisas do coração. Mas das emotivas e não das fisiológicas como foi meu 2013. Em dezembro, então, veremos o que foi o ano. Nada como fazer previsões após os fatos consumados.


 

27/12/2013

Reescrevendo a Folha, sem fígado

Os fatos são os mesmo, mas a versão, quanta diferença.

Os dados e citações aqui contidos são rigorosamente os mesmos da matéria da Folha de hoje, 27.12.2013, cuja manchete é “Comércio tem Natal mais fraco em 11 anos”.

Se retirada a “bílis negra”, ficaria assim:

Comércio no Natal cresce pelo 11º ano consecutivo. 

Sem crise.

Apesar da crise mundial, no Brasil, o comércio natalino cresce consecutivamente há mais de uma década.

Em 2013, segundo indicador de atividade do comércio da Serasa Experian, as vendas na principal data para o comércio cresceram 8,7% no país (2,7% de crescimento, descontada a inflação), representando um crescimento contínuo desde o início da série em 2003. O levantamento foi feito com base em consultas realizadas na semana de 18 a 24 de dezembro.

Um setor dinâmico.

Os setores de shoppings e E-Comerce tiveram natal dinâmico em 2013. Os shoppings registraram um crescimento de 5% em termos reais. O setor deve encerrar o ano com faturamento de R$ 132,8 bilhões e com mais 38 novos shoppings abertos ao longo do ano. O E-comerce teve um crescimento nominal de 41%. De 15 de novembro a 24 deste mês, as vendas somaram R$ 4,3 bilhões. No ano, o setor deve faturar R$ 28 bilhões, segundo a E-Bit.

Efeito Miami, IPI e Black Friday, podia ser melhor ainda.

Os dados do comércio no natal podiam ser melhores ainda. O consumidor, que espera, normalmente, a entrada do 13º salário para efetuar suas compras, este ano, teve alguns motivos para antecipá-las. Um deles foi o fim da redução do IPI para móveis e automóveis. Outro fator que também contribuiu para um não aumento maior, em dezembro, foi a liquidação conhecida como Black Friday, realizada na última semana de novembro.

Os shoppings tiveram ainda a competição com outlets de Miami e Orlando, que vivem abarrotados de brasileiros. “Os preços lá fora são muito menores e isso é um inibidor de compras, sobretudo no setor de vestiário”, diz Sahyoun, presidente da Alshop.

A inadimplência afastada.

Todo crescimento, principalmente se baseado no crédito, embute o risco da inadimplência. Esse, contudo, não parece ser um risco a curto prazo. As famílias brasileiras se mostram responsáveis nesse sentido.

Segundo a Alshop , o gasto individual com presentes caiu 10% neste ano. Variou de R$ 35 a R$ 45 nos shoppings populares. E de R$ 75 a R$ 125 nos estabelecimentos de classe média. O crescimento, então, se explica por mais pessoas terem ido às compras, mas gastado menos individualmente.

“O consumidor está menos disposto a comprar e mais preocupado em sair da inadimplência do que contrair novas dívidas”, diz Luiz Rabi, economista do Serasa.

Para 2014, a estabilidade. Mas…

O ano de 2010 – PIB de 7,5%, foi atípico com um crescimento de 15,5% do comércio em dezembro. A análise da série histórica de crescimento do varejo no Natal, no entanto, mostra uma tendência de estabilização.

“Vivemos nos últimos anos uma antecipação forte do consumo, estimulado pela redução das alíquotas de impostos”, diz Nuno Fouto, professor do Provar/FIA.

Segundo Luiz Augusto Ildefonso da Silva, diretor de relações institucionais da Alshop, “A volúpia de compras acabou. As pessoas já compraram o que precisaram e, agora, estão fazendo reposição”.

E para o economista Eduardo Tonooka, “Com os níveis de emprego elevados, não há muito mais espaço para ter mais pessoas ingressando no mercado de consumo”.

O comércio natalino cresce a uma taxa média próxima a 3,3%, a partir de 2008. Logo, 2014 deve repetir 2013.

Mas 2014 tem Copa do Mundo e eleições, e aí…

Agora, para a Folha de São Paulo, os fatos são os mesmo, mas a versão, quanta diferença.

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2013/12/1390201-vendas-de-natal-tem-pior-desempenho-em-11-anos-segundo-serasa-experian.shtml


 

22/12/2013

2013, um ano mesquinho – uma retrospectiva em três personagens.

A classe-média, a grande mídia e o Ministro Joaquim Barbosa.

E se, em um exercício de imaginação, buscássemos em nossa mente uma representação para o ano que termina, qual ela seria? Creio que a intrincada rede de preconceitos, ressentimentos e rancores que emaranha a classe-média brasileira, a grande mídia e um personagem ainda a procura de um autor, representado na figura do Ministro Joaquim Barbosa. Ou, talvez, fosse mais próprio a imagem de uma calda de cobertura sobre um confeito de três frutas amargas, o licor de bílis que as amalgama.

O ano de 2012 foi o ano do “julgamento do mensalão” e, na minha memória, nada melhor o representa do que meia dúzia de senhores togados, sessentões priápicos, batendo com suas pistolas sobre a bancada e com isso tensionando os cordames dos freios e contrapesos que equilibram nosso Estado democrático de direito.

Se buscássemos uma imagem síntese para os anos Lula, seria o Bolsa Família, o resgate de tantos miseráveis. A esperança vencendo o medo e a fome e o medo da fome.

Mas para o ano de 2013, talvez mais fácil se buscássemos traduzi-lo em uma palavra, a partir do sentimento que nos desperta o triângulo que propomos representá-lo: mesquinho.

Porque mesquinhas foram as atitudes dos três personagens do ano de 2013, mesquinhas no que têm de pequenas e cruéis – mofinas.

A grande mídia despiu-se de qualquer veleidade de isenção, mais uma vez mandou às favas os pruridos de consciência, tornou-se hipócrita. Praticou a presdigitação da informação ao ponto de prever um eminente racionamento de energia pela combinação malévola de falta de chuvas com o aumento do consumo pela irresponsável promoção do poder aquisitivo das classes pobres. Previu também a carestia advinda da inflação do tomate. E, quando foi necessária na defesa de uns, essa presdigitação conseguiu lograr a invisibilidade de fatos de conhecimento público.  Dos fatos que não eram do seu interesse, claro está.   A outros persegui, permitiu-se a prática da execração pública dos seus adversários de ideias. Advogou pelo tratamento cruel, desumano e degradante dos adversários caídos. Tornou-se grosseira no trato e grosseira no texto, desceu ao nível do calão.

E, paradoxalmente, perdeu poder e tornou-se extramente perigosa. Julgava-se a própria opinião pública, desnudou-se como tão somente a opinião publicada, mas restou-lhe como campo de influência o Judiciário. Por exaltação ou por constrangimento. Define-lhes os réus, antecipa-lhes os votos e emprega seus parentes e aposentados.  Uma imbricada relação que levou-me a buscar ajuda em um dos nossos mais cultos generais para defini-la:

“São as mesmas vivandeiras castelãs, sempre alvoroçadas e aos bivaques, que vêm, agora, bolir com os meirinhos e provocar extravagâncias do poder Judiciário”.

Tornou-se especialmente mesquinha em relação aos seus heróis. Seus patrões, quando morrem, tornam se grandes jornalista, nomeiam logradouros públicos, como tal. Em vida, não foram tratados como jornalistas e sim como doutores. Seus grandes jornalistas, mortos sob tortura ou assassinados na lida são esquecidos.

A classe média, entendendo-se, aqui, a nossa minoritária classe média consolidada, continuou, em 2013, a ser a caixa de ressonância dessa grande mídia. Amou a quem ela amou, odiou a quem ela odiou, lapidou seus condenados.

Triste sina da classe-média brasileira, foi a grande protagonista de 2013, teve seu destino nas mãos. Mas no seu momento de maior poder, acostumada a ser guiada, não soube se autodeterminar.

Não teve líderes a lhe guiar, teve demagogos interesseiros. Não tinha uma causa a defender, apenas pequenos interesses e grandes mágoas.  Gritava de ressentimento, não de indignação.

E, no entanto, suas passeatas de junho foram o grande e inútil acontecimento político do ano. Em uma das muitas manifestações, vi um rapaz de ar apalermado, mas exultante, gritando em voz ritmada “vem pra rua”. Carregava um cartaz onde se lia, não a causa pela qual ele se manifestava, mas a frase “vem pra rua”. Ir para a rua era um fim em si mesmo. Pensei comigo: “Não, o Brasil não acordou, está nas ruas, mas abandonado à própria sorte, como um gigante sonâmbulo marchando entre o sonho, a consciência de si e o pesadelo. Um milhão e meio de pessoas que por algum motivo julgaram importante se juntarem em multidão, um fantástico capital político a espera de quem ponha a coroa na própria cabeça antes que um aventureiro o faça”.

O que restou das “grandes jornadas de junho”?  Após 10 anos de constante bombardeio midiático ácido ao governo, a classe-média estava intoxicada. Com o perdão da má palavra, e com dor no coração, mas me parece que tudo não passou de um “vómito cívico”.

Em setembro, essa classe-média já se recolhera ao seu ranger de dentes intramuros dos seus condomínios, shopping centers e escritórios. Assustada com a violência praticada por seus próprios filhos. Estes, vestidos de preto e portando pedras e coquetéis Molotov, arrebentavam vitrines e incendiavam as ruas. Imitavam, mais uma vez, o que viam nas telas dos seus computadores. Mas, igual a seus pais, sem uma causa a defender, buscavam, pelo uso da violência como forma de ação política, derrubar um sistema de poder imaginário. Passada a moda, voltaram para o Facebook.

A classe-média mostrou sua verdadeira cara, pouco depois. Na reação dos “Doutores CRMs” ao programa “Mais Médicos”. E lá estava, outra vez, a mesma mídia apoiando e repercutindo uma manifestação do mais puro preconceito. Ainda me causa mal estar a lembrança de um artigo de uma colunista da Folha de São Paulo, loira e muito bonita, por sinal, referindo-se aos médicos cubanos – escravos.

Os motivos eram tão mesquinhos que acabamos por assistir ao suicídio da imagem coletiva da medicina brasileira, quando, por fim, o programa “Mais Médicos” mostrou-se um sucesso. Sucesso que prescindiu, para acontecer, das nossas classes média e médica tão cientes e ciosas da sua própria importância.

Mas, por que nos surpreendemos ao ver mocinhas brancas, em jalecos brancos, usando termos de baixo calão? Já nos havia ensinado a professora Marilena Chauí: “A classe média é uma abominação política porque é fascista; é uma abominação ética porque é violenta; e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”.

Acrescento eu: mesquinha.

E, então, chegamos ao último integrante do nosso triunvirato mesquinho – o Ministro Joaquim Barbosa.

Desnecessário relembrar, por já muito discutida, a incoerência do juiz inflexível que pune corruptos com um rigor próximo ao da ira santa e adquire um apartamento em Miami usando de meios, digamos, não exatamente recomendáveis no recolhimento de impostos. Do homem que se quer vitorioso por méritos próprios, já que vindo das classes mais simples, mas que aprecia ser convidado para camarotes VIP.  Do intelectual douto nas letras de Goethe e que trata seus pares com a grosseria dos valentões de botequim ou de arquibancada. Do homem elegante em trajes importados e que nega cumprimento a uma senhora em um evento público. Do homem público endeusado pela mídia como um modelo para o Brasil e que persegue essa mesma mídia, ou quando lhe atira impropérios ou quando requer, em ofício, a demissão de um seu parente do serviço público ou quando serve de pano de fundo para a dentenção de jornalitas pátrios em terras estrangeiras. Do homem que representa a última esperança da nação na aplicação da justiça “justa e para todos” e que se dá ao uso de artimanhas, inovações e fatiamentos que, na opinião de grandes juristas, solapam o direito dos réus. O homem-juiz poderoso, inquestionável e dono da última palavra sobre a vida de um outro homem e incapaz de um gesto de solidariedade ao seu prisioneiro.

Quiseram-no por intrinsecamente mau, talvez não tenha magnitude para tanto – apenas mesquinho.

E, por isso mesmo, por tudo isso, esse personagem consegue sintetizar na sua figura a essência da nossa classe-média e da nossa grande mídia. Até porque parece manter com ambas uma relação que beira a simbiose.

E, chegando, então, até aqui, creio que acabei por achar a imagem que, no meu imaginário, representa o ano de 2013. O rosto sorridente do Ministro Joaquim Barbosa. É dele o rosto do ano.

De um ano mesquinho.

 

 


 

23/11/2013

Mensalão: Joaquim Barbosa e o sentido da tragédia.

O Ministro Joaquim Barbosa não tem mais utilidade. Deve começar a ser desconstruído pelas mesmas forças a que serviu e às quais passa, agora, a ser um incômodo.

Na AP 470 não há vencedores. E Joaquim Barbosa é um dos grandes perdedores.

Conquanto alguns o acreditem sobre-humano e outros, desumano, a  mim, o Ministro Joaquim Barbosa parece essencialmete humano, demasiadamente humano. E, por demasiadamente humano, patético. Carrega consigo uma dimensão trágica, como só os patéticos conseguem ter. Mas não trágico como Otelo, pois que Otelo não era patético. Patético e trágico tal qual Macbeth.

E, coerente a Macbeth, se os maus presságios que me desassossegam a alma a respeito de sua pessoa estiverem certos, Joaquim Barbosa estará cumprindo uma trajetória parabólica que começa sua descendente.

O início:

A indicação de Joaquim Barbosa ao STF foi um gesto político de Lula. Mas esse gesto político, uma justa homenagem e uma forma de reparação aos negros do Brasil, também é uma maldição a pesar sobre o indicado.

Interessante, poderia pesar também sobre a ex-ministra Ellen Gracie, a primeira mulher a assumir como ministra da suprema corte do Brasil. No entanto, todos parecem entender o gesto político de sua indicação, mas ninguém considera que ela foi escolhida apenas por ser mulher. Por que isso pesa sobre os ombros de Joaquim Barbosa? Pesaria sobre os ombros de qualquer outro negro que assumisse o cargo?

De Frei Beto sobre Joaquim Barbosa:

“Em março (2003), Márcio Thomaz Bastos (então, ministro da Justiça) indagou se eu conhecia um negro com perfil para ocupar vaga no STF. Lula pretendia nomear um para a suprema corte do país. Lembrei-me de Joaquim Barbosa”.

Conhecera-o, meses antes, de forma prosaica, em uma agência de viagens, em 2002, quando o, então, procurador Joaquim Barbosa cultivava a arte de ser simpático e ainda cuidava de suas próprias passagens aéreas:

“Instalei-me no primeiro banco vazio, ao lado de um cidadão negro que nunca vira.

– Você é o Frei Betto? – indagou-me.

Confirmei. Apresentou-se: Joaquim Barbosa… Trocamos ideias e, ao me despedir, levei dele o cartão e a boa impressão.”

E assim, ficou a indicação de Barbosa em função de sua cor e não de sua capacidade, apesar de sua respeitável formação acadêmica e de ter alçado aos cargos que ocupou sempre por concurso público.

Do ex-ministro Cesar Peluso sobre Barbosa:

“A impressão que tenho é de que ele tem medo de ser qualificado como arrogante.Tem receio de ser qualificado como alguém que foi para o Supremo não pelos méritos, que ele tem, mas pela cor”.

Ou seja, como aos negros em geral, neste país, não era dado a Joaquim Barbosa o reconhecimento de estar em pé de igualdade nem quando alcançava o ponto máximo da carreira a que se propôs seguir.

Isso o incomoda? Basta ver o seu comentário após entrevero com o ministro Gilmar Mendes:

“Enganam-se os que pensavam que o STF iria ter um negro submisso, subserviente.”

Ou quando da resposta que deu a Peluso:

 “sempre houve um ou outro engraçadinho a tomar liberdades comigo, achando que a cor da minha pele o autorizava a tanto”. “porque alguns brasileiros não negros se acham no direito de tomar certas liberdades com negros”.  “Sempre minha resposta veio na hora, dura.”

Permitamo-nos um interregno, é interessante como, realmente, o tempo é o senhor da história. Comparemos a imagem que se forma hoje sobre Joaquim Barbosa – presidente do STF e a crítica do Ministro Joaquim Barbosa ao então presidente Cezar Peluso, em 2012:

“as pessoas guardarão na lembrança a imagem de um presidente do STF conservador, imperial, tirânico, que não hesitava em violar as normas quando se tratava de impor à força a sua vontade”.

Voltando à história de Joaquim Barbosa, empossado ministro e com problemas ortopédicos, começam a fazer-lhe a fama de relapso com suas obrigações. Suas várias licenças médicas são vistas como uma forma de se ausentar do trabalho. Flagram-no bebendo em um bar, confraternizando com amigos durante uma das licenças. Preto e indolente.

Não é outro, na minha opinião, o estopim de sua discussão com o Ministro Gilmar Mendes:

Eles discutiam duas ações que já haviam sido julgadas no Supremo em 2006:

“JB – Não se discutiu claramente.

GM – Se discutiu claramente e eu trouxe razão. Talvez Vossa Excelência esteja faltando às sessões. […] Tanto é que Vossa Excelência não tinha votado. Vossa Excelência faltou à sessão.

JB – Eu estava de licença, ministro.

GM – Vossa Excelência falta à sessão e depois vem…”

Aqui, outra vez, o tempo arma uma arapuca para Joaquim Barbosa usando suas próprias palavras. Na resposta já clássica de deu a Gilmar Mendes:

“Vossa Excelência está destruindo a justiça deste país…Vossa excelência não está nas ruas, Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. …Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar”.

“Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do judiciário brasileiro”.

Uma das acusações que se faz à AP 470 é justamente em relação ao seu caráter midiático. Os grandes grupos de mídia pautando o Supremo e Joaquim Barbosa a sua estrela maior.

A ascensão:

A mudança dos “donos do poder” em relação ao Ministro Joaquim Barbosa começa com a sua indicação para a relatoria da AP 470 – O mensalão.

A Ministra Carmen Lúcia não pode ser considerada uma “bruxa shakespeariana”, longe disso, mas, tal qual elas, foi profética, em 2007, ao comentar o que ocorreria com Joaquim Barbosa, a partir dessa relatoria, em uma troca de correspondência com o Ministro Lewandowisk flagrada por jornalistas bisbilhoteiros:

“Esse vai dar um salto social com o julgamento”

Ainda que possa carregar uma ponta de preconceito, o comentário de Carmen Lúcia denuncia que já era sabido, desde então, que o julgamento do “mensalão” era uma porta para a ascensão social. Claro, desde que as coisas certas fossem feitas. O ministro Lewandowisk, por exemplo, foi o revisor desse processo e ninguém dirá que obteve um “salto social”. O Ministro Celso Mello sentiu na pele o que é “não fazer a coisa certa”.

Mas, como vimos de seu diálogo com Frei Beto, Joaquim Barbosa sabia fazer a coisa certa.

A sua atuação como magistrado, na AP 470, ainda será estudo de caso nos cursos de direito, tal o grau de “inovação”, se não, de desrespeito aos mais basilares direitos dos réus. Mas condenar o PT na figura de José Dirceu era a “coisa certa” que esperavam de Joaquim Barbosa. As outras 39 almas eram o bônus e Joaquim Barbosa não se fez de rogado em pena-las.

Desde então, o “preto indolente” transformou-se em “o menino pobre que mudou o Brasil”.

Ah, os sortilégios da pirâmide de Maslow.

Passou a ser cumprimentado nas ruas, dava autógrafos. Nas fotos que vi, todos os que o cumprimentavam eram brancos de classe média, mas todos sorridentes e orgulhosos em estar junto do novo herói, Batman ou Anjo Vingador.

A brutalidade e a intolerância com que conduzia o julgamento foram relevadas – traços de uma personalidade “mercurial”, dizia a Folha.

Tudo lhe era permitido, de negar cumprimento à Presidente da República na recepção ao Papa a ofender jornalista, desde que a “coisa certa” fosse feita.

E ela foi feita, a condenação dos “mensaleiros” foi comemorada em manchetes da grande imprensa, dezoito minutos no “Jornal Nacional”. Algo só comparável ao frenesi quase orgiástico das grandes conquistas do esporte nacional.

A queda:

A partir daí, algo mudou na relação da grande imprensa para com Joaquim Barbosa.

Sua atitude passou a ser relativizada. Em uma das muitas discussões com o Ministro Lewandowisk, chamou-o de “chicaneiro”. Coisas muito piores já havia dito – foi censurado publicamente. Agora, havia limites.

Apareceu seu apartamento em Miami, adquirido com uma forma, digamos, “inovadora” em relação ao recolhimento de impostos. Apareceram suas passagens aéreas em viagens não oficiais.

Por fim, Joaquim Barbosa cometeu o seu grande erro.

Na busca pelos holofotes costumeiros, enviou para a prisão os mensaleiros que importavam, em dia de feriado nacional. Entre eles, um homem convalescendo de extensa cirurgia cardíaca. Numa artimanha jurídica, pôs em regime fechado, por alguns dias, prisioneiros condenados ao semiaberto .

Quando li, no dia seguinte, a palavra “brutalidade” na Folha de São Paulo se referindo a ele, quando, depois, Elio Gaspari, na mesma Folha, comparava sua atitude a de linchamento e, ainda depois, quando soube que a Globo noticiou no mesmo Jornal Nacional a carta de repúdio a ele dirigida por artistas, intelectuais e juristas, pensei – “foi para o tronco”.

São esses os maus presságios que me desassossegam a alma – com os “mensaleiros” condenados e presos, o Ministro Joaquim Barbosa não tem mais utilidade. Deve começar a ser desconstruído pelas mesmas forças a que serviu e às quais passa, agora, a ser um incômodo.

Incômodo não só pela associação aos seus métodos truculentos que precisa ser evitada. Incômodo porque, como vimos, Joaquim Barbosa só presta reverência a si próprio, não compõem nem demonstra “gratidão”.

“A imprensa brasileira é toda ela branca, conservadora. O empresariado, idem. Todas as engrenagens de comando no Brasil estão nas mãos de pessoas brancas e conservadoras”.

Joaquim Barbosa será presidente do STF até novembro de 2014, depois, passará a presidência para Ricardo Lewandowisk e retornará à planície árida do plenário. Como abrir mão da figura do “Anjo Vingador”?

Joaquim Barbosa não encarna a figura do “menino pobre que mudou o Brasil”, esse é Lula. Oriundo da burocracia federal, é um classe-média típico.Típico até na necessidade de compensações simbólicas, e, no caso de Barbosa, até por outros e bons motivos. Estaria sonhando em ascender à alta burguesia, aos “donos do poder”?

Se é essa a sua intenção, aprenderá, como Macbeth aprendeu em relação ao trono da Escócia, que “os donos do poder” são uma oligarquia hereditária.


 

21/11/2013

Mensalão, um caso inacabado

Há alguns dias, Luis Nassif viu na prisão dos condenados da AP 470 o fim de um ciclo, aqui no blog, um post se intitulava “Findo o mensalão, quem ganhou e quem perdeu?” e na imprensa que acompanhei, uma tentativa de passar a ideia “acabou”.

Pensei: não,  na verdade, está se iniciando uma nova etapa de um caso inacabado.

A ressaca do mensalão.

Quem a acompanhou o frenesi que tomou conta da imprensa quando da condenação dos réus deve ter estranhado a repercussão de suas prisões. Não vi o mesmo destaque, a mesma comemoração quase orgiástica das grandes conquistas esportivas nacionais. Para um fato muito mais dramático, as prisões, as manchetes eram até comedidas. Não acompanho noticiário de TV, mas o pouco que vi estava longe do que vimos anteriormente.

Claro, houve matérias tal quais as da Folha de São Paulo descrevendo como é a vida na prisão com destaque para as dimensões minúsculas das celas e para o fato de que nelas os banhos são frios. Destinavam-se a excitar aos tarados de sempre.

No mais, comedimento.

Pensei, por quê?

Ressaca.

Alguns senhores e duas senhoras de meia-idade embarcando em um avião da Policia Federal rumo a um presídio não simbolizava nada que pudesse representar a “lavagem da alma nacional”.

Aquelas imagens eram como os comensais retardatários de uma festa que já havia terminado.

Então o mensalão realmente havia acabado?

Não. O mensalão mudava de estágio.

Nós, os perdedores.

Neste, o passado recente revisitado através de seus personagens é que nos mostrará a insensatez a que se dedicou a estrutura que dava apoio ao regime anterior ao de Lula na tentativa derrubar seu governo democraticamente eleito. Oito anos de uma guerra suja que derrotou a todos.

O Estado Democrático de Direito – sem dúvida, a primeira vítima da AP 470 foi o Estado Democrático de Direito e, dentro dele, valores basilares da nossa civilização, tais como, a presunção de inocência e o devido processo legal.

Como o legalismo, base do nosso sistema jurídico – o que não está nos autos não está no mundo – pode aceitar a implantação e operação de um tribunal de exceção, onde a lei foi moldada à exigência prévia de condenação dos réus? Onde as provas de inocência ou a falta de provas de culpa não passaram de detalhes incômodos mas desprezíveis?

Não que tribunais de exceção sejam novidades no Brasil, um país que viveu dois períodos ditatoriais, o Estado Novo e a Ditadura de 64 – três se contarmos o anos iniciais da República, conhece-os muito bem.

Mas, na vigência do mais longo período democrático republicano, como pudemos aceitar uma denúncia pífia de um Procurador Geral da República que, após sete anos de investigação, alegava que a falta de provas contra os acusados era a prova de culpa deles?

Como permitimos que acusados fossem sendo acumulados em um único processo até que o número de 40 fosse obtido? Uma dúzia de vidas, os absolvidos ao final, atiradas ao inferno de um processo judicial apenas para que mais uma zombaria pudesse ser feita – Lula Lá e os 40 ladrões.

Como suprimimos o direito ao duplo grau de jurisdição? E, alegando que todos os réus contribuíram para o mesmo crime, esquecemos o princípio do juiz natural? Como, após isso, permitimos que o mesmo processo fosse “fatiado” e julgado como processos individuais?

Como aceitamos que indícios e ilações tivessem o valor de provas documentais, que uma teoria extravagante – o “domínio do fato”, fosse usada para condenar sem provas, ainda que o próprio autor da teoria deixasse claro que as provas eram o que deveria condenar o réu e não a teoria?

Como permitimos que se somassem penas em um processo típico de crime continuado, como permitimos que penas fossem majoradas até que o regime fechado fosse obtido?  Como permitimos que o crime de corrupção recebesse pena maior que o de homicídio qualificado?

Como inovamos até o último instante e através do conceito de transitado em julgado parcial permitimos que réus começassem a cumprir pena quando ainda lhes era cabido recursos. Qual o valor que demos ao “amplo direito de defesa”?

E, por fim, como permitimos que fossem trancafiados em regime fechado os prisioneiros condenados a regime semiaberto?

Se a memória não me trai, o general Geisel, o penúltimo general-presidente da ditadura de 64, no livro “Ernesto Geisel” de Maria Celina D’Araujo e Celso Castro, declarou que, quando Ministro do Superior Tribunal Militar no governo Costa e Silva, condenou réus porque estava convencido de suas culpas e não porque houvesse provas contra eles.

Estávamos vivendo em uma ditadura.

Que a mesma concepção de justiça tenha sido considerada válida e usada em plena vigência do Estado Democrático de Direito como a única capaz de combater a nossa corrupção endêmica mostra o quanto a AP 470 no impôs de perdas.

Mais, quando pensamos no contrato social que nos mantém unidos como nação, e em como pudemos permitir que tentassem nos iludir com a ideia de que é possível fundar uma nova sociedade baseada na ética pelo uso da hipocrisia contida na ética seletiva. Que seria possível estabelecer um corte abrupto na linha de tempo e de memória dessa nação e reestabelecer a moralidade a partir de um ponto de viragem sem que o passado recente fosse revisitado e passado a limpo.

Todos os perdedores.

Os réus da AP 470.

Quarenta seres humanos, doze deles inocentados ao final, pagaram com suas dignidades a sanha persecutória de seus algozes. Nunca a aplicação da justiça admitiu cobrar a dignidade do réu entre as custas processuais.

O que ocorreu com os réus durante o julgamento do “mensalão” só se explica pelo que buscavam seus opressores. Uns pela fama, outros pelo exercício do poder e a maioria por aquilo que Euclides da Cunha acusa em Os Sertões de ter sido buscado pelos últimos soldados paulistas que chegavam a Canudos – meia ração de glória.

São muitos os condenados, lembrei-me de alguns.

Genoíno e Dirceu foram perseguidos pelas ruas. A Dirceu coube até as bengaladas de um senil arregimentado para o pelotão de linchadores. Com Genuíno, a crueldade não conheceu limites nas mãos de palhaços ensandecidos travestidos de jornalistas ou de seu inverso, jornalistas ensandecidos travestidos de palhaços. Não se pejaram de usar crianças no processo de humilhação. Todos vestidos de preto, todos tinham patrões a quem agradar. Ririam se esses patrões das humilhações que seus jagunços impunham aos réus?

De Genoíno roubaram a saúde, de Gushiken a vida.

E, paradoxalmente, isso lhes restituiu a dignidade. Quando finalmente presos, seus braços erguidos, seus punhos cerrados eram um gesto legítimo e prenunciador da virada. A partir de tanta humilhação e desrespeito começa a surgir uma corrente de indignados, jurista, artistas e pessoas comuns a prestar-lhes solidariedade. Quando saírem da cadeia, serão recepcionados como heróis, rezo para que Genoíno não o seja como mártir. As perdas que já tiveram, porém, como serão compensadas?

Kátia Rabello e Simone Vasconcelos – as das mulheres condenadas. São prisioneiras comuns no que isso tem de mais solitário, correm o risco de serem esquecidas. São, no entanto, as duas pessoas para as quais o encarceramento me parece mais injusto.

Katia Rabello, ex-presidente do Banco Rural, está presa, mas onde estão os controladores do Banco Nacional e do Banco Econômico, falidos no governo FHC e por ele resgatados através do PROER? Estão condenados e aguardando em liberdade mais um recurso que a justiça é pródiga em conceder-lhes.  E Daniel Dantas, também banqueiro e também condenado? Bem, esse quase mandou para a cadeia o juiz e o delegado que o detiveram por uns poucos dias.

Quanto a Simone Vasconcelos, uma figura totalmente subalterna no caso. Funcionária de Marcos Valério, cumpria ordens. Não teve a clemência da Corte.

Resta Roberto Jefferson, provavelmente se beneficiará do regime de prisão domiciliar que Genoíno lhe proporcionará. Que importa, passará para a posteridade como alcaguete. E tolo.

O Supremo Tribunal Federal

O STF é certamente a instituição mais antiga do Brasil, originou-se na na transferência da família real portuguesa para o Brasil em 1808.

De pouco lhe valeu ser uma instituição veneranda. Foi inapelavelmente pautado pelos poderosos grupos midiáticos nacionais. Determinaram-lhes quando o julgamento deveria começar e em que ritmo seguir, anteciparam-lhe as decisões. Elogiaram os que concordavam e admoestaram os discordantes. Por último, deram emprego ao seu ex-presidente aposentado.

O que lhe sobrou? Está em processo de reconstrução de sua independência e respeitabilidade, mas não será tão logo que voltará a ser visto como o guardião inabalável da nossa cidadania.

Dentro dessa instituição, figuras distintas na postura, no caráter, igualadas nas perdas que a AP 470 imputou a todos.

Lewandowski – o revisor do processo, foi derrotado na maioria de suas proposições. Ofendido em público pelo relator do processo e por um mesário de junta eleitoral aliciado por jornalistas que queriam mostra-lo como antagonizado com a sociedade. A que ponto chegamos?  Termina o caso como exemplo da sobriedade e temperança que caberia a todo o magistrado. Pagou um preço alto.

Luiz Fux – deste que “matou no peito”, nada restou após aquela fatídica entrevista, quase confição. Como descreveremos os meios dos quais se utilizou para chegar a sua indicação ao STF? Como descreveremos a sua relação com Dirceu – o réu do mensalão? Promíscua?

Celso de Mello. Como deve ter doído o voto no qual decidiu por retirar do Congresso a prerrogativa da cassação de mandatos. Constrangeram-no a desdizer um voto seminal anterior em que decidira em sentido oposto. Meses depois, uma nova formação do Supremo reafirmou como válidada o decisão que ele renegara. Sofrera por nada, o decano. Quando se recuperou, reafirmando a validade dos embargos infringentes, já era tarde. Qualquer atriz de novela da Globo já se sentia com autoridade para chama-lo às falas.

Poderia falar de Roberto Gurgel, poderia falar de Ayres de Brito, reverteriam com suas histórias pessoais as perdas do STF com a AP 470? Como eram considerados antes dela, como os consideram depois?

A imprensa

O que ocorreu com a grande imprensa, entendendo como grande imprensa os Grupos Folha, Globo, Abril e Estadão?Poderosos a ponto de pautar os STF, seus funcionários não puderam se identificar durante os protestos de junho para não serem hostilizados pelos manifestantes. Vários, ainda assim, o foram.

O que ocorreu, não ocorreu por influência direta da participação desses grupos de mídia no “mensalão”. Mas como desconhecer que isso também foi importante? Como não perceber que o processo de intoxicação a que submeteram a população acabou se voltando contra eles próprios?

Perderam seu ativo mais precioso – a credibilidade. Pesquisa recente da FGV mostra que 71% dos brasileiros não confiam nas TVs e 62% não confiam nos jornais

Outro aspecto interessante diz respeito aos jornalistas. O processo do mensalão começa a ser revisto. Réus execrados transformam se em heróis. Os textos escritos durante todos esses anos serão revisitados também. Será que todos os jornalistas que cobriram o “mensalão” reafirmariam hoje o que escreveram ontem? Se envergonhariam de algo?

Há muitos nomes a citar, mas um caso emblemático é o do desenhista Chico Caruso e seus cartuns sobre Gushiken. Tais cartuns fariam parte de uma retrospectiva?

Por fim, os dois partidos que tem polarizado a política brasileira pós-Collor, o PT e o PSDB.

O PT perdeu grandes quadros. Dirceu era dado como sucessor de Lula, Genoíno disputou o segundo turno das eleições de 2002 para o governo de São Paulo. João Paulo Cunha foi presidente da Câmara dos Deputados.

O mensalão não custou-lhe somente isso, descortinou também uma divisão interna não percebida, até então. Alguns grupos dentro do PT sugeriram sua refundação, no auge da pressão midiática. Lula segurou a barra, mas o corte não está cicatrizado.

O PSDB perdeu todas as eleições onde o mensalão foi utilizado para desgastar o adversário.

Pior, a partir de agora, será ele quem deverá começar a dar explicações. E não só sobre o mensalão tucano. Não usarão com ele o mesmo prumo com que mediram a retidão do PT. Poderia se julgar injustiçado, se usassem? Sobreviverá?

Mensalão, um caso inacabado e sem esperança – Todos perdedores.

Quando o STF aceitou a denúncia que resultou na AP 470, muitos acreditaram sinceramente que iniciava-se uma nova era de moralidade. Mas foram tantas as imoralidades cometidas no processo que tudo que conseguiu-se foi somar uma perda à outra.


 

27/10/2013

Black blocs – o problema.

No texto “Por que a esquerda e a direita se unem no ódio aos black blocs” ,  em que prega passar lhes a mão na cabeça, Paulo Nogueira mostrou que é bom de síntese. É necessário ser bom para acumular tanta besteira em um texto tão pequeno.

Já comentei em um post ao Diário do Centro do Mundo – nome sugestivo da visão de quem o escreve, que o Brasil é outro se visto de Londres – base, creio eu, de onde escreve Paulo Nogueira, que, aliás, tem a Finlândia como ideal de sociedade.

O texto me fez lembrar a visão que a esquerda brasileira tinha do banditismo até o início deste século. Desde Jorge Amado, vide Capitães de Areia, o banditismo era visto como consequência da desigualdade social e o bandido como um líder popular em potencial, se trabalhado através do estudo das teses socialistas. Era na verdade uma fuga psicológica.

A miséria é consequência da desigualdade social, mas o bandido, quando surge das áreas miseráveis, oprime em primeiro lugar os seus irmãos de desgraça. O bandido que ficar rico, não fazer justiça social, e a violência seu meio.

O alívio, infelizmente momentâneo, das áreas pacificadas pelas UPPs nas favelas cariocas mostrou bem isso. Todo o mais era romantismo tentando justificar a violência.

E tome Cazuza gritando “Brasil, meu cartão de crédito é uma navalha”. Lindo como imagem poética, mas fosse Cazuza ficar na frente de uma navalha.

Violência é apenas isso, violência.

Romantizá-la não a torna o que não é. Mas Paulo Nogueira tenta, a começar pela linda foto onde dois jovem vestidos em trajes  “fashions” pretos olham para câmera fotográfica entre resolutos e apaixonados. Imagem para cena final de filme romântico sobre jovens revolucionários das causas belas.

Compare-se,  agora,  essa com a foto do coronel espancado durante última manifestação com atuação dos black blocs , sexta-feira 25/10/13, aqui em São Paulo .

O romantismo não resiste à realidade, o choque é brutal. Violência é violência.

Já era antes, nas depredações de patrimônio público e privado e nos saques às lojas de pequenos comerciantes, apenas não havia ainda uma vítima humana para simboliza-la. Agora há.

Violência é violência e só é capaz de gerar mais violência.

Notemos que há um crescendo de violência.

No início nas manifestações de junho, havia pichações, sacos de lixo queimados e pedras atiradas contra vidraças. Chamaram de “estética blak bloc”.

Quando os policiais começaram a ser atacados e não se usava  mais pedras atiradas das ruas e sim invasão e barras de ferro para destruir agências bancárias ou o que viesse pela frente, então, era uma reação à “violência policial”.

Mas o que se via da polícia eram inúteis bombas de efeito moral, gás de pimenta e lacrimogêneo. Balas de borracha estavam proibidas.

Os Black blocs não eram agressores, eram os anjos da guarda dos manifestantes. Ainda que os manifestantes, quando perguntados , os renegassem, ainda que as depredações começassem após o fim das manifestações.

Reação à violência policial, milícia de autoproteção ou fuga psicológica dos que buscavam alguma justificativa para a violência pela violência?

Agora temos uma vítima humana, ainda não temos um cadáver . Alguma dúvida que o teremos, se continuarmos achando que os black blocs são “bonitinhos up to dates”?

Não, violência é violência e só é capaz de gerar mais violência.

Por que do crescendo?

Simples, por que é sabido que se uma ação delituosa não é enfrentada na sua primeira ocorrência, isso estimula o delinquente a tentar mais uma vez e com mais intensidade. Imagine se enaltecidas de alguma forma.  E sucessos seguidos na prática delituosa a naturalizam. Quando finalmente a combatemos, pela ótica do delinquente, trata-se de uma injustiça, uma agressão ao seu modo de ser.

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz,

e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Maiakóvski, para não dizer que não falei das flores nem do auxilio luxuoso da poesia.

Vamos agora, ao texto de Paulo Nogueira.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-a-direita-e-a-esquerda-se-unem-no-odio-aos-black-blocs/


 

23/10/2013

A educação pela ótica da qualidade.

Do pouco que aprendi no curso de pedagogia, sei que esse é um assunto para o qual já existem inúmeros e profundos trabalhos publicados. Inúmeros, profundos e inúteis, se considerarmos alguns resultados da nossa educação encontrados na imprensa.

Ainda assim, segue minha pequena contribuição em relação aos três tópicos propostos – Foco no Cliente, A conquista de corações e mentes e Gestão colaborativa – baseada em noções de gestão da qualidade.

Foco no cliente.

Aqui a questão é muito mais complexa do que a simples expressão “foco no cliente” pode parecer.

Começa-se por definir quem é o “cliente” dos processos de educação.

O cliente é o aluno? O cliente é a família do aluno? O cliente é a sociedade? Ou cliente são os três?

Por que isso é importante? Porque é a partir da identificação do cliente que se passa à etapa seguinte, ou seja, quais as necessidades e expectativas desse cliente que se pretende atender com o sistema de educação. Os três são clientes e cada um desses clientes tem necessidades e expectativas diferentes, ainda que complementares.

Para tornar a situação mais complexa, dificilmente poderemos perguntar para os dois primeiros – aluno e sua família – quais são seus requisitos. Como faríamos? Através de uma pesquisa de mercado, como as empresas fazem antes de desenvolverem um produto para seus clientes?

Logo, como os interesses desses dois partícipes do processo necessariamente devem ser levados em consideração na formulação de um modelo educacional, mas não há como serem questionados diretamente, então, serão necessárias fontes indiretas de informação. Quais seriam? Quem poderia criar um conjunto aceitável das necessidades e expectativas dos alunos e das suas famílias?

Cientistas sociais, pedagogos, psicólogos sociais, ONGs voltadas para esse público e assunto, seriam algumas dessas fontes.

E quanto à sociedade? Quem estabelecer esses requisitos estará estabelecendo o tipo de cidadão que este país estará formando.

Aqui não vejo outra saída que uma decisão política. Mas será o governo de plantão que tomará essa decisão? Se não este, mas também este, quem seriam os outros a estabelecer os requisitos educacionais em nome da sociedade?

Que tipo de cidadão queremos?

A educação básica – fundamental e médio – forma o cidadão.

Em relação ao ensino fundamental, considerando o nível de informação contido na internet e o quanto as crianças tem contato com ela desde antes da escola, é preciso passar conteúdo ou competências necessárias para que o aluno aprenda a aprender?

No ensino médio, muito se fala na necessidade de formarmos para o trabalho, a educação de segundo grau deveria ser eminentemente técnica, profissionalizante. Se adotarmos essa visão, estaremos formando cidadãos para serem empregados. E se optarmos por formarmos cidadãos empreendedores, que tipo de conhecimento, habilidades e atitudes deveríamos desenvolver nos alunos?

Por que não ensinamos matemática financeira básica no ensino médio?

Entender como se formam os juros que pagamos em qualquer financiamento e quais são e como são calculados os impostos e suas alíquotas formaria que tipo de cidadão-consumidor?

Por que não temos uma cadeira de ensino chamada “direitos da cidadania” que englobasse história, geografia, ética e legislação – código de defesa do consumidor e direitos constitucionais, por exemplo?

Por que não temos uma cadeira de ensino chamada “saúde e meio”? Tal cadeira poderia tratar conceitos das atuais ciências, mas também meio-ambiente e seu impacto na saúde pública. Química, mas também sobre aditivos e conservantes alimentícios, higiene pessoal e algo de cosmetologia (afinal, meu cabelo estará mais “alimentado” com o xampu de jojoba, de mel ou de mamão, já que cabelo não tem boca?) e também sobre dependência química. Corpo humano, mas também reprodução, meios contraceptivos e DST. Física, mas também o que ocorre com os passageiros de um carro quando este bate a 80 km/h em um poste; algum de nós aprendeu a calcular isso nas aulas de física quando estudamos as fórmulas de trabalho em cinemática?

Imaginado como seria um jovem chegando à maioridade com esses conceitos, imaginamos o cidadão que teremos e suas reivindicações em relação a saneamento básico e transparência das indústrias com respeito à sua comunicação com os consumidores.

E por aí vamos, mas definir tais requisitos é o primeiro e mais importante passo para se estabelecer uma política de educação.

A conquista de corações e mentes.

Vejo muito das escolas públicas como um depósito de crianças e jovens. Aliás, reflexo disso é a “progressão continuada” aqui em São Paulo que, apesar do embasamento conceitual pedagógico quando da sua adoção, tornou-se em muito uma forma de isentar o corpo docente da responsabilidade em relação aos resultados obtidos pelo corpo discente.

Para o resgate da escola como agente da socialização e formadora da cidadania será necessário estabelecermos o papel, os direitos e responsabilidades de cada um dos envolvidos no processo ensino e aprendizagem.

Eu, particularmente, entendo que todo o esforço educacional é um investimento que a geração atual faz na geração futura para que essa construa um mundo melhor e para que possa cuidar de si mesma, da geração que criará e da geração atual quando esta não tiver mais forças para se manter.

Sendo assim, cada partícipe, aluno, família do aluno, corpo docente, sociedade e governo, tem papeis e responsabilidades e deverá ser cobrado pelo uso eficiente dos recursos escassos colocados nesse investimento. Já que esses recursos, por escassos, farão falta à outra área que deles não se beneficiarão.

Definido os papeis e responsabilidades de cada partícipe, todos os meios de comunicação social devem ser mobilizados no sentido da conscientização da sociedade em relação a eles. A partir daí, é a pressão social que cobrará o cumprimento deles.

A sociedade deve entender que tem o direito e o dever de cobrar da família de uma criança a presença dessa criança na sala de aula. Criança na rua é um desperdício dos recursos e da prontidão à disposição dela nas escolas.

A sociedade deve cobrar de um aluno o comportamento, assiduidade e dedicação adequados à aprendizagem. O quanto aprenderá não lhe pode ser cobrado, já que depende de vários outros fatores além de seu controle. Muito pouco pode ser cobrado de uma criança de 6 anos, aqui o papel principal é da família, porém, isso muda com a idade e um aluno de 18 anos, sem dúvida, pode e deve ser cobrado enquanto beneficiário do esforço e dos recursos da sociedade como um todo.

A sociedade deve cobrar o corpo docente pela gestão da escola e, dentro dele, o professor pelo desenvolvimento dos conteúdos. O magistério exige, no mínimo, o mesmo profissionalismo cobrado de qualquer outro segmento da economia.

A sociedade deve cobrar dos governos a disponibilização das diretrizes e dos recursos necessários, bem como da avaliação e publicação do desempenho do sistema educacional.

A sociedade deve cobrar a si própria quando não fizer todas as cobranças anteriores.

Definir papeis e responsabilidades, direitos e autoridades é fundamental para a gestão, mas nada disso é o suficiente sem a devida responsabilização.

Em uma sociedade onde executivos falam ao celular enquanto dirigem seus SUVs importados ou onde nada dizemos ou fazemos quando alguém jovem e saudável estaciona seu carro em vaga de idosos ou deficientes, a responsabilização é um aspecto que ainda precisa ser muito melhorado. Neste caso, a escola é reflexo da sociedade.

Gestão colaborativa.

A legislação já define suficientemente as obrigações de cada ente federativo – governos federais, estaduais e municipais. O problema é a compartimentação. Onde cada um faz a sua parte sem uma ideia do todo, o todo torna-se menor que a soma das partes.

Estabelecido os dois princípios anteriores – Foco no Cliente e A conquista de corações e mentes – será necessário definirmos os fóruns oficiais de planejamento e monitoramento integrados do sistema educacional.

Sinergia e gestão de interfaces são a chave para evitar a duplicação de esforços para um mesmo resultado.

Já temos vários indicadores – SARESP – Prova Brasil – ENEM – PISA. Mas em que fóruns esses resultados são analisados, em que alimentam uma política única de desenvolvimento dos talentos nacionais. Desenvolvimento de talentos não é um dos sinônimos de educação?

O problema aqui são a falta de experiência em trabalhos integrados entre as três esferas do executivo e, principalmente, os interesses partidários.

São Paulo já perdeu muito devido ao PSDB na governança do Estado não aderir às ações iniciadas pelo PT no governo federal e ter um programa próprio como em um governo paralelo.

O conceito “glocal” – objetivo global com ação local – já é bem conhecido no campo da administração de empresas. Mas mesmo nelas, pouco praticado.

Temos maturidade política suficiente para um planejamento estratégico integrado?


 

08/07/2013

Sete de setembro, e o tal do mundo não se acabou.

Anuciados como “os maiores da história”,  os protestos de 7 de setembro de 2013 fracassaram. E com eles se esvairam a mais recente figura de pressão da grande mídia sobre autoridades, políticos e magistrados e o argumento recorrente dos que acreditavam na mobilização da classe média como força política da direita brasileira.

Não creio que os cientistas sociais já tenham obtido consenso sobre como as grandes manifestações populares acontecem. Não quais acontecimentos as disparam, mas por que tais acontecimentos, as vezes parecendo pouco relevantes, as disparam.

Qual foi o processo que culminou na Primavera Árabe? Na Tunísia, o suicídio dramático de um jovem desiludido com qualquer perspectiva de futuro teria o poder de por si só incendiar seu país e os países vizinhos? E foi o que aconteceu.

Na Turquia, teria sido a derrubada de uma árvore para a construção de um shopping center?

Por que, em um determinado momento, pessoas em Nova York e Madri resolveram ocupar as praças reivindicando atenção aos 99% da população? Por que não optaram por passeatas, ou marcharam sobre o Congresso como em 63?

No Brasil, o grande movimento popular “Diretas Já” teria sido mesmo comandado por políticos da estirpe de Montoro, Brizola e Tancredo? Foram os chamamentos do Dr. Sócrates, Osmar Santos e Fafá de Belém que reuniram 1 milhão de pessoas na Parça da Sé-SP  e outro milhão na Cinelândia-RJ e centenas de milhares pelo país afora? Não, isso eu sei bem, não foram. Então, quem botou tanto povo na rua? Não sei, mas o povo estava lá.

E, num tempo pré-internet, quem convocou os “caras-pintadas” do “Fora-Collor”?

Chegando aos “protestos de junho de 2013”, o que colocou um milhão e meio de pessoas nas ruas, das capitais a pequenas cidades do interior, e produziu a imagem fantástica da tomada de Brasília pelo povo, cujos símbolos maiores foram a invasão da Praça dos Três Poderes e escalada da cúpula do Congresso Nacional? Já durante os protestos se dizia, “não é apenas por 20 centavos”. A fotografia estampada em manchetes da jovem jornalista da Folha de São Paulo, branquinha e frágil com o suprecílio destroçado por uma bala de borraça foi, sem dúvida, uma imagem galvanizadora da indignação popular com a violência policial. Mas a violência policial é a regra, não a exceção. Porque agora os protestos, se, meses antes, os mesmos jovens reprimidos pela mesma polícia na USP foram tratados de “delinquentes mimados”?

Não creio que os cientistas sociais já tenham obtido consenso de como as grandes manifestações populares acontecem.  E, no entanto, elas acontecem com uma força e direção que nos fazem procurar um comando único sobre um movimento que, na verdade, ocorre se auto retroalimentando.

E ainda que as dúvidas permaneçam e repostas a essas questões possam estar com os versados em Jung, por aqui, vivemos nas últimas semanas a ilusão de que é possível se estabeler data para uma manifestação popular, seus objetivos, arregimentar a população e convencê-la a apoiar usando para isso algo como o canto de aboiar de quem arrebanha o gado no pasto. Os fatos deste 7 de setembro mostraram que isso não é tão simples assim.

Vejamos.

Nos últimos 3 meses, assistimos outra vez no Brasil a um fenômeno de massa.  Tateei-o emhttp://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/movimento-passe-livre-zeitgeist-e-o-mal-estar-de-uma-geracao

Mas o que sei é que, como todos os outros, começaram com uma pequena e justa causa e se tornaram algo muito maior do que as explicações sobre eles.

Os “protestos de junho” atravessaram todo o espectro ideológico nacional, foram da extrema esquerda a extrema direita em 15 dias. Aqui, com no Egito, ainda que, aqui, de forma infinitamente menos dramática, foram apropriados por interesses outros.  Seus protagonistas iniciais nada tinham a ver com os que vieram depois. Iniciados à esquerda, como uma reivindicação da redução do valor das passagens dos ônibus urbanos, terminaram em uma polifonia de causas da qual a imprensa conservadora retirava os destaques convenientes aos interreses da direita.

http://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/um-gigante-sonambulo

Esse movimento longitudinal, aí sim, guiado pelo senso de oportunidade e poder de manipulação e mobilização da grande mídia conservadora, acabou por gerar uma falsa ideia. A de que os protestos tinham dono. E que o dono dos protestos era  justamente os donos da grande mídia.

Nada mais falso, e as ações contra a Globo demonstravam isso claramente. Mas não era o que se ouvia nos discursos de mervais e que tais.

Os protestos massivos terminaram ainda no final de junho mas foram sucedidos por uma série de protestos menores, alguns pequenos de umas dezenas de participantes, e pela  recidiva do uso da violência como forma de ação política por parte de grupos radicais.

A imagem, no entanto, da classe média nas ruas, o “gigante” que havia despertado, e a queda da popularidade da presidente nas pesquisas de opinião pós-protestos eram acalentadas pelos porta-vozes do conservadorimo como evidência de que, sob seu comando, era possível uma mudança no quadro político que lhes fosse favorável.

Uma segunda onda de grandes protestos anunciada, desde então, para o dia 7 de setembro era a espada mantida sobre a cabeça de quem ousasse se afastar do que foi definido como o certo e o correto pela grande mídia.

O Congresso conservou o mandato de um deputado condenado pelo STF? Deixe estar, os grandes protestos de 7 de Setembro varrerão o Congresso de cima a baixo. O dono dos protestos garantia que isso aconteceria por que ele próprio não concordava com aquela situação e seus comandados seguiriam-no cega e obedientemente.

Os Ministros do Supremo tardam em mandar os “mensaleiros” para a cadeia? Mas não tardam por esperar. O dono dos protestos fixou a data, masmorra até 6 de setembro ou aguentem as consequências.  As massas em movimento constrangerão os magistrados e os obrigarão a fazer o que o dono dos protestos previamente ordenou.

E assim, por 2 meses viveram esses senhores e senhoras brandindo seu grande poder. Tinham agora a favor das causas da direita uma nova forma de mobilização das massas, as “redes sociais”. Mágicas e infalíveis.

Mágicas e infalíveis para quem acredita que uma vintena de páginas de facebook com um personagem infantil mascarado e falando com voz de “Google tradutor” poderia emocionar alguém mais do que meninos de 12 anos e adultos com a mesma idade mental e emocional. O Anonymous, no Brasil, não é mais do isso.

Sua pauta, a pauta do Instituto Milleniun. Em primeiro lugar, a prisão imediata dos “mensaleiros” – algo que já beira a obsessão. O tópico seguinte da tal pauta me leva a imaginar os protestos com milhares de pessoas novamente sobre a cúpula do Congresso Nacional exigindo a saída imediata de Renan Calheiros da presidência do Senado Federal. Quem?  Renan Calheiros, conhece?

Mais fácil quando a classe média branca e indignada pedia hospital e escola padrão FIFA para uso dos empregados dos seus condomínios.

http://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/brasil-um-pais-injusto-%E2%80%93-bem-vinda-classe-media

Pois enfim, 7 de setembro passou e o mundo não se acabou.

Nas ruas, a mesma turba de sempre. Os infantis e violentos grupos de black blocs. Todos de preto e cobrindo a cabeça com uma camiseta à guisa de touca ninja. Os personagens de nossos protestos, no momento atual, saem para às ruas direto das páginas das revistas em quadrinhos. Ainda existem revistas em quadrinhos? Gostaria de chamá-los de ingênuos, se não idealistas, mas nenhuma violência é ingênua, ainda que possa ser infantil.

Um pequeno grupo de jovens na casa dos vinte e poucos anos se expressando com as mãos. Mas não em pixações ou grafites nos muros e sim no estilhaço das vidraças de agências bancárias e consessionárias de carros importados. Os mesmos meninos e meninas dos últimos 60 dias. Depredando e apanhando da polícia.

Uma rotina que não precisa de feriado para acontecer. O estoicismo com o qual apanham da políca e a tenacidade com a qual, mais uma vez, voltam depredar mostram uma cruel fidelidade à causa. Mas à que causa? Eles têm algo a dizer, mas não sabem como. Tão pouco a sociedade sabe como interpretá-los. Continuarão até que bocas e ouvidos se entendam ou faltem cabeças ou vitrines a se quebrar?

Já, dos personagens tardios dos protestos de junho, onde estavam, neste 7 de setembro,  as senhoras brancas, um pouco acima do peso, com seus narizes de palhaço, soprando apitos e cantando o Hino Nacional? Onde estavam os senhores igualmente brancos, com a bandeira do Brasil nos ombros e pedindo o fim da “corrupção dos políticos”? Onde estavam os rapagões “apartidários” rasgando nos dentes as bandeiras dos partidos de esquerda que haviam iniciado os protestos. Onde estavam as moças loirinhas, de caras pintadas de verde e amarelo e portando cartazes com dizeres chulos? Bom, essas estavam nas manifestações contra o “Mais Médicos”.

Enfim, onde estão “Hello, my name is Carla” e o Romário?

Com a exceção de Romário, todos estão onde sempre estiveram, entre os “cansados”.

E o deputado Romário? Onde estava o deputado Romário no 7 de setembro? Estava na entrada da grande área esperando uma oportunidade. O oportunismo sempre foi sua marca registrada.

Nas redações de jornais e telejornais, decepção.  Plantões, câmeras e helicópteros e um sabadão com sol e temperatura agradável totalmente desperdiçado. Ossos do ofício.

Foi patética a transmissão da Globo: “e agora, direto de São Paulo a cobertura ao vivo dos protestos”. Entra a repórter na tela sem nada para dizer , atrás de si a visão de uma Paulista vazia e da sua boca a frase: “por aqui a situação está tensa”. Aliás, nunca ouvi a palavra “tensa”  tantas vezes como neste 7 de setembro no jornalismo da Globo. Parecia bordão. Situação tensa é uma expressão boa, ou seja, não está acontecendo nada mas deixa no ar o suspense de que possa ainda vir a acontecer. No fim, não aconteceu nada mesmo.

A Folha de São Paulo abriu a sua página da internet com o seguinte chamamento: “Você vai aos protestos? Envie fotos”. E dando o seguinte serviço: “Locais onde ocorrerão os protestos, veja o mapa”. Terminou a edição com um apelo: “Você foi às manifestações? Envie fotos”.

Por fim, acabaram somando aos protestos a marcha anual “Grito do excluídos” organizada pela Igreja Católica. Não deixa de ser uma forma de protesto essa marcha, mas tem mais jeito de procissão.

Pobres donos dos protestos, não puseram o povo na rua.

Aliás, a direita não põem o povo na rua desde a “Marcha da família com Deus pela liberdade”, na década de 60. Que podia ser marcha, podia ser da família, podia estar com Deus, mas acabou em ditadura e não em liberdade.

Nos últimos 30 anos, só a esquerda põem o povo na rua. Das grandes greves do ABC paulista no fim dos anos 70 ao MPL, é a esquerda que mantém o gigante acordado e em movimento.

Neste instante, o MPL, garotada inteligente que estuda a história, resolveu que não iria preparar a massa para agasalhar a azeitona dos coxinhas.  E o outrora grande movimento sindical reensaia os passos em que já foi pé de valsa. Difícil recomeço, agora tem de ser a favor e isso ele nunca soube o que é ser.

Ainda assim, melhor assim, o movimento popular no Brasil volta a não ter donos.

Depois da crise de combustível que não houve, da inflação do tomate que não houve, do apagão que não houve, do maior julgamento da história que a todo instante ameça desandar para fora do script  e do maior protesto da história que não houve, resta agora aos senhores do Instituto Millenium sonhar com a vitória da Argentina na Copa de 2014 para poder derrubar o governo.


 

22/06/2013

Brasil, um gigante sonâmbulo marchando entre o sonho, a consciência de si e o pesadelo.

Não pretendia postar nada sobre a onda de protestos que varreu o Brasil nas duas últimas semanas antes da semana que vem.

A próxima semana é decisiva para saber que rumos tomarão os movimentos reivindicatórios. Com a saída do MPL, inteligente, aliás, demonstrando que a moçada é rápida na leitura da situação, o movimento será o que seus novos líderes puderem colocar de povo na rua.

A pulverização parece ser o caminho natural e o esvaziamento uma realidade bem palpável.

Mas até que isso ocorra muita coisa pode acontecer para o bem e para o mal.

Para o mal o caminho é claro. O vandalismo da turma da extrema direita associada à criminalidade comum. Nesse sentido a mensagem da presidente foi clara: não deverão ser confundidos com manifestantes. Ao assumir essa posição a presidente libera os governadores para reprimi-los. Foi uma postura corajosa.

Para o bem seria os grupos sociais perceberem que podem soltar a suas vozes que serão ouvidos.  Mas com muitas causas em jogo ao mesmo tempo e sem um objetivo claramente definido e agregador como foi a redução do preço da passagem a chance de se fazer ouvir é pequena. Novo risco, o de pequenos grupos com uma causa justa, porém, de pouco impacto no imaginário popular, decidirem por ações midiáticas e extremadas, serem confundidos com os vândalos e gerarem na população o desejo de uma “volta à normalidade” e as consequências disso.

Há tantas outras possibilidades menores, tal como a direita conseguir manter o povo mobilizado contra “tudo isso que está aí” e impor o grito de “que se vão todos”.

Enfim, é por isso que eu preferia e ainda prefiro esperar.

Mas algum retrospecto já pode ser feito, ainda que baseado nas minhas memória e leitura.

1 – terça da semana passada – um grupo de estudantes mobilizados pela internet pertencente a um ainda desconhecido MPL – movimento pelo passe livre, após vários protestos em anos anteriores sem muito sucesso, consegue finalmente reunir um número significativo de manifestantes – uns 5 mil. Número suficiente parar a Avenida Paulista aqui em São Paulo.t

A polícia os reprime, mas havia subestimado a capacidade de organização e disposição de luta desse grupo.  Os jornais do dia seguinte trazem fotos de policiais feridos, com a cabeça sangrando, derrubados das suas motocicletas e pisoteados.

Os jornais são rápidos em qualificar os manifestantes, “grupelho de baderneiros”, e pedir mais repressão.

Voz solitária, Janio de Freitas critica a violência policial contra os estudantes e contra o direito de manifestação. Comento num post: ele ainda não viu violência, terça os policiais apanharam na quinta vão bater.

2 – quinta-feira – como esperado, nova manifestação, agora maior em número. A “vitória” contra polícia agregou novos participantes. Entra em cena a Polícia de Choque e o que se assiste não pode ser classificado como repressão policial, foi mais um caso de vingança policial, como foi comentado por alguém com muita propriedade.

Aqui há um ponto de viragem, o primeiro. A truculência da polícia é indiscriminada e não poupa os jornalistas que cobriam o evento. Vários são feridos e agora há um rosto para simbolizar o que aconteceu. A jornalista da Folha, loirinha, franzina e com o supercílio dilacerado por uma bala de borracha.

Feridos os seus, a imprensa muda de posição, acua o governador e a polícia. A manifestação é um direito democrático. Sempre foi, aliás.

Agora, o “grupelho de baderneiros” se transmuta em “defensores da liberdade” nas folhas dos jornais e telas de TV. Vemos os rostos deles e ouvimos sua voz. São os nossos filhos.

3 – segunda-feira desta semana. Um gigantesco grupo de indignados sai às ruas. A polícia não pode usar seus métodos padrão de “contenção de distúrbios”.  Uma polifonia de muitas causas é ouvida. Não são mais vinte centavos é “tudo isso que está aí”.

E aqui ocorre outro ponto de viragem do movimento.  A Globo é hostilizada, seus jornalistas são impedidos pelos manifestantes de cobrir alguns protestos e o cubo com o logotipo da emissora sai dos microfones por medida de segurança.

A partir daí tudo muda e a poderosa emissora, dona de mais de 50% da mídia deste país, abre a caixa de ferramentas. É hora de mudar o rumo dessa prosa. O povo comum é convocado a sair às ruas para participar da “grande festa da democracia” e atende à convocação. Algo como um “carnaval cívico” se instala pelo país. Protesto e festa, indignação e euforia pelo país a fora.

Está estabelecido o efeito diluição. Todas as causas são causa nenhuma ou aquela que eu quiser que seja. Grande manobra, há que reconhecer a competência e poder da Globo.

Quarta-feira – Haddad reduz o valor passagem, e Alckmin também, mas Alckmin já não está mais nos noticiários. Vitória do movimento MPL. Quem notou isso?

4 – quinta-feira – o povo está nas ruas comemorando. Ganhamos mais uma final. Bandeiras do Brasil sobre os ombros e o indefectível canto: “Eu sou brasileiro, com muito orgulho …”

Brasília tomada.  O movimento subvertido. As bandeiras dos partidos de esquerda que no início do movimento eram evitadas para não permitir uma mal intencionada interpretação dos meios de comunicação estão agora proibidas pelos novos donos da rua – a classe média reacionária. Oportunistas postam vídeos na internet festejando a grande vitória popular, nenhum esteve nas passeatas, obviamente.

Pelas ruas, alegria popular, o grito inútil de “sem violência”, o grito interesseiro de “sem partido” e violência e vandalismo.

O MPL se retira com um copo meio cheio e meio vazio. É hora de recolhimento para contabilizar perdas e ganhos.

Nas ruas, abandonado à própria sorte, um gigante sonâmbulo marchando entre o sonho, a consciência de si e o pesadelo.

Um milhão e meio de pessoas que por algum motivo julgaram importante se juntarem em multidão, um fantástico capital político a espera de quem ponha a coroa na própria cabeça antes que um aventureiro o faça.


 

14/06/2013

O movimento Passe Livre – Zeitgeist e o mal-estar de uma geração.

Grupelho de baderneiros.

Creio que foi no Blog do Mello que encontrei uma frase de Bernard Shaw que me perturbou.

“Você vê as coisas que existem e se pergunta: por quê? Eu imagino coisas que não existem e me pergunto: por que não?”

O que isso tem a ver com as manifestações que têm incendiado o centro de São Paulo promovidas pelos jovens do Movimento Passe Livre?

A busca da razão e do motivo. E a intuição de que não vou achá-los no aumento das passagens.

Todos fomos surpreendidos, quando quinta ou sexta-feira da semana passada um grupo de estudantes e militantes de partidos de extrema esquerda paralisaram a Avenida Paulista aqui em São Paulo, quebraram vidraças de agências bancárias, picharam ônibus e paredes, destruíram cabines da polícia e atearam fogo a sacos de lixo como barricadas.

O caos instalado sem prévio aviso.

Perguntamo-nos: contra que esse protesto?

Contra o aumento de vinte centavos na passagem de ônibus.

É irrazoável.  As passagens não eram reajustadas desde 2011, o aumento estava anunciado desde janeiro e era de 6,67%, muito abaixo da inflação do período.

Quem eram os manifestantes? Eram de um movimento que se agrupa pela internet, MPL – Movimento pelo Passe Livre. Já haviam feito outros protestos e o que reivindicam, ou seja,   transporte gratuito, podia ser algo romântico mas irrealizável. Como sabemos, o dinheiro para custear as passagens livres teria de ser tirado de algum lugar. De onde o tirar, da educação, da saúde ou dos investimentos?

Idealismo ou irresponsabilidade, típicos de jovens de pouca idade, a maioria abaixo de 25 anos.

Eram muitos? Não. Alguns poucos milhares.

Muito menos do que se agrupa em uma partida de final campeonato, talvez dez vezes menos.

Têm apoio popular? Nenhum. Representam a si mesmos e suas ideias.

Alguns manifestantes diziam que lutavam pelo povo, mas estava claro que não lutavam com o povo.

No mesmo momento em que protestavam pelo aumento das passagens, ocorria uma greve de ferroviários da CPTM. Nenhum integrante do sindicato participou das manifestações e as reivindicações dos trabalhadores não despertaram nenhum interesse no movimento.  São assuntos e interesses claramente associados.

Nenhuma ONG de bairros dos extremos das zonas sul e leste, periferias que sofrem cotidianamente com o transporte coletivo, participou da manifestação. Enquanto os manifestantes fechavam as avenidas, os trabalhadores presos nos ônibus tentavam voltar para suas casas.

A violência utilizada nos protestos nos assustou, e somada a pouca relevância da reivindicação nos fez concluir: grupelho de baderneiros.

Um grupelho de baderneiros e porras-loucas não precisa de uma causa, basta-lhe um pretexto. Ainda que vinte centavos seja pouco até como pretexto.

Mas os protestos seguiram-se e o grupo se renovava em ânimo.

Não eram porras-loucas, portanto, mas não tinham uma causa aparente. Lutavam tanto por quê? E por que a violência como forma de atuação política? Ela é contra producente.

Fomos olhar mais de perto os manifestantes.  Parecem com os nossos filhos. São os mesmos jovens que foram espancados na USP e na marcha da maconha. São jovens intelectualizados,  aparentemente das classes média remediada e baixa.  Jornalistas (dois), metalúrgico, professores (também dois), publicitário, artista e três estudantes contabilizou a Folha entre os detidos sem direito à fiança após os confrontos.

Identificamo-nos com eles, são dos nossos, inclusive ideologicamente. Mas como justificar as ações violentas, facilmente interpretáveis como vandalismo e como entender a estreiteza do objetivo?

São sonhadores ingênuos. Saiu-se um colega aqui do blog. Resgatam-nos da nossa desaprendizagem de sonhar.

Houve até pedidos de desculpas às novas gerações.

Não me comovi. Claro que é possível sonhar de armas nas mãos. Claro que é possível matar e morrer pelos nossos sonhos. Mas sem uma causa não há sonho, ainda que possa haver desejo.  Delírios e alucinações também movem os que morrem e os que matam, ainda mais aos segundos.

Polícia do Alckmin, violenta e covarde.

As manifestações prosseguiram, quatro ou cinco até o momento em que escrevo.

A de terça-feira foi diferente. Causou estranheza a quem via os manifestantes como sonhadores ingênuos. As imagens de policiais sendo derrubados e pisoteados pelos manifestantes ou outro sangrando pela cabeça ferida, de arma em punho mas sem disparar, não combinavam com o discurso de que a violência partia da polícia.

Felizmente a polícia está aí para não nos deixar sem argumentos.

Comentando um artigo de Janio de Freitas que atribuía à polícia a violência eu postei: ele ainda não viu violência, ontem a polícia apanhou, hoje vai bater.

Não deu outra. As imagens dos policiais feridos eram fortes demais, não puderam ser assimiladas por uma força que tem na arrogância e na intimidação duas de suas características.

Balas de borracha, tropa de choque, cavalaria e sangue de jornalistas. Uma jovem jornalista, branquinha e frágil e seu supercílio dilacerado por uma bala de borracha.

Pronto, estamos salvos.

Podemos já apoiar o movimento, chamar os manifestantes de meninos. Solidarizarmo-nos. Estamos novamente do lado certo. A polícia é a causa.

Os manifestantes não marcham mais por vinte centavos, marcham contra a violência policial. E caem como suas vítimas.

Mas será que a polícia foi violenta? Ou a polícia foi o que sempre foi, uma força de repressão?

É diferente em qualquer jogo de futebol com grandes torcidas? Não estão lá também a cavalaria, o choque, as balas de borracha e os hematomas em costas jovens. Essas cenas não ocorrem a cada semana durante o ano inteiro? Por que não nos indignamos, por que não identificamos os jovens integrantes das uniformizadas como nossos filhos?

Numa macabra escala de violência policial, foi maior, menor ou igual a que presenciamos na desocupação do Pinheirinho? E na USP e na Cracolândia?

A polícia foi mais violenta aqui do que a vemos ser nos EEUU, na França, Grécia ou Espanha?

Foi por certo menos violenta do que a que presenciamos na Praça Tahrir e do que ocorre nas periferias da cidade de São Paulo. Só para lembrar, nas periferias de São Paulo, as polícias foram proibidas de socorrer feridos como forma de diminuir o número de assassinatos.

Não, a polícia foi o que sempre foi e fez o se esperava que fizesse.

Alguma vez não foi assim?

Não, não é na ação da polícia que está a explicação.

Terrorista suja.

Terrorista suja. Ou algo assim. Foi o que ouviu uma militante de esquerda engajada na luta contra a ditadura. Ao ser presa, sendo retirada da viatura para a delegacia cruzou por instantes com uma mulher desconhecida que passava pela rua naquele instante e que a ofendeu com aquelas palavras.

Essa militante, conta na entrevista que li, que isso doeu muito. Aquela era uma mulher do povo, povo pelo qual lutava, pelo qual deva sua juventude, pelo qual empenharia sua resistência física dali para frente até sua libertação. Como tal mulher não a entendera?

Terrorista suja.

Era o preço de ser vanguarda em 68. Havia uma ditadura a ser combatida. Nos EEUU, jovens iguais lutavam também. Contra a guerra no Vietnam e por direitos civis. Alguns garotos pretos pegavam em armas para defender esses direitos. Morreram muitos, talvez tenham matado alguns, pelo menos um, com certeza.  Diziam “faça amor, não faça a guerra” e “todo poder ao povo”. Na França igualmente os estudantes incendiavam Paris, seu lema: “é proibido proibir”.

Os jovens brasileiros resistentes à ditadura estavam alinhados ao seu tempo, defendiam seus ideais. Mas estavam sós. Eram ideais apopulares, o povo não estava engajado nessa luta. O povo levava sua vida e estava feliz com o progresso material da época.

Os jovens resistentes de 68 estavam certos, mas tiveram de aguardar.

Aguardar pelos menos mais 6 anos, até que em 74 o povo silenciosamente avisasse aos generais que o vento mudara. Aguardar mais dez anos até que outros estudantes saíssem às ruas gritando ”abaixo a ditadura” e mesmo que reprimidos pela mesma polícia não pudessem mais ser presos, torturados, mortos e desaparecidos.

Aguardar 12 anos para que os trabalhadores do ABC paulista tomassem as praças e botassem a polícia para correr.

Aguardar 14 anos para que, aí sim, o povo ocupasse as ruas e aos brados de “Diretas quando? Diretas Já!” terminassem de vez com a ditadura.

Até então, eles, os resistentes, não passavam de um grupelho de baderneiros.

Zeitgeist, ou o mal estar de uma geração.

Como na década de 60, há um mal estar no ar. Um clima de revolta jovem e planetária.

Occupy Wall Street nos EEUU, Indignados 15M na Espanha e outros tantos na Grécia, a Praça Tahrir no Egito e a Praça Taksim na Turquia. Paris novamente em chamas, agora pelas mãos de jovens imigrantes africanos e mulçumanos alijados de qualquer direito de cidadania.

Os manifestantes do Movimento Passe Livre que incendeiam o centro de São Paulo estão alinhados ao seu tempo.

Mas lutam por vinte centavos?

Talvez não, talvez os 20 centavos sejam o símbolo de algo ainda não racionalizado. O mal estar de uma geração.

Uma geração sufocada por um conservadorismo que a tudo e a todos regula, rege, vigia e pune. Talvez, como os cães da Tunísia durante a Primavera Árabe, não queiram comer e sim poder ladrar.

Talvez os que se identificaram com eles não os tenham visto como seus filhos, mas como a si mesmos e o seu próprio mal estar.

Talvez.

Quanto ao povo, o povo leva a sua vida e está feliz com o progresso material da época. Por enquanto, ao menos.

Enfim, que sei eu?

Eu apenas vejo as coisas que existem e me pergunto: por quê?


 

22/01/2013

O STF e o Poder Moderador.

A aplicação do artigo 2º da Constituição Federal poderá ser o grande desafio político que teremos neste e talvez nos próximos anos para a construção do Estado democrático de direito no Brasil.

“Art. 2º – São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.”

É impressionante o número de solicitações de intervenções feitas ao Poder Judiciário oriundas do inconformismo com deliberações tomadas pelo Executivo e pelo Legislativo no pleno exercício de suas atividades constitucionais. Mais das vezes não são mais que tentativas de estender indevidamente até ao Judiciário pleitos perdidos no jogo democrático dentro dos outros dois Poderes. Causa espécie também que o Poder Judiciário aceite tais provocações, dada a implicação de as decisões oriundas dessas solicitações interferirem nas prerrogativas dos outros Poderes.

De uns tempos para cá, o Poder Judiciário está aparentemente aos poucos se transformando no Poder Moderador do antigo Império. Por uma série de motivos, dentre eles, falhas no nosso modelo representativo, a inapetência legislativa e o ativismo judiciário somados à ação de grupos de interesses que perderam capacidade de exercer poder pelo voto popular e buscam formas alternativas de exercer mando.

Ocorre que a tentativa de exercer tal poder pode levar a um impasse institucional cuja solução seria ou o Poder Judiciário reconsiderar se auto-limitar e aceitar os freios e contra-pesos necessários ao conceito de harmonia preconizado pela Constituição, ou os outros dois Poderes ao não reconhecerem a subordinação o retornam aos limites constitucionais – o que poderia provocar feridas de demorada cicatrização – ou acabaremos instituindo um sistema extra-constitucional de 4 Poderes.

Nesse modelo, o Judiciário se reduziria e se limitaria ao teto do STJ e o STF tornaria se, na prática, o “Conselho de Sábios” que referendaria ou não as decisões dos outros três Poderes.

É o sonho da plutocracia que dominou o país desde sempre.

As eleições continuariam ocorrendo dentro do rito democrático, prefeitos, governadores e presidente eleitos pelo voto popular. Os legislativos também sendo eleitos e atuando dentro da normalidade democrática. Os juizes até o STJ tomando suas decisões segundo os autos e códigos estabelecidos. Porém, quando algum desses Poderes decidisse algo contra os interesses da plutocracia, haveria a intervenção do “Conselho dos Sábios” – o Poder Moderador, restabelecendo a “ordem natural das coisas”. Óbvio que para a manutenção desse modelo seria necessário a mudança da forma de escolha dos Ministros componentes do STF. Já há várias críticas ao modelo atual, o próprio Ministro Joaquim Barbosa já demonstrou interesse em influir mais na escolha e, se for necessário, isso é questão que o STF “mataria no peito” e garatiria ao Poder Moderador a autonomia de se instituir por si próprio. Que a plutocracia teria poder de influência sobre ele e que ele comungaria com seus ideais o julgamento do “mensalão”  já demonstrou que é algo a não termos dúvidas.

O Imperador Pedro II exerceu esse poder com sabedoria por meio século, quando atentou contra os interesses da plutocracia, foi deposto.

Iniciou-se, então, a fase da “república sem o povo” até 1930, seguida da fase das ditaduras com seu interregno democrático na medida em que as circustâncias permitiram e uma fase de transição com início em 1985 até que, a partir de 1990, entramos finalmente na construção do nosso Estado democrático de direito. Em todo esse período, até 2002, sempre a mesma plutocracia esteve no poder.

Quando recentemente perde o poder, tenta retornar novamente para aonde tudo começou, ou seja, ao restabelecimento do “Poder Moderador”.

Ocorre que tal poder não é mais constitucional e a tentativa de re-institui-lo por vias transversas seria um golpe instituicional.

Algo assim não é provável que vingue, depende de uma série de fatores que não estão mais sob o controle da plutocracia, ainda que a composição atual do STF e os grupos de interesses que suportam o Instituto Millennium e os meios midiáticos que operacionalizam os conceitos deste lhes são favoráveis.

Então, este texto versa sobre Teoria da Conspiração? Muito possivelmente.

Mas como o nosso modelo de Estado democrático de direito ainda está em construção e como o preço da liberdade é a eterna vigilância, seria interessante e prudente estarmos atendos ao STF em 2013.

Talvez alí e neste ano se trave o último embate necessário à nossa consolidação democrática.


08/01/2013

2018, fim do ciclo petista?

Temos visto vários movimentos no PSB e no PSDB nas últimas semanas, mais precisamente após as eleições municipais.

Na minha modesta opinião, o que estamos assistindo hoje são acomodações normais para o jogo da eleição presidencial de 2018.

Não, não há erro de digitação, é 2018 mesmo.

A La Lampedusa, 2014 pode ser um ano em que tudo mudará para ficar como está. Para 2014, muita coisa parece estar prevista para 2018. E por quê?

Porque o ano de 2018, enxergado do ponto de vista de hoje, poderá encerrar o ciclo do PT no comando do executivo federal.

E isso deve estar sendo analisado pelos estrategistas de todos os partidos com alguma chance de chegar ao Planalto. E talvez seja essa a idéia que adie o golpe da direita para retornar ao poder. Previsto por vários analistas políticos e que teria que se dar em 2013.

Dilma Rousseff é a candidata do PT e favorita a reeleição em 2014. Nosso modelo eleitoral nas eleições majoritárias acabou muito parecido com o dos EEUU. Quem está no comando do executivo é candidato natural e leva uma enorme vantagem sobre os outros candidatos. É necessário ocorrer algo muito grave na economia para que o eleitor busque o novo. Basta estudar a história recente das eleições americanas.

À bem da verdade, o Brasil, nesse ponto, se mostra um pouco diferente dos EEUU. Lá o ciclo dos partidos que se revezam no poder chega ao máximo de 3 mandatos. O presidente se reelege e, se fez um bom 2º mandato, elege seu sucessor. Depois, um desgaste natural do modelo leva a problemas na economia e o ciclo recomeça com um novo partido no poder.

As forças conservadoras vocalizadas pela grande mídia parecem que acordaram para isso. Passaram 10 anos batendo na tecla da moral sem nenhum resultado prático do ponto de vista eleitoral. Terão de desconstruir a economia se desejam eleger seu candidato. “É a economia, estúpido” que faz o eleitor mudar. E tome PIBinho, apagões e que tais. Muito virá ainda. Uma crise seria muito bem vinda para as oposições. Se crise fabricada, melhor ainda.

Se isso não ocorrer no Brasil, e parece que não vai ocorrer, então, quem está na corrida presidencial de 2014 deve na realidade mirar em 2018. Ainda é cedo, mas já podemos analisar a situação de alguns dos principais jogadores.

O PSDB.

Aécio Neves – senador com mandado até 2018 é o candidato natural – até porque em política tem fila e ele é o próximo da fila. Nada tem a perder e tudo tem a ganhar em 2014. É o candidato mais forte da oposição. Pela primeira vez desde a eleição de 1998 o PSDB estará unido entorno do um nome, o seu nome. Se a oposição tem alguma chance, o nome dessa chance é Aécio. Tentarão na base do ousar é preciso e ousar perder é ousar ganhar.

O problema do PSDB é não ter mais as propostas do passado nem ideias para o futuro.  Se a economia estiver minimamente viável, Aécio terá de surfar no tsunami que o PIG fará, com o cuidado de não sujar a barra da calça, pois tal tsunami não será exatamente de água marinha. Mesmo que não se eleja estará com o mandato de senador e terá consolidado um “recall” bastante considerável para 2018. Sem Dilma e sem o PT na cabeça de chave e com a barra limpa é bastante viável.

Para Alckmin não dará em 2014. Alckmin é o delfim do Instituto Millennium.  Mas as eleições de 2012 com a vitória do PT em São Paulo e o desastre que está sendo sua administração, desastre onde a falência da segurança pública é só a face mais trágica, mostram claramente que até sua reeleição para governador é incerta hoje em dia. Sem ele não há candidato do PSDB em São Paulo. E o Estado de São Paulo e a Presidência da República nas mãos do PT é risco que a direita não vai correr. Alckmin fica como candidato a governador para defender a cidadela paulista. Se reeleito disputa a indicação com Aécio para 2018.

No PSB é Eduardo Campos em 2014.

Ocorre que o PSB é um partido pequeno. Pequeno demais para Ciro Gomes e Eduardo Campos juntos.

Do mesmo modo o PSDB demonstrou ser um partido pequeno. Pequeno demais para Aécio Neves e José Serra juntos ou Serra e Alckmin juntos ou, ainda, Serra e qualquer outro junto.

Ciro Gomes é um caso a parte em termos de político. Candidato a presidente desde 1998, todos o reconhecem como um grande quadro. Porém, parece nunca conseguir viabilizar sua oportunidade. Não será 2014 o ano em que isso ocorrerá. E se ficar no PSB, não será 2018 também.

Eduardo Campos é o grande nome da situação para 2018. É o nome para sucessão de Dilma e o único, neste momento, que poderia ter o apoio de Lula e conseguir a aceitação do PT em uma composição que preservasse as conquistas petista. Tente mentalmente encontrar um nome no PT viável neste instante para ser o sucessor de Dilma. Viu? Não é fácil.

Claro que o PT não morrerá em 2018. Recomeçará um ciclo.

Ocorre que Eduardo Campos joga um jogo complexo. Tem de ocupar espaço no PSB se não os irmãos Gomes ocupam. No seu segundo mandato, não poderá ser candidato ao governo novamente. Optando por ser candidato a senador, disputará uma eleição regional sem nenhuma expressão nacional. Seu nome ainda não é reconhecido como uma liderança a nível nacional. As eleições de 2014 são uma grande oportunidade, uma vitrine para fazê-lo ser.

O ideal para Eduardo Campos seria ser candidato à vice-presidente na chapa de Dilma. Isso o colocaria como aliado e candidato natural à sua sucessão. Ocorre que para isso tem de combinar com os russos. E os russos nesse caso é o PMDB.

Se não for candidato à vice, tem de ser candidato à presidência. Não será eleito, mas terá deixado o seu nome marcado na lista para 2018. Apoiará Dilma em um hipotético 2º turno, será ministro e candidato à sucessão.  Que lindo sonho azul, porém há um problema.

O problema é ser oposição e situação na mesma eleição enquanto, ao mesmo tempo, toureia Ciro Gomes – o touro indomável.

O PMDB.

Resta ao PMBD a candidatura à vice de Dilma em 2014. Qualquer ameaça a essa posição e o partido passa na mesma hora para a oposição sem deixar um único cargo no governo. São especialistas em quinta-coluna. Ainda que seja necessário reconhecer, não há porque acusar Temer de qualquer deslealdade até agora, ao contrário. Ficará para 2018 seu renascimento como partido com candidato próprio para presidente, ou não. Não é exatamente com isso que o partido se preocupa. Comporá com o ganhador e seguirá em frente.

E Sergio Cabral? Mistério.

Mas sua posição atual, pós-Cavendish, diz que cuidar da sua sucessão no Rio de Janeiro em 2014 e de um mandato de senador lhe faria muito bem. Outros sonhos ficam para 2018.

Para os demais partidos restará compor a base. Apenas o PSD pode ter algum interesse em 2014. Para 2018 não é ainda nem possível saber se existirão.

O PSD foi criado para ser o partido com o qual o Serra contava para qualquer situação que o levasse a sair do PSDB. Ocorre que o “partido do Kassab” ficou muito maior que o Kassab. Dará apoio a Serra em 2014 e morrerá, ou estará na base de Dilma?

Sim, porque Serra será candidato nas próximas eleições presidenciais. É outro que não tem mais nada a perder em 2014. É também o único para o qual 2018 não existe. Por qual partido se candidatará? Provavelmente pelo PPS, mas isso é o que menos importa. Serra é desde sempre o seu próprio partido.

Finalmente o PT.

O PT chega a 2014 em uma situação dicotômica. Tem dois candidatos para vencer no primeiro turno. Dilma e Lula. Provavelmente vencerá no 2º turno contra Aécio Neves. Não tem hoje nenhum candidato para 2018.

O mensalão custou-lhe preciosos quadros. Marta e Mercadante, nomes de alcance nacional não se viabilizaram. Outros grandes nomes como Patrus, Pimentel e Tarso são regionais. Farão bonito em seus estados; Gleisi e Paulo Bernardo jamais ambicionaram mais.

A menos que Lula tire outro “poste” da cartola, Haddad é a promessa.

Mas por enquanto é não mais que isso, uma promessa. Terá de fazer um bom governo na prefeitura de São Paulo, ser reeleito em 2016 para chegar a disputar como candidato do PT em 2018.

Mesmo assim estaria queimando etapas, já que o caminho natural é a governança do Estado.

Para Haddad e o PT, em 2018 será necessário aprender com Tancredo Neves. Deixar as águas baterem nas pedras em 2014 para estudar a espuma antes de tomar qualquer decisão.


28/10/2012

Haddad eleito, quem ganhou e quem perdeu com isso?

Sem sombra de dúvida, a maior ganhadora é a cidade de São Paulo.

E que não se veja nessa frase nenhuma adulação a Haddad.

A cidade ganha em função da alternância do poder. Em São Paulo havia se estabelecido um pacto das “elites”. Com estado e prefeitura na mão do mesmo partido por pelo menos oito anos, formou-se em torno deste um consenso que envolvia a burguesia,  o judiciário, a grande imprensa e dois legislativos, estadual e municipal, passivos. Nada perturbava a paz paulistana.

Haddad quebra esse consenso. Não espere sossego da imprensa, do ministério público e do judiciário. No entanto, o critério utilizado em relação a Haddad terá, pela proximidade das administrações, que ser aplicado também a Alckmin. E isso é muito bom.

Ganha o PT.

Aqui é necessário pouco que falar. Disputou uma eleição milimetricamente sincronizada com o julgamento de seus líderes, paulistas, no STF. Sofreu diuturnamente desde agosto referências negativas nos jornais, rádio e televisão, quando não os mais vis achincalhes em certos blogs e conseguiu conquistar a primeira cidadela adversária. Ganha em uma cidade que sempre lhe foi refratária.

Ganha Lula.

Unanimidade novamente. Reforçou sua já decantada fama de ter faro político para escolher candidato. Plantou mais um poste. E isso convalescendo de um câncer.

Ganha Dilma.

Fez o que devia fazer. Participou das eleições. Subiu nos palanques Brasil a fora. Fez política, sua obrigação. Quem agora dirá que ela não é petista? Mas, principalmente, conseguiu uma coisa que nem um dos seus mestres, Leonel Brizola, conseguiu. Entrou em São Paulo.

Ganha Aécio Neves.

Com a derrota de Serra, seu nome é agora consenso como candidato à presidência em 2014 pelo PSDB. Ganha mais ainda, o PSDB, depois de muito tempo, estará unido em torno dele. Será por uma janela curta de tempo, até que em 2018 Alckmin volte ao páreo federal.

Ganha Fernando Haddad.

Ganhou a eleição, é o novo prefeito de São Paulo. Mas não é isso , ou pelo menos não é só (?) isso. Saiu, em agosto, de ilustre desconhecido para uma vitória inquestionável em outubro – um trimestre. Sem experiência anterior em eleições, encarou uma imprensa que lhe era desfavorável e enfrentou “olhos-nos-olhos” Serra nos debates. Estabeleceu seu território, ganhou respeito. Esteve nas ruas, fez se conhecido e querido. Chega à prefeitura da maior cidade da América do Sul com pinta de governador e presidenciável. Basta aprender que em política tem fila e chegará aos dois cargos ao seu tempo. Haddad é o novo nome da política paulista. Um quadro novo e forte em um Estado de políticos envelhecidos.

Quem ganha e perde é Alckmin.

Ganha por um lado. Seu nome é agora hegemônico no PSDB paulista. É, portanto, tirando-se FHC, o nome mais poderoso do PSDB nacional. A derrota de Serra lhe tira um incômodo do caminho. Entrou na campanha de Serra com o entusiasmo de quem vai a funeral de conhecido distante. Cumpriu a obrigação, porém, com o distanciamento necessário para não se contaminar com a derrota.

Perde por outro lado. A chegada de Haddad a prefeitura adia qualquer pretensão de disputar a presidência em 2014. Terá de defender a posição do PSDB no governo de São Paulo. É o único nome do PSDB paulista. A que ponto chegou o PSDB paulista. Perde também porque Haddad lhe fará sombra. Ambos pertencem ao mesmo estrato social. Haddad é facilmente palatável pela burguesia conservadora e preconceituosa paulistana. Não será pela comparação que Alckmin terá vantagens junto a essa camada da população.

Perdem os colegas aqui do blog.

Aqueles que em junho, diante da foto de Lula, Haddad e Maluf, rasgaram a camisa com a estrela vermelha e passaram a criticar a “cagada do Lula”. Somos generosos. Eles também podem participar da festa.

Perdem Marta Suplicy e Luiza Erundina.

Erundina, por sua própria incoerência, deixou escapar a vice-prefeitura com a qual poderia encerrar sua carreira no poder. Marta Suplicy cometeu um erro imperdoável em política. Acintosamente subordinou os interesses do partido aos seus interesses pessoais. Abandonou a luta porque a luta não convinha aos seus propósitos. Isso terá um preço. Em política, se você não serve ao partido, você não serve para nada. Com a vitória de Haddad, Marta não é mais o nome do PT em São Paulo. É, agora, mais um nome do PT em São Paulo.

Perde Russomano.

E perde feio. Era preferível ter passado a campanha inteira como 3º colocado. Estaria cacifado e com a derrota de Serra ocuparia seu posto nas próximas eleições. Do jeito que se deu seu derretimento, passou a ser um candidato frágil até para eleição de síndico. Russomano terá de se reinventar se ambiciona o executivo. Mesmo no legislativo, vai ser doído reassumir a condição de deputado federal representante do baixo clero.

Perde o PIG.

Restou provado que a grande imprensa só tem o poder de influenciar mesmo os Ministros do STF. Desta vez não teve nem “bala de prata”. A derrota estava consumada uma quinzena antes do dia das eleições. Baixaram as armas e começaram a pensar nas explicações. O mensalão era a “bala de prata”. Depois dele não há mais nada. A questão que se impõem agora é, depois de perder em 2006, 2010 e 2012, farão a autocrítica?

Perde Serra.

Serra perdeu tudo. Perder e ganhar são as duas alternativas de qualquer político e se sucederão na sua vida. Mas Serra perdeu perdendo. Perder em sua cidade é muitas vezes pior do que ter perdido a presidência para Dilma. É perder na cidade que sempre o apoiou. Ele perdeu esse apoio. A quem vai creditar a derrota, aos nordestinos comprados pela “bolsa esmola do Lula”? Serra cansou o eleitorado. E isso é fatal. Se não ganha em São Paulo, ganha onde? Serra perdeu o discurso, Serra perdeu o senso de ridículo, Serra perdeu a compostura. Serra perdeu o partido. Restou o que a Serra? O partido do Kassab vai formar com a base aliada de Dilma e de Haddad. Resta a Serra ser candidato à presidência em 2014 pelo PPS tendo como vice Soninha Francine.


01/09/2012

Mensalão, fatiados venceremos

O procurador Joaquim Barbosa deve ter escutado com um sorriso de escárnio suspenso nos lábios a leitura da acusação feita pelo PGR Roberto Gurgel. Era inepta. Gurgel usava de sarcasmo, citava Chico Buarque de Holanda, mas cometia um erro grosseiro, sustentava que uma quadrilha atrevida instalou-se no Palácio do Planalto e do escritório do Ministro da Casa Civil comprava apoio parlamentar – o mensalão. Contudo, terminava de maneira patética a acusação. Pedia a compreensão da Corte por não apresentar provas do que dizia. Provas, como todos ali sabiam, nesses casos são muito difíceis de serem obtidas.

Convenceu um já convencido, desgosto e retirante Ministro Peluzo, que mesmo assim teve de cometer um acidente automobilístico na sua biografia para concordar com Gurgel. Inovou em matéria penal ao admitir que um fato prove outro a ele relacionado por si só, dispensando a apresentação de provas da correlação. Ou a prevalência de tese de que “quem bate atrás é culpado”. Nesse momento o ministro Joaquim Barbosa é quem deve ter intimamente gargalhado do argumento rebolativo de seu colega e desafeto.

O procurador Joaquim Barbosa é muito mais engenhoso, a utilidade do mensalão já havia acabado quando o STF aceitou a denúncia. Para o julgamento usaria outra estratégia. Na verdade a idéia do mensalão voltou a ser útil quando a questão dos réus sem foro privilegiado foi novamente apresentada. O procurador Joaquim Barbosa se encolerizou, isso era questão já decidida, não se volta atrás. Ali a sua estratégia perigou, mas vencido o questionamento o procurador Joaquim Barbosa sorriu vencendor mais uma vez.

A tese do mensalão era útil à acusação apenas como uma imagem que justificasse o STF como fórum do julgamento. Ora, admitindo-se a hipótese de um ministro de estado corrompendo deputados e senadores para obter apoio político, que outro fórum poderia julgar tal delito? E, assim, mesmo réus sem foro privilegiado deveriam ser julgados na ultíssima instância, pois, se divididos em vários tribunais como processos individuais, ainda que entregues aos seus juízes naturais, a interessa das provas e correlação dos atos que comprovavam o mensalão seriam prejudicadas. Esses réus formavam uma quadrilha – Lula lá e seus 40 ladrões.

Esse era o primeiro movimento de engenho e arte jurídica do procurador Joaquim Barbosa. Aceita como tese, a hipótese do mensalão não servia para mais nada, podia ser dispensada. Como peça acusatória era contraproducente, pois teria de ser provada. E o procurador Joaquim Barbosa sabia que era inverossímil malas executivas recheadas de dinheiro circulando pelo plenário do Congresso Nacional, assim como, no mínimo, difícil de acreditar que era necessário corromper congressistas do PT para votar nas propostas do PT.

Logo, o procurador Joaquim Barbosa apresenta ao ministro Joaquim Barbosa e aos outros Ministros do Supremo uma peça acusatória totalmente diferente da do Procurador Geral da República e de modo algum relacionada com o mensalão. Num engenhoso salto mortal, fatia o julgamento. Cada delito agora deveria ser julgado como único, dissociado dos outros e principalmente da idéia de que formavam um conjunto chamando mensalão.

Estava consumado com sucesso o segundo movimento do procurador Joaquim Barbosa, engenho, arte e contradição calculados.

Assim assistimos decisões sobre peculato, lavagem de dinheiro, propina, corrupção rasteira e genérica. Não ao julgameto do “maior escândalo de corrupção da história deste país”, nenhum ministro tendo que se questionar sobre onde estaria comprovada a compra de apoio político ou quais as matérias tiveram suas votações corrompidas.

Mantida assim as teses do procurador Joaquim Barbosa, ao final do julgamento, todos os réus estarão condenados por delitos outros que os apresentados inicialmente como compra de apoio parlamentar. E a condenação é o que interessa à procuradoria, a quem cabe acusar e não julgar o mérito.

Por último, o mensalão restaria provado pela condenação dos réus a ele associados e não porque qualquer prova dele tenha sido apresentada ou mesmo que tenha realmente existido.

Fatiados venceremos.


05/02/2012

Sacolinhas plásticas, incerteza científica e um pouco de desesperança.

Toda essa discussão aqui em São Paulo sobre as sacolinhas plásticas ocorrida recentemente, e que parece que ainda não acabou, devido ao TAC –termo de ajustamento de conduta – assinado pela associação dos supermercados, o PROCON e Ministério Público Estadual, levou-me a recordar uma conversa que tive no início de 2011 com alguns colegas, estudiosos das questões ambientais na administração de empresas, sobre a enorme incerteza científica que existe nas questões envolvendo a gestão ambiental.

A incerteza científica é um fato aceito pelos que entendem sem paixões a questão do meio ambiente. Nós realmente ainda sabemos muito pouco sobre o efeito das nossas ações quanto se trata da interação com o meio ambiente.

Vejamos o que estava presente naquela conversa.

A questão dos produtos biodegradáveis e dos produtos com base em plásticos e vidro e sua interação com o meio ambiente.

Óbvio está que produtos tóxicos, tais como, organoclorados, metais pesados e hidrocarbonetos não podem ser simplesmente descartados no meio ambiente, mas e os plásticos e vidro, são inertes, que mal causariam?

Uma das acusações que os ecologistas lhes fazem é de que demoram centenas de anos para se decomporem. Ora, isso se dá justamente por esses materiais não interagirem com o ambiente. Se não interagem, logo, que mal estão causando?

Além da questão puramente estética, causam todos os males advindos do assoreamento de galerias pluviais e de esgoto nas cidades e do assoreamento de rios.  E talvez, tão ou mais importante que o assoreamento é se tornarem em lixões e terrenos baldios ambientes propícios para a proliferação de insetos.

Quem já vivenciou as enchentes em São Paulo ou atravessou um surto de dengue sabe o tamanho do problema.

Mas bioquimicamente parecem ser irrelevantes.

E os produtos biodegradáveis, seriam mais seguros ecologicamente?

Não necessariamente. Meus colegas achavam risíveis as propagandas que falam de produtos biodegradáveis e os associam com a conservação ambiental. Diziam mesmo que em alguns casos eram verdadeiros engodos da opinião pública.

Por quê? Os produtos biodegradáveis são digeridos por bactérias, micro-organismos presentes na natureza, essa não é a solução?

A digestão, esse é o problema.

Existem dois tipos de digestão, a aeróbica e a anaeróbica.

A aeróbica é a digestão que se dá com a presença de oxigênio e resulta em gás carbônico (CO2), água e biomassa não digerida.

A anaeróbica é a que se dá sem a presença de oxigênio e resulta em gás metano (CH4), água e biomassa não digerida.

Ocorre que gás carbono e metano são os dois grandes vilões do efeito estufa.

Quem já passou ao lado do poluído rio Pinheiros em São Paulo deve ter visto uma série de bolhinhas estourando na superfície da água, são os tais gases. E quem passa ao lado de lixões regulamentados deve ter visto uma espécie de “chaminés” com uma chama sempre queimando, é o tal gás metano. No Pinheiros ou nos lixões o odor é o mesmo.

Pronto, está aí a tal incerteza científica, o aumento do efeito estufa é um preço justo a se pagar pelo não assoreamento dos rios?

O problema, no entanto é ainda pior.

A digestão aeróbica quando se dá em rios consome oxigênio. É a famosa DBO – demanda bioquímica de oxigênio. Ou seja, matéria biodegradável nos rios é alimento para bactérias que proliferam e ao digerirem a matéria orgânica consomem o oxigênio presente na água.

Sem oxigênio, peixes e outros micro-organismos morrem. Ou seja, biodegradável=mortandade de peixes. Durma-se com um barulho desse.

E o que ocorre se houver uma diminuição da carga orgânica, ou nos períodos de poucas chuvas? As bactérias morrem e combinadas com a matéria orgânica não digerida se transformam em lodo.

No solo as reações da digestão são as mesmas, mas a DBO não causa maiores impactos, porém, o solo, a partir de então, estará morto. Há, ainda, outro risco quando a digestão se dá no solo. Chama-se chorume.

Chorume é o nome que se dá ao alcatrão tóxico formado pelas bactérias mortas, a matéria orgânica não digerida e a água. O chorume deve ser coletado nos lixões e enviado para tratamento. Creio que só a SABESP trata esse material aqui em São Paulo, mas posso estar me confundindo com o tratamento do lodo das ETE- estações de tratamento de esgoto. De qualquer modo o chorume recolhido necessita de tratamento especializado.

E se houver um acidente e o chorume penetrar o solo? O nome técnico disso é percolação.

Bom, se atingir o lençol freático a água estará contaminada e perdida para qualquer tipo de utilização humana.

Outra vez a incerteza científica, o biodegradável é ecologicamente melhor ou mais seguro?

Manejo de resíduos, o X da questão. 

Nota-se, a partir dessas considerações, que o que menos importa é se o produto é ou não biodegradável. Ambos geram impactos ambientais.

A questão não é a composição química do produto, mas sim o que fazemos com ele após se tornar resíduo.

Meus colegas apontavam uma série de medidas já bastante conhecidas, coisas simples.

Ocorre que a vida me ensinou que nem sempre o que é simples é fácil.

Coleta seletiva. Vidro, papel, metais ferrosos e não-ferrosos e plásticos são recicláveis.

Mas como fazer coleta seletiva em uma megalópole do tamanho da região metropolitana de São Paulo com 20 milhões de habitantes?

São Paulo ainda sofre com os efeitos da poluição difusa. Quem ainda não equacionou o problema da poluição difusa tem condições de realizar coleta seletiva e destinação ecologicamente correta de resíduos sólidos?

Para os que não sabem, poluição difusa é a que advém de fontes impossíveis de serem controladas. Folhas caem de árvores, escapamentos emitem particulados, o desgaste dos pneus contra o asfalto das ruas gera pó de borracha, por exemplo. Mas também irresponsáveis que atiram nas ruas pontas de cigarro e seus maços ou embalagens vazias de alimentos ou copinhos plásticos geram poluição difusa. Essa poluição deve ser recolhida por varrição de ruas e destinada. Se não, na primeira chuva será arrastada para as galerias pluviais e de lá para os rios.

Como está a varrição de ruas em nossas cidades?

Voltando à coleta seletiva, de que tamanho deveriam ser os centros de triagem dos materiais coletados? Quantos operadores deveriam ser contratados? Como se bancariam os custos, já que creio que não seriam economicamente auto-sustentáveis. A recolha e destinação de embalagens de pesticidas utilizados na agricultura já são praticadas há anos, pelo menos em São Paulo, e ainda não se tornaram auto-sustentáveis, segundo o pouco que sei.

E como se daria a coleta seletiva em Mãe do Rio, uma pequena cidade no sudeste do Pará? Lá já existe, ao menos, a coleta domiciliar de lixo?

Biogás – um dos meus colegas é um entusiasta da geração de biogás a partir de resíduos orgânicos.

O processo é relativamente simples, em biodigestores se faria a tal digestão anaeróbica. O metano gerado seria queimado e obteríamos energia elétrica. O CO2 resultante, por estar sendo gerado de forma controlada, poderia ser captado e utilizado como gás industrial. Ainda assim, restaria a matéria orgânica não digerida que deveria ser secada e armazenada em aterros, mas seria um mal muito menor.

Biodigestores já são fabricados comercialmente, são equipamentos relativamente comuns nas indústrias. Mas na escala necessária para o tratamento dos resíduos orgânicos de uma cidade como São Paulo me parece aquela piada sobre a receita de sopa de tigre. É simples de ser preparada depois de matar o tigre.

Álcool de celulose – o santo graal esperado dos cientistas, a descoberta de uma enzima de produção economicamente viável que transformasse de bagaço de cana a jornal velho e papel higiênico usado em álcool combustível. Encheríamos o tanque de nossos carros com nossas latas de lixo. Ainda em estudo, virá algum dia? Sou um eterno otimista com relação à ciência.

Vamos parar de sufocar o planeta, ou um pouco de desesperança. 

Vamos parar de sufocar o planeta. Esse era o texto, algo exagerado, dos banners espalhados pelos supermercados paulistas na tentativa de convencer os clientes a aceitarem a perda de mais um benefício, as sacolinhas plásticas para transporte de suas compras. Os banners eram de plástico mas faltou-me saber se biodegradável ou não.

Que os supermercados vão ganhar algum dinheiro a mais não fornecendo mais as tais sacolinhas não tenho dúvidas. Está em linha com o neo-egoismo nas relações com os clientes que vai da sonegação de sacolinhas à suspensão dos serviços de bordo nos vôos domésticos. Retiram benefícios sem a correspondente queda nos preços dos produtos. Fruto do nosso capitalismo sem livre concorrência.

Que algumas pessoas esboçarão um sorriso de dever cumprido ao saírem dos supermercados carregando suas sacolas de lona é até compreensível. Alguns estarão sinceramente engajados, outros serão os mesmo que eu vi desfilar pelos aeroportos trajando máscaras de algodão durante a fase da “gripe suína”. Chamo a esses últimos, não sem uma boa dose de ironia, de “up dated people”.

Daí a crer que essa ação terá qualquer impacto benéfico significativo no meio ambiente vai uma dose de ingenuidade da qual não disponho.

Há 8 mil anos, quando o homem se tornou agricultor, a atividade humana começou a gerar impactos ambientais. Hoje, quando completamos 7 bilhões de habitantes humanos no planeta, moramos essencialmente em cidades e nossas atividades assumiram formas muito complexas e não naturais, ou seja, quando construímos um mundo apartado da natureza para sobrevivermos às exigências dessa própria natureza, a questão da geração de resíduos e do seu manejo se tornou um desafio para a engenhosidade humana do tamanho do que foi nossa batalha contra os germes.

Soluções várias já estão disponíveis, a escala das ações necessárias, no entanto, é que é algo da ordem da que empreendemos para gerar e distribuir a energia que consumimos.

Quem pagará?

A resposta a essa pergunta responderá também as questões ambientais.

E reside aí o pouco de desesperança deste texto.


28/07/2011

Meu pai, o conde e o rei da Itália.

A notícia na Folha de hoje, 28/07, dando conta do destino final que será dado ao velho e querido Humberto I, trouxe-me velhas e queridas lembranças.

As últimas lembranças do meu pai.

“Hospital deve virar hotel de luxo até a Copa

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2807201115.htm

O hotel de altíssimo luxo que será construído no prédio do antigo hospital Umberto Primo, na Bela Vista, centro de São Paulo, deve ficar pronto para a Copa do Mundo de 2014.

O “hotel palácio” vai funcionar no prédio da antiga maternidade, no centro do terreno de 27 mil m2, a uma quadra da Avenida Paulista.” 

Foi lá, na sua recepção, que cheguei em alguma manhã de 1979 levando pela mão meu pai enfartado.

Meu pai era um velho imigrante português, jamais havia contribuído para a previdência, tampouco tinha qualquer plano de saúde, deveria ter algum dinheiro no bolso, mas sem dúvida, não tinha o suficiente para pagar o taxi para chegar até lá. Ele tinha a mim. E eu tinha 19 anos.

E tinha o velho e querido Humberto Primo.

Recordo a apreensão do não saber o que fazer e o balcão de madeira, entreguei para atendente a recomendação escrita por um médico de bairro que havia atendido meu pai dia anterior. Nada mais foi preciso.

O caso era grave. Em minutos um enfermeiro apareceu, colocaram meu pai em uma cadeira de rodas e o levaram para dentro para fazer exames.

Fiquei sentado, não sei por quanto tempo, nos bancos de madeira, duros e lustrosos da sala de espera.

Chamaram-me, deram-me a notícia da gravidade, da necessidade de internação na UTI, da necessidade de alguns documentos para efetivar a internação. Deram-me ainda todas as explicações que eu pedi.

Deram-me também alguns minutos para falar com o meu pai.

Não me deram mais nada, não me deram nenhum boleto para pagar, nenhuma conta, nenhum pedido de caução.

Apenas cumpriram com o seu dever, atenderam e salvaram a vida do meu pai.

Não creio que haja um céu ou um inferno.

Mas se um céu houvesse, creio que naquela hora, lá o velho conde Francisco Matarazzo estria orgulhoso.

Apesar de nossa tão grande falta de recursos, fomos atendidos com respeito, prontidão e dignidade. Imagino que era isso que ele queria quando contribuiu majoritariamente para construir um hospital beneficente.

Lá meu pai se tratou por um ano e meio e era para lá que era levado quando do segundo enfarto. Não deu tempo.Foi o cardiologista de lá, que cuidava do meu pai, quem assinou o atestado de óbito em uma noite dura, muito dura para mim.

Anos depois, como meu pai, o Humberto Primo também morreu. Só que diferente de meu pai, sem ninguém para socorrê-lo.

Não que não houvesse mais os Matarazzo ou Crespi, Pignatari, Gamba ou Falchi. Havia e, havia e há muitas fortunas. Não critico ninguém, eu mesmo, o que fiz a favor do velho e querido Humberto I? Pouco poderia fazer, mas o que fiz? Nada.

Os tempos eram e são outros, os Matarazzo eram e são outros.

Como bem lembrou Andrea Matarazzo a respeito do evento da transformação dos prédios do hospital em hotel de luxo,

“O fato de ser ocupado por cultura onde minha família implantou saúde é ótimo. Não poderia ter uso melhor.”

Sim, os prédios e o terreno onde se encontram são belíssimos e precisam ser preservados. Não consigo, no entanto, ver onde há cultura em um hotel de luxo dedicado a plutocracia nacional e estrangeira. E, creio que se continuasse hospital beneficente, sim, teria um uso melhor.

Mas não quero e não serei ingrato, gostaria apenas de agradecer. De agradecer aos pais de Andrea Matarazzo pelo muito que lhes devo.


14/07/2011

Eleições de 2010 – o momento onde Serra vacilou.

Este é um post longo, dividirei-o em partes, buscando torná-lo menos enjoativo. Provavelmente, também, contém erros factuais, já que escrevo basicamente de memória. Não tem a intenção de documentar a história, mas sim, questionar por que um político experimentado, após uma carreira longa, vacila no seu melhor momento.

Já comentei sobre como FHC dificultou a eleição de Serra em 2002 e como, tentando sangrar Lula, inviabilizou o PSDB como partido de oposição propositiva e, assim, inviabilizou-o simplesmente.

http://www.advivo.com.br/blog/sergio-saraiva/onde-o-psdb-errou

Ocorre que no Brasil ainda não votamos em partidos e sim em nomes e um partido poder sequer existir na prática e, ainda assim, eleger um presidente.

O caso de Fernando Collor com o seu PRN é emblemático.

O assunto deste post vem daí, de algo que me intriga, o porquê da, em determinado momento da longa campanha para a sucessão de Lula, enorme vacilação de José Serra.

Por mais que o personalismo de FHC tenha prejudicado o PSDB, a partir da campanha de 2002, e mais precisamente, da sua eleição à prefeitura de São Paulo em 2004, José Serra era dono do seu nariz, politicamente falando. Não dependia mais de FHC. E jogou muito bem, com estratégia apurada, preparando a eleição presidencial de 2010. Se não foi isso, então as circunstâncias o favoreceram como a um ungido. Estava tudo caminhado como deveria ser e, então, no curto espaço de tempo compreendido entre a primavera de 2009 e o verão de 2010, como diria Tim Maia, Serra vacila e põem tudo a perder.

Parte I

Serra, o carreirista.

Que Serra é um político carreirista com um único objetivo, chegar à presidência da republica, é coisa há muito sabida.

Pelo menos desde a eleição de FHC em 1994. Naquele ano o PSDB paulista fez cabelo, barba e bigode. FHC na presidência, Covas no governo de São Paulo e Serra no senado.

Mas Serra não vai para o senado, vai para o ministério do planejamento de onde sai para tentar a prefeitura em 1996. E, então, já se comentava que sua estadia na prefeitura seria a ponte para a eleição para o governo do estado em 1998 e a presidência em 2002.

Pobre Serra, tanta coisa e nada. A eleição de 1996 trouxe a derrota e o ano de 1997 a emenda da re-eleição, adiando seus planos para 2010. Sim, porque 2002 seria, a partir daí, o ano de Covas, mas isso comento mais abaixo.

Entrou papa, saiu cardeal. Ou seja, foi de senador a ministro, a governador, a presidente e acabou como estava, de volta ao senado.

A eleição de 1996 trouxe outro dissabor para Serra, a fama de político ruim de voto, devido a sua baixa capacidade de interagir no corpo-a-corpo com o eleitorado.

Lembremos, em 1996 ainda não havia a Revista Piauí e o tal álcool em gel para as higienizações pós-contato eleitoral, mas já havia essa percepção.

A eleição de 2002

O governador de São Paulo é sempre um candidato natural a presidência da república. Pelo menos desde Adhemar de Barros, passando por Jânio Quadros, Paulo Maluf e chegando a Covas. Não é nada do tipo “destino manifesto”, mas é que governando a maior economia e o maior colégio eleitoral e tendo influentes empresas de comunicação tão próximas, o governador de São Paulo sempre é alçado a esferas federais, daí sua candidatura a presidente ser natural.

A saúde não permitiu isso a Covas, morreu em março de 2001. Seu sucessor, ou herdeiro, veremos abaixo, Geraldo Alckmin, era novo demais para tal vôo.

Abriu-se uma nova brecha para Serra.

Serra só não contava com o fato de que FHC era cabo eleitoral de Lula.

http://www.advivo.com.br/blog/sergio-saraiva/fhc-quem-seo-nassif

Além disso, o fim da era FHC não era exatamente propício para um candidato do PSDB. Era clima de fim de festa, ou de feira. Após a fase de riqueza advinda com o controle da inflação do Plano Real e do dinheiro fácil obtido com as privatizações, a incapacidade de evitar o contágio com as diversas crises econômicas que aconteciam em lugares diferentes (Coréia, Rússia, México e Argentina) mas repercutiram no Brasil, o aumento de impostos e juros necessários para pagar os credores internacionais condenando o desenvolvimento do país ao chamado vôo da galinha, as altas taxas de desemprego e a precarização das relações trabalhistas promovida durante o governo FHC, isso sem falar nos vários escândalos, incluindo o da compra de votos para a emenda da própria re-eleição, os acidentes da Petrobrás  e finalmente o apagão de 2001, minaram qualquer chance de vitória de um político continuista.

Seria melhor para Serra ter tentado novamente o senado e deixado a batata quente com Tasso Jereissati ou Paulo Renato. Ao invés disso, Serra partiu para o pescoço de Jereissati com mais um dos seus dossiês, forçou sua indicação como candidato, perdeu para Lula e somou mais um desafeto, o próprio Jereissati.

Parte II

A eleição de 2004 e a volta por cima.

Após a derrota lhe resta a presidência do partido, o nome é bonito, mas nada mais que isso.

O vento começa a soprar a favor a partir de 2004. Enfrenta uma Marta Suplicy desgastada por um governo impopular, o governo da Martaxa.

Derrota o PT vencendo um candidato a re-eleição. Não é pouca coisa, apesar dos desacertos de Marta Suplicy, quem disputa a re-eleição leva uma vantagem considerável.

A vitória, no entanto, teve um custo, foi obrigado a assinar em cartório um compromisso de não abandonar a prefeitura para candidatar-se a presidência em 2006. Era o custo do político carreirista.

As eleições de 2006

Essas não eram para Serra, era chegada a vez de Alckmin, seguindo a lógica, o governador de São Paulo é o candidato natural à presidência. Além do que, no outro corner estava Lula. E a essa altura com o “efeito Azeredo” e o fim melancólico do mensalão no congresso e com os primeiros resultados das ações de distribuição de renda bombando Lula era imbatível.

Pior para Alckmin. E, ainda assim houve aquela cena ridícula dos 4 cavalheiros decidindo o futuro da nação ao entorno de uma garrafa de bom vinho.

O que explicaria aquilo? Uma provocação ao grupo de Alckmin. O grupo de Alckmin reage, impõem o seu nome. Alckmin disputa e perde para Lula, óbvio, e submerge para respirar e reagrupar as tropas. Vai reaparecer nas eleições municipais de 2008, ser derrotado, e proporcionar o grande momento político de Serra, então um político no comando do seu destino.

O caso dos “Aloprados”.

A eleição de 2006 tem uma particularidade interessante. O escândalo dos “Aloprados”.

Tem todo o jeitão de mais uma armação de Serra. Alguém surge do nada oferecendo informações sigilosas sobre Serra, alguém do PT, subalterno sem nenhuma importância, os tais “Aloprados”, segundo Lula, resolvem comprar. Aí um delegado da Polícia Federal, outra vez ela, entra em cena e dá voz de prisão aos aloprados. Ora, é crime comprar informações? Que eu saiba, não. Desde que essas informações não tenham sido obtidas de forma ilegal.

Logo, a questão não era a compra da informação, que aliás, nem existia. Era a origem do dinheiro. Quem não sabe como se financiam as campanhas?. Demonstrar a origem do dinheiro é que é o buziles. Na mesma época, se não me engano, teve o caso de um avião do PFL carregado de malas de dinheiro que foi apresentado como dízimo.

Pois bem, e lá vai o delegado cometendo desvio de função e invadindo o depósito onde estava o dinheiro, fotografando a pilha e distribuindo a foto para os jornalistas. Quais jornalistas? Ora, aqueles dos jornais que davam apoio ao Serra,

O interessante dessa história é que o escândalo envolvia a campanha de Mercadante mas foi a bala de prata usada pela imprensa para alavancar o 2º turno da campanha de Alckmin.

Se foi armação do Serra, realmente ele não precisava disso para derrotar Mercadante. Ocorre que talvez não tenha como resistir a esse tipo de ação.

Vejamos,

Eleição

Caso

Prejudicado

Beneficiado

Agente

2002

Lunus

Rosena Sarney

José Serra

PF

2004

Duda Mendonça e a rinha de galo

Marta Suplicy

José Serra

PF

2006

Aloprados

Aloísio Mercadante

José Serra

PF

 

PSDB, um partido dividido desde a origem.

O PSDB nasce uma dissidência do PMBD paulista em função da incompatibilidade com a liderança de Orestes Quércia.

Quércia era um político aventureiro, sem nenhum nome ou cacife se lança candidato ao senado em 1974 pelo MDB em plena ditadura, isso porque, provavelmente, ninguém queria aquela disputa. A ARENA, partido do governo parecia imbatível. Todo aventureiro precisa de sorte, a eleição de 74 foi o ponto de viragem da ditadura. A população deu o sinal necessário que a aprovação daquele modelo de governo não resistiria ao fim do milagre econômico. Elegeu massiçamente os candidatos do PMDB. Posteriormente, em 1982, Quércia melou a convenção do PMDB que indicaria Montoro e Covas para a primeira eleição aos governos estaduais na desde 1966. Covas, homem de partido, cedeu a vaga, Quércia se elegeu vice-governador e pavimentou a sua eleição para o governo em 1986 com o Plano Cruzado fazendo água e ele prometendo mandar a polícia federal laçar boi no pasto para garantir o abastecimento da população.

Montoro lidera a ruptura, leva consigo Covas e FHC. Não leva Ulisses Guimarães, o MDB era o filho que Ulisses nunca teve, não o abandonaria apenas por causa de Quércia, pagou seu preço na eleição de 1990, Quércia o deixou na chuva..

O PSDB unia-se em torno da liderança suave de Franco Montoro mas era rachado entre o grupo de Covas e o grupo de FHC.  Com a retirada de Montoro da cena política, a ruptura era inevitável. Convivência de aparências e nada mais.

Em 1992 FHC quis embarcar na canoa do plano de salvação do governo Collor, Covas vetou. Com Itamar a história foi outra e sabemos o que veio depois.

Alckmin foi adotado por Covas, Serra caiu pela 2ª lei Newton, no grupo de FHC, não que FHC tivesse algum respeito por ele. Já Covas, contam, queria Alckmin como a um filho. Os dois grupos nunca se uniram.

Assim, em 2002 o grupo de Covas/Alckmin não trabalhou por Serra e em 2006 o grupo de FHC/Serra não trabalhou por Alckmin.

Como o consenso não era possível, a única solução seria um grupo destruir o outro e unificar o partido em São Paulo.

A eleição de 2008 foi esse momento.

Serra, o audacioso.

Com Alckmin marchado para a derrota em 2006, Serra aplicou sua grande jogada, a candidatura para o governo apesar do compromisso assinado em cartório. Julgou e acertou que o eleitorado paulista não se sentiria traído.

Instalou Kassab, um fiel escudeiro no Anhangabaú e tomou posse no Morumbi.

Era governador de São Paulo, portanto, candidato natural à presidência em 2010. Mas ainda era necessário derrotar o grupo de Alckmin, para dominar o partido em São Paulo.

A eleição municipal de 2008 e o domínio de Serra

Submerso desde 2006, Alckmin volta a cena em 2008. Postula a candidatura peessedebista. Serra é contra, apóia a reeleição de Kassab. O grupo de Alckmin novamente se impõem, mas erra e dá a Serra a sua grande chance de prevalecer unificando o partido em São Paulo.

A peça chave dessa eleição era o tempo de televisão nas mãos do PMDB de Quércia.

Quércia oferece apoio a Alckmin, porém o grupo de Alckmin, fiel aos compromissos de Covas recusa.

Serra não teria esses pruridos de consciência, fecha acordo com Quércia, coliga PFL com PMDB. O PSDB sob seu comando, e com a aprovação de FHC que tem aí a sua grande chance de dar a volta em Covas, ainda que esse já estivesse morto, deixa Alckmin na chuva, apóia sub-repticiamente Kassab e derrota de uma única vez dois adversário, o PT de Marta Suplicy e o grupo de Alckmin.

Kassab é re-eleito e o grande vencedor é José Serra.

Alckmin bate no fundo do poço.

Aí Serra mostra que realmente é um articulador. Com o grupo de Alckmin completamente derrotado, Serra lhe oferece uma secretaria em seu governo.

Em gesto de grande esperteza transforma desafetos em devedores políticos.

Agora tudo está pronto para a sua candidatura a presidente em 2010. Ele havia pavimentado o terreno. Era o governador de São Paulo, tinha Kassab e o seu PFL instalado na prefeitura, um acordo com o PMDB de Quércia e a dívida de gratidão de Alckmin.

Parte Final

Lula, um enorme patrimônio sem herdeiro.

No verão de 2009 o PT tinha um enorme patrimônio, Lula e o governo Lula, e ninguém que pudesse assumir esse patrimônio.

O governo Lula era um sucesso inconteste, pelo menos 20 milhões de brasileiros haviam deixado a linha de pobreza, com o crédito facilitado a classe C e D consumiam mais do que a classe A e B criando pela primeira vez um mercado de escala no país e obrigando os empresários a repensar suas estratégias de produção.

O Brasil era auto-suficiente em petróleo e o pré-sal permitia vislumbrar-se que em pouco tempo se tornaria um dos grandes exportadores de petróleo.

O PAC e o “Minha casa, minha vida” provocavam o apagão da mão de obra e, por conseqüência, e forçavam a formalização do emprego e o aumento do poder aquisitivo da classe trabalhadora.

A eterna e impagável dívida externa foi paga e o Brasil se tornara credor do FMI.

Isso tudo com a inflação controlada e com Lula rindo-se da crise mundial de 2008. Aqui, o tsunami era marolinha.

No campo externo, o Brasil peitou os EEUU em Honduras, no NAFTA e na OMC e obteve vitórias nas três frentes. No G-20 era voz influente.

Tal condição rendeu a indicação para sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Lula era “O cara”, causava inveja em Barack Obama e sentava-se ao lado da Rainha da Inglaterra.

No panteão dos nossos presidentes, Lula só poderia ser comparado a Getulio e Juscelino, tornando FHC a herança maldita do PSDB.

Já o petismo ia mal das pernas, não tinha mais nomes. Seus quadros foram queimados nos escândalos ou nas urnas. Talvez um dia venhamos a contabilizar o quanto o lulismo custou ao petismo.

José Dirceu, que no primeiro governo era dado como o sucessor de Lula, e José Genoino, que chegou ao segundo turno para a disputa o governo de São Paulo, estavam mortos pelo escândalo do mensalão, e não eram os únicos.

Marta Suplicy inviabilizada por governo impopular, uma derrota e um “relaxa e goza”. Mercadante e Eduardo Suplicy sem nenhuma apetência para o executivo.

Não, o grande PT paulista se esgotara, não sairia de São Paulo o nome do sucessor de Lula.

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Fora de São Paulo, 3 nomes, Patrus Ananias, José Pimentel e Tarso Genro. Somavam duas desvantagens, não eram nomes de escala nacional e tinham fortes adversários regionais.

Buscar uma solução fora do PT?

Ciro Gomes. Sem dúvida era fiel à causa lulista, mas, e quanto à causa petista? Além do que, Ciro era incontrolável e dava sinais contraditórios, tais como, aquela história de aceitar ser vice de Aécio Neves.

Lula, como um grande estadista, consolidou o modelo eleitoral ao se recusar a qualquer aventura de terceiro mandato.

Ou seja, Lula elegeria até um poste, mas o PT não tinha poste a apresentar e, assim, até Serra poderia se candidatar a ser o melhor pós-Lula à disposição.

Ou seja, no verão de 2009 a sucessão de Lula estava aberta, apesar, ou em função, de Lula ser Lula.

Dilma, a mãe do PAC.

Lula é um animal político de espécie superior, percebeu a sinuca de bico e fez uma jogada tão audaciosa que só os grandes mestres do taco teriam o tirocínio e a audácia de fazer.

Decidiu construir um sucessor começando do zero. Escolheu alguém tão desconhecido que ninguém poderia criticar, Dilma Rousseff.

E quem era Dilma? Ora, era a mãe do PAC.

Daí para frente tinha um ano e meio para convencer os brasileiros de que Dilma era o verdadeiro pós-Lula.

Serra jogou muito bem no início. Nada fez. O problema era de Lula. Impor um nome sem nenhuma tradição partidária a um partido que morre teso, mas não entrega a rapadura e depois, ainda, amarrar Dilma na ponta de uma linha e empinar sua pipa mesmo sem vento.

Era esperar e nem ter de pagar para ver. Se algo desse errado, não haveria plano B e vitória de Serra estaria assegurada antecipadamente por WO.

A tragédia sorri pela primeira vez para José Serra, a doença de Dilma mostrou, realmente não havia plano B para Lula e o PT.

A primavera de 2009.

Setembro chegou e trouxe a primavera e o momento de decisão para Serra.

E aí algo acontece com o político maduro que não percebe que chegou o seu momento.

Como foi possível tal vacilação, o que aconteceu? Não sei, mas algo aconteceu.

Dilma clinicamente curada, seu nome aceito e sua pipa começando a voar. Voar baixo, mas já se mantendo no ar.

Era a hora de Serra se lançar o como o candidato do PSDB, afinal ele era o governador de São Paulo e o governador de São Paulo é candidato natural à presidência. Além do que, era o mais velho com condições de se candidatar e, em política, tem fila.

A alegação de que era muito antecipado, que a campanha só começaria em 2010 não se mantinha e as pesquisa mostravam.

Mostravam Serra em primeiro, Lula em segundo e Dilma em um distante terceiro lugar, mas crescendo lentamente sobre o eleitorado de Lula.

Ora, Lula não seria candidato, apenas o eleitor mais desinformado, muitíssimos, ainda não sabia. Era o eleitorado de Lula que estava em disputa. Se nada mudasse o quadro, aos poucos passaria a ser de Dilma, mas naquele instante era de quem convencesse esse eleitorado que seria o melhor pós-Lula. Ou seja, era sobre nesse eleitorado que Serra deveria imediatamente começar a buscar corações e mentes.

O PSDB percebe, a imprensa conservadora percebe e gritam: “vai que é tua, Serra”, e Serra vacila.

Aécio e o vácuo.

A política é avessa a vacilação tal qual a natureza a avessa ao vácuo.

Acredito que Aécio sabia que em política há fila e respeitasse essa regra. Mineiro e sobrinho de quem é, não poderia ser de outra forma.

Mas Lula estava viajando o país costurando acordos e fazendo a pré-campanha antecipada de Dilma, os espaços do PSDB estavam cada vez menores e, então, no vácuo de Serra, Aécio se lança.

Nem assim Serra se mexe. O PSDB se desespera, a imprensa conservadora atônita com tal desinteresse e Serra só na vacilação. Por quê? O que ocorria com Serra? Não sei. Mas algo ocorria. Serra tem experiência demais para não perceber o que, a demais, era gritado pelo partido e pela imprensa.

Creio que o lançamento de Aécio foi um ultimato do PSDB a Serra.

Serra, duas alternativas e a terceira margem do rio.

E, para Serra, só havia dois caminhos a seguir.

Perceber que o momento era o momento dele, postular o lugar de pós-Lula e lançar se na campanha acreditando que de mineração e eleição só se sabe o resultado após a apuração. Tinha chances. O eleitorado ainda não conhecia Dilma, era um governador com ascendência sobre o maior colégio eleitoral do país, tinha na prefeitura da capital mais que um aliado, um escudeiro e, pela primeira vez desde sua fundação, o PSDB paulista estava unificado, a força, mas estava. Aécio, o governador amado do segundo maior colégio eleitoral poderia não ajudar, mas, naquele momento, não atrapalharia. A possibilidade de vitória colocaria o restante do PSDB a serviço e DEM e PPS não tinham escolha, além de dizer “sim, senhor”.

Poderia mostrar obras, o rodoanel, as novas linhas do metrô e as novas marginais no governo de São Paulo e as realizações no ministério da saúde, os genéricos e a política de assistência aos doentes portadores de AIDS. Bastaria esconder FHC e se comprometer com o continuísmo das políticas sociais de Lula.

Nada difícil para marqueteiros e uma imprensa que já haviam elegido um “caçador de marajás”.

Bastaria, em um momento solene do PSDB ou do governo paulista declarar algo assim:

“O governador Aécio Neves tem uma qualidade que eu já não tenho mais, a juventude. Pode esperar mais 4 anos. Na convenção do próximo ano pretendo apresentar o meu nome como candidato a presidência da república”.

Pronto, a campanha peessedebista estaria iniciada.

Mas Serra não dizia nada. O Lula em plena campanha pró-Dilma e o PSDB paralisado.

Serra também poderia decidir que não dava mais, que Lula era imbatível, que realmente elegeria o poste. Nesse caso, bastaria ceder a vez a Aécio e assumir a candidatura de segurança que seria a sua re-eleição ao governo estadual paulista.

Aposentadoria?

Não exatamente, passaria os próximos 4 anos como o jogador veterano que deixa a bola correr e joga no erro do adversário.

Aécio, aos 50 incompletos, não teria nada a perder. Uma derrota lhe garantira, no mínimo, a presidência do partido e o recall da campanha alçaria seu nome em escala nacional preparando-o para 2014. E Serra, em uma improvável vitória de Aécio, teria cacife suficiente para obter um bom ministério para Alckmin. Além de, no governo de São Paulo garantir uma secretária para Kassab após o fim de seu segundo mandato a frente do governo da cidade de São Paulo.

Porque Alckmin e Kassab?

Porque eles seriam a continuidade do poder de Serra.

O acordo que levou Quércia a apoiar Serra deveria ter alguma contrapartida. É o mínimo que se espera em qualquer negociação política, ainda mais em uma negociação com Quércia. A chapa peessedebista em São Paulo seria esta: Serra – presidente, Kassab – governador, Alckmin e Quércia – senadores.

Para Quércia, a ressurreição, qualquer que fosse o resultado das urnas, voltaria ao comando o governo municipal paulista através de Alda Marco-Antonio.

Para Kassab, um caminho natural após 4 anos como prefeito da capital e a melhor chance não ter de compartilhar os destinos de Salim Curiati, Celso Pitta e Antonio Fleury Filho. Criaturas que não sobreviveram ao criador.

Para Alckmin e seu grupo, o retorno ao cenário político.

Ao invés disso, Serra optou pela terceira margem do rio. Não se assumiu candidato e iniciou uma campanha contra Aécio Neves que incluía desde notinhas no blog de Juca Kfouri até o inacreditável “Pó pará, governador” do Estadão. Passando obviamente por mais um dossiê.

Ter o jovem e amado governador do segundo maior colégio eleitoral como inimigo político, somado a Tasso Jereissati e a Sarney não é, por qualquer ângulo que se examine, uma prova de habilidade política.

Afinal, o que passava pela cabeça do Serra?

A política não admite a vacilação, tanto quanto a natureza não admite o vácuo.

A indefinição de Serra, sua tibieza e indecisão fortaleceram o grupo de Alckmin que se sentiu capaz e conseguiu a indicação para concorrer ao governo do estado de São Paulo, quebrando as pernas de Kassab.

Verão de 2010. Ou, o momento em que Serra vacilou.

O verão chegou. Aécio espertamente lavou as mãos. Tinha cumprido seu dever, agora era pensar em Minas e no seu futuro.

As chuvas chegaram e São Luis do Paraitinga e as inundações e mortes da Grande São Paulo deixaram a nu o desgoverno Serra.

Mesmo assim, a tragédia sorriu novamente para Serra. Era a hora de transferir o governo paulista para a cidade mais próxima de São Luis do Paraitinga, montar acampamento nas margens do rio, botar bombeiros e defesa civil mais a PM ao serviço da população atingida. No noticiário, fazer promessas malucas, tão curtas como um sonho bom.

Nas inundações da capital, culpar as chuvas “extraordinárias” e a “população irresponsável”.  Dar um arrocho, ainda que momentâneo, na “máfia do lixo” e promover ações de emergência.

Como recomendaria Marques de Pombal após o terremoto de Lisboa, socorrer os vivos e enterrar os mortos.

Que grande figura faria. Serra, o homem certo, no lugar certo, na hora certa.

Esse era o momento da ação, as eleições eram outro momento posterior. Só os politiqueiros insensíveis à dor alheia não percebiam isso.

Dinheiro e poder não lhe faltaram.

Mas Serra nada fez, submergiu na água barrenta boiada por sacos plásticos pretos de lixo. Kassab, em uma última tentativa da imprensa conservadora em poupar Serra, apanhou um bocado. Já era um balão apagado.

Quando março chegou fechando o verão e Serra se anuncia candidato em um programa vespertino e popularesco, especializado em vender “mundo cão”, só a ponto de nem ter nem um vice para chamar de seu, já era uma derrota anunciada.

Toda a baixaria que cometeu depois é história. Coerente com uma ação desesperada.

Não consigo entender, o que aconteceu com Serra?

Como ele não havia aprendido com Luis Melodia:

“um político, e uma mulher, não pode vacilar”.

No verão de 2010, Serra vacilou.


20/05/2011

Da arrogância da palavras.

Em questões gramaticais Ruy Castro não fala com preto, não dá mão a pobre e não carrega embrulho.

Ainda que possa posteriormente dizer que usou de fina ironia e foi mal entendido, o texto de Ruy Castro, de hoje na Folha, deve ser guardado como um dos mais arrogantes que ja lí.

Castro inovou em matéria de uso da língua no momento que aplicou a ele, o uso da língua, seus conceitos de classe social.

Nossa plutocracia econômica e intectual realmente anda incomodada. Reclama que hoje até porteiro e manicure possuem carro, usam celulares tão bons quanto os dela e, supremo motivo de desconforto, dividem com ela assentos de avião. Ruy Castro, a bem da verdade, no texto abaixo, não está incomodado em dividir com a “classe inferior” o uso dos assentos de avião e sim dividir com ela a decisão sobre o uso dos acentos gramaticais.

Nossa plutocracia não tem saudades da senzala, mas como lhe ressente a falta do quartinho de empregada e do elevador de serviço para domésticas. Eram símbolos do tempo em que cada um sabia o seu lugar. Bons tempos, para ela.

Ruy Castro tem saudades do elevedor de serviço da ortoérpia. Onde o simples pronunciar de uma palavra já denotava a classe social do falante e estabelecia seu lugar na sociedade. Portanto, tem saudades dos tempos onde aos serviçais era reservado o silêncio quando estivessem servindo gentes como ele. Um “sim senhor” respeitoso e reverente sempre lhes foi permitido, não mais.

“Saudade não tem fim, felicidade sim” , chora Ruy.

Se não, vejamos, estão agora aí professores a propalar a igualdade entre “o” e “os”. Para alguém do nível de um Castro isso não é igualdade, é promiscuidade abjeta.

E quem são os professores, meros funcionários, para terem opinião própria. Como bem já havia nos ensinado FHC, “quem tem talento cria, quem não tem vai ser professor”. Ou seja, Ruy comungou com mais uma das merdas que FHC fala.

E se é para ficar no escatológico, a fim de combinar com o as palavras de Ruy. Curtam o texto abaixo, mas atentem, não são pérolas. Estão mais para um imprudente peido cometido em sarau literário

RUY CASTRO

Meros funcionários 

RIO DE JANEIRO – Certo livro didático está na berlinda por propor que as pessoas possam fugir da norma culta da língua portuguesa e dizer “Os livro” e “Nós pega os peixe”. De fato, as normas existem para ser transgredidas -mas por quem de direito. Eis alguns que fizeram isto no romance, na música popular e na poesia. E o fizeram muito bem.
Guimarães Rosa reinventou a língua criando palavras como “ensimesmudo”, “sussurruído”, “engenhingonça”, “coraçãomente”, “infinilhões”, “homenzarrinho” e muitas outras. Essa língua só existia em seus livros. Adoniran Barbosa escreveu “Arnesto”, “brabuleta”, “pogréssio” e “nóis não semo tatu” porque fazia um tipo, um personagem. Não falava assim na vida real e não gostava quando parafraseavam suas letras, mesmo mantendo sua gramática particular.
Ferreira Gullar detonou a língua nos versos finais de “A Luta Corporal”, ao escrever “Urr verõens/ Ôr/ Túfuns/ Lerr desvéslez várzens”. Mas, nos anos seguintes, trouxe-a de volta aos cânones, para usá-la como ninguém. E João Cabral de Melo Neto, no poema “Uma Faca Só Lâmina”, rimou “faca” com “bala” e “ávida” com “lâmina”. Se lhe dissessem que essas palavras não rimam, ele diria que, nos poemas dele, rimavam, sim.
No fox-nonsense “Canção Pra Inglês Ver”, Lamartine Babo misturou citações em português e inglês, resultando em “I love you/ Forget sclaine/ Maine Itapiru”. E, antes dele, Juó Bananére já tinha feito paródias em dialeto ítalo-caipira de poemas conhecidos, tipo “Che bruta insgugliambaçó/ Che troça, che bringadêra/ Imbaixo das bananêra/ Na sombra dos bambuzá”.
Rosa, Adoniran, Gullar, João Cabral, Lalá e Bananére não fizeram escola, nem esta era sua intenção. Continuaram únicos. Artistas podem e devem fugir da norma. Já os professores e linguistas têm de aderir a ela, como meros funcionários da língua que são.


06/03/2011

A política paulista: transição ou crise?

A questão é que, para o bem e para o mal de São Paulo, tanto PT como PSDB foram, e são até hoje, em grande parte, fortemente paulistas. E esses dois partidos têm dirigido o Brasil nas duas últimas décadas.

Assim seus políticos têm já de início a esfera federal como alvo e não a construção de uma carreira local para depois alçar postos nacionais.

Foi assim que se construiu a política na redemocratização e principalmente após a morte de Tancredo.

A morte de Tancredo tirou Minas, sempre tão influente, do jogo político federal trágica e inesperadamente. Itamar não conta, é café-com-leite. E aqui, esse café-com-leite não é designativo de alguma simpatia dele com São Paulo; permiti-me uma pequena maldade com o homem de topete.

O poder político e o econômico estavam em São Paulo naquele momento.

Ulisses, Montoro, Fernando Henrique, Mario Covas, Almino Afonso, Severo Gomes e Lula. Note-se que estou aqui nominando de memória e que nem foi preciso citar Quércia ou Jânio – para o último, sua renúncia já era história escrita em pedra. Todos paulistas.

Isso sem contar a intelectualidade da USP, UNICAMP, Dom Paulo e a comunidade eclesial de base, o movimento sindical e uma enorme efervescência cultural que ia do punk à vanguarda paulista. Há que se notar, ainda, a poderosa presença de publicações de peso, como os jornais Folha e o Estadão e a revista Veja. Trinta anos após, essa publicações guardam pouca relação com o que eram na época, mas é no contexto dos anos 80 que devem ser entendidas aqui.

Fora desse contexto essencialmente paulista estava o nordeste com um Sarney completamente perdido na presidência, ACM poderoso localmente, mas identificado demais com o regime anterior para tentar qualquer vôo em escala nacional e Arraes, um mito, mas também um político com curta autonomia de vôo.

Entre os gaúchos, sempre tão atuantes, Pedro Simon e Paulo Brossard, grandes homens do plenário, do legislativo não do executivo e, ele, o fantástico Brizola, esse sim um nome a nível federal, mas que, paradoxalmente, não tinha penetração em São Paulo e Minas e, aí, todo o Brasil restante acabou-lhe sendo pouco.

O momento era paulista; 50 anos após 32, era novamente São Paulo.

O último político fora da esfera paulista foi Collor, mas este, então, era um ser artificial, um holograma criado pelo Doutor Roberto Marinho, segundo Dona Lily, e apoiado ou tolerado de nariz tapado pelo conservadorismo nacional como forma de conter Lula e Brizola. Sua derrocada abriu as porta para a uma temporária hegemonia paulista na política brasileira.

Agora, depois dessa longa contextualização histórica, vamos ao que São Paulo é hoje politicamente. Um Estado sem novos nomes, sem novos quadros políticos, é isso.

Seus grandes nomes estão no passado recente ou foram prematuramente desgastados. Ulisses, Covas e Montoro mortos. Quem são seus herdeiros? Alckmin? Um sobrevivente da tragédia fernandina-serrista que o PSDB se auto-impôs, sem dúvida. Mas ainda está para provar que é um nome nacional e não uma exótica produção da culinária paulista- o picolé de chuchu.

Para FHC e Serra basta re-escrever no passado os doloridos versos de uma belíssima canção da Alcione “você se ama, e em sua própria chama há de se consumir”.

O poderoso PMDB paulista não sobreviveu à morte de Ulisses e ao divisionismo quercista, está em re-fundação. Vamos ainda ver para onde Temer o leva, se é que leva.

Maluf é um político parabólico, teve seu ápice na derrota para Tancredo e, desde então, vem lentamente decaindo.  É, hoje, mais folclórico que outra coisa. Como ouvi outro dia de um jornalista, “o Maluf é aquele político que a gente odeia há tanto tempo que nem mais lembramos por que”.

Lula, o grande Lula. Maior que o PT, maior que si mesmo. Cumpriu seu papel na nossa história. Lula é um político picado pela mosca verde, ou seja, o veneno da política está na corrente sangüínea. Mas têm a questão da idade e da esperteza. Não me espantaria se não voltasse mais ao protagonismo político. É inteligente o suficiente para saber que ainda que mais nada faça estará junto com Getúlio e Juscelino no posto mais alto do panteão político nacional. Mas com uma história política calcada na democracia, o que Getúlio não tem, e com uma história pessoal que faz de Juscelino um homem comum. Com todo o respeito a nós, homens comuns, e a Juscelino.

Sintomaticamente sua sucessora não saiu do PT paulista.  Por quê?

Porque não havia e não há nomes paulistas para sucedê-lo. Nem para, neste momento, suceder Dilma.

Eduardo Suplicy e Erundina estarão lá, sempre presentes quando precisarmos de reserva moral.

Mercadante parece que não consegue coordenar o seu tempo pessoal com o espaço político. Marta não se recuperou ou não entendeu as lições da sua derrota para o 2º mandato na prefeitura. Cada vez mais estridente, continua uma “petista – Bourbon”, parafraseando Paul Krugman.

Genoino, João Paulo, Zé Dirceu e Palocci, justa ou injustamente, têm seus esqueletos no armário. Ora lhes atiram contra suas carreiras políticas um mensalão ou um extrato bancário vazado ou, se nada mais restar, uma lata de massa de tomate com ervilhas.

Celso Daniel e Toninho do PT não estão mais entre nós, são hoje casos ainda a serem esclarecidos.

No espectro da direita, alguém aposta um real no futuro de Kassab como um político de expressão nacional?

Do outrora poderoso e influente movimento sindical quem surgiu para a esfera política?

Vicentinho, Paulinho da Força, Luiz Marinho? Nem para governadores, em minha opinião.

Da academia, das artes, da imprensa ou da dita sociedade organizada, ONG´s e que tais, sairá alguém?

Nas ruas, das praças vemos alguém?

Ainda existe aqui em São Paulo algo que podemos denominar de movimento popular, ou tomamo-nos todos burgueses conservadores e reacionários prisioneiros de nossos automóveis, fretados, condomínios e shopping centers?

Ainda somos, os paulistas, seres políticos reais ou digladiadores radicalizados da internet?

Enfim, parece que vivemos o fim de mais uma etapa. O eixo de gravidade da política parece que se desloca, ainda que lentamente, para fora de São Paulo.

A política paulista é neste momento, pelo menos, no meu entender, um pássaro na muda.

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