Eta vida besta, Serjão

Hoje, completo 60 anos. Uma idade repleta de simbolismo na nossa sociedade. Passo a fazer parte do que deram de chamar de 3ª idade – um outro nome para velho. Alguns até abusam do eufemismo chamando de “melhor idade” – sei. Tomam-nos por ingênuos.

Parece que, por aqui, vai haver alguma comemoração. Minha esposa alugou uma piscina de bolinhas e um escorregador. Não, não estou senil a ponto de usá-los. São para minha neta. Ela e minha nora chagaram há pouco de Belo Horizonte. Meus filhos não virão. Compromissos profissionais e outros compromissos. São adultos – compromisso é coisa de adulto. Eu sei.

Outros parentes e contraparentes – sou do tempo em que ainda existiam contraparentes – tampouco virão. Estão longe. Duas décadas perdidas na economia deste país nos afastaram e nos espalharam por este Brasil. Quando a coisa melhorou um pouco, já estávamos distantes. Agora, piorou de novo. Não vai ser fácil nos reencontrarmos. Trinta anos atrás, estávamos todos juntos em São Paulo – zona sul. Tenho um “Z” e um “S” tatuados no meu coração.

Amigos. Poucos estarão por aqui. Primeiro, porque sempre foram poucos e bons. Depois, os mesmos tais compromissos e distância para uns enquanto outros simplesmente estão mortos.

Festejarei os que estiverem comigo e os que um dia já estiveram também.

Como cheguei até aqui?

Não aprendi a jogar bola, não aprendi a tocar guitarra, não aprendia fazer versos.

Não desenvolvi câncer no pulmão, nem nenhuma doença profissional; mas poderia ter desenvolvido – não aconteceu. Acabei um tanto surdo.

Não morri quando o carro escapou na lama da enchente ou nas vezes em que saiu fora da estrada. Desviei a tempo de alguns caminhões que vieram no sentido contrário, mas não exatamente na mão correta. Nessas vezes, estava sóbrio. Nem sempre foi assim… muitas vezes não foi assim. Hoje, bebo água … não muito gelada, porque pode fazer mal à garganta que é frágil e muito usada.

Tenho uma arritmia cardíaca revertida em uma passagem didática pela UTI. Tenho uma hérnia de hiato e outras de disco – entre outras coisinhas mais. Frutos e preço das coisas que, pela vida, me deram prazer. Parte dos amigos que não estarão comigo hoje também pagaram tais preços, mas os deles foram maiores. Dei sorte.

Sou de uma geração que morre cedo. Expliquei isso ao funcionário que cuidava da minha aposentadoria. Não o comovi.

Meus heróis não morreram de overdose. Mas estão mortos. Muhammad Ali – que eu conheci Cassius Clay – Bruce Lee e Che Guevara. Representavam sonhos.

“Que culpa tenho eu, se meu sangue é vermelho e meu coração bate do lado esquerdo do peito”.

“You may say that I’m a dreamer, but I’m not the only one” – John Lennon.

Sim, eu sou de uma geração que sonhou. E sonhos não envelhecem. Eu sei. Mas sonhadores morrem.

Sou de uma geração que morre cedo. Cazuza e Renato Russo. Lady Di e Whitney Houston. Prince e Michel Jackson – e até Osama Ben Laden. Todos da minha geração, uns poucos anos mais novos, ou poucos anos mais velhos.

Sou de uma geração que não deixará heróis.

Fui menino nos anos sessenta e adolescente nos setenta. A juventude nos anos oitenta. Isso faz diferença. Meus amigos – velhos reacionários a quem eu amo – parecem ter esquecido. E esses moços, pobres moços, “jovens conservadores” que encontro por aí, talvez jamais saberão que um jovem conservador é um desperdício … um desperdício de tesão.

Ah, se soubessem o que eu sei. O tempo passa rápido e nos reserva “uma barriga burguesa, atrás de uma mesa, chorando de saudade”.

Pelo menos até aos sessenta.

E então, aos sessenta já me permito dizer a eles: construam o mundo como puderem. Deixo a vocês essa merda que está aí. Não recebi coisa melhor. Se precisarem de alguma coisa em que eu ainda possa ajudar, estou ali… é só chamar.

Devaneios à beira do portão, ou como diria Drummond: eta vida besta, meu Deus.

4 comentários

  1. Eta Serjão…
    Passou um filme na minha cabeça ao ler os seus sessenta anos.
    Posso me considerar uma pessoa de sorte, por ter tido a oportunidade de compartilhar por alguns anos, do seu profissionalismo e também amizade.
    Depois pude compartilhar com o profissionalismo e amizade da sua tão amada esposa.
    Desejo que os seus sessenta e todos os outros “enta”, sejam mágicos.
    Que Deus te conserve sempre assim.
    Um forte e carinhoso abraço,

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