Bolsonaro – o novo Maluf

As pesquisas sobre a queda na aprovação do governo necessitam ser lidas com cuidado. Não há razão para acreditar em bolsonarismo arrependido, como nunca houve malufista arrependido.

Bolsonaro caiu – Bolsonaro não caiu

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Em 25 de abril de 2019 o jornal Valor Econômico trazia a seguinte manchete: “Aprovação a Bolsonaro se estabiliza”. Referia-se a pesquisa de abril de 2019 do IBOPE sobre aprovação do governo. Bolsonaro estava completando os primeiros 100 dias de governo – data icônica – e parecia ser uma boa notícia.

Na verdade, tratava-se de uma manchete carregada de “wishful thinking” – sem dúvida, o correto seria dizer: “aprovação de Bolsonaro para de cair”. De março a abril, Bolsonaro pode até ter mantido um índice de 35% de ótimo e bom, mas após uma queda de 14 pontos percentuais, se considerada a pesquisa de janeiro de 2019 – quando Bolsonaro apresentava uma aprovação de 49%.

Alguns dias depois, uma reportagem do Estadão mostrava que a aprovação de Bolsonaro caía de modo contínuo, desde a sua eleição, em qualquer segmento que se analisasse.

Nada há, no entanto, de contraditório em nenhuma das duas reportagens.

Se considerarmos como base a pesquisa Datafolha de intenção de votos da véspera do 1º turno das eleições presidenciais – de 5 outubro de 2018, quando Bolsonaro tinha então 35% de intenções de voto, veremos que houve uma “onda Bolsonaro” continuada que, partindo desse patamar, o elegeu com algo próximo de 50% dos votos totais (55% dos votos válidos) no 2º turno – em 28 de outubro de 2019.

Esse era o patamar com que Bolsonaro assumiu em janeiro de 2019 – 49% de índice ótimo e bom. A partir do início efetivo de seu governo, essa onda refluiu. Por várias razões – trata-se efetivamente de um governo de malucos… e de espertos. Mas Bolsonaro tem hoje o mesmo índice de aprovação que tinha antes do 1º turno das eleições – 35%.

Em outras palavras, desde o 1º turno das eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro ganhou e perdeu 14% pontos percentuais de aprovação. Mas manteve seu patamar de aprovação pré-eleições.

Bolsonarismo arrependido?

É esse movimento de fluxo e refluxo que dá a falsa impressão de que há um “bolsonarismo arrependido”. Não há. Há uma massa de eleitores que foram na “onda Bolsonaro” e hoje a deixaram. Estão arrependidos?

Provavelmente decepcionados seja a melhor expressão. Passaram a considerar Bolsonaro como “mais um político como os outros”. Mas não significa que estão na oposição a Bolsonaro. Estão outra vez à espera do “novo”. Campo de caça para Moro e Huck. Isso sem Lula; com Lula não tem para ninguém.

Quanto aos bolsonaristas, continuam com Bolsonaro. Para se entender como esse bolsonarismo se formou ao longo da campanha de 2018, recomendo o texto Bolsonaro – o herdeiro de todos nós.

O número mágico

Vamos agora tomar esse número mágico – 35% de aprovação, em abril de 2019 e 35% de intenção de votos, em outubro de 2018. Há dados bastante interessantes. Desde então:

Bolsonaro perdeu mais aprovação entre os homens que entre as mulheres. Mas manteve a maioria de homens no seu eleitorado.

Bolsonaro ganhou eleitores no nível de estudo fundamental e perdeu no nível superior.

Bolsonaro ganhou apoio nas cidades pequenas e perdeu apoio nas cidades grandes.

Bolsonaro ganhou apoio nas faixas mais baixas de renda e perdeu nas faixas mais altas.

E, no entanto, ainda são os homens com ensino superior e renda acima de 5 salários mínimos quem puxa o índice de Bolsonaro acima dos 35%.

Contraditório? Mais uma vez não.

Talvez uma explicação seja que, diferente do que prevê o jornal Valor Econômico, Bolsonaro ainda não caiu tudo o que pode cair – entre mulheres e eleitores com ensino fundamental e de baixa renda – até que finalmente se estabilize.

Basta ver, outra vez, o gráfico do Valor Econômico. Por ele, nota-se que, embora o índice de aprovação (ótimo e bom) tenha aparentemente se estabilizado, o índice de regular está em queda e o índice de ruim e péssimo está em ascensão.

Bolsonaro e o brasileiro medíocre

Será necessário acompanhar as próximas pesquisas. É altamente incomum uma polarização entre ótimo e péssimo sem uma faixa significativa de regular entre eles. O que significa que Bolsonaro pode realmente se estabilizar, ainda que um pouco mais abaixo do que hoje, ou vir a cair mais, mas lentamente.

Cair até quanto? Bolsonaro tem piso e esse piso é algo em torno de 20% do eleitorado. Basta ver qual era o índice de Bolsonaro, quando Lula ainda era um candidato possível. Isso o torna um candidato muito resistente – o que, a menos que ocorra um terremoto, o coloca sempre como um nome viável à sua própria reeleição em 2022.

Aqui também, nenhuma novidade. Bolsonaro passou a ocupar o posto que Maluf já ocupou nos corações e mentes dos brasileiros – Bolsonaro e o brasileiro medíocre.

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