O Congresso YouTube

O modelo político brasileiro possui uma jabuticaba. O presidente recém-eleito toma posse em janeiro, mas o Congresso renovado nas eleições só assume em fevereiro. Um mês de intervalo para conjecturas.

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A legislatura que finda é o “Congresso Eduardo Cunha”. Responsável pelo Golpe de 2016. O baixo clero corrupto e fisiológico. Ainda que, paradoxalmente, de seus quadros tenha saído o atual presidente da República com uma campanha vitoriosa contra a corrupção… do PT.

E essa é outra das fragilidades do governo Bolsonaro – o espantalho petista serviu até aqui – chega-se mesmo, até na imprensa, a esquecer-se de que o governo que está sucedido é do PMDB. E assim, está lá o PT como a razão de todas as nossas mazelas, desde 1500. Mas, quanto mais o tempo passe, menos esse espantalho assustará e mais os “tempos felizes do passado” voltarão à mente do eleitor.

Quanto ao Congresso entrante, está profundamente alterado. A grande bancada o PMDB foi reduzida à metade, nomes poderosos e escolados da lide foram mandados para casa. Há uma enorme dispersão de deputados por partido político. Os nanicos cresceram em bancada, mas continuam nanicos em estrutura, o partido do presidente, inclusive.

O que tende a fortalecer as bancadas temáticas – a BBB – boi, bíblia e bala – a mais notória. Mas não apenas ela. Essas bancadas não defendem governo, negociam apoio em troca de atendimento dos seus interesses específicos. E interesses que podem cobrar do presidente recursos que Guedes não poderá dar. Com essa turma, talvez Sergio Moro ajude.

Mas há uma outra turminha da pesada.

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Turma que forma um exótico componente da Legislatura eleita em 2018 e que podemos chamar de Congresso YouTube. O grupo de deputados eleitos a partir de seus canais no YouTube. Todos vociferando contra as esquerdas, contra o comunismo e por aí vai.

É o MBL e sua fábrica de fake news. É jornalista desempregada. É ator pornô decadente, inclusive no que interessa a um ator pornô. É um membro da “família real brasileira” – um ocioso régio tecendo loas à meritocracia. Existe até um deputado eleito que mora nos EEUU – fez campanha de lá e foi eleito aqui. Ou seja, toda uma fauna social que, no YouTube, fez do antipetismo um produto com o qual ganhou dinheiro e notoriedade nos últimos quatro anos e que, agora no Congresso, pretende ganhar mais algum dinheiro nos próximos quatro.

Quando do seu apoio ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, tais youtubers pregavam o apartidarismo e a “nova política”.  Estão todos eleitos pelo mesmo sistema político que renegavam. Não é daí que virá a renovação. São eleitores e crias de Bolsonaro. Mas que Bolsonaro não espere apoio incondicional deles. Não dividirão com ele um eventual fracasso do seu governo. São antes de mais nada sobreviventes. E oportunistas. Têm retórica, mas apesar dessa retórica, não têm realmente uma ideologia para viver. A que estiver pagando é boa.

Mas são também uma incógnita. Uma coisa é a neopolítica das redes sociais que permite ser eleito, outra coisa é o dia-a-dia do Congresso onde projetos não são aprovados pelo número de “curtidas”. E onde não há “tretas”, mas há muita facada nas costas e puxadas de tapete com um sorriso nos lábios e pronomes de tratamento – “vossa excelência”.

Não sei se a revolução será televisionada. Não creio que alguém assista à TV Câmara ou à TV Senado. Mas vai ser muito interessante acompanhar o Congresso YouTube. Porque é com ele que Bolsonaro irá negociar.

E Bolsonaro, com um mês à frente, já deveria ter aprendido que se pode fazer muito barulho, mas não se governa pelas redes sociais.

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