O mal-estar do Brasil descente

Nosso estrato social mais poderoso econômica e politicamente está frustrado com o país e, sem saber que direção seguir, caminha para as fronteiras. Mas antes chegará às urnas.

Itaú 2014

Existe um mal-estar instalado no país.

“Sente-se onde haja gente, logo você vai notar. Mesmo e até principalmente
onde menos queixas há. Sente-se a moçada descontente onde quer que se vá. Sente-se que a coisa já não pode ficar como está”.
O Eterno Deus Mu Dança – Gilberto Gil – 1989.

A data desses versos não poderia ser mais significativa. Há 30 anos estava presente o mesmo sentimento de mal-estar. Não havia mais uma ditadura, mas nada parecia haver melhorado. Talvez ao contrário. O Brasil não dera certo.

O mesmo sentimento está de volta. Não há mais corrupção, o “chefe da quadrilha” está na cadeia. Era só derrubar Dilma e tudo se resolveria. Pois bem, o PT não está mais no poder, mas nada parece ter melhorado. O Brasil não deu certo.

Desencanto. Esse é o sentimento. Algumas pesquisas têm dado números a esse sentimento de desencanto.

E embora esse sentimento seja geral, trataremos aqui de um segmento específico do nosso quando socioeconômico – o jovem adulto de até 34 anos, com instrução superior e renda familiar de classe-média acima de 10 SM – salários mínimos. Quem conhece minimamente o recorte socioeconômico deste país sabe – trata-se dos brancos. Pelo menos majoritariamente.

Da Folha de São Paulo, uma pesquisa muito significativa.

A maioria dos jovens brasileiros – 62% dos brasileiros jovens entre 16 e 24 anos e metade dos jovens adultos entre 25 e 34 anos – deixaria o país se pudesse.

Mas quem são eles?

56% dos que têm curso superior e 51% dos que pertencem às classes A e B.

Ainda que minoritários, há números significativos também entre os jovens de nível médio de instrução – 48% e que pertencem à classe C – 44%.

Números de maio de 2018.

Aliás, o sumiço das indefectíveis camisas amarelas, em plena copa do mundo, é representativo desse estado de espírito.

Há ainda outros dados a serem considerados.

Ainda segundo o Datafolha.

Nesse segmento: jovens até 34 anos, com curso superior e renda familiar acima de 10 SM, o Poder Judiciário tem o seu menor grau de confiança. E esse grau de confiança caiu espantosamente de 2017 para 2018.

Hoje, não confiam no Poder Judiciário 32% das pessoas até 34 anos– eram 25% em 2017. Com nível superior de instrução, 30% não confiam no Poder Judiciário – eram 21% em 2017. E com renda familiar acima de 10 SM, 34% não confiam no Poder Judiciário – eram 28% em 2017.

Confiança Poder Judicário

Em 2018, confiam muito no Poder Judiciário 17% das pessoas até 34 anos e com curso superior e 13% dos que têm renda familiar acima de 10 salários mínimos.

Os índices referentes especificamente ao STF – Supremo Tribunal Federal são ainda piores. Mas isso pode ser explicado como uma consequência da atuação “garantista” de alguns ministros, notadamente o ministro Gilmar Mendes.

Mas em relação ao Judiciário – ponta de lança do combate ao PT, em particular, e às esquerdas, em geral – só um desencanto ainda não explicitado explicaria. Ocorre que os números estão aí e o desencanto também.

E agora a Pesquisa Ipsos-Estadão publicada em 23 de junho de 2018 vem confirmar essa percepção.

Por ela, o índice de aprovação de um ícone do antipetismo – Sergio Moro – despenca. Seu grau de aprovação é de 37% – era de 55% em agosto de 2017. E sua desaprovação atualmente é de 55% – era coincidentemente de 37% em agosto de 2017. Uma completa inversão em apenas um ano.

moro ipsos

O jovem adulto brasileiro, branco, com instrução superior e de classe-média está decepcionado com o país. Quer ir embora. Não se sente motivado a lutar pela melhoria do país que é seu.

Frustrou-se, mas, na verdade, não sairá do país. Ficará por aqui. Quem tinha como ir já foi.

Econômica e politicamente esse é o segmento mais poderoso de qualquer país. Eleitoralmente, no Brasil, perde para os pobres. Mas basta ver 30 minutos de televisão, ou abrir qualquer revista, para saber que é a ele que se dirigem as propagandas.

E esse estrato da nossa sociedade está frustrado.

Há uma eleição logo à frente, nela desaguará toda essa frustração.

Mas hoje, diferente de 30 anos atrás, não há um Collor de Mello, não há um FHC – rostos em que se espelhou. E lhe é negado um Lula – a quem recorreu quando sua frustração venceu o seu medo.

Quem será, desta vez, esse estuário? Como será a partir de 2019, caso as eleições de 2018 o frustrem também?

Mais algumas incógnitas a serem consideradas pelo grupo que hoje decide os destinos do país.

 

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