Caminhoneiros – o papel e os interesses de cada um

A paralisação dos caminhoneiros, acontecida ao logo das últimas duas semanas, tem mais personagens do que os próprios caminhoneiros. E muito mais interesses além o preço do diesel.

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Caminhoneiros autônomos, empresas de transporte e ruralistas – aos poucos, vai se notando, pelo menos, três personagens nessa paralisação. Prefiro usar o termo paralisação do que greve. Estão os três entrelaçados nos acontecimentos, mas seus interesses são distintos.

Os caminhoneiros

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Quando o movimento paredista veio a público, foram rostos de homens simples e sofridos que apareciam nas telas e fotos de jornais. Homens submetidos a jornadas longas e condições duras de trabalho. Expostos a riscos de acidentes ou assaltos nas estradas.

Chamava atenção, no entanto, o fato de que suas reivindicações não eram trabalhistas. Não reivindicavam melhoria nessas condições de trabalho ou aumento salariais. Estavam preocupados com o preço do diesel e com os custos das viagens. Eram trabalhadores sofridos, mas não eram empregados.

Caminhoneiros autônomos. Proprietários de seus caminhões, com financiamentos para pagar, disputando fretes e submetidos a lógica neoliberal do homem mais poderoso deste governo – o presidente da Petrobras – que os fazia pagar no valor do dólar do dia o seu principal insumo – o combustível. Essa insana política de preços, fazia com que não soubessem, ao aceitar um frete, quanto restaria ao final da entrega da mercadoria contratada. Mas sabiam que seria cada vez menos.

Havia ainda outras questões. Entre elas, pagar às concessionárias das rodovias pedágio pelo total de eixos do caminhão e não pelo número real de eixos utilizados.

Premidos por tais formas de exploração que simplesmente tomavam o que conseguiam ganhar, esses trabalhadores, normalmente solitários, encontraram, de repente, um sentimento de grupo através de aplicativos de mensagens e resolveram parar. E assim se deu, todos ao mesmo tempo. Coesos no seu sentimento de indignação e revolta.

Uma leitura épica dos acontecimentos. E, por certo, não muito distante da realidade de boa parte dos que estavam com os seus caminhões parados nos acostamentos das estradas.

Receberam a justa e devida solidariedade da população.

Mas talvez os caminhoneiros fossem os peões e seus cavalinhos nesse xadrez.

As transportadoras

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Empresas de transporte de cargas e logística. Proprietárias cada uma de centenas de caminhões. São os patrões. Não disputam frete – quando não o agenciam – tem contratos de transporte com grandes empresas.

Também eram prejudicadas pelos efeitos perversos da política de preços da Petrobras. Mas empresas não fazem greve. Renegociam contratos.

A luta dos caminhoneiros autônomos, no entanto, as beneficiava em muito. Mas apoiar o movimento tinha um nome: locaute. Grosso modo, algo como os patrões ordenarem a seus empregados que não trabalhem – simulando uma greve para pressionar revisão de preços.

Possíveis caso de locaute ainda estão em investigação, mas há poucas dúvidas sobre eles.

A justeza do movimento dos caminhoneiros autônomos em nada é diminuída por uma possível ação ilegal das transportadoras. Mas demonstra que o poder de “parar o Brasil” não estava apenas nas mãos dos “heróis do volante”. E é mesmo difícil de avaliar o quanto desse poder realmente estava.

Interessante notar que as transportadoras foram as primeiras a serem atendidas nas negociações do governo com entidades de classe que diziam representar os caminhoneiros anunciadas no dia 25 de maio como uma trégua de 15 dias.

Estavam garantidos desconto no preço do diesel e a redução dos impostos que insidiam sobre o combustível. Estranhava, porém, uma cláusula do acordo – a não reoneração da folha de pagamento setor de transporte. Em que isso poderia interessar a um autônomo?

E o que se viu foi que os caminhoneiros autônomos se retiraram das negociações ofendidos – sem sentirem-se representados pelas entidades que assinaram o acordo – e mantiveram a paralisação até que suas verdadeiras reivindicações fossem atendidas. Além da redução do preço dos combustíveis e a previsibilidade dos aumentos, uma política de frete, o Não pagamento por eixo suspensos em todas as rodovias e uma cota de participação nos transportes da CONAB – Companhia Brasileira de Abastecimento.

Coerente. Foram atendidos.

Ainda assim os bloqueios nas estradas continuaram. E uma declaração do presidente da Abcam – Associação Brasileira dos Caminhoneiros – que negociou o segundo acordo em nome dos autônomos, deixou claro que o movimento tinha um terceiro, poderoso e oculto participante:

“Não é o caminhoneiro mais que está fazendo greve. Tem um grupo muito forte de intervencionistas aí e eu vi isso aqui em Brasília, e eles estão prendendo caminhão em tudo que é lugar”, declarou. “São pessoas que querem derrubar o governo. Não tenho nada a ver com essas pessoas nem os nossos caminhoneiros autônomos têm. Mas estão sendo usados para isso”.

Os ruralistas

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Ruralista é o nome ao que se dá aos poderosos proprietários rurais – notadamente os produtores de grãos – soja e milho, principalmente – que enriqueceram nos anos Lula com o boom das exportações de commodities.

Politicamente se posicionam com a extrema-direita. E, apesar de terem sido beneficiados nos governos do PT, abominam o partido pelo apoio que esse dá as causas dos Sem Terra e a demarcação e rediscussão das fronteiras das terras indígenas. Isso para não falar do patrocínio dado pelo governo Dilma ao novo Código Florestal.

São conhecidos apoiadores da ideia da chamada “intervenção militar”. Quanto a essa, devem estar frustrados. No auge da crise, as forças Armadas deixaram claro – através de seus comandantes na ativa – que não embarcariam em uma aventura golpista. Aliás, ao contrário. O movimento passou a ser – se não reprimido – desautorizado pelo Exército que colocou as tropas nas ruas para escoltar comboios e para pôr fim aos bloqueios nas estradas.

Que os ruralistas usam da violência como forma de ação política a passagem de Lula pela Região Sul do Brasil é o suficiente para não deixar dúvidas.

passo fundo

Pois bem, mas o que teriam os ruralistas a ver com o movimento dos caminhoneiros?

Uma perturbadora reportagem da Folha de São Paulo de 30 de maio de 2018 aponta para seus interesses.

Porém, antes, uma cena de poucos dias atrás chamou atenção: no dia 28 de maio de 2018 – o mesmo dia em que o presidente da Abcam dizia que as negociações satisfaziam os interesses dos caminhoneiros autônomos, mas um grupo de “intervencionistas” impedia a volta ao trabalho, em Araucária -PR, um posto de gasolina teve o acesso ao público bloqueado por tratores. Teoricamente em “solidariedade” aos caminhoneiros – veja o vídeo.

Não foi, porém, o único ato de força que um suposto apoio ao movimento dos caminhoneiros teria ensejado. Nem de longe o mais violento. A reportagem da Folha deixa isso claro: “em Chapadão do Sul (MS) e em Bauru (SP), manifestantes cortaram os trilhos e retiraram parafusos das ferrovias, para evitar que produtos fossem escoados por trem. Já em Holambra (SP), motoristas foram ameaçados com armas de fogo para que não seguissem viagem”.

trem

A bem da verdade, descarrilaram um trem que transportava combustível vindo da Replan – Refinaria de Paulínia – SP.

Chamar de manifestante a quem descarrila trens é um eufemismo indevido. O nome disso é ação terrorista. E coação é crime previsto no Código Penal.

Pois bem. E os ruralistas?

Vejamos a reportagem.

“Nas regiões de maior produção agrícola, a greve vinha tendo apoio expressivo do setor rural… Os produtores de grãos… respondiam que os manifestantes tinham razão de reclamar da escalada do preço do óleo diesel”.

O interesse dos produtores de grãos é claro e, em princípio, seu apoio ao movimento dos caminhoneiros é legítimo. A comercialização das safras de soja e milho é intensiva no uso de transporte rodoviário. Quanto menor o custo do transporte, menor o custo do produtor. Tanto que não gostaram em nada dos caminhoneiros terem conseguido do governo uma tabela de frete mínimo.

A reportagem mostra, no entanto, que há ainda outros interesses dos ruralistas.

“… muitos produtores aproveitaram os juros baratos do Finame/BNDES durante o governo Dilma Rousseff para comprar caminhões e abrir pequenas transportadoras. Em razão disso, o aumento do preço do diesel passou a impactá-los não só dentro da propriedade, mas também no novo negócio. Muitos nem acabaram de pagar o financiamento dos veículos”.

Em outras palavras, os ruralistas não apenas apoiavam o movimento dos caminhoneiros, participavam diretamente dele. Mas, se a proposta do governo os contemplava, porque, então, o movimento entrou em um momento de reivindicar a derrubada do governo, ao mesmo tempo em que caminhoneiros eram coagidos a manterem-se parados?

Talvez uma resposta: “os produtores vinham apoiando os caminhoneiros por causa do aumento do diesel e da insatisfação com o governo Michel Temer. Os agricultores estão especialmente insatisfeitos com o embate sobre o Funrural. O imposto havia sido declarado inconstitucional pela Justiça, mas a União recorreu e venceu, deixando uma pesada dívida para o setor”.

Os ruralistas divididos

A decisão pelo fim da participação desse grupo na paralisação dos caminhoneiros teria se dado, segundo a reportagem, em uma tensa reunião em Brasília, em 29 de maio de 2018, entre representantes dos produtores de grãos e representantes dos produtores de proteína animal – notadamente frangos e porcos que estavam na eminência da perda de seus rebanhos por falta de ração. Os ruralistas corriam o risco de rachar com a continuação do movimento.

Sintomaticamente, no dia seguinte, os bloqueios foram levantados e os caminhoneiros voltaram as estradas.

Não é só pelos 20 centavos

Já vimos esse filme, em 2013. Com os caminhoneiros – os “guerreiros do povo”, repete-se o que que ocorreu com o MPL – Movimento Passe Livre. Quando jovens estudantes universitários de esquerda se viram saudados como os “guerreiros do novo” para terem, logo em seguida, seu movimento capturado pelos interesses da extrema-direita.

Urbana ou rural – a extrema-direita se especializou em instrumentalizar justos movimentos populares em favor dos seus interesses.

Logo, é de espantar, portanto, que grupos de esquerda escolados entrem nessa do “Fora Temer” dos ruralistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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