Com as mãos sujas de silêncio

Do uso de eufemismos com relação às agressões à condenação das vítimas – a ombudsman da Folha não destoa do seu jornal. Quem sai aos seus não degenera.

ovos e pedras

 “De quem são as mãos que atacaram a caravana de Lula? ”.

Essa é a pergunta da ombudsman da Folha.

Mas não se espere que seja preâmbulo de uma condenação à barbárie a que foi submetida a caravana de Lula na Região Sul do Brasil. Condenação que o jornal a qual a ombudsman pertence deixou de fazer.

E não que a ombudsman não esteja ciente o ocorrido. Ela está:

 “Carros e ônibus integrantes da comitiva foram repetidas vezes atacados por ovos, pedras e objetos diversos. Latarias foram amassadas; vidros, quebrados. Tratores bloquearam o acesso a cidades, pregos foram jogados ao chão para furar pneus. Um estudante apanhou de chicote em Bagé. No final, os tiros”.

Fantástica essa construção narrativa que se tornou regra na Folha para descrever as agressões à Lula: “ovos e pedras, ao final, tiros”. Passa uma noção de desimportância que beira a descrição de uma discussão de colegiais na porta da escola.

O nome disso é intimidação, agressão e no, caso dos tiros, crime. Tentativa de assassinato, como classificou o delegado que inicialmente investigaria o atentado – até ser substituído pelo governador do Paraná. Adversário político de Lula.

Mas qual é o termo que a ombudsman usa para descrever tal situação de coisas? Atribulação.

Atribulação é extravio de bagagem.

Tentativa de homicídio torna-se “protestos acima do limite do aceitável”.

Protesto acima do aceitável é ofender a mãe do adversário.

E quando pretende criticar a cobertura feita por seu jornal – ou nas palavras da própria ombudsman: ater-se ao papel do jornalismo em momentos como estes – a ombudsman é só elogios:

“O leitor da Folha teve relato desses fatos e a cobertura foi rica em imagens (algumas delas em movimento por meio de vídeos). Seus gritos de “Lula ladrão, seu lugar é na prisão” e “Viva Sergio Moro” foram registrados”.

Mas, se a Folha já havia dado destaque ao “Lula ladrão” e ao “Viva Sergio Moro”, então, o que mais cobra a ombudsman?

“Faltou entender as manifestações e organizações – não foram registrados seus nomes, pensamentos, motivações e articulações”.

bombacha

Claro. O que tinham a dizer os que atiravam pedras? Faltou ouvi-los.

As pedras já não bastam por si próprias?

Já bem mais crítica é a ombudsman em relação ao pessoal que compunha a caravana petista:

“o leitor foi informado de que integrantes do Partido dos Trabalhadores e de movimentos de esquerda, entre os quais o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), davam apoio e faziam a segurança de Lula em sua jornada. Quem eram? Como agiam? Quem pagava? ”.

Sem dúvida: quem eram? Como agiam? Quem pagava? – as vítimas.

cabeças

Fundamental. O preço de liberdade é a eterna vigilância.

Depois disso, é difícil acreditar que a ombudsman esteja realmente interessada em defender que “é preciso encontrar e punir quem matou Marielle, quem ameaçou Fachin e quem atirou na caravana de Lula”.

Parece mesmo é que está interessada em saber quem pagou o MST.

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