Doe a “farinata” do seu cachorro para uma criança pobre

Você daria ao seu animal de estimação a “farinata” do João Doria?

farinata

Compraria no supermercado para você mesmo consumir, se ela fosse colocada à venda? Duas perguntas a responder antes de tomar partido sobre o uso da farinha na alimentação dos alunos da rede municipal de ensino de São Paulo.

O próprio uso do termo italiano “farinata”, que em português significa algo como mingau, demostra a intenção dos que pretendem introduzir tal alimento reprocessado para consumo humano. Significa que não querem chamá-lo pelo seu nome: farinha, farelo ou, como tornou-se popular, ração.

Além de que “farinata”, sem dúvida, tem aquele toque gourmet tão caro ao prefeito de São Paulo. Coisa de quem tem renda suficiente para ter hábitos alimentares.

A “inventora” da tal “farinata”, em um entrevista para a Folha de São Paulo, queixou-se da incompreensão por parte da população em relação à sua boa intenção: “não é razoável ter tanta produção para ir para o lixo”.

Ora, ninguém, está impedindo a empresa de processar o produto, embalá-lo e o vender em supermercados. Compra-o quem achar interessante. Por que não o faz?

O que não está correto é tentar um acordo pouco transparente com a prefeitura no qual empresas alimentícias empurrariam seus rejeitos e ainda obteriam benefícios fiscais – ganhariam duas vezes: reduzindo os custos de descarte de alimentos próximos ao seu vencimento e ainda teriam abatimento de impostos devido à “doação” de tal produto.

Porém, cabe aqui ainda uma pergunta básica: por que a “farinata”não é comercializada como ração animal? Ninguém criaria caso com isso.

Creio que donos de animais de estimação – os tais pets – gostariam de alimenta-los com complemento tão nutritivo. Produtores de porcos, galinhas ou gado leiteiro também poderiam se beneficiar desse produto.

Por que não o fazem, não sei. Devem ter razões para isso.

Realmente não faz sentido descartar alimentos. Mas antes deveria-se perguntar por que não foram adquiridos nos pontos em que foram colocados a venda e agora precisam ser descartados. Vencidos, descarta-los sem os devidos cuidados transforma-os em resíduos tóxicos ao meio ambiente.

Teria parecido sensato ao prefeito transformar os alunos da rede municipal de ensino de São Paulo em biodigestores dos resíduos das empresas alimentícia?

A menos que a prefeitura de São Paulo tenha tomado como séria a ironia de Jonathan Manual de churrascoSwift – clérigo e escritor irônico da Irlanda do século XVIII – e seu manual para fazer churrasco com crianças pobres. Poderiam, antes do abate, ser engordadas com a tal ração a baixo custo. Com certeza, o próprio Swift incluiria essa passagem no seu livro, se tivesse vivido para tanto.

O manual para fazer churrasco com crianças pobres realmente existe – recomendo a leitura – usa da ironia para fazer a denúncia das condições de vida dos pobres na Irlanda de então.

Que ninguém, no entanto, dê ideias ao prefeito.

PS: causou-me sincera emoção ler a entrevista da folha de 24 de outubro de 2017 com a “inventora” da ração para criança pobre. Tal qual Lula, uma grade história de superação e incompreensão.

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