Não nasci para poeta

Lygia Pape

Escrevo a poesia que nasce dos escombros.

Escrevo a poesia que nasce do assombro.

Escrevo a poesia do que resta da palavra

Que escapa pela fresta. Que mina da lavra.

Palavra que não termina a labuta, nem a ideia.

Que não me escuta a súplica ou grito do suplício.

Hospício, auspício, astuta, ausculto a palavra

Que não escorre, que não escoa, que não ecoa.

Que Voa. Que Foge.

Escrevo a poesia feita da palavra que me guia,

Que me acorre, me ocorre, que me socorre.

Que corre nua, crua. Palavra que encrua.

Palavra que se revela, vela por mim, veleja.

Palavra que finge, que vai, que volta, que volteja.

Que me deseja. Que se despe. Que se despeja.

Palavra que não escolho, que me escolhe.

Que me acolhe.

Escrevo a poesia que me é incerta,

Que me é inserta. Que me desperta.

Que me acorda, que me acode, que me sacode.

Que me balança e que me lança. Que me alcança.

Palavra que não me basta,

Que me devassa, que me devasta.

Que me lasca.

Escrevo a poesia que me parte, que me reparte.

Que me guarda, que me resguarda.

A palavra que me aguarda. Que me atormenta,

Que me unguenta, que me agua, que me acua.

Que me acalenta. Que me arrebenta.

Benta palavra.

Escrevo a poesia que me aguenta.

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