Fim de ciclo III – aprendendo com Maiakovski

Viveremos mais uma vez uma fase típica da “saída da Família Real” – algo que se precipita e que precipita ações drásticas e desesperadas. Fim de ciclo I e Fim de ciclo II. Tempos de incertezas que serão resolvidas pelos acontecimentos na forma em que estes forem acontecendo.

País do futuro

Uma única certeza: o golpe fracassou. E fracassou porque ninguém ganhou com ele. Muitos, em silêncio, devem estar se perguntando se não era melhor ter deixado Dilma chegar até o fim do seu mandato com todo o desgaste que isso lhe acarretaria. É necessária agora a volta à normalidade. Porém, os comandantes do golpe não sabem o que fazer para tanto. Quando se cogita em Rodrigo Maia como solução e quando FHC propõem a renúncia de Temer e eleições gerais é possível ver o grau de dissensão nas hostes golpistas.

Uma quase certeza: as eleições de 2018 serão respeitadas e é a partir delas que se tentará reconstruir o país.

Tudo mais é incerto.

Marta Suplicy e Cristovam Buarque, alinhados antigamente com as teses da esquerda, votaram a favor da reforma trabalhista. Álvaro Dias e Fernando Collor, antigos próceres da direita, votaram contra. Realinhamentos típicos de quem está fazendo apostas. Todos serão chamados de traidores.

Não é provável a eleição de um novo “Congresso Eduardo Cunha”. Porque o modelo que levou à sua eleição está esgotado.

O STF decidiu pelo fim do financiamento empresarial de campanha. Isso sendo mantido, há um enfraquecimento da influência do poder econômico, ou pelo menos, fica muito mais arriscada a sua atuação velada.

A Lava Jato criou um paradigma anticorrupção. Não que isso por si só impedisse a corrupção dos agentes políticos pelos econômicos. As malas de dinheiro para Aécio e Temer e a forma despudorada como negociaram a propina – coisa de bandido de boca de fumo – demonstraram que a corrupção continuou forte mesmo durante a Lava Jato para aqueles que se julgavam inimputáveis por não serem petistas. Estão respondendo a processo no Supremo. Mesmo o dinheiro em espécie tornou-se muito inseguro. As possibilidades de delação tornaram a corrupção não mais uma ação entre comparsas, mas entre traidores potenciais.

O PT não está mais no poder e mesmo assim nada melhorou, ao contrário. Não há mais como reeditar o pato amarelo da FIESP. A “ameaça vermelha” perde a cada dia mais seu “efeito espantalho”. As lembranças dos bons tempos com Lula ainda nem começaram. Mas começarão.

Figuras de proa do antipetismo estão desacreditadas. E não foi pouca a sua influência nas eleições de 2014. Silas Malafaia e Feliciano tornaram-se folclóricos. Aécio é o “mineirinho”. Sobrevive graças ao “pacto de elites” com Judiciário, porém, a um custo muito alto para os seus defensores. Careca e Santo – a dupla de impolutos políticos paulistas está arranhada, depende do mesmo pacto do STF.

Na defesa desse pacto, Gilmar Mendes acabou tendo vários flancos expostos. Não poderá agir com a desenvoltura de 2014. Há uma nova xerife na cidade – Dodge é um nome que vem a calhar. Teremos de aguardar para ver o seu grau de “encantamento”. Caso seja minimamente resistente aos encantos da sereia midiática e seus prêmios igualmente midiáticos, pode contribuir muito para a normalidade democrática.

Não há hoje um novo Fernando Collor à vista. Bolsonaro ou João Doria são, qualquer um dos dois, tudo que Lula pediria ao Papai Noel.

A Lava Jato acabou. E acabou com a pecha de que não prender tucano. E acabou justamente quando e porque começava a incomodar os tucanos e seu “pacto de elites”. A condenação de Lula é uma crônica de morte anunciada, mas o fato relevante é que a Lava-Jato acabou.

É impossível impedir Lula de participar da eleições de 2018. Ainda que seja possível impedi-lo de ser candidato. A não prisão de Lula é um sinal claro que esse jogo ainda está sendo jogado e que até 2018 será decido como é mais conveniente enfrentar Lula, se como candidato ou como mártir da causa popular.

A classe média que se sentia desprestigiada por dividir com os pobres assentos em aviões e aeroportos está hoje dividindo com os pobres assentos em ônibus e rodoviárias. Quando não lugar em fila de espera do SUS. Agora deve estar ainda mais amedrontada com futuro imediato sem carteira assinada ou mesmo sem emprego e sem aposentadoria. Aqueles que acusavam Lula de jogar os pobres contra os ricos e se achavam ricos agora estão pobres. Apoiarão Lula em 2018 como fizeram em 2002?

No front externo, Trump não é Obama. Aliás, tanto em 1964 quanto em 2016 eram os Democratas que estavam no poder. Os Democratas são um perigo para a estabilidade da América Latina. Com Trump no poder, talvez se esqueçam de nós e, pela primeira vez, ocorra um golpe nos EEUU. É torcer.

Resta a mídia. Mas aqui temos uma imensa polifonia. Existe a mídia mainstream com a Globo à frente. Mas os blogues independentes sobreviveram ao governo Temer. E estão ambos, mídia mainstream e blogues independentes, ruins das pernas financeiramente. Dinheiro sobrando somente para os sites de ódio da internet.

E há, por fim, Maiakovski: “nestes últimos vinte anos, nada de novo há
no rugir das tempestades. Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado”.

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