A “ISO 9000” não é contra o trabalhador, professor

O conhecimento é neutro, virtuoso ou imoral podem ser os usos que dele se faz.

Não é ISO

No meio empresarial, é comum associar-se as “Normas ISO 9000” ao conceito de excelência. Isso é um engano motivado pela noção moral de qualidade e pelo pouco conhecimento do que vem a ser gestão da qualidade.

Há tempos venho protelando um texto sobre a qualidade como valor moral e como valor objetivo. A Norma ISO 9001 – sim, esse é o nome da “ISO 9000” – trata da qualidade como valor objetivo.

Qualidade = atender aos requisitos estabelecidos.

A melhoria contínua, preconizada pela “norma ISO 9000”, é um conceito correlato ao de excelência, mas são conceitos diferentes. A “ISO 9000” não exige o nível de excelência de nenhuma organização que a adote.

E claro, o atendimento da legislação aplicável aos produtos e serviços comercializados pela organização que adota a “ISO 9000” é sempre um requisito do cliente, ainda que o cliente sequer a conheça.

Porém, a legislação trabalhista e fiscal ou a de proteção ao meio-ambiente ou de saúde e segurança ocupacional não está incluída diretamente na norma “ISO 9000”. Há outras normas específicas e menos conhecidas que cuidam desses assuntos. Além, da fiscalização dos órgãos competentes.

Ocorre que, por não cobrir especificamente esses temas, deriva outro equívoco – a norma “ISO 9000” seria, então, uma ferramenta de opressão do trabalhador.

Nesse equívoco, incorreu o colega Fernando Horta“é surpreendente como a ideia de se ser um “trabalhador” foi desmontada nos últimos 20 anos. Os ataques começaram no final da década de 80 e início da de 90, com as tais normas ISO”.

Não sei de onde o professor tirou essa ideia, mas desconfio que de experiências não muito felizes do seu passado profissional.

Desagrada-lhe particularmente a exigência de padronização das tarefas – base de qualquer sistema de gestão da qualidade. Já ouvi essa objeção em outras críticas à Norma; suprimiria a “criatividade” do trabalhador, o automatizaria ou reduziria seu poder de decisão.

A criatividade é normalmente uma atitude valorizada, mas não se você for um engenheiro calculista, um piloto de avião, um cirurgião ou um operário que está controlando um reator químico. Nesses casos, é claramente desejável que se siga rigorosamente às normas.

A ISO 9001 é, por fim, um consenso sobre as melhores práticas a ser adotadas por uma organização para gerir a qualidade. E ela está baseada em princípios que podem ser defendidos até pelo sindicato de trabalhadores mais combativo. Entre eles, liderança e engajamento de pessoas.

As organizações e suas lideranças podem ser mais democráticas ou mais autocráticas. Porém, independente do seu estilo de governança, a norma “ISO 9000” cobra-lhes especificamente que definam e comuniquem as responsabilidades e autoridades de cada pessoa. Repare, dar autoridade ao pessoal é requisito normativo.

Mais, é necessário definir competências e prover os recursos para que essas competências sejam alcançadas. Garantir o conhecimento organizacional sempre atualizado. Gerar formas de aprendizagem com as próprias experiências e disseminá-las como conhecimento comum.

E por último, estabelecer objetivos comuns e desenvolver a conscientização da contribuição de cada um para com esses objetivos. Manter os trabalhadores comunicados dos resultados alcançados. Esses objetivos deverão sempre ter como foco o cliente. Nem a lucratividade da organização, nem a participação dos trabalhadores nos resultados financeiros da organização são considerados objetivos da qualidade.

O cumprimento do combinado como forma de alcançar a satisfação dos clientes – eu e você – sim. E tudo mais que disso derivar. Inclusive a lucratividade e a participação nos lucros.

Vários organismos governamentais adotam a ISO 9001 e esse cumprimento é cobrado deles. Não me parece uma coisa especialmente ruim para os cidadãos.

Há também requisitos para que as organizações sejam capazes de conhecer seus pontos frágeis e tenham um mecanismo de autocorreção. E claro, de melhoria contínua.

Essa é a “ISO 9000”.

Nem excelência, nem mais-valia. Não mais que uma ferramenta de gestão – conhecimento e tão somente conhecimento e sua neutralidade.

Uma ocasião, fui questionado por um líder sindical – da comissão de fábrica de uma organização que estava adotando a Norma “ISO 9000” – sobre quais ganhos a Norma traria ao trabalhador. Referia-se ele às melhorias salariais.

Fui sincero. Respondi que nenhum. Haveria por certo ganhos à organização pela redução dos custos da não-qualidade. Cabia, no entanto, aos trabalhadores buscar formas de participar desses ganhos.

A gestão pela qualidade faz com que os patrões tenham consciência da contribuição de cada um dos seus funcionários nos processos da organização, mas não os transforma em “patrões agradecidos” por essa contribuição.  A norma “ISO 9000” não tem por objetivo substituir a necessidade de os trabalhadores buscarem defender seus interesses. Tampouco vai obstaculizar a sua luta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s