O toque de silêncio das classes trabalhadoras

Este ano, o 1º de Maio foi antecipado em alguns dias, começou na última sexta-feira do mês de abril. Sexta-feira santa.

Largo da Batata

Feriado prolongado, tudo parado como se fosse uma greve geral.

Uma greve sui generis, sem piquete e sem palavras de ordem. E tudo parado, como desencantados, os trabalhadores não foram trabalhar.

Estranha paz reinando nas cidades. Ruas silenciosas como as alamedas dos cemitérios. Comércio, escolas, bancos, fábricas e repartições. Portas fechadas. Tudo parado como se fosse dia de luto. Era dia de luta, feriado nacional.

O valor dos desvalidos se percebe na ausência e não na presença ignorada. E de repente, as manchetes de jornais trouxeram novamente palavras já quase esquecidas, já quase arcaísmos. Sindicato, trabalhadores, reivindicação – greve.

Alguns jornalistas tiveram de consultar os dicionários, já não sabiam como se escreviam essas palavras. Que assento dar a elas?

Outros se encolerizaram com tal petulância: uma greve em dia de semana, em pleno dia de trabalho.

“Vagabundo, gritou o patrão. Não vês o que te dou eu?  Mentira, disse o operário. Não podes dar-me o que é meu”. Versos de um velho poema novamente declamado.

Os poderosos, como o Deus velho e os patos amarelos, estão sempre indignados.

Mas, dessa vez, não sem razão. Haviam se acostumado com os protestos de apoio, por eles mesmos convocados, sempre realizados em fins-de-semana.

Surpreenderam-se com a ausência daquele povo invisível que agora não viam em lugar algum.

Algo acontecia sem a sua permissão. E o operário disse: não.

Em uma reação compreensível, refugiaram-se, os patrões e seus acólitos, na negação: a greve não existiu, tudo não passou de um feriado prolongado. Semana entra e tudo volta ao normal.

Mas não no coração do trabalhador. Como em um cântico negro, que ninguém me diga: “vem por aqui”. Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.

Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro. O corte se deu no gesto. O gesto feito em silêncio foi o gesto possível, mas foi um gesto autônomo.

Um toque de silêncio das classes trabalhadoras. Sábio quem o ouviu.

O próximo feriado é em 15 de novembro – dia de eleições.

1º de maio

PS1: para quem ainda não percebeu a grandeza deste 28 de abril de 2017- o mais legítimo 1º de Maio em muito tempo, esta Oficina recomenda a leitura do texto publicado ano passado nesta mesma data: ”O 1º de Maio não é mais dia santo”.

PS2: as leis das quais necessitamos não são as que protejam o emprego, mas as que protejam o trabalhador. Portanto, sinto pelas palavras utilizadas no pronunciamento temerário deste 1º de Maio. Atenazadas entre mesóclises e fibras de papel higiênico. Sim, porque papel aceita qualquer coisa, inclusive merda.

PS3: os que acreditam que a terceirização trará aumento do número de empregos devem ser lembrados de que, durante o período escravagista no Brasil, por 350 anos, os escravos viveram em regime de pleno emprego desfrutando de um único direito trabalhista – o de morrer.

PS4:  não se deixe enganar, eles falam em crescimento, pedem que você aceite sacrifícios em nome desse crescimento, mas não discutem quem se apropriará das riquezas geradas, muito menos qual a parte de cada um nisso. 

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