Uma ISO 9000 para a educação

Uma norma para gestão de organizações educacionais? Lá vem aquele pessoal da qualidade bulir com os professores.

educação

A newsletter de abril da ISO – International Organization for Standardization chamou-me atenção para os trabalhos de desenvolvimento de uma nova norma de gestão.

A partir da edição das normas da série ISO 9000 para garantia da qualidade, há exatos 30 anos, tais normas tornaram-se cotidianas na gestão das organizações.

Hoje, as normas não visam mais apenas garantir, mas gerir a qualidade, a segurança no trabalho e a segurança alimentar e o meio ambiente, entre outros campos de aplicação.

E há ainda os processos de certificação para dar confiança no cumprimento de tais normas.

O que me chamou a atenção foi a área de atuação humana a que se destina essa nova norma de gestão – a educação.

“ISO 21001 – Organizações educacionais – sistema de gestão para organizações educacionais – requisitos com guia para uso”.

Sua aprovação e publicação está prevista já para o próximo ano – 2018.

Por quantos aspectos pode-se interpretar tal notícia?

Por pelo menos dois – os tais dos copos meio cheios e meios vazios.

O clássico liceu socrático dessacralizado – a educação como um produto antes de um direito.

“A ISO 21001 fornece uma ferramenta de gerenciamento comum para que organizações provedoras de produtos e serviços educacionais atendam aos requisitos e necessidades de alunos e outros clientes”.

E eu que sempre considerei a educação como uma estratégia de sobrevivência da espécie.

Sim, mas há o copo meio-cheio.

A educação para as sociedades modernas torna-se algo tão vital que uma organização mundial não-governamental representante da sociedade civil decide que sua prática merece ser estudada para se estabelecer consensos sobre a melhor forma de geri-la.

E assim forma-se um grupo de trabalho com a participação de 41 países mais 13 países observadores para essa atividade de normatização.

O Brasil está presente através da ABNT – é o nosso representante. Mas não necessariamente há um engenheiro cuidando das normas de educação – espero. Busquei alguma informação sobre isso no site da ABNT, mas não tive sucesso.

Entre os países membros do grupo de trabalho estão a França, Portugal, Alemanha, Holanda e Rússia. A China e o Japão. México, Chile, Uruguai, Peru e Equador, pela América Latina. O Canadá e a Austrália participam, mas estranhei a ausência da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Da África, Botswana, Ruanda e Quênia. Lamento a ausência da África do Sul, já que, como a Índia está presente, completaria os BRICS.

Iran, Marrocos e Israel, países onde a questão religiosa é bastante presente, participam como observadores.

A secretaria ficou com a Coréia do Sul.

Obviamente que a escola pública pode se beneficiar e muito de uma norma de gestão educacional, necessita mesmo de uma com urgência, mas o briefing que acompanha a apresentação dos trabalhos em desenvolvimento parece se direcionar preferencialmente à escola particular e aos centros de treinamento e desenvolvimento profissional.

A educação privada como tendência mundial?

Agora, os benefícios esperados com a adoção do modelo de gestão preconizado, baseado na norma ISO 9001, poderiam ser defendidos em qualquer congresso de pedagogia:

  • educação inclusiva e equitativa de qualidade para todos
  • promoção de oportunidades de autoaprendizagem e aprendizagem ao longo da vida
  • uma aprendizagem mais personalizada e uma resposta eficaz às necessidades educativas especiais
  • maior participação das partes interessadas
  • maior credibilidade da organização educacional

E para quem é do meio corporativo:

  • melhor alinhamento da missão, visão e objetivos educacionais com planos de ação
  • processos consistentes e ferramentas de avaliação para demonstrar e aumentar a eficácia e eficiência
  • um modelo de melhoria
  • estimulação da excelência e inovação

Muito se fala em qualidade na educação, poucos sabem quão difícil é definir o que venha ser isso.

Uma norma que formalize consensos de especialistas sobre como gerir processos educacionais é sempre benvinda.

Quanto aos que se preocupam com a mercantilização da educação, não será nenhuma norma que irá provocar isso.

Todo conhecimento é neutro, ideológico é o uso que se faça dele.

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2 comentários

  1. Tio nunca tive a oportunidade de ler o que o senhor escreve, mas como diz meus amigos, agora com a minha inclusão social “Facebook” pude ler. E o orgulho foi tanto que os olhos se encheram de lágrimas.
    Acredito que a padronização, através de uma norma tende a melhorar o padrão, mesmo que se inicie nas escolas privadas ja é um passo para que as escolas estaduais e municipais possam um dia se certificarem e a população ganhe com isso.

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