O Papa Francisco e a voz do Brasil

Nestes tempos de tragédia, entre Trump e Zavascki, mesmo o Papa pode ficar em segundo plano. Pontos da entrevista de Francisco ao El País. Interessantes recados involuntários ao Brasil.

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Passou quase que desapercebida a entrevista do Papa Francisco ao El País. Nada a se estranhar quando estamos mais preocupados, e com razão, em sabermos se um juiz da Suprema Corte foi ou não assassinado em um atentado digno dos melhores filmes sobre a máfia.

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Ou quando o país mais poderoso do mundo passa a ser governado por alguém que transita entre o folclórico e o insano.

No entanto, a entrevista que o Papa Francisco concedeu ao El País da Espanha nesta fatídica sexta-feira, 20 de janeiro de 2017, é algo para refletirmos como brasileiros, inclusive. Está cheia de recados não intencionais.

O mais grandiloquente é sem dúvida em relação ao momento pelo qual passa o mundo com ofertas de resolução dos problemas pelo uso da força:

“O perigo em tempos de crise é buscar um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda com muros e arames farpados”.

Ainda que os principais destinatários desta mensagem estejam nos países ricos, serve muito bem para aqueles que no Brasil defendem as mesmas soluções.

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Heróis à parte, já que a ideia de heróis da pátria carrega sempre contradições, há um Brasil atualizado com as mensagens do Papa. Atualizado com o que há de mais retrógrado no cenário internacional. Não somos tão jabuticabas assim, internacionalizamo-nos na mesma merda.

Por exemplo, a crise nos presídios brasileiros e suas decapitações destampou a latrina onde apodreciam ideias que nos assustaram não por terem sido pensadas, mas por encontrarem espaço e momento em que pudessem ser proferidas em público: “eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Sou meio coxinha. Tinha é que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana”.

E pensar que no Brasil há os que se escandalizam com os discursos de Trump ou ao assistir uma jornalista na Hungria chutando uma criança síria refugiada.

Recado do Papa: “Tanto na Europa quanto na América, as consequências de uma crise que não acaba, o aumento da desigualdade e a ausência de lideranças fortes estão dando lugar a formações políticas que estão captando o mal-estar dos cidadãos. Algumas delas … aproveitam o medo das pessoas de um futuro incerto para construírem uma mensagem de xenofobia, de ódio…”. 

Há também um inusitado recado do Papa para a Rede Globo.

“Eu não assisto televisão. Simplesmente senti que Deus me pediu isso; desde de 1990, fiz essa promessa e não sinto falta”. Santo Padre.

E já que os donos da Globo estão entre as oito pessoas que juntas detém mais que a metade da riqueza do país, outro recado do Papa:

“… preocupa-me a desproporção econômica: que um pequeno grupo da humanidade tenha mais de 80% da riqueza, com o que isso significa na economia líquida, onde no centro do sistema econômico está o deus dinheiro e não o homem e a mulher, o humano”.

E há também um recado para Temer:

“… posso sair na rua para cumprimentar as pessoas nas audiências, ou quando viajo…”

Há um recado direto para toda a nossa intelectualidade:

“… tenho mais medo dos anestesiados do que dos que estão dormindo. Daqueles que se anestesiam com o mundanismo”.

Mas o recado também pode ser lido como que para os nossos juízes:

“… chama minha atenção que Jesus, na Última Ceia, quando faz essa longa oração ao Pai pelos discípulos, não pede a eles “observem o quinto mandamento, que não matem; o sétimo mandamento, que não roubem”. Não. Tomem cuidado com o mundanismo… O que anestesia é o espírito do mundo”.

No país do “bandido bom é bandido morto” e cadeias superlotadas de presos sem julgamento…

Para os que acreditam que nosso sistema político é o mais corrompido do mundo e por isso o Brasil é um país sem solução:

[A corrupção] é um grande pecado. Mas acredito que não devemos atribuir-nos a exclusividade na história. Sempre houve corrupção. Sempre. Se alguém ler a história dos papas se depara com cada escândalo… Na Igreja há santos e pecadores, decentes e corruptos, mas o que preocupa mais é uma Igreja anestesiada pelo mundanismo”.

Basta trocar “Igreja” por “Brasil”.

Há um recado para os habitantes da internet e das chamadas redes sociais:

“Diálogo. É o conselho que dou… Por favor, diálogo. Como irmãos, caso se animem, ou pelo menos como pessoas civilizadas. Não se insultem. Não se condenem antes de dialogar”.

E, por fim, para os que acreditam em uma vida depois da morte, Francisco lembra do “protocolo” para alcançar a salvação:

“…quando Cristo nos diz o protocolo com o qual seremos julgados, que é o capítulo 25 de Mateus, é sempre tocar o próximo. “Tive fome, estive preso, estive doente…”. Sempre a proximidade para ver a necessidade do próximo”.

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Aí, tem coxinha que não vai para o Céu, não é? Mas calma… calma, sem desespero, que esse Papa é petralha e sangue de Waldomiro tem poder. Aleluia, irmão.

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