Carta de Natal ao professor Ives Gandra

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Prezado professor Ives Gandra, primeiramente: “fora Temer”.

Permita-me tecer alguns comentários a respeito de seu artigo na Folha desta antevéspera do Natal de 2016 – ”Balanço de um ano complicado”.

Um texto humano, essencialmente humano.

Humano no que tem de autoengano. Tomo por autoengano o que alguns poderiam considerar má-fé. Nestas épocas natalinas, estamos todos repletos de boa-vontade para com o próximo.

Prezado professor, concordo com o senhor que o Judiciário tornou-se um dos nossos fatores de instabilidade institucional. Quando um juiz de primeira instância grampeia e divulga diálogos da Presidência da República e um Ministro do STF se arvora em Poder Moderador a decidir quem pode ou não ser ministro de Estado, é porque revogamos o princípio civilizatório da independência e harmonia entre os Poderes previsto na nossa Constituição Cidadã.

E provavelmente pararemos por aqui nas nossas concordâncias.

Aos problemas econômicos atuais, o senhor dá o diagnóstico de que seriam a “consequência da equivocada política dos presidentes anteriores, que não perceberam ser impossível promover uma efetiva ação social se as empresas não gerarem empregos e tributos”.

Suponho que os presidentes anteriores sejam os dois petistas.

Não sei de onde o senhor tira tal ideia de que durante esse período não houve geração de empregos. Ao final de 2014, a taxa de desemprego no Brasil foi de 4,3% – pleno emprego. E a renda média do trabalho havia subido 2,7% e atingira R$ 2.104,16. Justiça social em porcentagens e valores.

Só para comparação, o desemprego de 2016 está estimado em 11,8% e a renda média do trabalho caiu 4,2% – já descontada a inflação – e era de R$ 1.972,00, ao final do primeiro trimestre deste ano.

Tal regressão não coincide com nenhuma medida de governo petista que, creio eu, o senhor chamaria de equivocada, ou seja, “um modelo apenas distributivista”. Eu chamo de equivocadas as isenções de encargos tributários e trabalhistas dadas aos empresários que, ao fim, realizaram lucros e não crescimento econômico. Como equivocada foi a decisão em 2013 de abandonarmos taxas de juros então em patamares minimamente civilizados. Mas creio que o senhor não se refere a elas no seu diagnóstico da crise.

Tal regressão coincide com a “insurreição burguesa” insuflada pelo poder econômico, tão bem caracterizado pelo “pato da FIESP” – o pato deles somos nós, pelas capas da revista Veja e pelos derrotados nas eleições de 2014. Eleições que, pela quarta vez consecutiva, haviam decidido por um governo petista.

Insurreição onde “os brancos” mandaram o país à merda.

Diz o senhor que “é certo que a Federação não cabe no PIB”. Que parte deixaremos de fora, então? Qual a cor da pele e a classe social dos que o senhor imagina que deverão ser excluídos do PIB? Ficaremos de fora nós, como eu e o senhor, os brancos de classe média acima? Creio que o senhor entendeu minha ironia. Não irei a mais, nesse tema.

Aquele a quem o senhor chama de presidente da República, e que eu chamo de golpista, não foi “obrigado a dialogar com uma base de apoio contaminada”. Ele é parte da contaminação da base de apoio que desferiu o golpe parlamentar que derrubou a presidente eleita. 54 milhões de votos populares passados na bunda de personagens da integridade moral de Cunhas e Gedéis, para ficar em dois. Mandaram a cidadania à merda.

Lembra-se da Copa de 2014, professor?  Quando “os brancos brasileiros” mandaram a presidente tomar no cu. Os “brancos brasileiros”, em termos participação política, parecem ser incapazes de deixar a fase anal. Em transmissão direta pela televisão, “os brancos brasileiros” mostram ao mundo quem são “os brancos brasileiros”.

A presidente estava lá, vilipendiada, mas altiva, cumprindo seu papel de representar o Estado e a Nação. Pois bem, nas Olimpíadas deste ano, onde estava aquele que o senhor chama de presidente?

Desculpe o trocadilho, mas aquele a quem o senhor chama de presidente não me representa.

Aquele a quem o senhor chama de presidente da República eu chamo de fujão e não pode comparecer em público de velórios a inaugurações. Escreve cartinhas de corno e recebe senhores em palácio na calada da noite. Diz depois, até ser desmentido, não se lembrar de tais encontros.

Quanto ao sucesso da “Operação Lava Jato”, concordaremos parcialmente. Até porque se trata de uma operação parcial e interessante. Prendeu a parcela que interessava, deixou de fora a parcela que não interessava.

Como lembra-nos Stanislaw Ponte Preta: ou restabelece-se a moralidade ou que nos locupletemos todos. Sabedoria cruel. Quando somente metade dos ladrões é presa e a outra metade resta não incomodada, essa metade que resta roubará o dobro. E tudo ficará igual – na melhor das hipóteses.

Recorde o prezado professor que o líder da Lava Jato foi flagrado confraternizando em festa com figura das mais suspeitas – denunciada várias vezes por corrupção e jamais investigada. Eram tais sorrisos e demonstrações de afeto e cumplicidade que houve quem maldasse amor romântico entre ambos. Fosse isso, teriam meu inteiro apoio. Só que não, não é mesmo, professor?

Por fim, professor, poderia zombar de seu otimismo e atribuí-lo à falta de informação. Mas seria eu o desinformado, se assim o fizesse.

O Brasil é maior que a crise e dela sairá. Não, como o senhor imagina, por ter as características de um besouro que voa desafiando leis da física – que, aliás, não desafia. Mas porque, como um besouro, está acostumado a rolar bosta.

No mais, prezado professor, desejo-lhe, além de um bom Natal – não digo “santo” para não associar o Natal com as propinas da Odebrecht – um grande 2018. Vida e saúde – até para se arrepender.

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