Os que choram e os que vendem lenços

Os textos reproduzidos abaixo guardam entre si uma cruel interação. Porém, ainda que pareçam complementares, são extratos de textos soltos, colhidos ao acaso por esse mundo das páginas de meu Deus.

ha-os-que-choram

Deltan Dallagnol – procurador do Ministério Público Federal e misericordioso missionário e pregador das “10 medidas contra a corrupção” – ao participar, no Panamá (até parece ironia), de um evento de uma obscura ONG sobre combate à corrupção:

“Esta semana, quando uma tragédia profunda mergulhou o país em um mar de sofrimento, homens sem misericórdia colocaram em curso uma estratégia cruel. Enquanto o Brasil estava de luto pelo acidente aéreo que matou dezenas de jogadores de futebol e enquanto as manchetes estavam cheias de dor, Deputados da Câmara trabalharam durante a noite para fazer o mais forte ataque a Lava Jato ao longo de mais de dois anos de vida”.

Qual misericórdia teriam os deputados negado aos mortos escusou-se de dizer-nos o procurador.

Paula Cesarino Costa – ombudsman da Folha de São Paulo em sua coluna de 04dez2016 – “Retrato morno de clima quente”:

“O sinal de alerta havia sido dado durante a tarde da quarta-feira (30). Com o país chocado com a queda do avião na Colômbia, que provocou a morte de 71 pessoas, entre elas jogadores da Chapecoense e jornalistas, o Congresso poderia trabalhar nas sombras para aprovar medidas, para dizer o mínimo, impopulares e polêmicas. O alvo era o pacote anticorrupção, projeto de lei apresentado com o significativo apoio de 2 milhões de eleitores. Com seus méritos e defeitos, foi dizimado na Câmara dos Deputados na madrugada em que o país se declarava de luto”.

O “retrato morno”, como nota-se, não se refere à cobertura dada à tragédia da Chapecoense pelo jornal em que a Ombudsman trabalha – a “madrugada em que o país se declarava de luto”, mas sim à cobertura que o jornal deu à “madrugada da infâmia” em que os deputados federais desfiguram (sic) as “10 medidas” envidas pelo MPF. Teria faltado a Folha, segundo Paula Cesarino, sintonia com os leitores que “se indignavam”, promoviam “panelaços por diversas capitais do país” e iniciavam a “convocação de novos protestos públicos”.

A Ombudsman não menciona, mas, por certo, esses leitores também choravam pelos meninos de Chapecó. Se não, por que citaria na abertura de seu texto: “com o país chocado com a queda do avião na Colômbia…”?

Mariliz Pereira Jorge – colunista de variedades da Folha em sua coluna de 03dez2016 – “Até quando choremos os mortos?”.

“Muito difícil falar de outro assunto que não seja a tragédia que matou um time inteiro de futebol, colegas meus de profissão, tripulantes do avião… a cada notícia sobre o acidente, me deparo com um gesto espontâneo de generosidade e me pego chorando por histórias de pessoas que até ontem eram nomes pouco conhecidos para a maioria.

Perguntei aos amigos se estaria emotiva demais, mas todos se disseram igualmente tocados, principalmente com os infinitos gestos de solidariedade e generosidade dos quais temos sido testemunhas.

Mas aos poucos somos acordados pela dura realidade, que é a falta de todos os sentimentos nobres que transbordaram nos últimos dias. E claro, sempre tem quem queira tirar uma casquinha da tragédia alheia”

Segue-se no texto de Mariliz uma série de maus exemplos de pessoas que buscaram tirar, de um modo ou de outro, proveito da tragédia de Chapecó. Do presidente do Huracán, time da Argentina, ao brasileiro Internacional de Porto Alegre.

“Mas o troféu abacaxi para gente sem noção nesse momento de extrema fragilidade emocional vai para o digníssimo presidente Michel Temer” que, para evitar vaias, tinha então decidido não participar do velório coletivo às vítimas chapecoenses da tragédia de Medellín.

Como vimos acima, tivesse pesquisado um pouco além do cenário esportivo ou esperado um dia a mais, poderia ter aumentado sua lista.

De qualquer modo, são omissões involuntárias que não invalidam a indagação com que Mariliz encerra seu texto: “até quando choraremos pelos mortos? E pelos vivos, porque só chorando mesmo”.

 

 

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