Síndrome do avestruz interesseiro: as não-notícias e o fatos incômodos

Em uma atitude dicotômica, no espaço de alguns meses, os jornais brasileiros passaram da escandalização à não-notícia. Bipolaridade, negação da realidade, síndrome do avestruz? Só se for do avestruz interesseiro.

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PF investiga se Odebrecht fez reforma de piscina para Lula – obra realizada no Palácio do Alvorada em 2008 teria sido troca de favores.

A manchete acima é de 13 de novembro de 2016, mas é velha de oito anos, e mesmo na época, seria uma piada.

Por ela ficamos sabendo que Lula, além de ser o dono do estádio do Corinthians, que ganhou de presente, é também dono das piscinas do Palácio do Alvorada, residência oficial do presidente da República do Brasil.

Depois do power-point de bolinhas com o qual o Ministério Publico “formou a convicção” de que Lula é a encarnação de Belzebu, uma notícia como essa é uma não notícia.

Na primeira página?

Não que falte assunto.

Neste momento, mais de mil instituições de ensino estão ocupadas por estudantes que protestam contra as medidas do governo que congelam por duas décadas os gastos com saúde e educação.

Dias atrás, pelo mesmo motivo, movimentos sociais envolvendo milhares de pessoas protestaram em dezoito Estados e na capital do país.

Procure nos jornais e revistas impressos, nenhuma menção.

A Lava Jato parece coisa de um passado distante, pelo menos quando não envolve Lula, mas um cheque nominal ao presidente em exercício – Michel Temer, o liga direto a denúncias de propina. Qual jornal repercutiu? A própria continuidade de sua presidência é incerta, está para ser julgada pelo TSE. E o assunto são os vestidos de sua jovem esposa.

Isso para não falar na delação premiada em massa da Odebrecht que poder arrastar mais de uma centena de parlamentares e governadores. Eduardo Cunha, o ex-todo-poderoso presidente da Câmara dos Deputados Federais está preso e com ele o mapa do cofre dos financiamentos das campanhas eleitorais.

Na economia, a previsão para este ano é de uma retração de menos 3,3%, queda pelo segundo ano consecutivo, e para 2017 espera-se um crescimento de 0,5%, se tudo der certo. Nenhuma referência a “pibinho”. Em outubro, a inflação estimada para 2016 era de 7,23%, a previsão anterior era de 7,25%. Essa redução de dois centésimos foi alvo de comemorações pelos jornais. Apenas em termos de comparação, no governo Dilma, antes da insurreição burguesa de 2015, uma inflação de 6,5%, dentro da meta, era chamada de alta e persistente. O desemprego atingiu 11,8% em setembro de 2016. Em 2014, quando da reeleição de Dilma, era de 4,8%.

Mas essas são não-notícias. Procure algo nos jornais.

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Tomei a Folha de São Paulo como exemplo, poderia ter tomado qualquer outro grande veículo de comunicação. Algo aconteceu com o nosso jornalismo que passou a optar pelas não-notícias como se ao não divulgá-las os fatos igualmente não existissem.

Para quem “lê tanta notícia” não é difícil perceber e se espantar com mudança tão drástica na linha editorial. Voltemos a novembro de 2015.

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Parece não só que estamos em outro tempo, parece que estamos em outro país com outros jornais. Mas não, os tempos, o país, os fatos e os jornais continuam os mesmos – os mesmos principalmente os jornais.

Voltaram a ser os mesmos com a saída do PT do poder.

Os fatos continuam ocorrendo, apenas não são noticiados. Trata-se de um mecanismo de defesa? Claro, só que essa negação da realidade obedece a um nome ainda não catalogado pela psicologia social – Síndrome do Avestruz Interesseiro.

As não-notícias podem ser muito valiosas, quando os fatos não interessam.

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