Qual o tamanho do pau de Francisco?

Por mais irônico e trágico que seja, a Lava Jato corre o risco de se juntar a Eduardo Cunha em seu destino de ser descartável quando não mais servir aos poderosos.

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“Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais”. Martin Luther King

Sintomático que, a esta altura dos acontecimentos, o procurador Deltan Dallagnol perceba a necessidade de defender a Operação Lava Jato junto à opinião pública.

Parece-me que não é outra coisa o que está sendo tentado com seu artigo “Lava Jato, de onde veio e para onde vamos” , na Folha de 30 de outubro de 2016.

Sintomático porque aparentemente desnecessário. A Lava Jato deveria ser uma unanimidade, já que tem tudo para se firmar como um divisor de águas no modelo político brasileiro.

Desnudou a arrasadora e deletéria influência do poder econômico sobre o poder político e a corrupção dela advinda. E, sem dúvida, já trouxe um grande ganho para esse modelo que vem a ser a proibição do financiamento empresarial das campanhas eleitorais.

Não fossem as revelações da Lava Jato, tal evolução do nosso processo político não teria sido obtida.

Quem se colocaria contra isso?

Por que Dallagnol sentiu a necessidade de defender a Lava Jato?

Porque a sente ameaçada:

 “o ataque mendaz à credibilidade da Lava Jato e dos investigadores tem um propósito, prepara-se o terreno para, em evidente desvio de finalidade, aprovar projetos de abuso de autoridade, de obstáculos à colaboração premiada, de alterações na leniência e de anistia ao caixa dois”.

E por que só agora a Lava Jato começa a ser ameaçada?

Após as investigações levarem a 52 acusações contra 241 pessoas, por crimes como corrupção, lavagem e organização criminosa e dentre elas, 110 serem condenadas a penas que ultrapassam mil anos de prisão”.

A resposta está nas palavras do próprio Dallagnol:

“verdade que os partidos mais atingidos na Lava Jato são PT, PP e PMDB. No Supremo, dentre os 17 políticos acusados, 9 são do PP, 4 do PMDB, 3 do PT e 1 do PTC”.

 É preciso dizer que está faltando alguém no Nuremberg curitibano?

Alguém ainda se lembra de Pedro Barusco afirmando que começou a receber propina já em 1998, no governo FHC?. Alguém ainda se lembra do vídeo de Fernando Baiano delatando as traficâncias envolvendo o filho de FHC. De Paulo Preto ninguém se lembra mais, mas alguém ainda se lembra do vídeo do Youssef descrevendo em detalhes a corrupção em Furnas e o envolvimento de Aécio Neves? Alguém ainda se lembra da citação dos contatos de Romero Jucá com ministros do Supremo buscando “estancar a sangria” através da derrubada da presidente Dilma?

Onde estão o DEM e o PSDB e o atual ministério do governo Temer e mesmo o próprio presidente de facto Michel Temer?

Não estão no texto de Dallagnol ou nas celas de Sergio Moro, mas estão nas delações premiadas da Lava Jato que deverão agora ser investigadas. Ocorre que tais partidos e personagens estão e estiveram no poder desde sempre.

Dallagnol não é tão ingênuo que não perceba a relação causal entre as novas delações envolvendo tais partidos e personagens e as atuais dificuldades enfrentadas pela Lava Jato. Apenas usa de subterfúgios linguísticos para declará-las.

Os fãs de ontem são os linchadores de hoje e de amanhã – diria o poeta.

Dallagnol sabe disso, até porque já viu isso acontecer em passado recente:

”a história do Brasil é também uma história de fracassos na luta contra a corrupção. Casos como Anões do Orçamento, Marka Fonte-Cindam, Propinoduto, Banestado, Maluf, Castelo de Areia, Boi Barrica e tantos outros caíram na vala comum da impunidade”.

Se Dallagnol tivesse o cuidado de identificar os partidos envolvidos nesses casos, teria deixado claro aos seus leitores quem são os que estão tentando inviabilizar as investigações. Porém teria de reconhecer que nenhum deles é petista.

E, a menos que seja um completo desavisado, deve ter prestado atenção ao alerta premonitório do professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite:

“só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes, ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não”.

A Lava Jato não é mais útil, prezado Dallagnol. E passarão a usar contra ela a denúncia de todos os abusos que foram permitidos a ela na caçada ao PT. E prezado Dallagnol não se auto engane afirmando “se “abusos” ou “excessos” existissem, os tribunais os corrigiriam”.

 Abusos e excessos só seriam corrigidos se os tribunais estivessem “motivados” para fazerem-no. Mas como relatado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região que deveria corrigir a Lava Jato:

“é sabido que os processos e investigações criminais decorrentes da chamada operação ‘lava jato’ … constituem caso inédito no Direito brasileiro. Em tais condições, neles haverá situações inéditas, que escaparão ao regramento genérico, destinado aos casos comuns”.

 Tal exceção valeu em relação ao PT, não vale mais.

Não deixa de ser irônico: o PT foi derrubado por ter cometido os mesmos malfeitos cometidos pelos que o acusavam. Agora, a Lava Jato corre o risco de ser invalidada por cometer contra os adversários do PT no poder os mesmo “abusos” com os quais auxiliou a derrubar o PT do poder.

E, suprema ironia, a Lava Jato assim se juntaria a Eduardo Cunha no mesmo destino descartável.

Triste também ouvir o chamado desesperado de Dallagnol:

“a sociedade tem de reagir. Parafraseando Martin Luther King, estamos rodeados da perversidade dos maus, mas o que mais tememos é o silêncio dos bons”.

Prezados Dallagnol, não espere varandas gourmet indignadas. De há muito suas panelas silenciaram. Não sonhe com a Avenida Paulista apinhada de pessoas brancas em camisolas amarelas brandindo cartazes pedindo a cabeça do “careca” ou do “santo”.

Porém, receba toda a minha solidariedade e apoio. Valem pouco, mas são sinceros.

Ainda trago comigo, amarrotado na carteira, o discurso de Rodrigo Janot de quando ele foi reconduzido ao cargo de Procurador Geral da República pela presidente Dilma, que, aliás, jamais interferiu na Lava Jato:

“o que tem sido chamado de espetacularização da Lava Jato nada mais é do que a aplicação de princípio fundamental de uma República: todos são iguais perante a lei. Pau que dá em Chico dá em Francisco”.

Estamos diante de um enigma mortal: qual o tamanho do pau de Francisco?

Prezado Dallagnol, é do conhecer essa dimensão que depende o seu e o meu sonho, contido na continuidade da Lava Jato, somente para ficar na citação a Martin Luther King Jr. que também tinha o sonho sermos todos iguais perante a lei.

 

 

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