Miséria, glória e miséria – uma carta a Otavio Frias Filho

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“Pois quanto maior a sabedoria maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto”. Eclesiastes 1:18

Prezado Otavio Frias Filho, somos da mesma geração e mesmo da mesma idade, permita-me, então, aqui, usar o “você” como pronome de tratamento e chamá-lo de Otavio.

A citação do Eclesiastes que abre esta carta, é um gancho na sua citação do mesmo Eclesiastes ao final do seu belo texto na Ilustríssima da Folha deste 09 de outubro de 2016 – “Miséria e glória do PT”. Tempo de semear?m

Do mesmo Eclesiastes poderia pinçar o tempo de matar e o de curar, o de chorar e o de sorrir. Estão hoje, no Brasil, ocorrendo esses tempos ao mesmo tempo dependendo do grupo sócio-político que se tome como objeto. Mas não creio que estejamos em tempos de semear. Antes, creio que, desde 2013, vivemos o tempo de derrubar sem nada construir.

Imagino-o como um homem triste – tomo-o por mim. Mas creio-o mais triste, porque você tem, até por dever de ofício, mais conhecimento do que eu. E “quanto maior o conhecimento, maior o desgosto”. Explico-me.

Em seu texto, você trata do breve espaço de tempo petista no governo federal. Sabe, melhor do que eu, o que havia antes do PT e sabe o que há agora. O antes e o agora são o mesmo. Tem, portanto, até por convívio profissional, de saber da idoneidade moral dos antecessores e dos sucessores do PT. E dos interesses que eles defendem.

Estão agora, de volta. Os mesmos, a colher o que não plantaram. Tal qual as bactérias oportunistas sobrevivem se alimentando de seu hospedeiro enquanto esse organismo as suportar.

Bactérias com contas em paraísos fiscais que têm para si viver em Miami – que tomam pelo primeiro mundo – em caso de morte do organismo após tanto parasitismo. Você as conhece mais do que eu – daí intuir sua tristeza tal qual a minha, porém maior.

Entendo, assim, como uma forma de antalgia o seu tratar da “corrupção petista”: “difícil saber se corrupção numa escala semelhante acontecera em período anterior: os mecanismos de investigação eram mais precários, e a lei não facultava delação premiada. Deve ter sido [os governos petistas] ao menos a era de corrupção mais sistêmica…”.

Voltando ao Eclesiastes – a ignorância, por vezes, é uma benção.

Otavio, seu texto tem o mérito, e nestes tempos de intolerância, até o desprendimento, de reconhecer Lula como o estadista que ele realmente o é.  Cita, inclusive, as posturas de Lula que o fariam um estadista em qualquer democracia ocidental. Ainda que prefira chama-lo de “demiurgo perspicaz”. Não deixa de ser um elogio. Franklin Delano Roosevelt, pai da socialdemocracia estadunidense, não o recusaria.

Veja, então, a tristeza de ver a figura de um líder da estatura de Lula ser tratada como a de um punguista por esses que você conhece melhor do que eu. Esses que imagino que, após recebê-los em almoços na Folha, você solicite ao pessoal da copa que confira os talheres e contabilize os prejuízos.

Pergunto-me se igualmente seria autoengano a sua afirmação de que “a inequívoca derrota nacional do PT nas eleições municipais de 2/10/16 surge como epílogo do impeachment, ao endossá-lo com a chancela do voto popular”?

O impeachment foi um golpe, nada irá mudar esse fato. E, para apoiar tal conclusão, basta ler na sua Folha as inconfidências de Romero Jucá e suas tratativas com “ministros do Supremo” para “estancar a sangria” da Lava Jato. Jamais houve um crime de responsabilidade que, na forma da lei, tornasse legítima a deposição da presidente Dilma. Daí porque o uso do subterfúgio para a deposição receber o “nome técnico” de “pedaladas”. “Pedaladas”, “desvios de finalidade”, “conjunto da obra” e “domínio do fato” – vivemos um tempo de exceção que não ousa dizer o nome. Golpe.

Quanto à suposta “chancela do voto popular”, desculpas antecipadas, mas não resisto à provocação contida no reconhecimento do poder do grupo ao qual você pertence: “se você não mantiver uma posição crítica em relação aos meios de comunicação, eles lhe farão amar o opressor e odiar o oprimido”. Malcolm X.

Em seu texto, você afirma: “é óbvio que o Brasil não pode nem deve prescindir de um amplo partido democrático de centro-esquerda”. Qual a extensão dessa obviedade? Chega ao ponto de considerar o direito de um partido de centro-esquerda governar, se eleito; ou seu lugar é apenas o da oposição “grilofalantina” que atenue a consciência de nossa intelectualidade?

Jamais vivemos o “antagonismo pendular entre direita e esquerda que predomina na história política moderna. Nas duas vezes em que a esquerda chegou ao poder no Brasil, foi derrubada em golpes de Estado – não estou aqui a considerar Getúlio Vargas como um governo da esquerda. Sabemos disso, vivemos, ambos, esses momentos, como meninos e como homens adultos. O tempo de vida de um homem foi mais do que o suficiente para cobrir o total de tempo da esquerda no poder no Brasil. Do que podemos responsabilizá-la? De fazer “política social via manipulação da macroeconomia”?

O professor Bresser-Pereira descreve em seu livro “A construção Política do Brasil” o momento do início da revolução capitalista no Brasil – 1930. Tal revolução findou-se com o início do governo FHC. Foi substituída, por sua política econômica que levou à desnacionalização da nossa indústria, pelo rentismo descrito pela “teoria da dependência” e pelo patrimonialismo que sempre caracterizou as relações dos poderosos com o Estado brasileiro. As saúvas do rentismo e do patrimonialismo – os males do Brasil são. Parasitas que derrubam presidentes que ousam não alimentá-los.

Pra tanto, estão propondo cortar por duas décadas os investimentos em saúde e educação, precarizar as relações trabalhistas ao nível da informalização, cortar pensões de viúvas, desvincular o salário mínimo como referência de benefícios sociais e estipular o pós-morte como prazo para obtenção da aposentadoria. Leiloam mais uma vez o patrimônio das futuras gerações de brasileiros em nome do “equilíbrio das contas públicas”. Ontem, as empresas estatais. A Vale do Rio Doce e suas jazidas, a telefonia e a distribuição de energia; até satélite venderam. Privataria – o trágico mas preciso neologismo cunhado por Elio Gaspari. Hoje, a Petrobras e o pré-sal.

“Tempos de semear” para as saúvas. Tempos de vacas magras e saúvas gordas. Tempos disfuncionais, onde somamos “ao risco de estagnarmo-nos no atraso econômico e tecnológico, o de dilacerarmo-nos pelas iniquidades sociais”.

Por fim, nesses tempos temerários redivivos, talvez seja mais apropriado citar Nietzsche do que Salomão:

“esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeira da poeira”. 

Miséria, glória e miséria. No Brasil das saúvas, desgraçadamente, sempre nestas ordem e sequência depravadas.

E você, caro Otavio, como um sonhador, apostando suas fichas no PSOL.

Antes de um abraço de despedida, apenas um adendo pessoal; no jornalismo brasileiro houve donos de jornais que em vida foram chamados de doutores e após a morte ascenderam à condição de “jornalistas”. Seu pai apresentava-se como publisher – pessoa que torna uma obra impressa disponível para o público – creio eu. Ainda hoje é chamado respeitosamente por jornalistas que passaram pela Folha de “seo Frias”. Talvez um dia haja ensejo para dizer o quanto, sem jamais o conhecer, ele foi importante para mim. Eram, aqueles, tempos de semear sobre terras devastadas. Quatro décadas depois, estes deviam ser tempos de colher. Mas as saúvas…

Agora sim, um forte abraço deste seu leitor.

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