Dr. Samuel Pessôa – corretor imobiliário de almas

Recusei-me a vender a minha alma para os clientes do Dr. Samuel Pessôa – passei a ser acusado pelos jornais de ser um inimigo da nação.

aquarius

Ando silencioso e pensativo pela casa. A casa também anda silenciosa, depois que as crianças se foram.

Mas quanto se fala em silêncio. Quanto diálogo com estas paredes. Quantas vezes as paredes deste quarto assistiram os amores meus com minha mulher? Quantas noites nos viram abraçados e insones temendo pelo futuro, temendo pela própria casa que precisava ser paga a cada final de mês. As paredes da sala ouviram quando discuti com meu filho e viram quando o abracei comemorando sua entrada na universidade. No chão secaram nossas lágrimas reconciliadas.

Todas essas recordações estão aqui nesta casa. Não posso guardá-las em outro lugar. Não caberiam apenas na minha memória. Mais que seu valor financeiro, muito mais que seu valor financeiro, esta casa faz parte do meus valores intangíveis, inegociáveis. Todos os valores imateriais da minha humanidade estão aqui contidos.

Ando meditando a respeito da acusação que me fizeram. Hoje em dia, parece que está muito comum, de repente, sermos acusados pela imprensa de representarmos um dos males da nação. Nada fizemos, somos apenas o que sempre fomos, mas a acusação surge pesada nas páginas dos jornais.

No meu caso específico, sou acusado por Samuel Pessôa, colunista da Folha de São Paulo, de estar impedindo o progresso, se não da nação, pelo menos da minha cidade. Recusei uma proposta de compra da minha casa por uma construtora. Sei que eles não ficaram muito contentes, não consigo entender, porém, o que Samuel tem a ver com isso. Mas está lá na Folha de domingo passado:

“…empreendimento que geraria: aumento da oferta de imóveis, renda para os empreendedores; renda para os outros proprietários das casas vizinhas que esperam o fim do negócio para receber parcela final da venda; e aumento significativo de IPTU para a prefeitura. Sem falar dos empregos e da renda durante a construção e vários depois dela.”

E eu que julgava que os problemas do Brasil eram a crise econômica internacional e a insurreição contra o governo do PT. Descubro que eu sou o problema.

Que interesses levaram Samuel a adotar o lado da construtora – sim, porque, por último,  é apenas o ganho delas que Samuel defende em seu artigo – e acusar-me até de responsável pelo desemprego na construção civil e pela queda da arrecadação municipal?

O que Samuel tem a ver com o que faço com a minha vida e com o meu dinheiro, para me aconselhar: “por que não vende seu imóvel aproveitando as condições favoráveis, podendo constituir reserva adicional para a velhice? Ainda mais, uma casa de tamanho que já não é mais necessário, afinal os filhos já saíram do ninho”?

Eu poderia simplesmente responder: “Foda-se, Samuel, essas são as prerrogativas da propriedade privada. Um proprietário tem de dar explicações de sua propriedade apenas ao fisco – aos outros, é o dono e fim. Não gostou, vai para Cuba”.

Como explicar a Samuel Pessôa que, de outro modo, eu estaria vendendo a minha alma. Tem homens que a venderiam na hora, Samuel talvez. Que valor tem uma alma? Para um homem sem valores, nenhum. E aí é melhor vender logo e aplicar o dinheiro a juros.

Mas Samuel também deu de implicar com a minha aposentadoria. Sim, após mais de 40 anos de contribuição, aposentei-me pelo teto. O teto é baixo, mas é o teto. Minha esposa trabalhou outros 30 anos para se aposentar como professora pública. Somadas as duas aposentadorias, seria demagogia dizer que passamos necessidades. Samuel lamenta não estarmos em situação pior. Seríamos forçados a vender a nossa casa, então:

“Em países socialmente mais justos, uma pessoa com esse histórico de vida venderia a casa por um bom preço ou a trocaria por um ou dois apartamentos na nova torre”.

Em países socialmente mais justos não haveria pessoas morando em favelas, ainda que outras vivessem em mansões. Não haveria pessoas sem assistência médica, crianças sem escola e velhos sem amparo. O que uma torre de apartamentos de luxo tem a ver com justiça social é coisa que Samuel não se dá ao trabalho de explicar.

Tenho outro imóvel, fruto de economias de uma vida. Rende um pequeno aluguel. Mais um motivo de acusação:

“A compra deve ter sido financiada pelo finado Banco Nacional de Habitação (BNH). A hiperinflação brasileira reduziu significativamente o saldo devedor dos imóveis financiados, pagou-se por elas muito menos do que custaram à sociedade. A ausência de correção da dívida foi cortesia de políticos demagogos. A diferença foi para a viúva na forma do Fundo de Compensações de Variações Salariais (FCVS), que até hoje pesa nas contas do Tesouro”.

Vá a merda, minha casa foi paga pela sociedade quando, Samuel? Custou-me ganhar cada centavo com que a paguei, justamente no período de hiperinflação. Pergunte ao FHC, que também é professor aposentado, como ele quitou seu apartamento de 450 m² em Higienópolis. A hiperinflação encheu as burras dos banqueiros os quais Samuel defende, isso sim. E quando acabou, o PROER de FHC comprou seus ativos podres com moeda boa. É isso que pesa nas contas do Tesouro até hoje. Uma taxa SELIC de juros de 14,25% ao ano, 450% de juros no cartão de crédito. E sou eu que estou pendurado na viúva. Samuel me crê um tolo.

Incomoda a Samuel também que eu, ao morrer, deixe pensão para minha esposa. Samuel acha que o país seria “socialmente mais justo” se, na velhice, ao ficar viúva, minha esposa, além de estar sozinha, tivesse lhe confiscada metade da renda: “o gasto de 13% do PIB com aposentadoria e pensões, quando pela nossa estrutura demográfica deveríamos gastar 5%– é importante causa do baixo crescimento econômico”.

Claro, o problema são as viúvas.  Deixássemos todas morrerem de fome e quanto dinheiro não sobraria para o governo Temer alavancar a economia?

Para Samuel, eu não tenho perdão: “o setor público não tem recursos para financiar a construção da infraestrutura física e social do país, incluindo, entre outros tantos setores, o de saneamento básico. O baixo crescimento econômico, por sua vez, torna o início da vida profissional das novas gerações muito difícil”.

E tudo isso porque eu decidi não vender minha casa e minha alma para uma construtora erguer mais um edifício de luxo.

De quanto será a comissão que Samuel está perdendo, para me odiar tanto assim?

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1 comentário

  1. Eis aqui porque não deixo de vir a esta Oficina. Me repara, conserta, alimenta.

    Repito, te ler Sergio Saraiva é realimentar a esperança na cidadania, entender como funcionam algumas cabeças, ampliar a visão. Aprender muito sempre.

    Não à toa incomoda.

    Primoroso.

    SLP e A.

    Um abraço. Anna.

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