Precisamos falar sobre nossos filhos – uma crônica paulistana

Não sei quando, nem como aconteceu. Quando abri os olhos, de repente, eles já estavam por aí. Os grosseirões paulistanos.

São Paulo

Pela idade, poderiam ser meus filhos. As mães deles não quiseram, mas poderiam ter sido.

São brancos de classe média, cursaram a faculdade, jovens adultos – moços e moças – roupa de grife, cabelos e pele bem tratados e a boca suja. No trânsito, mandam os outros tomarem no cu. Portadores do cartão-cidadão platinum plus. Frequentadores do cercadinho VIP da cidadania, como na propaganda daquele banco. Dentro dos seus grupos, gostam de se expressar de forma grosseira, aos palavrões. Acho que sentem-se poderosos, gente diferenciada, coisa assim. Mas têm medo de pessoas pretas que não sejam os empregados da limpeza ou da segurança dos seus condomínios. De crianças pobres, então. Vez por outra, a polícia do Alckmin mata uma dessas crianças, sentem-se aliviados. Um possível ladrãozinho a menos.

Sempre dentro dos seus carros com vidros escurecidos, dentro dos seus escritórios, dentro de seus shoppings, dentro de suas salas de aula de escolas particulares e dentro de suas baladas. São o povo de dentro. Mas saem às ruas, se convocados pelos meios de comunicação. Quando não, fazem barulho com suas panelas. Ultimamente estão quietos e silenciosos. Não receberam instruções, logo, não sabem como se posicionar. Ou talvez a corrupção já tenha acabado e eu ainda não dei-me por achado.

Não éramos assim. Ôrra, meu, não éramos mesmo. Abaixo a ditadura, diretas já. Agora, lemos, pela milésima vez, o FHC na Folha, falando de paternidade responsável e chamando o Lula de ladrão.

O que fizemos com os nossos filhos? Tinha alguma coisa naquelas músicas do Show da Xuxa e não percebemos. Talvez se tivéssemos ouvido o disco ao contrário.

Na periferia e nos bairros menos centrais tem um povo menos branco e mais deliciosamente achocolatado. Mas tem bastante branco e tem muito preto também. Andam de ônibus, frequentam a escola pública, ocupam as tais vagas de serviços gerais e atendentes de telemarketing. Pagam dízimo e apanham da polícia quando tentam um rolezinho em shopping de bacana.

Dizia-se que votavam no PT e que cultuavam a Marta Suplicy, mas, sendo maioria, elegeram o Serra, o Kassab, o Pitta e o Malluf. E o  Jânio – se fosse sólido comê-lo-ia. Mesóclises já eram pragas em São Paulo desde o século passado.Poucas vezes viraram o jogo.

Eles não leem a Veja, mas assistem àquelas novelas da Globo onde a empregada preta gosta da mocinha branca como se fosse sua filha. E a mocinha branca, por ser a mocinha, permite que a empregada preta goste dela. A mocinha branca é sempre tão boazinha. Enquanto isso, na mesma novela, a filha preta da empregada preta dança funk de shortinho. Cada um com seus pobrema, mano.

E tome motoboy e pastor neopentecostal. Racionais MC só encantam o Caetano. E tome funk ostentação no pancadão proibidão. Sampa blues, valei por nós.

Eles não leem o Estadão, mas assistem ao Datena, o arquétipo do tal grosseirão paulistano. Daí não é difícil entender que acreditem que o Skaf está preocupado em reduzir os impostos e votem no Doria, o “João trabalhador”, ou no Russomanno, que defende os pobres contra o abuso dos poderosos e é um homem de fé, da moral e dos bons costumes.

Até a Marta agora nunca foi da esquerda. Faz-me rir, mas é verdade. Nunca foi, mesmo.

Sobrou a Erundina, mulher, pobre e nordestina. Mas uma andorinha só não faz verão. E tem o Haddad, mas como canta o Paulinho, o da Viola, não o da “Força” – haja paulistano de merda: foi um rio que passou em minha vida…

Enfim, não sei como aconteceu, quando abri os olhos, de repente, eles já estavam por aí. Mas sei que precisamos falar sobre os nossos filhos. Ainda que seja nesta crônica paulistana e desesperançada.

 

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