A nova República Velha – o longo caminho de retorno à democracia

Qualquer análise sobre o Brasil atual necessita, para fazer sentido, de considerar-se que não vivemos mais em um regime democrático.

A nova República Velha - retomada democrática

A partir do afastamento de Dilma Rousseff passamos a viver a nova República Velha.

Com o golpe consumado, a cassação da presidente pelo Senado é apenas uma formalização destinada a dar algum verniz institucional ao golpe, passa a ser necessário ao campo democrático estudar o poder não democrático que assume o país e buscar em suas contradições o caminho, o longo caminho que se anuncia para a próxima luta pela restauração democrática – mais uma.

Dois períodos autoritários com pontos em comum – uma comparação com a ditadura de 64

Um poder que veio para ficar

Não tenha esperanças quem sonha com 2018. A oligarquia não se arriscou em um golpe que lhe custou esforço e muito dinheiro para apenas tirar Dilma do poder e entregar a presidência para Temer.

Assim como Castelo Branco assumiu dando esperanças de que manteria as eleições presidenciais de 1965 e a ditadura durou mais vinte anos após isso sem eleição presidencial alguma, assim também a oligarquia buscará se preservar no poder.

As eleições municipais ocorrerão como as eleições de 1965 para governadores ocorreram. Mas a oligarquia colocará na presidência em 2018 quem ela escolher fazendo o que for preciso para tanto.

Lula é inaceitável. Será preso e condenado, nessa ordem, se insistir em candidatar-se

A democracia sem povo

Eleições com baixo impacto democrático ocorreram durante todo o período ditatorial. Não será diferente agora. Será necessário manter-se um simulacro de democracia. Mas será uma democracia desidratada. Talvez ao tal semipresidencialismo, mas alguma medida para garantir-se no poder com a redução da participação popular na escolha do governo será tentada.

A volta da repressão

As Jornadas de Junho de 2013 e sua explosão democrática são coisas do passado literalmente.

Fora Temer?

Alexandre de Moraes não está no cargo de Ministro da Justiça apenas por dívida de gratidão pela proteção da pudicícia de Marcela Temer.

As Olimpíadas foram uma amostra da repressão que virá. Com os olhos estrangeiros voltados para outras partes do mundo, os brasileiros saberão o que os professores e estudantes paulistas já sabem muito bem.

A novidade deverá ser não só a repressão violenta, com a qual os manifestantes já apreenderam a lidar de uma forma ou de outra, mas a criminalização das manifestações, indiciamentos e prisões.

E, principalmente, a intimidação e a retaliação.

Dois períodos autoritários, mas diferentes – uma comparação com a ditadura de 64

O modelo de governo que assume o poder é oligárquico, rentista, dependente em relação aos EEUU e demófobo.

Pode ser até comparado com a Ditadura de 64 em vários pontos comuns, mas seu espelho é a República Velha – a oligarquia que vai de Prudente de Moraes em 1894 a Washington Luiz em 1930.

Em relação a Ditadura de 64, a dependência e o rentismo são característica de diferenciação. Embora fosse tão antidemocrático e golpista quanto o regime atual, a Ditadura de 64 mostrou-se desenvolvimentista e nacionalista.

Existem outras diferenças. O regime da Ditadura de 64 tinha um projeto de país – o “Brasil Grande”, o regime atual defende apenas os interesses dos oligarcas.

Embora houvesse sérias diferenças entre os grupos que comandaram o país a partir de 64, havia um ponto de aglutinação das forças golpistas – o presidente seria sempre um militar, um general do exército de quatro estrelas saído das fileiras do Exército.

A oligarquia atual, ao contrário, deverá governar por prepostos.

As contradições de um modelo inviável

Todos os homens do presidente

A primeira contradição desse modelo oligárquico que está sendo-nos imposto está justamente na sua necessidade de prepostos. A oligarquia necessita de um novo FHC. Essa figura seria Alckmin. O poder oligárquico exercido se enxergando no seu representante. Mas seu partido, o PSDB, está dividido. Dois grupos irreconciliáveis, Alckmin e Serra, sem a possibilidade de acomodação que ocorreu com FHC e Covas.

Temer e seu PMDB não são representantes dessa oligarquia e muito menos lhe são confiáveis. Temer foi a solução menos traumática para a deposição da presidente. Mas o seu PMDB é formado por políticos escolados e rasteiros. Gananciosos e que cobram caro e exigem pagamento à vista. Tampouco eles que se arriscaram saltando do barco do governo Dilma estão a fim de entregar o poder que conquistaram. E ainda há Eduardo Cunha – um homem bomba a ser preservado.

Além disso, cada deputado e senador golpista quer a sua parte no butim.

 O fim da Lava Jato

A Lava Jato e o Judiciário e a  Polícia Federal antipetistas são o DOI-CODI do governo oligárquico. Na Ditadura de 64, com o aniquilamento das forças resistentes ao golpe, a “comunidade de informações” tornou-se um poder dentro do poder.

O mesmo deverá ocorrer com a Lava Jato ao fim do expurgo petista. Com um agravante, não há disciplina militar aplicável ao Ministério Público. Com as carnes de quem a “tigrada” será mantida saciada?

O não milagre brasileiro

A Ditadura de 64 foi, durante algum tempo, um momento de desenvolvimento industrial e de progresso material trazido pela rápida urbanização de um país, então, ainda essencialmente agrícola.

Enquanto a população percebeu melhorias em seu padrão de vida, a ditadura foi tolerada sem maiores problemas. O “milagre brasileiro” ensurdeceu ouvidos em relação aos gritos vindos dos porões.

Ocorre que, pelo próprio modelo oligárquico atual, haverá concentração de renda e perda de direitos sociais. Não haverá milagre.

E a comparação com o governo Lula será inevitável. Primeiramente por parte dos trabalhadores e, logo após, pela classe média. Não sei em que configuração veremos os novos “operários do ABC”, mas os veremos.

E, nesse momento, o PT não será mais o espantalho atual e sim a doce lembrança de um tempo que já foi melhor.

Não é por menos que a Rede Globo já recomeça com seu slogan “nunca fomos tão felizes”. é necessário convencer o povo de que a vida melhorou.

A reunificação do discurso da esquerda na oposição e as mídias sociais

Todo o período da Ditadura foi de grande efervescência cultural. A “inteligência” era de esquerda. Mesmo sob a repressão mais violenta o discurso oposicionista unificado encontrou meios de manter se ativo e em um crescendo até culminar nas “Diretas Já”, e isso movido a mimeógrafo.

Quando, daqui a pouco, a oligarquia mostrar a sua verdadeira cara haverá um enorme número de celulares para fotografá-la com suas câmeras digitais e postá-la nas redes sociais. E um batalhão de meninos e meninas compartilhando “como nunca antes na história deste país”.

Nenhum deles assiste à  televisão, nenhum deles lê jornais e revistas. Rádio, só o elemento químico. CBN é coisa do “tiozão do taxi”.

E este é o primeiro tópico neste texto que não é uma janela para o passado.

Com as redes sociais dispersando e recombinando informações e ideologias em um processo mais próximo da Teoria do Caos que o da manipulação midiática da informação, talvez seja este o último golpe.

Haverá futuro.

E mais não digo, porque já que me é muito dolorido, depois de tantos anos, mais uma vez, ver-me obrigado a dizer “amanhã vai ser outro dia”.

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