A nova República Velha – o golpe

Qualquer análise sobre o Brasil atual necessita, para fazer sentido, de considerar que não vivemos mais em um regime democrático. A partir do afastamento de Dilma Rousseff instalou-se no Brasil uma oligarquia.

A nova República Velha

Quando consideramos o pressuposto do regime oligárquico, todas as incongruências do nosso momento se explicam. O mais abjeto corporativismo é a forma estrutural das oligarquias.

A oligarquia é uma forma ilegítima de poder, donde não há porque não chamar de golpe modo pelo qual assumiu o poder.

Uma oligarquia, com a desculpa antecipada pelo pleonasmo, é essencialmente antidemocrática, ainda que possa ser populista. Mas, no caso do Brasil, o país da casa-grande e da senzala, essa oligarquia é demófoba e antinacionalista.

A oligarquia dependente

Para descrever como atua ideologicamente o grupo que tomou o poder no Brasil, farei uso das palavras do professor Bresser-Pereira que assim o descreve em uma explicação sobre a “Teoria da Dependência”:

“a coalisão de classes  dependente é a situação em que as elites locais, econômica, políticas e intelectuais, em um processo de alienação, preferem se associar de forma subordinada às elites dos países ricos, notadamente os EEUU, em vez de se associar ao seu próprio povo. Sujeitas à hegemonia ideológica dos países ricos, são incapazes de se constituir como nação, resultando na adoção de políticas econômicas antinacionais – políticas que não atendem aos interesses do desenvolvimento nacional e que não interessam ao país, mas aos países dominantes”.

Faltou ao professor acrescentar “políticas que não atendem aos interesses do desenvolvimento nacional, mas aos interesses dessas elites que obtém ganhos individuais alienando o patrimônio coletivo do país aos interesses estrangeiros”

A partir daí, não parece difícil entender as razões do nosso Procurador Geral da República e dos procuradores da Lava Jato viajarem aos Estados Unidos para receber instruções vindas da “cooperação internacional” que esse país pratica com os países que aceitam tal “cooperação”.

Assim como parece se prover de lógica a destruição das nossas empresas de engenharia de construção pesada e naval, bem como a alienação do pré-sal. Lógicas também passam a ser as ações do senador e “chanceler” José Serra.

Ascensão ao poder não democrático.

É a mesma oligarquia que vem sustentando e derrubando governos desde o 2º Império. Esteve no poder de 1889 a 1930. Contra Vargas, guerreou  em 1932 e conspirou em 1954, apoiou a Ditadura de 1964 e renegou-a quando do seu ocaso. Na redemocratização, passou a governar por prepostos – Temer é mais um deles. Collor foi um erro de avaliação – elegeu-o e derrubou-o. Voltou ao poder com FHC, caiu com ele.

Lula é seu antípoda.

Soube, no entanto, se aproveitar do ápice da democracia brasileira, as Jornadas de Junho de 2013 e dos efeitos da Crise de 2008 para retomar o processo de conspiração que sempre a caracterizou.

A oligarquia que nos governa, a partir de maio de 2016, é formada na sua base pelo poder econômico rentista e pela mídia hegemônica e conservadora. Seu elemento de força para o exercício do poder não democrático é a arregimentação de partes do Poder Judiciário e da Polícia Federal.

Assenhorado esse poder de coação, atuou em duas frentes políticas.

Uma no Congresso Nacional, por um lado apoiando e protegendo o grupo formado pelos políticos patrimonialistas derrotados por Lula em quatro eleições consecutivas, e, por outro, constrangendo a base de apoio não ideológica Dilma Rousseff – que fisiológica e corrupta aderiu ao poder oligárquico como forma de proteger-se. A eles juntaram-se os pura e simplesmente traidores.

Outra junto à parte da classe-média conservadora e reacionária instrumentalizando os seus preconceitos em relação aos símbolos que cercam a figura de Lula. E levando às ruas com ações de marketing voltadas a eventos de massa.

Estabelecida essa base de sustentação, seguiram-se a perseguição e o aprisionamento da estrutura de comando do Partido dos Trabalhadores e a intimidação da parte do Judiciário e da intelectualidade não adesista.

Aos amigos tudo, aos inimigos a fria letra da lei. E do direito penal do inimigo. É típico das oligarquias.

É constrangedor, ainda que compreensível, assistir ao papel que vem desempenhando o STF no processo de impeachment e revoltante as agressões a que vem sendo submetidas figuras públicas que não apoiam o golpe e assim se manifestam.

Onde está o exército do Stédile?

Caberia aqui questionar porque não houve reação ao golpe a ponto de impedi-lo. E poderia se buscar a resposta fácil de que ninguém defende um governo que não se defende.

A resposta, porém, parece-me muito mais complexa. E talvez, dada a sua complexidade, não sejam estes o espaço e o momento adequados. Mas deixo alguns pontos de reflexão:

O PT no poder: nossa revolução sem Bastilha e sem guilhotina

No Brasil, manda quem pode: Lula podia?

A formalização do poder

Mesmo já tendo assumido o poder, é necessário dar ao golpe algum verniz institucional. Nem que somente para evitar-se questionamentos internacionais. Daí o circo do impeachment. Daí a oligarquia dar-se ao trabalho de uma encenação sem mais nenhuma credibilidade.

E que não pareça que o longo e desgastante processo de impeachment contemple alguma concessão ao direito de defesa de Dilma Rousseff ou uma possível reversão do resultado já decidido.

Trata-se antes da “estratégia da graduação” de Noam Chomsky: “para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente. Passo a passo ao longo de um período de tempo que dure o suficiente para que se amorteça na opinião pública uma mudança que por si só teria provocado uma revolução se tivesse sido aplicada de uma só vez”.

Até porque, para efeitos práticos o golpe já está consumado desde 17 de abril de 2016.

 

PS1: Michel Temer, até por suas mesóclises, não faria feio no papel de genro bem-educado de um dos barões do café da República Velha. Até na imagem representa um retrocesso a um passado oligárquico.

 

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