Uma cena dura de uma cidade endurecida II

Republico um texto de 15 de maio de 2015. Novos fatos surgiram e a cena, que já era de uma crueza de rasgar as vestes verde-amarelas, se reveste agora de mais uma tragédia pessoal, a deficiência… de caráter.

ética seletiva1

Uma sexta-feira, em um restaurante da capital paulista, um rapaz visivelmente pobre… de espírito chama a atenção dos presentes batendo em uma taça de vidro e faz o seguinte discurso:

“tim… tim… tim…

por favor, peço a atenção dos senhores por um segundo,

eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando,

eu poderia estar batendo… em panelas

mas eu estou aqui pedindo a ajuda de vocês,

acessem minha página no FB, assistam meu vídeo no Whatsapp,

eu acredito que vocês têm pelo menos um like que podem me dar

e que será de grande ajuda,

se cada um aqui puder me dar um joinha que seja

meu egozinho vai dormir alimentado, esta noite.

Agradeço do fundo da minha alma… pequena,

e que Deus devolva em dobro a cada um de vocês”.

Mais um caso de pessoa carente… de senso de ridículo, buscando migalhas… de notoriedade. Degradada em praça pública pela necessidade… de se aparecer. Uma demonstração de oportunismo, um exibicionismo que deveria comover-nos, quando não, envergonhar-nos, mas quem ainda se importa?

Os garçons passavam pelo rapaz como se ele não existisse, nenhum dos presentes se condoeu com seu drama, sequer interromperam seus almoços.

Foi de cortar o coração, somos uma cidade de homens endurecidos.

Pensei comigo:

“um rapaz tão jovem e já na mendicância, implorando por uma dose… de atenção”.

Parecia vir de uma família boa, com um futuro todo pela frente e já não era mais do que mais um warholaholic.

Como ele, existem outros tantos. As vezes em bandos perambulando pela Avenida Paulista em alguns desses domingos quaisquer. Até crianças são vistas entre eles.

Não podem ver uma câmera, um mísero iPhone que imediatamente começam a disparar suas selfies.

E pensar que o efeito dessa droga dura só 15 minutos, depois saem por aí, desesperados a procura de mais, mais e mais.

Para satisfazer esse vício, chegam a roubar… a cena da qual necessitam deseperadamente.

Agridem pessoas, se for preciso.

Esse vício é uma maldição, a maldição de Andy Warhol, a maldição do “Plim Plim”.

A situação toda foi filmada, são imagens fortes, aviso.

Estão aí embaixo:

 

PS: atualizado em 21 de junho de 2016. Uma reportagem Julia Duailibi na Piauí identifica o rapaz da cena e a torna mais dura ainda. Trata-se de um portador de deficiência – nanismo de caráter: “protagonista de uma cena de agressão a um político petista, o advogado Danilo Amaral aparece 18 vezes na delação premiada da família Machado. Amaral, que hostilizou Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde de Dilma Rousseff, numa churrascaria em São Paulo, é sócio da Trindade, “butique de investimentos” que recebeu 30 milhões de reais do esquema do petrolão”

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s