Inscreva-se no curso de pedagogia – uma carta a Hélio Schwartsman

Escola Tradicionalista

Prezado Hélio,

uma revelação e uma surpresa o seu texto de 16 de junho de 2016, na Folha de São Paulo – “Erros saíram, mas desequilíbrio continua em nova base curricular”.

Uma revelação, porque você se revelou. Desde meados do ano passado, interessava-me saber quem era o editorialista da Folha que tecia críticas tão ácidas a respeito da nova BNCC – Base Nacional Comum Curricular, ora em elaboração pelo MEC. Tal editorialista, sobremodo avinagrado, é você.

O que penso de suas colocações deixei em ”E, no entanto, eles nos temem”.

Não, seu texto atual não assume a paternidade dos editoriais, mas você sabe melhor do que eu que o estilo revela o homem mais do que a carteira de identidade.

Surpresa, por ser você o autor. Pelo teor dos escritos, julgava o autor um velho conservador. Você é jovem. E, ainda que tenha se endireitado muito, nos últimos tempos, não o julgava um conservador ferrenho defensor do eurocentrismo. Talvez devesse dizer americanófilo. E, não nos enganemos, a Doutrina Monroe não tornou os EEUU dos brancos menos eurocentrados.

E por que o americanófilo?

Porque essa é a base da sua crítica à proposta da nova BNCC. Ela não seria suficientemente americanófila, e todos sabemos que o que é bom para os EEUU é bom para o Brasil:

“Os americanos, por exemplo, por entender que língua e matemática têm um caráter muito mais básico e instrumental do que as outras disciplinas, limitaram seu “common core” (base comum) a essas duas matérias. Por aqui, na contramão do que fizeram os norte-americanos, seguiu-se uma lógica mais corporativista. Todas as disciplinas precisam estar paritariamente representadas na base curricular, de preferência ocupando o mesmo número de páginas.”

A crítica ao “corporativismo” está na moda aí na Folha – agrada o patrão. Mais um pouquinho, e você metia um “aparelhamento petista” no texto. Controlou-se a tempo. Mas convenhamos, forçou a barra.

“Na verdade, ao igualar ginásticas, dança, música, teatro, artes visuais, esportes, brincadeiras e jogos aos mais fundamentais português e matemática, a BNCC acaba mesmo é desequilibrando o currículo”.

Hélio, por certo você já ouviu falar em inteligências múltiplas. Sem dúvida, um pouco mais de matemática e português teria ajudado Garrincha. Mas não faria dele um gênio maior do que foi. Sua genialidade estava no campo da inteligência espacial e, principalmente, corporal-cinestésica.

Não, Hélio, isto é linguagem técnica, não “pedagoguês”.

Na hipótese que você defende, de quantos Garrinchas em formação abriríamos mão para termos mais homens conhecedores da fórmula de Bhaskara, mas sem saber o que fazer com ela?

Hélio, você já ouviu falar em PPP – projeto político pedagógico? Sim, educação é uma atividade essencialmente política. E ideológica, qualquer modelo que se adote. Os americanos – ou os japoneses – nada têm a nos ensinar. Pelo simples fato de que não somos americanos, nem japoneses. Nós somos os únicos responsáveis pelas nossas futuras gerações. Há experiências outras que podem ser consideradas, mas não há modelo que calce nosso número. Nós, e somente nós, teremos de construí-lo. E construí-lo ao nível das comunidades a que a escola servir.

Hélio, não sou tolo ao ponto de discutir consequencialismo com você, nem o Padre Nosso com o Papa Francisco, mas, é óbvio que ensinar história europeia ou africana e ameríndia tem consequências no povo que surgirá a partir dessa educação. Assim como priorizar uma disciplina ou outra.

Que interesses estão em jogo?

Por exemplo, futuros bons trabalhadores devem conhecer matemática e português para desempenharem bem suas tarefas. Para ser capazes de utilizarem-se de autoestudos na sua qualificação profissional – reduzindo-se, assim, os custos das empresas em treinamento dos seus funcionários.

Para que ensinar-lhes filosofia nas escolas públicas? Filosofia não serve para nada. Pelo menos, para nada que seja útil.

Certo, Hélio?

Um abraço, deste ex-operário do ABC paulista, químico, pedagogo e com pós-graduação em administração, que seria muito feliz se ganhasse a vida como guitarrista de blues.

PS: esta carta foi realmente enviada a Hélio, que fez-me a gentileza de responder:

Sergio, bem, em primeiro lugar, devo esclarecer que não escrevi nenhum dos editoriais da bncc. Não tenho nada contra qualquer coisa q queiram inventar, desde que não tirem a Grécia e a gramática do currículo.

Abs.

H

 

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