Houve um tempo em que sonhamos

Houve um tempo em que sonhamos. Um sonho de índio, impávido que nem Muhammad Ali, apaixonado como Peri, tranquilo e infalível como Bruce Lee. Sou da última geração que sonhou, mas o sonho acabou.

Muhammad Ali

Esta semana, mais um ídolo, um ícone da minha geração se foi. À bem da verdade, foi-se depois de vários da minha geração já terem ido antes dele. Morremos jovens, não nos deixaremos ídolos para ninguém. Fomos a última geração que teve ídolos.

Mas houve um tempo em que sonhamos. E Cassius Clay – como o conheci – ou Muhammad Ali, como fez-se chamar, foi parte desse sonho.

Houve um tempo em que sonhamos, em meio a uma guerra de velhos onde morriam jovens, em meio a uma ditadura de velhos onde morriam jovens, que a vontade de um homem poderia mudar o mundo. E Ali parecia confirmar esse sonho.

Um jovem preto que se recusou a lutar a guerra dos brancos. E tornou-se um símbolo dos que buscam a paz em um mundo que sonhava ser feito de homens iguais em direitos. Paradoxalmente, um homem que arrebentava cabeças com seus punhos, tornou-se um símbolo da paz.

Houve um tempo em que sonhamos que era possível dançar como uma borboleta e picar como uma abelha. Houve um tempo em que sonhamos que era possível endurecer, mas sem perder a ternura jamais.

Os mais lúcidos já diziam: acreditávamos em flores vencendo canhões.

Mas, hoje, mesmo os mais lúcidos enlouqueceram, envelheceram. Hoje, escrevem nos jornais ataques aos sonhos, como nossos pais.

Hoje, patrocinados pelos mesmos brancos que prenderam o jovem preto, outros jovens, pelas ruas, sobem em caminhões com dois mil alto falantes para convocar o povo à luta por um governo da disciplina e da ordem – da “meritocracia”. Há tragédia maior que um jovem de extrema direita?

Nem ídolos, nem sonhos. O que legamos a essa geração? Onde a perdemos?

Houve um tempo em que sonhamos um Cristo contracultural. Um Cristo com jeito de hippie, cabelos e bardas longos, com cara de maconheiro, que pregava que o mal não entra pela boca do homem, que os aflitos serão consolados, que os que têm fome de justiça serão saciados e os mansos de coração herdarão a Terra. Que pregava que o amor era o caminho, a verdade e a vida.

Hoje, esse mesmo Cristo veste paletó e gravata e aos berros proclama que o amor é pecado, que qualquer forma de prazer corrompe e que só a ordem salva. Um Cristo que veio para salvar o justo e punir o pecador. E que cobra o dízimo em dinheiro vivo, no boleto bancário ou cartão de crédito, com a devida senha. Um Cristo como seu pai. Um Cristo sem sonhos e velho como o testamento do seu pai.

Houve um tempo em que sonhamos fazer amor e não fazer a guerra. Sonhamos amar sem temer. Hoje, fazemos sexo com meninas chapadas de álcool e drogas. Masturbamo-nos usando corpos alheios.

Depois de exterminada a última nação indígena e o espírito dos pássaros das fontes de água límpida, não restou sonho algum. Apenas o pesadelo de estupradores ditando regras ao ministro da educação.

Mas houve um tempo em que sonhamos. E Cassius Clay – como o conheci – ou Muhammad Ali, como fez-se chamar, foi parte desse sonho.

PS1: esta semana, mais um menino preto foi morto pela polícia paulista – tinha 10 anos. Clay tinha 12 quando começou a treinar boxe porque roubaram sua bicicleta. Ítalo algum dia sonhou com uma bicicleta? Um policial sacou sua arma, fez mira contra o motorista atrás dos vidros escurecidos de um carro furtado e puxou o gatilho. O que sentiu ao abrir a porta e ver a cabeça do menino varada pela bala da sua pistola? Enxergou o rosto do filho? Um homem assim sonha? Espanta-me que consiga sequer dormir.

PS2: este fim de semana, esta Oficina estará de plantão preparando uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.

 

 

 

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2 comentários

  1. Bonito demais.
    Ainda sonho, Sergio: dançar e picar sem perder a ternura, sem perder a maciez. Fazer amor, noite e dia, e espalhá-lho pelos campos e pelas gentes. Endurecer para ensinar. Há tempo. Sempre, para sempre, haverá. “Um meigo tuxaua…”. Traga-nos tua canção e alegre-nos o coração para o sono inocente. Deixo para você, e os vedas e espíritos puros, a canção do indígena. Que ele te cubra de penas e flores e abençoe com a Água Viva das matas.

    Bom domingo e boa semana.

    Canção do Indígena

    Um meigo Tuxaua
    Chega até nós
    Unindo as mãos
    Ele ergue a voz
    Em prece de Amor
    E de Alegria
    Espalha ao redor
    Divina energia
    Que trouxe das matas
    e das cordilheiras
    Dos rios das fontes
    E das cachoeiras
    Das flores, das aves
    De todos (os) irmãos
    Que habitam a floresta
    Em evolução
    As nuvens se fendem
    Em imenso clarão
    Quando ajoelhado
    Ele beija o chão
    E canta feliz
    Sua prece canção:
    Tupã, Tupã, Tupã
    Tupã, Tupã, Tupã
    Tupã, Tupã, Tupã
    Tupã, Tupã, Tupã…

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