Os bons tempos voltaram

Por paradoxal que seja, poucos acontecimentos poderiam alavancar tanto a popularidade da presidente Dilma e valorizar de tal modo o governo do PT quanto a sua substituição por Michel Temer e sua turma.

Temer toma posse

O que é o ministério Temer?

Uma troupe de canastrões perdidos em cena – parlapatões. Cada um mais espetaculoso que o outro em suas declarações públicas e inapropriadas. Não só na aparência não demonstraram nas sequer duas semanas de governo ter qualquer agenda, coordenação, plano ou ideia do que lá faziam.

Penso eu, como é possível?

Queixavam se da herança maldita. Mas o PMDB não era governo antes de ser governo. O PMDB não tinha assento em seis ministérios no governo derrubado por ele próprio?  Ciência e Tecnologia, Agricultura, Saúde, Portos, Aviação Civil e Turismo? Kassab não era ministro de Dilma que trocou de casaca, chapéu e pasta e tornou-se ministro de Temer?

Herdeiros e traidores de si mesmos.

Bom era no tempo de Dilma, quando o Brasil parecia ter alguém no comando.

Na área econômica, Meirelles assume e propõem como solução o que Dilma propunha. Corte gastos da previdência através de uma reforma e recriação da CPMF. E a mesma dificuldade em emplacar qualquer uma das duas medidas no Congresso. Já falam até em deixar as medidas mais impopulares para depois das eleições municipais. Esqueceram se do calendário, até lá Dilma já estaria de volta com o apoio dos mesmos empresários que forraram a caixinha do impeachment.

Interessante ver que a imprensa agora diz sem admitir que Dilma estava certa – sem a CPMF não há solução. E o pato do Skaf? Skaf agora é pinto?

Aliás, onde estão Kataguiri e os outros revoltados? Os domingos andam monótonos e as varandas silenciosas. Nas ruas só o vermelho das camisas da seleção da China. Que saudade da amarelinha lutando contra a corrupção. Que saudade dos artistas da Globo e do morobloco.

Por onde andará Sergio Moro e o mais novo capítulo da Lava Jato antecipado nos jornais e revistas semanais? O Jornal Nacional sem caras e bocas, sem interpretações indignadas – só aquele noticiário morno das velhas cabeças falantes do tempo da ditadura. “O país aguarda pelo anúncio do governo das novas medidas para o crescimento da economia”.

Bom era no tempo de Dilma. Após o Jornal Nacional muita gente desligava a televisão e nem assistia a novela – já tinha esgotado sua cota de emoção apenas com o noticiário.

Por onde andará Aécio Neves, Paulinho do Patrão e Roberto Freire? Perderam o bonde e ficaram de fora do governo Temer. Não foram os únicos.

Em governo de macho, mulher, boiola e otário não têm vez.

Em compensação, estão de volta Silas Malafaia e Marco Feliciano e suas preces pelo bom andamento dos negócios. Pastor agora é cargo diplomático – tem até passaporte para representar o país no exterior.

O Brasil já se tornou potência sob o comando firme do chanceler José Serra. O Itamaraty passou falar grosso com a Bolívia. Só falta aquela foto do Clinton encoxando o FHC – que sorriso mais maroto. O do FHC.

No entorno do Alvorada, quem cuida da circulação das pessoas é novamente um general de quatro estrelas. Não via isso desde o general Newton Cruz e seu controle do volume das buzinas a golpes de rebenque.

Estamos de volta a Cannes com filmes denunciando a opressão.

Shows de artistas pelo país pedindo a volta da democracia. Não via isso desde o general Figueiredo e do Rio Centro.

Diretas quando, meu povo? Diretas já.

Quantas saudades. Os bons tempos estão de volta.

Somos outra vez um país do futuro.

 

PS1: vendo a confraternização de Dilma com as multidões, pergunto-me dolorosamente: por que só agora, Dilma?

PS2: Eduardo Cunha deve erguer uma prece a Teori Zavascki. Ao tirá-lo dos holofotes da presidência da Câmara dos Deputados, devolveu-o ao território onde é mais poderoso – as sombras.

PS3: Temer prometeu a Alckmin um governo somente até 2018. Para garantir o cumprimento da promessa, Alckmin colou em Temer ninguém menos que seu buldogue. E no Ministério da Justiça – aquele que controla a Polícia Federal. Se nem Alckmin, carola de sacristia, acredita nas promessas de Temer, quem acreditaria? A velhinha de Taubaté. Aliás, não ouvia falar dela desde Figueiredo também.

PS 4: esta Oficina tem um elogio a fazer ao governo Temer: é divertido. Tragicômico, mas divertido. Ou seja, governo Temer – só dói quando eu rio. Para quem é do tempo do Pasquim. Bons tempos.

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1 comentário

  1. Sergio,
    não há nobreza em quem deveria te conceder. E você merece. Te concedo então eu pois que eles não teriam a coragem nem a honra: “Touché”.
    Direto ao ponto, o toque preciso no coração. Teu florete não perfura, mas a incisão do argumento irrefutável é ainda mais dolorida, e deste, sem réplica possível, não podem fugir.
    Você também pode bradar: “Touché!”
    É de lavar a alma. Quando há integridade os erros são aceitáveis. Dilma que o diga. Mas quando o motor é a vilania, a insídia, a tomada à força e ilegal, não há excusas possíveis.
    Li para meus pais, horrorizados com a novela que se repete para desgosto deles e compartilhei.
    Lapidar. Preciso. Conciso. Direto.
    Quando eu crescer, quero saber escrever assim.
    Bacana. Demais.
    SLP.

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