Triste a nação de poetas traiçoeiros

Agostinho Neto

Porquanto chega a mim que temos agora um poeta a dirigir o país penso: feliz a nação que tem intelectuais, operários, mulheres guerreiras e, grande felicidade, poetas assumindo o poder.

Triste a nação que vive de meias verdades.

Meias verdades são mentiras inteiras.

Triste a nação de poetas traiçoeiros.

Das rimas pobres de falsos poetas já bastam as minhas.

Que são falsas e pobres, mas não atraiçoam.

Tão somente fingem ser dor a dor que deveras sentem.

De homens probos já bastam os punguistas dos quais me defendo nas ruas.

Esses que no Congresso bradam pela probidade são vomitórios.

Safados conhecidos. Quais dos seus crimes é segredo?

Camarilha.

Perderam a vergonha e o medo.

Escarnecem da nação.

Ladrões apontando o dedo na cara dos honestos.

 

PS: na falta de poetas e presidentes que assim possam ser chamados:

Ainda a minha vida oferecida à vida, ainda o meu desejo.

Ainda o meu sonho, o meu grito, o meu braço a sustentar o meu querer.

O meu desejo transformado em força inspirando as consciências desesperadas.

Aspiração – Agostinho Neto, poeta e 1º presidente de Angola.

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2 comentários

  1. Ah, Bardo! Nem falsas, nem pobres. Qual lâminas frias, trespassam a sensibilidade e a memória afetiva, e as ativam, e por contraditório pareça, aquecem o coração e alimentam a alma. Não atraiçoam, não simulam. Ainda que nelas a dor, nelas o puro, o reto, o limpo. Há poetas… e Poetas há!!! Obrigada Poeta. Grande Poeta.

  2. TEMPO DE ADVERTÊNCIA
    Marcelo Mário de Melo

    O sonho encurralado
    roupa emprestada
    falso brilhante
    aliança de latão
    fala morna
    gesto curto.
    defensiva.

    No cinza espesso
    jornada
    em trilha solitária
    ou bando
    enquanto
    ratos regem
    marcha-ré.

    Mais uma vez
    para depois
    muito depois
    a hora de florir
    e de colher.

    E tempo agora
    de advertir
    e sem saber
    a quantos tocará
    a flauta dos clamores.
    Nada a fazer
    senão filtrar a luz
    puxar o fio
    erguer a voz
    seguir a estrela
    despidos diante do espelho.

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