Carta de amor a Fernanda Torres

Fernanda Torres

Fernanda, acompanho você na Folha de São Paulo desde sua chegada por lá. Foi em 2010. Um ano especial, de mulheres especiais. Saudei-a, então. Hoje, preocupo-me.

Seus textos tem-me causado espécie. Que mais dizer de ”Romanos” na Folha de 29 de abril de 2016?

Estes tempos belicosos parecem que mexeram com alguma coisa dentro de você.

“Passei os últimos dez anos culpada por fazer parte da elite espúria. Hoje, sei que sou minoria”.

Qual elite, Fernanda? Quanto à minoria, o 1% mais rico, por exemplo, no Brasil ou na Finlândia, sempre é minoria. Maioria são os 99%. Mas na Finlândia, isso parece não incomodar. No Brasil, um país ainda tão desigual, como poderia deixar de ser espúrio? Tão espúrio, que, às vezes, tem quem se autoengane, pleiteando uma tal de meritocracia.

Mas já foi pior, Fernanda. Houve tempo em que fazer três refeições por dia chegava a pesar na consciência se lembrássemos dos que àquele momento passavam fome.

Muita coisa melhorou neste país nos últimos trezes anos. Dá até para se sentir menos espúria, ter menos do que se culpar, mesmo sendo “minoria”? Quando todos comem, é sempre mais fácil.

Mas não queremos só comida, não é Fernanda? E aí, quando pobre começa a andar de avião, é que se vê o que é elite espúria.

Fernanda, você conhece o louva-deus?

Nesta fauna que brota do caldeirão de preconceitos que a crise política brasileira está fazendo ferver, existe um tipo de intolerante que me faz lembrar um louva-deus. O pretenso isento. Marina Silva, por exemplo, sempre lembra-me uma louva-deus. Poucos animais são mais predadores.

De repente, comecei a ver você também como uma louva-deus. A mais bonita que eu já vi, mas não menos louva-deus.  Foi por causa desse tal “Romanos”.  Tem jeito de zen, como um louva-deus, mas quanto preconceito não está lá?

Fernanda, no meio de uma história sem pé nem cabeça sobre revelações em uma sauna gay – você faz cada malabarismo, moça – você sai-se com esta: “fora o delírio do pré-sal, que alavancou a ganância do Petrolão, a campanha eleitoral de 2014 se valeu de artimanhas arcaicas, vindas de um partido que jurou dar cabo desse modelo”.

Fácil sentir o cheiro do pior antipetismo. Aquele que culpa o PT por ter vencido jogando com as regras do jogo. Regras que não foram criadas por ele.  Mas, óbvio, Fernanda, você não tem nenhum preconceito contra o PT, creio mesmo que “até já votou no Lula, mas depois sentiu-se traída”. Já ouvi essa história até da Janaina Paschoal.

Vamos em frente: “Jamais esqueci da promessa do Bolsa Mobília, feita no rádio pela então candidata, de distribuir cama, mesa e sofá em troca de votos. Houve maquiagem no rombo das contas públicas e gastou-se os tubos em computação para fazer o feijão sumir do prato”.

Interessante, das promessas dos outros candidatos parece que você não se lembra mais. Interessante, Fernanda, uma pessoa de teatro não perceber o grande teatro chamado campanha eleitoral.

Fernanda, o ator mente quando está em cena?

“Que diferença existe entre isso e a troca do voto por um saco de açúcar, praticada nos eternos currais eleitorais?”.

Vida de gado.

Fernanda, você não sabe o que é um curral eleitoral. A diferença chama-se Bolsa Família. Com ele, o pobre não precisa se humilhar beijando a mão do coronel, o dono do curral, para receber o tal saco de açúcar. Simplesmente vai ao comércio mais próximo, compra e paga em dinheiro. É essa dignidade que ele protege e mantém quando vota em Dilma.

O povo é sábio.

“Chocante é perceber que os dois partidos progressistas, PT e PSDB, tal qual Caim e Abel, preferiram cultivar o ódio mútuo, firmando acordos escusos com o que havia de mais retrógrado no Congresso, a se aliar, ou mesmo dialogar em prol do país”.

Não, Fernanda, não me venha com essa ladainha pseudoisenta de PT e PSDB iguais em seus erros. Não o são nem para você, veja a quem você dirige as críticas no seu texto. Aliás, você reparou no seu ato falho? Caim matou Abel. Abel tinha sido o escolhido por Deus e Caim não suportou não ser o preferido. Não te lembra em nada a Aécio Neves?

A voz do povo é a voz de Deus. Apoiar impeachment é pecado.

Você parece esquecer-se das agressões a figuras associadas ao PT. Pessoas da mansidão de Guido Mantega e da cordialidade de Chico Buarque foram agredidas. Quem é Caim, quem é Abel? Que lado tem fomentado o ódio? Pergunte ao Lobão.

Fernanda, PSDB e PT não são os mesmos principalmente nos acertos. Veja quem ganhou com o governo de cada um.

Fernanda, é cansativo ter de trazer esses dados novamente, mas vá lá. Quando o PSDB deixou o governo em 2003, o salário mínimo era de menos de 100 dólares e o desemprego estava em 12,6%.  Dez anos depois, com o PT no poder, em 2013, antes de iniciar-se essa loucura toda, o salário mínimo era de 340 dólares e o desemprego estava em 4,3%.

Sim, há uma diferença. Não pense que todo esse ódio ao PT é gratuito.

Você fecha o seu texto batendo em Eduardo Cunha. Fiquei impressionado com a sua postura ética, Fernanda. Você não apoia Eduardo Cunha, é isso?

Apoia sim, Fernanda.

Fernanda, somos da mesma geração. Na verdade, você é seis anos mais nova que eu. Aprendemos na nossa juventude, vivida na ditadura, que quem não tem lado está do lado dos poderosos. Cunha é o homem mais poderoso do Brasil de hoje, Fernanda.

“Cabe aos sobreviventes reorganizar as trincheiras e escolher melhor os aliados”.

Fernanda, desde quando escolhemos aliados, bem ou mal? Os que escolheram aliados foram os deputados que votaram pelo impeachment no domingo retrasado. Oportunistas, sem nada a defender, além dos próprios interesses, escolheram o melhor aliado. O Paulo Skaf.

Verdadeiros aliados não se escolhem, apaixonamo-nos por uma causa comum. Isso nos torna aliados.

Qual a sua paixão, Fernanda? Você tem fome de quê?

Por fim, Fernanda, sua mãe continua devota de São José Operário? Se sim, neste 1º de maio, por favor, peça a ela uma benção por mim.

 

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