Quando certa manhã o Brasil acordou de sonhos intranquilos…

O Brasil acordou segunda-feira como quem acorda de uma farsa e se pergunta: que faremos agora?

17abr2016

Na manhã de 18 de abril de 2016, deveria ter escrito um texto sobre os acontecimentos tormentosos do dia anterior. Não pude. Não saberia o que dizer. Nada do que acontecera na noite anterior era imprevisto, mas tudo havia mudado e ficara como sempre fora antes.

As figuras que derrubavam a presidente eleita através de um processo insólito e usurpavam seu posto eram as mesmas desde todos os governos da redemocratização até aquele dia. Era o passado prometendo-nos uma ponte para o futuro. Era uma farsa.

Uma bizarrice entre Kafka e Lampedusa.

Permiti-me o dia para ler a opinião de vários para formar a minha própria. Nada consegui, nada pareciam ter a dizer os que se posicionavam a favor e contra. Talvez Mino Carta, ao final do dia: todos perdemos.

Sim, era isso, todos parecíamos saídos de uma grande farsa. Como tecer comentários sobre algo que não passa de uma grande farsa coletiva, quando essa farsa finalmente chega ao fim?

Como juristas podem aceitar como crime de responsabilidade algo que sabidamente não é crime e que foi praticado por todos os governos anteriores que tiveram suas contas aprovadas? Fingiram aceitar – era farsa.

Que credibilidade pode ter um relatório do TCU contra a presidente quando o ministro relator é investigado no STF e o ministro presidente do mesmo tribunal está também envolvido em acusações de corrupção?  Credibilidade nenhuma – é das farsas. Seguiu em frente como fora uma peça do mais alto valor jurídico.

E assim vai-se de farsa em farsa.

O presidente da Câmara dos Deputados é réu no STF. Como figura pública transita entre o psicopata e o gangster. A maioria dos integrantes da comissão que analisou o pedido de impeachment está envolvida na Operação Lava Jato. Não tiveram nenhuma dificuldade de encenar seus papeis. Todos sabiam ser farsantes, mas jamais tiveram sua autoridade questionada.

A leitura do relatório do pedido de impeachment foi mais um momento ridículo da farsa que foi todo o processo. O relator, que tampouco escaparia de uma investigação por improbidade, lia tartamudo um relatório que deveria ser o “seu” relatório e fruto de profundas e graves discussões, mas que parecia tê-lo visto apenas algumas horas antes, tal sua estranheza com o mesmo. Era em tudo uma farsa – foi repercutida pelo noticiário em rede nacional. No dia seguinte, jornalistas se deram ao trabalho de analisá-lo. Não fizeram trabalho diferente do que o dos programas vespertinos que analisam as novelas de televisão. E como tais, vários buscavam construir uma veracidade onde só havia um enredo farsesco.

Os debates a seguir, embora tratassem do destino do país, foram todos feitos a toque de caixa, ou como em um ditado popular muito apropriado “rápido como quem rouba”.

Na votação propriamente dita, 367 deputados votaram em nome de Deus, da família e de seja mais lá o quê, até de torturadores. Apenas não votaram em relação ao assunto em tema. A maioria sequer parecia saber do que era tratado. Mas em uma farsa festiva isso pouco importa. Tratou-se de uma catarse coletiva. A farsa estava consumada.

O empresariado apoiou política e financeiramente o golpe. Nos jornais criticavam a decadência moral que paralisava o país. Eram os mais farsantes. Sabiam dentre os deputados votantes quem eram aqueles a quem sempre tinham corrompido. Fingiram esquecer de uma reunião em 2012 na qual tudo pediram e tudo levaram deste governo; de desoneração fiscal e trabalhista à redução do preço da energia elétrica. Nada investiram, realizaram lucros e hoje acusam o mesmo governo de ter descuidado das contas públicas. Creem-nos patos patetas – há os que são.

A parte do povo que de tudo isso participara há pelo menos um ano e meio é a parte com escolaridade superior. Tem acesso à informação e dispõem de recursos intelectuais para analisar o que acontecia. Como puderam aceitar participar da farsa? Lutavam contra a corrupção apoiando corruptos contra uma presidente contra a qual não houve nunca uma única acusação de corrupção? Ao contrário do vice-presidente que será seu sucessor. Que, aliás, cometeu os mesmos “crimes de responsabilidade” que a presidente, nos períodos em que a substituiu.

Que mecanismo mental essa parte do povo foi levada a praticar para aceitar algo assim?

Esse povo comemorou sinceramente feliz a aceitação do processo de impeachment, mas acordou de ressaca. A manhã do dia seguinte chegou e com ela a farsa revelada.

Que faremos agora?

Como saciar o apetite dos leões do mercado e das hienas do Congresso que já salivam por seu naco do país? Já há sinais claros do que esperam. E esperam maquiavelicamente, ou seja, que o mal seja feito de uma única vez. Talvez já no período de interinidade de Michel Temer na presidência da República.

Da parte das hienas, haverá pressões por cargos, verbas e, principalmente, alguma forma de barrarem as investigações em que estão envolvidos. Será necessário calar imprensa, Ministério Público e Judiciário. Inclusive em relação a Eduardo Cunha – o malvado preferido da nação. Já se fala inclusive no término da Lava Jato. O affair entre o PGR e Aécio Neve, a “celeridade” com que o STF trata os os casos em andamento e o que ocorre com os escândalos em São Paulo e no Paraná, por exemplo, deve enchê-los de esperanças. Alguma notícia nos jornais sobre tais casos? Nunca fomos tão felizes.

Da parte dos leões, haverá pressões por privatizações gerais, o pré-sal como joia da coroa. E juros altos de modo que todo o capital obtido com as privatizações seja drenado para o rentismo. Mais capital poderá ser obtido com o término dos programas sociais e com o fim das despesas obrigatórias para saúde e educação, bem como, com a depreciação do salário mínimo, assim que a lei permitir. Por óbvio um tarifaço que é como o Estado faz dinheiro rápido. Tudo será apropriado pelo capital especulativo. E haverá pressões pela precarização das relações trabalhistas – terceirização das atividades fins.

Em tal cenário não há crescimento econômico algum, apenas especulação. E esse cenário é provável por que não há quem acredite na liderança de Michel Temer para unir e dirigir o país. Sem tal confiança, quem investiria? Tampouco o PMDB é confiável a si mesmo e aos seus aliados.

Nada do que foi descrito aqui é novidade. Uma ponte para o passado. Trata-se do que foi o 2º governo FHC. E esse segundo governo FHC levou Lula ao poder. Que será feito agora para as eleições de 2018? Prenderemos Lula? Cancelaremos as eleições?

Com o povo branco não haverá muitos problemas, bastará os meios de comunicação não convoca-los às ruas nos domingos, e ficarão protestando no Facebook. Mas o que fazer com o povo vermelho que sai do processo de impeachment unido e engajado? Para “dialogar” com os manifestantes, chamaremos o Secretário da Segurança paulista e a Força Nacional, já que os militares parecem não querer se envolver em questões civis?

A farsa terminada em pesadelo.

Alguma esperança?

Só a das antigas reflexões contidas no ”Dilema de Pirro”: ainda haveria tempo?

 

PS: todo otimista é um mal informado, mas não está morto o que peleja. Esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

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