A memória e o epitáfio

caminho da memória

O corpo do herói e o do traidor aos vermes pertencem.

Seres operosos que roem os ossos dos poderosos.

O corpo do homem comum aos vermes pertence.

O corpo do mártir e do algoz aos vermes pertencem.

Mas não se vão por inteiro ao término do dia do coveiro.

Suas lembranças ficam como herança em aberto.

Pertencem, contudo, a herdeiro incerto.

Umas duram o tempo breve do que é próximo.

Findam com ele.

Ao esquecimento pertencem.

Outras duram como relíquia de família, como parte da mobília.

Orgulhos e maldições purgados por gerações.

Pertencem às tradições.

E há as que constroem nações e as noções da humanidade.

Essas pertencem à eternidade.

Resta, porém, um último bem incomum.

Pessoal e intransferível, a memória pertence a cada um.

A única verdade inescapável e iniludível.

Feita dos valores e das ações apaixonadas,

sabidas e não reveladas, feita dos feitos e dos nadas.

O epitáfio interior do herói e do traidor,

do mártir e do algoz, do poderoso e de cada um de nós,

a ser escrito a sós no átimo do corte entre a vida e a morte.

 

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