O golpe… como chegamos até aqui?

Muito já se tem tido sobre o golpe contra a presidente Dilma. E começasse a se conjecturar como será o país após ele. Mas talvez caiba antes perguntar: como chegamos até aqui?desembarque

Algumas coisas já podem ser divisadas, outras ainda se encontram na névoa dos acontecimentos. O pano de fundo será sempre a crise econômica mundial de 2008.

Esquerda, direta, volver

Muitos dirão que o golpe atual é uma consequência direta das manifestações de junho 2013. Não deixarão de ter razão, mas o alinhamento direto é indevido.

As manifestações de junho de 2013 continuam uma incógnita. Eram polifônicas. Mas já no seu decorrer foi possível notar claramente que houve uma migração da esquerda – a mãe – para a direita – a herdeira.

A esquerda que iniciou os movimentos não se identificava com a esquerda que estava no poder. Era uma esquerda antipetista que não teve dificuldade de ter a direita como aliada tática.

Essa esquerda se retirou quando do recuou dos governos estaduais e municipais em relação ao aumento das passagens do transporte público. Esse recuou deixou órfãos todas as outras reivindicações de cunho progressista de outros movimentos que também participavam das manifestações..

Mas um milhão e meio de pessoas na rua é um capital político que não se despreza, quando se sabe o que fazer com ele.

A direita continuou nas ruas com a ridícula campanha “não vai ter Copa”. Foi o mote para galvanizar a classe média através da promoção de seus preconceitos classistas. Foi uma exitosa manobra midiática. Do mesmo nível da que sustentou por bom tempo a ditadura e que após ela levou Collor ao poder.

Não subestimemos duas coisas: o fratricídio das nossas esquerdas e a competência dos nossos grupos de comunicação.

2012 e o empresariado

O pano de fundo será sempre a crise econômica mundial de 2008. O Brasil adotou medidas anticíclicas que momentaneamente obtiveram sucesso a ponto de garantir a eleição de Dilma em 2010. Mas, economia passou a depender apenas de estímulos estatais e, em 2012, os empresários já haviam parado de investir. Quanto isso levou às manifestações de junho 2013 é difícil de quantificar, mas que é consequência direta do inferno de 2015 não há dúvidas. O mesmo empresariado que recebeu incentivos e isenções em 2012 paga o “pato da FIESP”em 2016 e patrocina o golpe.

Os grupos de propaganda e mobilização

Como resíduos das manifestações de 2013, surgem à direita grupos de propaganda e mobilização de massa. O “MBL” – uma corruptela de “MPL”, o movimento estudantil que deu início às manifestações de 2013 – o “Vem pra Rua” e o “Revoltados On Line” – os maiores.

Que não nos enganemos julgando se tratar de grupos de jovens idealistas e patriotas usando as redes sociais. Organizados, financiados e com ideologia muito bem definida – o neoliberalismo das organizações norte-americana promotoras dessa ideologia mundo afora em variadas “primaveras”. E com apoio logístico e esquemas de promoção na grande mídia compatíveis com os dos grandes shows internacionais.

Esses grupos tinham um público alvo muito bem definido – a classe média urbana. A nossa alta burocracia estatal, Judiciário, Ministério Publico e Policia Federal, é filha dessa classe média – engajou-se.

Esse mercado também se mostrou interessante a oportunistas de várias as espécies. Inclusive artistas decadentes sequiosos de alguma exposição pública.

Do lado das esquerdas, desde a chegada do PT ao poder em 2003 ocorre a desmobilização de suas estruturas de propaganda e mobilização – o “PT de Lutas”. O sindicalismo e os movimentos sociais como sua marca registrada. O afastamento da intelectualidade e da classe artística. Paradoxal, mas o “PT de Lulas” não subiu a rampa do Planalto. Um erro que custará muito ao “PT do Lula lá”.

O início do golpe

O movimento “não vai ter Copa” não foi suficiente para mudar os resultados das eleições presidenciais de 2014. Em última análise, as manifestações de 2013 não tiveram o efeito eleitoral de suplantar o que os governos petistas representavam no imaginário popular.

Era esperar 2018 e o fim natural do ciclo petista.

Mas as classes-médias se encontravam arregimentadas no sentido militar do termo e a insubordinação de Aécio Neves aos resultados das urnas foi o estopim da “revolta dos brancos”.

A partir desse caldo de cultura e de decisões contraditórias do governo Dilma para responder à crise, inicia-se um período de ruptura – o primeiro trimestre de 2015. Pela primeira vez, inverte-se a curva de aprovação do governo e os índices de desaprovação superam o de aprovação. Note-se que isso não ocorreu quando das manifestações de Junho de 2013.

Feliz Ano Velho 4

Durante todo o ano de 2015, a classe-média foi periodicamente mobilizada pelos grupos de propaganda. E responderam a eles. Uma característica interessante – sempre aos domingos.

Não era Aécio ou o PSDB quem estava no comando, com certeza. Tampouco os coordenadores dos grupos de propaganda e mobilização da direita.

Quem, então?

Essa é uma pergunta que talvez não seja jamais respondida. Mas que havia comando centralizado, planejamento, financiamento a organização de tais movimentos não deixam dúvidas.

O golpe estava posto em marcha. Mas um novo modelo de golpe. Tratava-se de inviabilizar o governo a ponto da solução tornar-se a promoção de novas eleições. Não é por acaso que se ventilou tantas vezes a “opção” da renúncia presidencial. Novas eleições onde o PSDB pudesse chegar ao poder. Os movimentos buscando o impeachment eram ferramenta e não um fim em si. Assim como o apoio à eleição de Eduardo Cunha e sua pauta bomba.

Eduardo Cunha

Um escroque genial. Começa como linha auxiliar dos planos de Aécio Neves e do PSDB e termina como fiador do futuro presidente da República que não é Aécio nem é do PSDB. Mas que terá o apoio tanto de Aécio quanto o PSDB.

Para ele o impeachment foi desde sempre a moeda de troca em um negócio onde só os grandes chantagistas conseguem dar-se bem.

A Lava Jato

A Lava Jato tem dois momentos muito claros.

O primeiro quando desvenda a corrupção na Petrobras e prende quem a pagou, quem recebeu e quem intermediou. Nesse momento, a Lava Jato estava terminada do ponto de vista de investigação criminal.

Estivemos perto de passar o Brasil a limpo.

O juiz Moro envia ao PGR, Rodrigo Janot, uma lista com 51 nomes de políticos envolvidos. Há políticos da situação e da oposição. Aécio, o candidato a presidente derrotado, entre eles.

Algo ocorre então e é revelador. Janot segura aquela cartolina e, quando envia os nomes dos políticos acusados ao STF, deixa de fora o de Aécio Neves.

A sinalização não poderia ser mais clara. Havia um comando na operação e esse comando dera instruções a serem seguidas. A Lava Jato se uniria aos movimentos de contestação ao governo.

Janot é mais uma das figuras cujo papel no golpe ainda terá que ser delineado.

Março de 2015, por coincidência, o momento ápice da inversão das curvas de popularidade do governo Dilma?

O segundo momento começa a partir daí.

Escudada na justa popularidade obtida, a Lava Jato passa a ser instrumento de perseguição política. Inviabilizar o PT, e mais precisamente, Lula passa a ser seu objetivo. Mas é um objetivo meio e não o objetivo fim.

O objetivo fim é a troca do partido no poder.

O golpe e o objetivo fim

Que o PT não conquistaria a burguesia é fato que apenas Lula sonhou não ver, mas que as manifestações brancas deixavam muito claro. Seria esse o objetivo fim, retornar o poder a alguém palatável a nossa burguesia?

Seria, a partir da Lava Jato, inaugurar um governo imune à corrupção como sonharam alguns dedicados procuradores do Ministério Público?

Seriam a burguesia e o combate a corrupção instrumentos de um objetivo outro?

Pré-sal sem a participação das empresas americanas, empreiteiras brasileiras incomodando em concorrências internacionais, programa nuclear e de defesa, BRICS e política internacional independente. Gastos sociais conflitando com recursos para garantia do pagamento do rentismo. O Brasil tornando-se uma potencia regional. Marcas do PT.

Que grupos de interesses estão sendo afetados? Por óbvio, esses grupos estão no comando do golpe.

O governo a ser posto no poder com a derrubada de Dilma deveria ser um governo leal aos interesses do comando. O PSDB é leal. Mas não é o PSDB quem estava no comando, com certeza.

Quem, então?

Essa é uma pergunta que talvez não seja jamais respondida. Mas que há comando e planejamento centralizados as dezenas de operações da Lava Jato, seus alvos e seus vazamentos não deixam dúvidas.

O impeachment morreu, viva o impeachment

O impeachment estava morto no final de 2015. O impeachment era ferramenta para desestabilizar o governo, mas não um objetivo fim. O objetivo sempre foi inviabilizar o governo para criar o clima necessário à renúncia ou a cassação da chapa Dilma-Temer via TSE. Novas eleições e a substituição do governo atual por um leal aos interesses do comando.

Ocorre que as esquerdas voltaram a se reorganizar e as manifestações de dezembro de 2015 mostraram isso claramente. Lula resistiu à tentativa de prisão, o governo Dilma resistiu à tentativa de levante popular a partir da divulgação dos áudios divulgados ilegalmente pela Lava Jato, o STF começou a se posicionar a favor da normalidade democrática e o houve o 18 e o 31 de maio vermelhos.

Os ventos mudavam e o PSDB se inviabilizou eleitoralmente. As pesquisas mostravam isso já há tempos. Não foi da última semana para cá que se ficou sabendo disso.

O sentido de urgência disparou o alarme do comando.

A solução das novas eleições não era mais viável.

O golpe parlamentar se tornou a única saída. Todo o apoio a ele, a voz do comando.

O PSDB cedeu lugar ao PMDB de sempre e os mesmo partidos de sempre, PR, PP, PSD, com suas narinas treinadas para farejar o poder, passaram a orbitá-lo. Os socialistas de direita do PSB são nossa jabuticaba.

Temer é um fantoche, Cunha é um bandido e o PMDB é pouquíssimo confiável. O grupo de apoio do “novo governo” não tem nenhuma credibilidade interna. Com um golpe tão flagrante, o país retrocederá a condição de república bananeira e não terá nenhuma credibilidade internacional também. Tem tudo para dar merda. Mas é isso ou o PT fica no poder.

Eis como chegamos até aqui.

 

PS: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

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