O golpe… por enquanto e até aqui

O que é possível distinguir olhando-se através de um caleidoscópio de acontecimentos políticos.

Planalto 16 de março de 2016

O golpe

Há pouca ou nenhuma dúvida de que na tarde-noite de 16 de março de 2016 assistimos a uma tentativa de golpe de Estado. Algo inacreditável com aparência de ação desesperada. Isso está muito longe de ser bom.

Nesse golpe, estão claramente identificados o juiz Moro, a Globo e os jornais da grande imprensa e a FIESP – Paulo Skaf. A partir da divulgação por Moro dos áudios das conversas de Lula com a Presidente Dilma, o Jornal Nacional realizou uma edição que vai entrar para a história. Em algum espaço entre o jornalismo e a teledramaturgia os apresentadores – e aqui pouco importam seus nomes, são funcionários – escandalizavam o conteúdo dos diálogos grampeados e motivavam os espectadores a ir para as ruas. Os jornais passam a panfletar multidões indignadas e a FIESP convoca a derrubada da presidente em letreiro luminoso de sua sede.

Lula

A nomeação de Lula como ministro já era pedra cantada havia um tempo. É estranho que tenha pegado as força de oposição despreparadas ao ponto de partirem para uma ação tão radical.

Os grampos

Reforçando a ideia de ação intempestiva, aos poucos, enquanto vai-se analisando os conteúdos dos grampos, mais a situação da Lava Jato se complica. Há fortes indícios de ilegalidade com, inclusive, uma inacreditável e absurda escuta ambiental da presidência da República. Resta a escandalização de trechos tirados do contexto, mas com todos os áudios na internet o contraponto e inevitável.

O comando

Cada vez mais vai ficando claro que a Lava Jato tem um comando que não segue a hierarquia institucional. O Procurador Geral da República e o Supremo Tribunal Federal foram desconsiderados.

Moro não cuidou em nenhum instante de preservar a institucionalidade das ações sob cobertura da Lava Jato. A frustação pela perda do poder de investigar Lula – e prendê-lo, por óbvio, falou mais alto. A perda do senso de responsabilidade em um juiz federal é fatal.

Aguardemos o que virá do Ministro da Justiça, do PGR e do STF.

O jogo de empurra entre a Polícia Federal e o Juiz Moro, a respeito da divulgação dos grampos, é um sinal de que preocupação há. Fica a aparência de que o juiz Moro jogou a PF no fogo.

O Congresso

Há três movimentos ocorrendo ao mesmo tempo e em nenhum deles o Congresso está à frente. A delação de Delcídio vem do PGR e pega em cheio a oposição, Aécio e, pelo menos, o Ministro Mercadante. A nomeação de Lula como “primeiro ministro” significa um reagrupamento de forças. A ação de Moro e da grande mídia pode resultar em qualquer coisa, da derrubada da presidente ao fim da Lava Jato e punição de Moro e pode dar em nada.

Mais uma vez a oposição parece estar a reboque da situação.

O povo

É difícil saber em que proporção o povo que foi protestar contra a nomeação de Lula era ou não militantes recrutados.  Por óbvio, havia participações espontâneas.

Quem acessasse as páginas da grande imprensa recebia a informação de que “multidões” estavam nas ruas. O dia amanheceu e todos foram trabalhar.

E aqui está um ponto fulcral das próximas etapas. Os organizadores dos protestos contra o governo jamais chamaram povo às ruas fora de domingos. E com um público alvo muito definido – a classe média e alta. Se conseguirem colocar povo nas ruas no dia seguinte a 16 de março, uma quinta-feira – e povo mesmo, o golpe se define.

O tempo aqui é crucial, no dia 18 de março quem estará nas ruas em manifestações já previamente programada serão os apoiadores do governo. Aqui vale a mesma assertiva – se conseguirem colocar povo nas ruas – e povo mesmo, o golpe reflui.

Isso se as manifestações de 18 de março de 2016 não forem impedidas pela PM, de Alckmin, por exemplo, da qual há notícias de ações em diretórios do PT e assembleias de sindicatos filiados à CUT. Outro risco, que foi evitado pelos petistas em 16 de março, é algum maluco vestido de amarelo tentar impedir ou provocar a marcha dos de vermelho.

Nesses casos, tudo muda de figura e há riscos de explosão social. Há muito ódio explicitado, mas também, muito ódio contido até aqui.

 

PS: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

golpe nunca mais1

 

 

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1 comentário

  1. Te felicito pela análise e lamento, mais uma vez, a tua precisão. Não pensei jamais presenciar uma violência tão grande e tão abjeta. Nunca imaginei temer pelo futuro, mas é justo o que ocorre agora. Além de toda a tristeza com os últimos acontecimentos, saber que nem mesmo o luto pelas perdas nos será permitido. Dias sangrentos – a se confirmarem algumas das possibilidades levantadas por você – nos impedirão o caminhar trivial, o chorar livre, o penar necessário e purificador. Não haverá quem possa nos consolar desse assassínio. Triste demais.

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