O Comando do Golpe sob os riscos do sucesso próximo

A visão da vitória próxima aguça apetites e desperta interesses conflitantes. O limite inescapável do golpe em andamento está aí.

comando

Há pelo menos dois anos vivemos no Brasil uma revolta.

Uma parcela da população, branca na sua virtual totalidade e de classe média e acima no seu estrato socioeconômico, foi chamada a derrubar o Governo Dilma. Governo esse democraticamente eleito, mas identificado com o estrato social oposto das classes dominantes. Dominante a ponto de fazer valer o seu poder apesar de minoria.

Como tais arregimentações se dão é algo que Umberto Eco já explicou em seu texto sobre o Ur-Fascismo, mas que não custa recordar:

“o Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório”. 

Quem acompanha os movimentos dessa revolta percebe ou intui a existência de um comando e planejamento centralizados.

E que esse comando não buscou centrar as ações em movimentos de massa – ainda que cheirosas. Quem está no comando da conspirata quer apoio popular e demonstração de força. Mas não quer a ação popular que possa sair-lhes fora do controle.

Não é por outro motivo que as “manifestações” são convocadas para domingos. Na segunda-feira todos voltam a trabalhar normalmente.

As ações estiveram sempre direcionadas a instrumentalização de grupos com força, disciplina e comando. O Judiciário, a Polícia Federal e o TSE. Ainda que estes não necessariamente intencionados ao golpe.

A mídia cuidando da propaganda e pautando os partidos de oposição. E estes atuando em ações de desgaste, o impeachment entre elas, e imobilizando reações do governo na frente da administração pública.

Todos esses agentes facilmente identificados com e pela parcela da população branca na virtual totalidade e de classe média e acima no seu estrato socioeconômico.

A crise mundial é o pano de fundo que completa as condições meteorológicas para a tempestade perfeita.

Os interesses patrocinadores são bastante claros – os interesses do poder do capital. Nacional e internacional.  Os interesses americanos passaram de algum tempo a recender seu odor característico.

Para consumo externo, no entanto, tais interesses estão travestidos de apelo à moralidade através do combate à corrupção. Mas, para concluir que não buscam o combate à corrupção e sim o poder, bastam alguns os rostos públicos da conspirata. Vários deles não resistiriam a uma investigação da mesma Lava Jato. Mas ela não ocorreu para esses.

Pouca vez se viu tanta hipocrisia e desfaçatez.  Nenhuma novidade, o falso moralismo sempre foi refúgio de muitos canalhas.

A partir daqui, há uma questão tão crucial quanto mal resolvida.

Quem acompanha os movimentos dessa revolta percebe ou intui a existência de um comando e planejamento centralizados. Porém, quem compõe esse comando é algo a ser conhecido.

Isso porque comando exige autoridade. E autoridade para poucos, ainda que não para apenas um. Autoridade tem nome e número da carteira de identidade.

Quais?

Pois bem, sejam quais forem os no comando, esse comando mostra-se fraturado.

Nada o demonstra mais do que as duas ações do Ministério Público, federal e paulista, buscando a prisão de Lula, no curto espaço de uma semana.

A primeira, do Ministério Público Federal, revestida de rigor formal, ainda que, pela carência de provas, apoiada na Teoria do Domínio do Fato. Precisou ser desautorizada ao custo da autoridade da Lava Jato. O que está longe de ser pouca coisa. O juiz Moro, que aos poucos vai se demonstrando frágil, acatou a admoestação pública. O MPF reagiu em nota com teor insubmisso.

Agora essa ação do Ministério Público Estadual montada com a intempestividade, descuidos fatais e inconsequência dos primários a quem é dado poder. Essa desmoralizou a si própria.

A tese de perseguição política não poderia ser mais bem evidenciada.

A investida contra Dilma através da delação de Delcídio na revista Istoé foi atropelada no dia seguinte pela Lava Jato prendendo Lula. Na semana seguinte, bombardeada pela Folha de São Paulo e pela Globo que em clara retaliação à Istoé entregam o nome de Aécio.

Isso sem contar com “acidentes imprevisíveis” como encontrar pela frente a Paraty House e a Mossack-Fonseca no caminho da Família Marinho e Miriam Dutra no caminho de FHC.

FHC e o PMDB ensaiam o parlamentarismo de 1961, a militância ameaça partir para o tudo ou nada.

Todos pedem moderação enquanto incentivam o povo branco a ir para as ruas no dia 13 de março de 2016. Muito povo na rua legitimaria as ações daí para frente. Até talvez os excessos. Mas não resolve a questão de quem se apropriará dessa legitimação?

Já que talvez a visão tão próxima do fim do Governo Dilma tenha aguçado apetites individuais que decidiram, cada um por si, ser os primeiros a beber a água limpa da fonte do poder. A qual é reservada somente aos que saem na frente.

Agindo assim, acabariam por destruir a si mesmos.

O poder é sempre de poucos.

A continuidade do governo Dilma passa por isso. Pois, até que se restaure um comando inconteste, a manutenção de um inimigo frágil pode ser mais seguro do que a vitória de um aliado forte. Ao primeiro combatemos, mas o segundo nos submete.

O limite inescapável do golpe em andamento está aí.

Ainda há tempo e condições para isso?

 

PS: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

golpe nunca mais1

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