Ecos do mal estar do século no Brasil

A população está insatisfeita com seus governantes, mas a pretensa retomada da direita no Brasil não se verifica como um fato estatístico. A esquerda representada pelo PT ainda é o referencial das eleições que disputar. O PT precisa acreditar nisso.

sem catracas 1

Os ecos do mal estar do século.

Que vivemos no mundo e no Brasil um momento de esgotamento do modelo politico é algo que se tornou lugar comum. O modelo esgotado seria o da democracia representativa. Partidos políticos parece não mais ser capazes de verbalizar os anseios das populações que deveriam representar.

Um mal estar difuso, uma polifonia de insatisfações que, entre 2011 e 2013, colocou o povo nas ruas sem que as instituições políticas de seus respectivos países soubessem o que lhes responder.

É comum citar-se o Occupy Wall Street nos EEUU, os Protestos da Praça Tarksim na Turquia, os Indignados do M-15 na Espanha e o Junho de 2013 no Brasil como exemplos de movimentos populares que buscavam mais do que, em princípio, reivindicavam.

A Primavera Árabe de 2011 parece-me que, embora análoga aos outros movimentos populares do período, tinha objetivos diferentes. Buscavam para seus países justamente o modelo que esgotava-se no Ocidente.

Quais são hoje os ecos desses movimentos?

O Ocidente caminha para a esquerda.

Não saberia dizê-lo para a Turquia e para o mundo árabe, de repente engolfados pelo caos do EI – Estado Islâmico e de todos os interesses que giram em torno dele. Mas é interessante vermos que na Europa e nos Estados Unidos esboçam-se saídas pelo espectro da esquerda. E que, na Europa, embora negando a política tradicional, surgem partidos políticos novos, mas, ainda assim partidos políticos. Partidos, tais como, o Syryza grego e o Podemos espanhol se viabilizam eleitoralmente e vencem eleições, inclusive. E, nos EEUU, surge o fenômeno Sanders, um inimaginável socialista viabilizando-se eleitoralmente para chegar à Casa Branca pelo Partido Democrata.

Parecem-me claros ecos dos movimentos populares que se enxergaram como os 99%. O ocidente caminha para a esquerda, mas dentro do quadro institucional.

América Latina caminha para a direita?

E no Brasil e na América Latina? Parece que vemos um movimento contrário, uma retomada conservadora. A direita voltando com força na Argentina, Venezuela e Brasil. Ainda é cedo para falarmos de Evo Morales na Bolívia, mas já não parece tão inconteste como era alguns anos atrás.

Não tecerei comentários sobre a América Latina, deixo-os para as obras de Gabriel Garcia Marques. Talvez somente o realismo fantástico nos explique, enfim.

Mas, quanto ao Brasil, me é inescapável.

O Brasil dividido entre os insatisfeitos e os insatisfeitos.

Que o Brasil é uma parte particular do realismo fantástico latino americano parece-me ocioso reforçar. Mas é importante lembrarmos que no realismo fantástico as coisas por vezes são o que se conta que elas são e não o que realmente sejam.

Essa ideia veio-me à mente em função de duas matérias tão boas quanto mal exploradas na Folha de São Paulo de 21 de fevereiro de 2016.

A primeira- ”O Congresso é trágico” – fala dos ecos das Jornadas de Junho de 2013 na visão do cientista político Leonardo Avritzer. Avritzer coloca as Jornadas de Junho como uma consequência do empoderamento popular proporcionado pela Constituição de 1988.

 “O Brasil é um dos países que levou mais adiante um modelo de participação institucionalizada. A Constituição de 1988 introduziu a ideia de participação nas políticas públicas, especialmente na saúde e na assistência social. A partir de junho de 2013, há uma mudança. Surge a  mobilização fora das instituições. Um conjunto grande de atores fala que quer participar mais, mas não diz como. Não é ruim, mas inconclusiva, a insatisfação pode ser mais produtiva. É preciso transformar essas demandas numa renovação das formas institucionalizadas de participação”.

A matéria da Folha infelizmente não avança para qual seriam as formas de participação renovadas. Acaba derivando para a guerra de poder travada atualmente pelo Judiciário contra os outros dois poderes – daí o tal “Congresso trágico”.

Os ecos de Junho de 2013 ainda estão nas ruas? Os movimentos de ocupação de escolas pelos jovens paulistas e goianos e o “fora Dilma” seriam esses ecos?

Parece-me que sim. E parece-me que são antagônicos, como as faces de uma mesma moeda. Um, a movimentação dos jovens, outro, dos maduros. Um, dos pobres que frequentam as escolas públicas, o outro, da classe-média que não tem pela escola pública preocupação maior do que servir-se dela como um slogan vazio ao cobrar “escolas padrão-FIFA”.

Teriam em comum a negação dos partidos políticos como mediadores de suas reivindicações.

Seria mesmo?

Não, se considerarmos outra matéria da Folha – ”Número de eleitores anti-PT cresce no país”. Trata-se das conclusões dos cientistas políticos David Samuels, professor da Universidade do Minnesota (EUA), e Cesar Zucco Jr., da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, em pesquisa que abrange o período de 1997 a 2014 para o estudo “Partidarismo, antipartidarismo e comportamento do voto no Brasil”.

O que tiramos desse estudo, segundo o que a Folha apresenta?

O partidário, o antipartidário e o apartidário.

Que o número de pessoas que rejeita os partidos políticos  no Brasil é pequeno e praticamente não aumenta no período estudado. Vai de 13% em 1997 para 16% em 2014. Porém, cresce o número de apartidários (a matéria não identifica os apartidários). Eram 44% da população em 1997 e 55% em 2014. Não ter preferência por um partido é muito diferente de rejeitar os partidos como interlocutores com poder. O número de pessoas com preferência partidária cai de 43% em 1997 para 29% em 2014.

Partidos 1

Por esse estudo, nota-se uma concordância com a ideia de que as pessoas estão insatisfeitas e não identificam os partidos como seus representantes. Mas, apesar da mobilização fora das instituições, não rejeitam os partidos como forma institucional do exercício do poder.

Partidos – quem perde?

O PT ganha.

Quando nos lembramos da campanha de desconstrução que o PT sofre desde que assumiu o poder, mas principalmente a partir do “mensalão” e continuada na Lava Jato, poder-se-ia imaginar que esse seria o partido mais prejudicado pela insatisfação popular. Porém não é isso que o estudo de Samuels e Zucco mostra.

Aliás, o PT é o único dos grandes partidos que, considerando-se os índices de 1997, aumentou o número de simpatizantes. Em 1997 eram 14,18% da população e em 2014 eram 15,95%.

O PMDB desaba de 14,78% para 3,7% de simpatizantes na população e o PSDB que já tinha poucos simpatizantes, 6,6% em 1997, perdeu mais um pouco deles, em 2014 ficaram em 4,29%.

Partidos 2

A bem da verdade, quando se trata do número de simpatizantes, existe um abismo separando o PT de todos os outros partidos. O PT mantém-se na faixa de 15% de simpatizantes na população e todos os outros partidos indistintamente estão na faixa de 5% de simpatizantes. O que torna o PT, na prática, o único partido que pode contar uma força militante com significância.

Onde estão esses militantes?

Por certo não estão na classe média e muito menos entre os membros adultos dessa classe social.

Antipetismo – o vozeirão dos poucos.

Quando o antipetista é caracterizado por Samuels e Zucco, surge alguém branco, de 40 anos ou mais, de renda mais alta, que defende os militares no poder e vê menos utilidade no voto que os demais grupos. Nutre aversão ao PT, Lula e Dilma e a todas as políticas sociais que viraram marca da gestão petista.

Esse grupo, de outra forma, ja havia sido mapeado pela Folha de São Paulo quando dos protestos pelo impeachment da presidente Dilma: “a maior parte dos manifestantes que foi à Avenida Paulista no domingo (16/08/2015) é homem (61%), tem 51 anos ou mais (40%), cursou o ensino superior (76%), se declara branca (75%), não é ligada a nenhum partido (52%), embora, no segundo turno das eleições de 2014, tenha votado em Aécio Neves do PSDB (77%), tem renda familiar mensal entre R$ 7.881 e R$ 15.760 (25,17%), ou seja, entre 10 e 20 salários mínimos”.

Ainda segundo Samuels e Zucco, em 1997, antes do PT chegar ao poder, os antipetistas eram 7,49% da população e, com o PT no poder após 12 anos, em 2014, os antipetistas subiram para 11,44% da população, mas esse número se estabilizou a partir de 2006. Foram três eleições presidenciais desde então, todas ganhas pelo PT.

Partidos 3

Essa é a nossa classe-média.

E, dado o poder econômico e projeção pública desse estrato social, talvez daí venha a impressão de um PT que se encontra em processo de desestruturação. Na classe média, o antipetismo é uma realidade.

Eco do Ur-Fascismo.

Quando associamos o estudo de Leonardo Avritzer e o de David Samuels e Cesar Zucco Jr. algo parece não fechar. E é exatamente o recrudescimento do antipetismo.

Pelo estudo de Avritzer, as pessoas estariam insatisfeitas porque, a partir da Constituição de 1988, da estabilização econômica no governo Itamar Franco em 1994 e da melhoria de renda nos governos petistas, a partir de 2003, aumentaram suas expectativas em relação aos retornos que esperavam dos governantes, principalmente em relação aos serviços públicos. Sentiram-se frustrados com a falta de resposta aos seus anseios.

Mas por que o PT, que é um partido associado com a redução da desigualdade social, angariou essa aversão denominada como antipetismo?

Notando-se o padrão do antipestista, creio que a resposta está com o recém-falecido Umberto Eco e a sua descrição do Ur-Fascismo:

“o Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório”. 

Eco não falava do Brasil, muito menos do seu momento atual, o texto sobre o Ur-Fascismo foi produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, mas não poderia ser mais específico e atual em relação ao Brasil de hoje. Eis o antipetista.

Insatisfeitos e relegados ao segundo plano.

A classe-média é antipetista, mas a população brasileira seria?

A insatisfação da população não é homogênea, como vimos antes. Uma parte dessa população insatisfeita corresponde à classe média conservadora. Mas eles são poucos, pelo estudo de Samuels e Zucco, corresponderiam a 11% da população.

Há, portanto, uma parcela significativa da população, sua maioria (73%), que não é petista nem antipetista, não se alinha necessariamente ao ideário conservador, mas que também se encontra insatisfeita.

Quais são os seus anseios?

Esse povo está órfão. O discurso da oposição está voltado para o antipetismo. E as respostas do governo também.

Aonde chegamos?

Zeitgeist – o mal estar do século está presente no Brasil. Quais seriam seus ecos?

A pretensa retomada da direita, pelo menos, no Brasil, não se verifica como um dado estatístico. A esquerda representada pelo PT ainda conserva simpatizantes em porcentagem significativa da população, mantendo-se como o referencial das eleições que disputar.

A população está insatisfeita, nutre expectativas de melhorias e espera respostas dos seus governantes.

Dentro dessa população, os antipetistas continuarão sendo antipetistas, não importa o que o PT faça. Mas os antipestistas, pelas suas características, são minoritários e continuarão sendo por um bom tempo. Inclusive eleitoralmente, pois, num Brasil ainda muito desigual socialmente, estão concentrados na classe-média e, ainda que sejam o público alvo das ações da mídia, em uma eleição vigora a regra de “um homem, um voto” e isso independe de classe social.

A população não acredita nos partidos políticos como seus interlocutores com o poder, mas não os rejeita. Não fomos ainda capazes de desenvolver outra forma de representação política viável que não seja a partidária.

O PT é o único partido que ainda possui representatividade para conduzir o processo político institucional no Brasil.

O PT precisa acreditar nisso e ir ao encontro da insatisfação que pode ser mais produtiva. Buscando transformar demandas numa renovação das formas institucionalizadas de participação, como sugere Avritzer. É provável que se reencontre com o velho PT de Lutas.

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