Antipetismo – sentimento de classe, hipocrisia e autoengano.

A Operação Lava Jato tornou patente uma patologia das nossas classes-médias e alta – o ódio. Odeiam sinceramente a corrupção dos outros.

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“Sem o autoengano, a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. O problema é que as mentiras que nos contamos não trazem seu nome verdadeiro estampado na fronte. É preciso, por isso, analisar os caminhos que nos levam até elas”. Eduardo Giannetti.

Em um comentário ao texto ”A República dos Hipócritas“, o colega Renato Kern do blog do Nassif fez as seguintes observações em relação a Operação Lava-Jato:

Pela primeira vez na história deste país, a direita endinheirada do país está entrando em cana. E a esquerda está achando ruim? Então o que é bom, gente?”

Muito pertinente.

A esquerda, por óbvio, reclama de estar sendo responsabilizada. Seus líderes estão presos cumprindo pena por presunção de culpa. Seus símbolos, seus ídolos são enxovalhados em praça pública. Mas é a reação da direita, das nossas classes médias e alta que parece-me merecedora de um estudo específico – talvez no campo da psicologia social, talvez no campo da psiquiatria, pelo que tem de doentia.

A Operação Lava Jato levou para a cadeia a fina flor da nossa plutocracia. Quando se verifica quem são os corruptos e os corruptores, o que se nota é que são homens brancos, adultos, com curso superior e com salários superiores a 20 salários mínimos. Muito superiores.

Mais do que isso, são os diretores de grandes empresas nacionais e multinacionais, banqueiros, aqueles que são apresentados como exemplos de sucesso na revista Exame e no caderno Mercado da Folha de São Paulo. Dão entrevistas para o jornal Valor Econômico traçando as perspectivas para o Brasil futuro. São alvo de admiração por todo engenheiro trainee de suas empresas. São aqueles que são chamados de doutores nas reuniões de negócios.

São os patrões, clientes ou patrocinadores de boa parte dos manifestantes antipetistas. Guardam com eles uma identificação de classe inescapável. Segundo o jornal Folha de São Paulo, descrevendo os defensores do impeachment da presidente Dilma:

“a maior parte dos manifestantes que foi à Avenida Paulista no domingo (16/08/2015) é homem (61%), tem 51 anos ou mais (40%), cursou o ensino superior (76%), se declara branca (75%), não é ligada a nenhum partido (52%), embora, no segundo turno das eleições de 2014, tenha votado em Aécio Neves do PSDB (77%), tem renda familiar mensal entre R$ 7.881 e R$ 15.760 (25,17%), ou seja, entre 10 e 20 salários mínimos”.

Ora, esses é o perfil dos que estão presos em Curitiba.

Pois bem, nossas classes médias e altas deveriam estar se questionando como seus representantes maiores podem estar presos por corrupção. Questionando o quanto elas próprias são corruptas, o quanto a corrupção foi sempre aceita no seu meio.

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E, no entanto, estão na Avenida Paulista, em Copacabana ou na Praça dos Três Poderes atribuindo a corrupção ao PT ou, quando não, batendo panelas em suas varandas gourmet.

Chega a ser patético perceber o mecanismo de negação, de autoengano contido no seu antipetismo odiento. E de hipocrisia, por que não? É o que lhes resta da ilusão da pretensa meritocracia que sempre cultivaram e com a qual buscaram justificar a nossa indecente desigualdade social.

Bandido bom é bandido morto. Eis o impasse.

Aqueles a quem admiram são réus confessos de desvios de milhões de dólares. Aparecem em rede nacional de televisão sendo conduzidos em camburões pela Polícia Federal. Então, recorrendo ao mecanismo de defesa conhecido como projeção, surge o “maldito PT”.

Não conseguem se olhar no espelho, mas acusam o PT de ter traído sua classe.

O PT que se propalava o defensor da ética na política é o responsável pelo maior escândalo de corrupção de todos os tempos na história da humanidade.

Sim, o PT é o anjo caído, o operário-padrão que não soube qual era o seu lugar. Deixou-se corromper. Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. Daí derivam todos os nossos males. E assim, as nossas classes-médias e alta lutam para sacrificar no altar de suas consciências esse bode expiatório.

A nossas classes-médias e alta estão em crise de identidade. Não foram capazes da autocrítica. Sublimam a realidade que lhes joga na cara suas contradições. Nossas classes-médias e alta nada aprenderam.

Odeiam sinceramente a corrupção dos outros.

E esse é mais um motivo para se votar no PT nas próximas eleições. Manter as nossas classes-médias e alta engajadas na luta contra a corrupção. Neste instante, dada a sua confusão emocional, mantê-las afastadas do poder é uma ação prudencial.

Nossas classes médias e alta necessitam de ajuda especializada. E, por que não, do auxílio luxuoso da poesia? Candeia:

“Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir para não chorar. Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar”.

 

PS: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

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