Vinde a mim as criancinhas.

Pela direita e pela esquerda, a juventude, já há um tempo, deixa claro que prescinde dos partidos políticos para fazer política. Porém, ainda não temos um modelo institucional que prescinda dos partidos. Essa é a verdadeira crise política que enfrentamos.

O dedo dos jovens

O poeta Gregório Duvivier, por estes dias, deixou registrado na sua coluna na Folha de São Paulo seu estranhamento com a composição atual do Congresso Nacional:

O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. O Congresso brasileiro parece o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil”.

E para que não parecesse apenas opinião, apresentava números:

“Os empresários, apenas 4% da população, são 43% dos deputados. Sim: proporcionalmente, a Câmara dos Deputados tem dez vezes mais empresários do que o Brasil”.

“As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). O mesmo vale para os gays: apenas um deputado entre os 513 se declara gay. Já os transexuais e a população indígena não tem a mesma sorte. Nenhuma das duas minorias tem sequer um deputado federal ou senado”. 

“Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso”.

Nesse último grupo, os jovens, podemos colocar o próprio Duvivier com seus 29 anos.

Lembrou Renato Russo e chamou o Congresso de “festa estranha, com gente esquisita”.

No que se refere a pouca participação de jovens no Congresso Nacional – 10%, poderia ter lembrado Cazuza: “não me convidaram pra essa festa pobre, que os homens armaram pra me convencer, a pagar sem ver por toda essa droga, que já vem malhada antes de eu nascer”. Em tempos de Eduardo Cunha, talvez fosse mais apropriado.

Concordando com Duvivier, a Folha traz, neste dia de Natal de 2015, uma matéria que mostra que o problema é provavelmente maior. Para que a representação de jovens cresça no Congresso é preciso antes que ela cresça nos partidos políticos. E ela tem decrescido. Os partidos estão cada vez mais velhos, os partidos estão perdendo seus jovens, ou seja, os militantes entre 16 e 34 anos.

Partidos velhos

Qual seria a explicação?

Em relação ao PT, pode ter sido justamente a sua chegada ao poder.

Como explica o historiador Lincoln Secco: ”antes, a motivação para se filiar ao PT era um ato de rebeldia. Agora, passa por uma expectativa de carreira, de obter um cargo. Essa tendência, que é algo visto em todos partidos sociais democratas que chegam ao poder: atrai um número restrito de pessoas porque fica limitado à capacidade de oferecer cargos”.

Mas e em relação às outras siglas? Por que os partidos de oposição não atraíram os jovens que antes se sentiam atraídos pelo PT?

Creio que a explicação está em que o que se aplica ao PT, se aplica a quase todos os outros partidos: ”antes, a motivação para se filiar ao PT era um ato de rebeldia”. E o quase na frase anterior é devido a uma exceção que confirma a regra. O PSOL tem em seus quadros 40,3% de jovens. Coerente.

O Partido Comunista que comia as criancinhas da década de 60 do século XX, hoje, só existe na cabeça de quem ainda é do século XX.

Os partidos já não representariam a possibilidade de transformação, de exercício institucional da rebeldia, da revolução. Seriam todos meio que mais do mesmo. O processo político-partidário do Brasil estaria passando, por essa ótica, pela “síndrome do fim da história” de Fukuyama.

Mas não que os jovens tenham abandonado o fazer política. Somente que a estão fazendo à margem dos partidos. Isso, aliás, já sabíamos. O que a Folha oportunamente nos traz são os números colhidos junto ao TSE.

“A juventude não se organiza mais nos partidos, tende a ir para movimentos autonomistas em torno de pautas específicas. O MPL [Movimento Passe Livre, que liderou os protestos de 2013 contra o reajuste no transporte] foi uma evidência disso, assim como as ocupações de escolas”. Recorda-nos Secco na matéria da Folha.

Os tempos são velozes.

O MPL e 2013 já estão no passado, recente, mas passado. A garotada que ocupou as escolas, e que, aparentemente, se inspira em movimentos estudantis chilenos, que conheceu e com os quais se comunica pela internet, encarou a polícia de Alckmin e derrubou o secretário da educação e sua “reorganização escolar” fez política da melhor qualidade sem nenhuma bandeira partidária – só cidadania.

E também há seu contraponto.

Kim Kataguiri, de 19 anos, líder do MBL – Movimento Brasil Livre, corruptela de MPL.

Ainda que babe ovo para Eduardo Cunha, é uma extrema direita jovem, com o perdão do oximoro contido em juventude e extrema-direita, que, em princípio, se apoia na internet e não nos partidos políticos. Em princípio, pelo menos.

Na internet também está a neta de Lula, Bia Lula, a loirinha zangada mostrando o dedo do meio, na ilustração que abre este post, e mandando seu recado para a Globo:

“Quero deixar claro que o Grupo Globo não me pauta, e que não vai fazer comigo o que tem feito com minha mãe, desde as eleições de 89, e com os meus tios, diariamente difamados e caluniados pela imprensa golpista. Sem contar o que fazem com o maior amor da minha vida e o melhor Presidente que este País já teve, meu avô, Luiz Inácio Lula da Silva”.

“Quero deixar claro que o Grupo Globo não me pauta”. É, decididamente, ela não necessitou de uma nota de desagravo do partido. Tinha o facebook e o twitter: #FORAGLOBO, #FORACUNHA e #DILMAFICA. Pode ser que ainda a encontremos em uma chapa eleitoral; netos não são incomuns na política brasileira, uns mais novos, outros nem tanto, não vou aqui citá-los; mas até onde fui, Bia investe na carreira de atriz.

Não que o PT esteja ausente das preocupações na nossa mocidade, ele aparece no happening dos ”jovens” que agrediram Chico Buarque de Holanda, esses eram claramente antipetistas. Ainda que, provavelmente, nem saibam o que isso significa. Por certo, analfabetos políticos não deixam de ser políticos. Anti-petistas, mas não me consta que, mesmo eles, fossem filiados a algum partido.

Pela direita e pela esquerda, a juventude, já há um tempo, deixa claro que prescinde dos partidos políticos para fazer política. Porém, ainda não temos um modelo institucional que prescinda dos partidos. Essa é a verdadeira crise política que enfrentamos.

Falamos tanto em reforma política. Institucionalizar essa garotada parece-me ser a mais urgente delas, só não sei como. O que temos a lhes oferecer? Filiação partidária?

 

PS1: a Folha, na matéria citada, mais uma vez, desperdiça assunto, talento e informação: “Em 4 anos, proporção de jovens no PT cai mais do que em outras siglas”. Com um material tão rico nas mãos, essa foi a melhor manchete que conseguiu?

PS2: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

 golpe nunca mais1

 

 

 

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