Carta a Ministra Cármen Lúcia – mestra estilista e rigorosa.

A ministra Cármen Lúcia do STF, atrás de sua figura de mestra sábia e rigorosa, parece ser alguém que nutre o gosto pelas frases de efeito. Conquanto dê sabor aos seus pronunciamentos, não a afasta de mal-entendidos. Riscos do estilo.

Prezada Ministra Cármen Lúcia, permita-me chamá-la de mestra, já que é essa a imagem que se forma em meu imaginário quando a vejo. Lembra-me minhas melhores mestras, generosas em sabedoria e rigor e tão avaras em sorrisos. Qual não foi, portanto, minha surpresa em percebê-la como cultivadora de frases de efeito?

Confidencio que também manco de uma perna no estilo, a ironia me é irresistível e, não raro, pago o preço de ser mal interpretado. Temo que isso possa acabar por dar-se consigo em seu voto confirmando a prisão do senador Delcídio Amaral, neste 25nov2015. Riscos do estilo.

“Primeiro, se acreditou que a esperança venceu o medo. No mensalão, se viu que o cinismo venceu o medo. E, agora, que o escárnio venceu o cinismo”.

“A esperança venceu o medo” é o lema que saúda a chegada de Lula à presidência da República. A simbólica chegada de um operário ao poder. O resgate de tantos milhões da miséria, promovida pelos governos Lula, demonstra que tal esperança não era vã.

Claro me está que a senhora não está sugerindo que exista uma relação causal ou consequencial entre Lula, o assim chamado mensalão do PT, já que há outros, e as acusações que pesam sobre o senador Delcídio e que o levaram à prisão.

Não, jamais enxergar em alguém da sua elegância tal deselegância.

Entendo-a como uma manifestação de desencanto com o momento atual. Desencanto o qual eu compartilho. Porém, maldosos podem entender tal frase de forma errada. Riscos do estilo.

Como entenderam errado a sua premonição sobre Joaquim Barbosa, então, relator do chamado “Mensalão do PT”: ”Esse vai dar um salto social agora com esse julgamento”.

Sem dúvida, a senhora antevia a grande atuação do ministro Joaquim no caso. Porém, não faltaram os que se saíram com insinuações outras. Referências sub reptícias, no mínimo, à origem social humilde do ministro. Quando não, a coisas piores que isso. Riscos do estilo.

Mas voltando à sua frase no caso Delcídio Amaral:

“Primeiro, se acreditou que a esperança venceu o medo. No mensalão, se viu que o cinismo venceu o medo. E, agora, que o escárnio venceu o cinismo”.

Bons tempos aqueles durante os quais a esperança pode vencer o medo. Foi o tempo em que a senhora foi indicada pelo presidente Lula para o STF. Um dos acertos muitos que o presidente cometeu.

Depois vieram os tempos em que o cinismo venceu o medo.

De que outro modo tratar o fato de que casos como o da Operação Castelo de Areia tenham morrido sem julgamento devido a filigranas?

Que, em relação ao senador Aécio Neves, uma citação de Alberto Youssef, o delator geral e premiado da República, ao implacável juiz Moro, depois confirmada na CPI da Petrobras, tenha resultado em nada. Ainda mais quando completamente coerente com o que se conhece da chamada “Lista de Furnas”?

Onde o princípio “In Dubio Pro Societate”?

E hoje, quando o “Mensalão do PSDB” e o “Trensalão do PSDB”, um em Minas, outro em São Paulo, caminham serenamente para a prescrição.

Quando nos lembramos de Carlinhos Cachoeira, condenado e mesmo assim curtindo férias em idílicos resorts da costa baiana. E o deputado Eduardo Cunha arrotando poder, apesar de denunciado pelo Procurador Geral da República.

O escárnio venceu o cinismo.

Como não se desencantar?

Permita-me, querida mestra, juntar-me à senhora nesse desencanto e trabalhar para rechaçar qualquer mal-entendido que sua frase e seu estilo, belos, possam suscitar em corações já predispostos a isso. Não os faltam, por certo.

Com os meus devidos respeitos.

 

PS1: a ministra Cármen Lúcia foi a relatora no processo que alforriou biógrafos da autorização prévia de seus biografados. No seu voto, uma frase resumo ficou célebre: ”Cala boca já morreu”. Nem de longe faz jus à profundidade dos pensamentos contidos no voto – “O que não admite a Constituição é que sob o argumento de ter direito a ter trancada a sua porta, abolir-se a liberdade do outro de se expressar, pensar, criar…”. Riscos do estilo.

PS2: em relação à referência ao ministro Joaquim Barbosa – aqui.

PS3: são ridículas todas as cartas de amor, já ensinava-nos Fernando Pessoa.

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