O erro do mecânico que não leu Maslow.

Qual nota dar a um governo, quando são os meninos que dão aulas de democracia e cidadania ao governador e ao secretário da educação?

Eu sou ex-aluno do Vocacional do Brooklin, a atual Escola Estadual Oswaldo Aranha, aqui em São Paulo. A esquina da Rua Pensilvânia com a Avenida Portugal tem para mim um significado pessoal, faço uma viajem a mim mesmo todas as vezes que passo por lá.

Foi lá que a Ditadura me ensinou a marchar antes de ter-me ensinado a resolver equações de primeiro grau. Mas foi lá também que eu aprendi a resolver as tais equações e outras. Foi lá também que eu aprendi que tinha a liberdade de entrar ou não em sala de aula e a responsabilidade de assumir as consequências do uso dessa liberdade, nas provas bimestrais. E eu entrei para assistir as aulas, na maioria das vezes.

Foi lá, em determinado momento, que as meninas passaram a exercer sobre mim uma atração irresistível. Foi lá que eu aprendi que um time de futebol é um pequeno exército onde somos todos “brothers in arms”. Foi lá que aprendi que um cigarro pode conter muito mais que nicotina, conter toda a transgressão.

Eu sou em grande parte o que o Vocacional do Brooklin fez de mim. Eu pertenço a ele e ele pertence a mim.

Essa introdução personalista foi-me necessária para refletir sobre o que ocorre hoje na educação paulista, retratado na reação e na resistência à “reorganização escolar” proposta pelo governo Alckmin.

Atrás de uma proposta pedagogicamente defensável, escolas por ciclos únicos de estudo, foi identificada imediatamente a mais valia – alunos alocados pela capacidade máxima das salas de aula, fechamento de escolas “ociosas” e redução de custos operacionais, a demissão do corpo docente como consequência. Conceitos de gerência de produção utilizados na educação – otimização do uso de recursos e do espaço com valor agregado. Nada mais natural para um sistema educacional que já usa o conceito de “FIFO – first in, first out” para promoção dos alunos.

A confiar-se nos números oficiais, 94 escolas seriam fechadas e 311 mil alunos seriam afetados pelas transferências. Não se impressionem, não é significativo. Segundo o Censo Escolar de 2014, o Estado mantém algo próximo a 3,8 milhões de alunos, não considerando o ensino municipal e o profissionalizante, distribuídos em mais de cinco mil escolas.

Se não os números, o que então explica a épica reação dos alunos ocupando suas escolas em protesto? A Folha de São Paulo trouxe em manchete que as escolas foram invadidas. Os alunos invadiram suas escolas tanto quanto eu invado a minha casa todas as vezes que volto a ela. Mas a Folha é a Folha e o rabo preso da Folha é o rabo preso da Folha.

Simples. Sem prejuizo de ser consequência de arrogância e prepotência no trato das relações públicas, é o resultado do erro de dois homens que não dominam os conceitos necessários para exercer as funções e os cargos que ocupam.

Já dizia o poeta: “… gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”.

Uma escola é mais que uma escola, ela é um dos elementos que formam a identidade de cada um. Ela supre a nossa necessidade de pertencimento. Como a nacionalidade ou nossa filiação afetiva a um time de futebol também suprem. Maslow explica.

Os alunos estão lutando para preservar o que os faz sentir eles próprios, estão lutando para não ser tornarem “apátridas”.

Como isso não foi considerado? Como uma decisão dessas, a de sacar uma pessoa de seu lugar e enviá-la sem seu consentimento a outro lugar no qual ela não tem suas referências, pode ser tomada seguindo uma lógica vertical, “top-dow”?

Vários são os motivos desse erro.

Um deles é considerar o cidadão como um subordinado. Os alunos não eram cidadãos, eram subordinados, deveriam tão somente obedecer às ordens dadas pela “autoridade superior”. Não é outra a razão de a polícia ter sido enviada às escolas ocupadas e não o dirigente de ensino. A polícia mediando uma questão pedagógica e de gestão escolar é sintomático de um governo que perdeu a sensibilidade social.

A educação como um caso de polícia. A polícia pedagógica e a pedagogia do cassetete e do spray de pimenta. Uma característica dos governos do PSDB.

O artigo primeiro da Constituição Federal, que determina que todo poder emana do povo e em seu nome ou por ele é exercido, significa o que para o governador Alckmin?

Outro motivo é a escolha do homem errado para comandar a Secretaria da Educação. O atual secretário da educação é um engenheiro mecânico. Ex-reitor da querida UNESP, uma visita ao seu perfil nos mostra um acadêmico com sólidas formação e produção, mas na disciplina de resistência dos materiais. Qual seu conhecimento dos conceitos de pedagogia, de didática e de prática de ensino? Um homem assim já leu Paulo Freire – “Pedagogia da Autonomia”? Qual o seu posicionamento em relação aos pensamentos de Emilia Ferreiro, Piaget ou Vygotsky? O que entende de gestão escolar? Alguma vez desenvolveu um PPP – planejamento político pedagógico, onde se considera a escola e sua comunidade antes de se elaborar um plano de ensino? Raciocina como engenheiro ou como educador?

No entanto, e paradoxalmente, há muito o que se tirar da atual situação. Em educação, tudo é caminho.

Os alunos estão recebendo uma educação pela pedra e pela luta, e assim, aprendendo e ensinado uma nova lição. Generosos, os garotos estão dando uma aula de democracia e cidadania ao engenheiro que não leu Maslow e ao governador que parece buscar ser um gerente eficaz no lugar de ser um bom político; médico anestesista por formação, não leu Aristóteles.

Aprenderão a lição?

Quanto ao engenheiro, não sei. Quanto ao gerente, tenho poucas esperanças. Quanto aos alunos, tenho certeza.

 

PS: a Secretaria da Educação paulista é useira e vezeira na aplicação da mais valia. Contrata professores temporários com cláusula de “duzentena”. Para quem não está familiarizado com o termo, significa que o professor perde o vínculo com o Estado ao final do ano letivo e não poderá ser contratado no ano seguinte. Sem vínculo, não há custos trabalhistas e previdenciários para o Estado. É o boia-fria da educação. Professores concursados devem bancar os custos dos exames médicos admissionais. A mais valia chega ao paroxismo da discriminação, mesmo aprovados em concurso, professores gordos foram reprovados na perícia médica. Seria uma medida preventiva como forma de reduzir custos futuros com problemas de saúde. Isso, em uma empresa privada, levaria o gestor de RH a dar explicações a Justiça do Trabalho.

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