Folha – “vocês querem bacalhau?”.

“Eu não vim para explicar, eu vim para confundir” – como a tentativa de criminalizar Lula gera textos que parecem ter sido escritos pelo saudoso Abelardo Barbosa – o Chacrinha.

Confesso que estou cansado. O noticiário político-criminal das últimas semanas tornou-se um festival de ilações tal que pensei em entregar-me unicamente às minhas ”Associações Indevidas”. Faltou-me inspiração, contudo.

Constroem-se histórias mirabolantes com uma falta de lógica que as coloca na ordem das fábulas. E é esse atentado à lógica narrativa que me põem de volta a encarar a folha em branco e tratar de um assunto do qual entendo nada e do qual entenderei menos ao final.

Vejamos a Folha de São Paulo deste primeiro de novembro de 2015.

Manchete: ”BNDES dribla norma para emprestar R$ 102 mi a empresa de amigo de Lula”

Logo de cara nota-se que o escandaloso é tratar-se de um “amigo de Lula”. Há uma nova categoria de pessoas nos jornais, as gentes de Lula: amigo de Lula, filho de Lula, nora de Lula e filho do vizinho do conhecido de Lula.

Pela manchete e pela interpretação do texto, estamos diante de um escândalo de favorecimento. O BNDES descumpriu procedimentos bancário para favorecer alguém ligado ao ex-presidente. Tráfico de influência claro.

Só que não.

“O BNDES contornou uma norma interna que o proíbe de conceder empréstimos a empresas cuja falência tenha sido requerida na Justiça e concedeu crédito de R$ 101,5 milhões ao pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que se tornou um dos alvos da Operação Lava Jato”.

BNDES + Lula + empréstimo + amigo de Lula + Lava Jato. Vejamos se entenderemos a trama.

 “A empresa de Bumlai que recebeu os R$ 101,5 milhões é a São Fernando Energia 1, criada para produzir eletricidade a partir de bagaço de cana”.

Reparem no nome da empresa: “São Francisco Energia 1”.

“Com dívidas de R$ 1,2 bilhão, o grupo São Fernando, cujo principal negócio é uma usina de etanol em Mato Grosso do Sul, teve a falência requerida na Justiça pelo próprio BNDES e pelo Banco do Brasil mais tarde, porque não tem conseguido honrar os pagamentos que se comprometeu a fazer no processo de recuperação judicial”.

Pronto, o Velho Guerreiro entrou em cena.

A “São Francisco Energia 1” foi misturada a um tal “Grupo São Francisco” que o texto não esclarece se trata-se de uma holding ou se o termo “grupo” foi utilizado para caracterizar várias empresa pertencentes a um mesmo dono, porém, independentes entre si.

Nesse “grupo” está uma usina de etanol em Mato Grosso do Sul – suponho ser a São Fernando Açúcar e Álcool que teve a falência requerida na Justiça pelo próprio BNDES e pelo Banco do Brasil. É isso?

É essa usina que está falida, não a empresa geradora de energia elétrica?

Ora, se são empresas diferentes, uma geradora de energia elétrica, outra produtora de açúcar e álcool, como a dívida de uma interfere na concessão de empréstimos à outra? O texto não diz, apenas mistura as informações e segue em frente.

Lá pelas tantas, a informação que demonstraria a total temeridade do BNDES:

“O balanço da São Fernando Energia em 2011 mostra a empresa em situação dramática. As dívidas da companhia eram 9,5 vezes maiores do que o patrimônio líquido. Seria como um cidadão ter R$ 100 mil em sua conta e, ao mesmo tempo, uma dívida R$ 950 mil”.

Dados de quatro anos atrás. Dos balanços de 2012, 2013 e 2014 nenhuma palavra.

Mas vamos lá, o que é “situação dramática” em um balanço? Uma dívida maior que o patrimônio? Sim, mas e as expectativas de lucros com a venda da energia elétrica?

Pelo pouco que me lembro das aulas de teoria do investimento, a alavancagem de um novo negócio gera naturalmente essa situação. Quando uma organização toma um financiamento para ampliação dos negócios, ela deverá mais do quem possui no momento. Por isso, trata-se de investimento. Os lucros futuros pagaram as dívidas, não o patrimônio no momento da tomada do empréstimo.

“… Seria como um cidadão ter R$ 100 mil em sua conta e, ao mesmo tempo, uma dívida R$ 950 mil”.

Imagine Bill Gates ou Steve Jobs pleiteando um empréstimo junto a Folha de São Paulo, oferecendo como garantia uma ideia e suas guitarras elétricas. Os Frias deixariam de ser sócios da Microsoft e da Apple, se usassem o mesmo critério que cobram do BNDES – relação dívida X patrimônio.

A alavancagem de um negócio é um momento crítico que precisa ser bem gerido, mas é a expectativa de lucro e o risco envolvido que irão decidir a concessão do financiamento ou não.

Em relação a isso, qual era a situação da São Francisco Energia, quando da decisão de financiamento pelo BNDES? Nenhuma palavra. Nem se era financiamento mesmo ou outro tipo de empréstimo. E isso faz muita diferença.

Termino o texto da Folha sem entender o que as duas empresas “São Francisco” tem a ver uma com a outra, sem saber para que a São Francisco Energia tomou o empréstimo, sem saber se existe uma holding chamada “Grupo São Francisco” e sem saber se houve ou não improbidade do BNDES ou prejuízos ao banco.

Mas, Folha acrescenta:

“Bumlai, [amigo de Lula que é dono do Grupo São Francisco, mas não é o dono da São Francisco Energia, já esta está em nome dos seus filhos, os quais a Folha não esclarece se também são amigos de Lula] que já foi um dos maiores criadores de gado do país, tornou-se alvo das investigações da Lava Jato depois que dois delatores relataram que ele teria repassado recursos para uma nora de Lula e ajudado a quitar dívidas do PT, o que ele nega ter feito”.

Caramba, agora entendi.

É tudo culpa do Lula.

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