Livraria Cultura – a ética e o valor do negócio.

Qual o custo para a Livraria Cultura o não ter condenado de imediato as agressões à Haddad e Suplicy?

Sou cliente da Livraria Cultura há muitos anos. E ainda gosto de sê-lo. Seu sistema de vendas pela internet é um dos melhores dos que tenho utilizado, rápido e confiável. Seu catálogo é completo a ponto de encontrar nele alguns títulos bem difíceis. Mas ética é um valor maior. Assim, não foi sem sofrimento que tive de avaliar se continuaria cliente ou não dessa livraria.

O que motivou minha dúvida, mais que as agressões sofridas por Suplicy e Haddad, no evento promovido pela Cultura em conjunto com emissora de oposição Rádio CBN, foi a colocação que encontrei na internet do diretor de marketing da livraria, Fábio Herz, sobre o ocorrido:

 “A Livraria Cultura é um espaço democrático, suprapartidário e de acesso irrestrito a todo e qualquer tipo de público. Nas dezenas de eventos que acontecem em nossas lojas todos os dias, prezamos pela ética, a diversidade, a transparência e a civilidade”. 

Frases dúbias, democracia pressupõem tolerância e o que se viu foi um ato de agressão. O posicionamento de Fábio Herz não trazia uma condenação cabal ao ocorrido. Existem duas maneiras de se autorizar um mal feito: uma é autorizando-o, outra é não o desautorizando formalmente.

A CNBB, em momento algum, na campanha eleitoral de 2010, desautorizou os abusos que seus bispos cometeram contra a então candidata Dilma Rousseff. Autorizou-os, por conseguinte.

A Folha de São Paulo, que se quer um jornal isento, vem tornando-se uma especialista em incentivar tais agressões. Parecem textos jornalísticos, são propagandas das agressões.

Jornalistas não merecem ser estupradas

Um elogio à agressão

Não nos deixemos iludir, não são casos de protestos ou manifestações democráticas. São agressões. Protesta-se contra “o quê”, nunca contra “quem”. A pessoa do pior facínora é inviolável. Protesta-se nas ruas, não protegido por quatro paredes que nos são familiares.

Pelo histórico aqui reatado, a Livraria Cultura poderia até estar em companhia ilustre, mas não teria mais a minha companhia. Reclamei formalmente.

Abaixo, a resposta da Livraria Cultura, com a contextualização da frase de Fabio Herz:

Prezado Sérgio,

Há 68 anos, a Livraria Cultura se dedica a ser um espaço onde cultura e conhecimento estejam à disposição de todos. Da mesma forma, acredita na liberdade de expressão e no debate saudável como o melhor caminho para que diferentes formas de pensar sejam apresentadas e o universo intelectual de cada um possa se expandir, construindo uma sociedade melhor.

Em relação aos acontecimentos do último sábado, com a gravação da sabatina realizada pela Rádio CBN com o prefeito Fernando Haddad, acreditamos que estávamos, mais uma vez, oferecendo uma oportunidade de debate saudável, em um evento aberto ao público e sem nenhuma restrição de acesso.

Um grupo de opositores ao prefeito Fernando Haddad se formou depois que seus integrantes já estavam no interior da loja. Por uma decisão da equipe de segurança do próprio prefeito, sua saída do teatro foi realizada logo após o término do evento.

Infelizmente, fomos surpreendidos com o tratamento hostil recebido pelo secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Eduardo Suplicy. Em contato com ele, expressamos nossa solidariedade. Eduardo Suplicy, além de um grande amigo, é assíduo frequentador da Livraria Cultura, seja como cliente, seja prestigiando e participando de nossos eventos.

A Livraria Cultura é um espaço democrático, suprapartidário e de acesso irrestrito a todo e qualquer tipo de público. Nas dezenas de eventos que acontecem em nossas lojas todos os dias, prezamos pela ética, a diversidade, a transparência e a civilidade.

Atenciosamente,
Livraria Cultura

A Livraria Cultura sente-se infeliz e surpreendida, expressa sua solidariedade aos ofendidos, mas, aparentemente, tem dificuldades em simplesmente dizer:

“A Livraria Cultura é um espaço democrático, suprapartidário e de acesso irrestrito a todo e qualquer tipo de público; apesar disso, e até por isso, condena o tratamento hostil recebido pelo secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Eduardo Suplicy na sabatina promovida pela Cultura, realizada no último sábado. Nas dezenas de eventos que acontecem em nossas lojas todos os dias, prezamos pela ética, a diversidade, a transparência e a civilidade”.

Simples assim.

A Livraria Cultura, por óbvio, vive do trânsito de ideias. Ideias são contraditórias por natureza. A Livraria Cultura, em última instância, vive do contraditório que oferta a seu público. A intolerância é o estado de um pensamento único autorizado, e da perseguição ao pensamento discordante. No regime da intolerância não são necessárias livrarias. Livros mesmo, no regime da intolerância, são queimados em praça pública.

Ao não condenar cabalmente a intolerância, a Livraria Cultura atenta contra seu próprio negócio e direciona sua marca a um público que, com certeza, não é dado ao consumo de livros. Antagonizar sua marca com os leitores posicionados no espectro político da esquerda é uma tolice mercadológica. Rei da Coxinha é nome de rede de fast food.

Por fim, chega-me, pela internet, que Fábio Herz seria um militante pelo impeachment da presidente Dilma. Claro está que ele tem o direito de ter opinião formada sobre o que quiser, inclusive no que diz respeito à política. Estranha-me, no entanto, que, sendo um diretor de empresa, manifeste a publicamente. Todo executivo deveria conhecer o conceito de conflito de interesses.

Nessas situações, lembro sempre de uma norma para a gestão da competência de laboratórios, logo no seu início ela exige:

“ter políticas e procedimentos para evitar envolvimento em quaisquer atividades que poderiam diminuir a confiança na sua competência, imparcialidade, julgamento ou integridade operacional”.

Vale para laboratórios, para jornais e, creio eu, para livrarias. Pelo menos, para os que quiserem manter seus clientes.

 

PS: a norma em questão é a ISO 17025:2005.

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