Eduardo Cunha: sublimação jornalística e rabo preso.

Sublimação é um fenômeno físico-químico que consiste na passagem direta de uma substância do estado sólido para o estado gasoso e vice-versa, sem passar pelo estado líquido.

Por analogia, a psicologia e a psicanálise também utilizam o conceito. E, agora, graças à debacle de Eduardo Cunha, pode-se aplica-lo às técnicas jornalísticas.

Quem lê a imprensa mainstream nativa, pós-denúncia de Cunha pela Procuradoria Geral da República ao STF, acabará por concluir que Eduardo Cunha é aliado de Lula. Que Lula não mede esforços para salvá-lo de uma condenação no Comitê de Ética da Câmara dos Deputados. E que a queda de Eduardo Cunha é um abraço de afogados entre ele e a presidente Dilma Rousseff. Cairão juntos.

Ligar Lula a Cunha sem passar por Aécio. Sublimação jornalística. Trata-se de um esforço da imprensa para fazer sumir da memória jornalística o apoio do PSDB e de Aécio Neves a Eduardo Cunha.

Tal apoio, mais do que ideológico, buscava que Cunha encaminhasse pelo menos um dos pedidos de impeachment da presidente, única atividade parlamentar do senador Aécio e do PSDB federal , desde que foram derrotados em outubro de 2014. Tinham, o PSDB, Aécio e Cunha, até um plano traçado para, utilizando-se de uma forma corrompida de leitura do regimento interno da Câmara, especialidade de Cunha, aprovar o pedido de impeachment por maioria simples dos deputados.

O STF acabou com esse plano pela mais elementar interpretação da Lei 1079/50. E a comprovação das contas suíças de Cunha e família tornou-o um leproso.

O problema desse esforço midiático em fazer, agora, sumir Aécio Neves do lado de Cunha é que o affair entre ambos era público. Não por outro motivo a ilustração que abre este texto é prova documental. O que torna ridículo os contorcionismos atuais tanto do PSDB quanto da imprensa.

Veja-se o caso edição da Folha de São Paulo de 17 de outubro de 2015.

No editorial:

“A divulgação de documentos comprovando a existência de contas bancárias na Suíça em nome do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) vem representar a derrocada de uma figura que, por um bom período, ocupou o papel que os partidos oposicionistas no Congresso Nacional não souberam ou não tiveram condições de exercer”.

“Partidos oposicionistas”, bem genérico assim. E, logo em seguida:

“Nem por isso parecem diminuídas as preocupações do governo. Graves denúncias aproximam-se do ex-presidente Lula.  Os estrategistas do Planalto… veem-se ocupados, assim, em obscenas e contraditórias ações de blindagem. Lula poderia proteger-se de iniciativas judiciais de primeira instância se lhe fosse concedido um posto ministerial. Cunha poderia ser preservado, caso não se disponha a atacar. Como as ruas reagiriam a manobras tão deploráveis?”.

Lula e Eduardo Cunha blindados pelo PT e pelo governo Dilma. Sublimação concluída.

Nenhuma citação a Aécio e ao PSDB, sustentáculos de Eduardo Cunha a ponto de não terem assinado o pedido de sua cassação. Nenhuma palavra sobre Carlos Sampaio, líder do PSDB, remoer-se sobre a idoneidade moral de Cunha, concedendo-lhe o benefício da dúvida até trânsito em julgado:

“Enquanto não houver informações adequadas que comprovem o envolvimento de Cunha, o PSDB vai manter sua posição de apoio ao Presidente da Casa. Temos um comportamento de confiança mútua construída em razão da postura de correção que ele vem adotando com as oposições”.

As informações adequadas surgiram e sumiu do editorial qualquer palavra sobre o petit comitê oposicionista que foi até a casa de Cunha discutir os termos de uma nota “me engana que eu gosto” de críticas ao deputado: [Eduardo Cunha] deve afastar-se do cargo, até mesmo para que possa exercer, de forma adequada, seu direito constitucional à ampla defesa”. Essa era a crítica do PSDB. Não ficaria feio se tal recomendação fosse feita pela esposa de Cunha.

Sumiram-se as palavras, ficaram as imagens icônicas a falarem por si próprias.

Essas, por certo, incomodam de tal maneira que a mesma Folha acaba por cometer o artigo “Guerra total”. Texto onde mistura o cerco à Constantinopla bizantina pelos otomanos em 1453 com as ainda incipientes acusações (sic) de Fernando Baiano ao “chefão petista” para concluir que Dilma, ou seu holograma, luta, mas é incapaz de evitar sua queda paralela à de Eduardo Cunha. Ou talvez muito ao contrário.

Tratasse-se de psicologia ou psicanálise, Freud explicaria – confusão mental. Uma luta interna na busca da sublimação. Um mecanismo de defesa do “eu”.

Mas é jornalismo.

E, em jornalismo, sem desconsiderar Freud, sublimação é rabo preso.

 

PS1: para que, prefere George Orwell a Sigmund Freud: O Ministério da Verdade

PS2: ainda nessa edição da Folha, o professor Demetrio Magnoli, querendo fazer crer que critica o PSDB em relação ao conluio deste com Cunha, no seu ”Fausto no trópico”, sai-se com esta:

O crime [de Dilma] passível de impeachment, ainda não totalmente comprovado, encontra-se no financiamento de campanha com recursos desviados da Petrobras. O PSDB desviou-se dessa rota complexa [de acusação], pois ela não conduz a um acordo com os caciques peemedebistas implicados na Lava Jato”. 

O professor trai-se freudianamente e deixa à mostra um desejo secreto. “Crime não totalmente comprovado” não é crime, é suspeita. E, suspeitas, até eu posso ter alguma em relação a Magnoli, mas isso não me dá o direito de acusá-lo de nada. Quanto mais de, a partir delas, pedir seu impeachment por crime de responsabilidade.

Assim também, o ingênuo mestre parece não se aperceber de que se o PSDB não enveredou pelo caminho do questionamento das contas de campanha, no plenário da Câmara, não foi para preservar o PMDB, mas porque as mesmas empresas que doaram para Dilma doaram para Aécio. O PSDB deixou tal missão para o ministro Gilmar Mendes.

PS3: para referências pagas:

”Blindagem à vista”  (a blindagem é à vista, mas a Folha aceita cartão de crédito).

”Eduardo Cunha tem o benefício da dúvida”

”Guerra total”

”Me engana que eu gosto”

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