O Demônio ri dos seus serviçais.

E se, ao fim, o movimento golpista que temos assistido levasse à manutenção da ordem democrática como a única forma de evitar a derrota dos próprios golpistas? O demônio ri dos seus serviçais.

Eduardo Cunha está acuado. O que lhe resta para safar-se é entregar a cabeça de Dilma na forma da aceitação de um dos muitos pedidos de impeachment que tramitam na Câmara dos Deputados. Gerar um fato político que o tirasse dos holofotes.

Só se Eduardo Cunha for um idiota.

E não é só porque essa é uma manobra que não depende dele, ou apenas dele. É porque não lhe interessa. No momento seguinte ao afastamento de Dilma, Eduardo Cunha não terá nenhuma serventia para as forças que lhe dão sustentação na espera que ele o faça. O impeachment é sua gazua. E Cunha sabe usar uma gazua. Cunha é tudo de que o possam acusá-lo, menos um tolo.

Para obter o impeachment, talvez seja melhor a oposição substituir Cunha, na presidência da Câmara, por um deputado limpinho e cheiroso, mas não será fácil.

Cunha construiu uma fortuna intermediando interesses financeiros e atividades parlamentares. Não é isso que demonstram delações premiadas e o ministério público da Suíça?

Pois Cunha é também generoso. Sua generosidade tornou-o proprietário de uma bancada particular na Câmara dos Deputados de devedores de favores. Sabe de quem arrecadou, sabe para quem doou. Sabe com quem negociou e a troco do quê. Não será com “cobranças da oposição” que deixará o posto. Seu silêncio resignado com o destino cruel terá de ser obtido por outro modo.

Será à toa tanto interesse repentino pelo extrato do cartão de crédito de sua esposa?

Estou enganado, ou Cunha já usou, através de pessoa interposta, a mesma estratégia com alguém?

O demônio ri dos seus serviçais.

Renan Calheiros tem um pacto com o demônio. Não vejo outra explicação.

Durante meses cozinharam no TCU a rejeição das contas do governo Dilma. Criaram até mais uma novilíngua – “pedaladas”. Seria o golpe perfeito – técnico. Com o parecer do TCU nas mãos, a Câmara rejeitaria as contas governamentais. Cunha, constrangido, argumentaria tratar-se de mandato findo. A oposição apelaria ao plenário da Câmara, pouco importando que não seja isso que diz a lei, a legalidade se faz ao sabor do interesse dos poderosos. Sem poder contrariar o plenário, que, aliás, já demonstrou que não toma decisão que não seja do seu interesse, Cunha abriria o processo de impeachment. Dilma seria afastada.

Não consigo imaginar por que a oposição faz tamanho esforço para colocar Michel Temer no poder. Mas enfim.

Pois bem, uma decisão do STF determinou que seja o Congresso e não a Câmara quem julgará as contas de Dilma. O poder caiu nas mãos de Renan Calheiros e o diabo gargalha.

“As eleições de 2014, para o Poder Judiciário, são uma página virada. Não haverá terceiro turno na Justiça Eleitoral. Que especuladores se calem. Não há espaço para terceiro turno que possa cassar o voto destes 54.501.118 eleitores”.

Gilmar Mendes, sabe-se lá por que artes do demo, fez Dias Toffoli se desdizer em público e abriu, no TSE, o terceiro  turno das eleições presidenciais de 2014. Manda avisar aos navegantes que esse tribunal é superior ao Supremo, embora isso seja, no mínimo, uma impropriedade semântica.

O ministro Gilmar já comandou uma força-tarefa que examinou com lupa as contas da campanha de Dilma e nada encontrou. Somou-se a unanimidade que as aprovou. Porém, a Lava Jato é pau para toda obra, e eis que de lá sai as ilações necessárias para que se inicie a investigação sobre as contas já aprovadas. As doações legais para a campanha de Dilma seriam ilegais.

A Lava Jato provará isso.

Ora, se os achados da Operação Lava Jato pudessem fazê-lo, já o teriam feito. A imprensa colocou seus melhores sabujos para farejá-los. Não será agora, que a operação caminha para o ocaso, que algo novo surgirá. E, sem provas, se o impeachment seria golpe, tanto mais cinco senhores decidindo, em nome da nação, pela nulidade da eleição de Dilma e Temer, com base em verbos no futuro do pretérito, e pela imediata posse de Aécio Neves, o candidato derrotado.

Sim, porque, é da posse imediata de Aécio que se trata. Uma nova eleição, por certo, não está nos planos de Gilmar, me arisco a pensar. Levaria Eduardo Cunha ao Palácio do Planalto por noventa dias. Cunha ainda não é réu, e, em um país onde meia tonelada de cocaína em helicóptero de deputado federal acaba em nada, deveremos esperar até que o seja para afirmar que será. Mas me parece que seria impensável uma pessoa processada no Supremo assumir o comando do Poder Executivo. Logo, Renan Calheiros, o próximo na linha de sucessão, se tornaria presidente.

Presidente Renan Calheiros, empossado pelo TSE de Gilmar Mendes. Se esse homem não tivesse pacto com o demônio, seria porque o demônio não faria pactos.

Vamos, então, à opção a uma nova eleição – a posse imediata de Aécio Neves.

Todos os movimentos sociais represados pelos governos Lula e Dilma estariam liberados para ir às ruas protestar contra o golpe. E esses não tiram selfies com policiais. Lula na oposição. A América Latina se posicionando contra o golpe de Estado no Brasil.

Por que EEUU ou a Europa apoiariam tal aventura? Seus interesses no Brasil são melhor remunerados com a estabilidade política. A Guerra Fria acabou há 25 anos, só senis profanadores de velórios ainda não perceberam que os EEUU foram para Cuba.

Todos os outros candidatos a 2018 vendo suas pretensões adiadas para 2022. Assistiriam apenas?

Aécio assumindo, a lista de Furnas, o depoimento de Youseff, os aeroportos nas terras do tio e do pai e as viagens de jatinho se voltariam contra ele. As mesmas empresas que doaram para Dilma doaram para Aécio.

Fora o PSDB, os mesmo que pedem o impeachment de Dilma, na Câmara e no Senado, e todos os grupos de interesse que os orbitam passariam a usar o impeachment de Aécio como moeda de troca. Exigindo cargos e verbas em nome da governabilidade.

Por que seria diferente?

Sim, esse é o produto do antipetismo ensandecido, um país ingovernável. Desenvolvemos uma competência única no mundo para promover a ingovernabilidade. Seja que partido assuma o poder.

Ao fim do movimento golpista que temos assistido, talvez a manutenção da ordem democrática seja a única forma de evitar a derrota dos próprios golpistas?

O demônio ri dos seus serviçais.

 

PS: a ilustração faz referência ao Sabá das Bruxas. A analogia pareceu-me adequada ao que muitos têm praticado há mais de uma década.

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