A lógica do malandro.

Todo “A” é “B”. “C” também é “B”. Logo, “C” é “A”.

Zé Pilintra

Certo?

Errado.

A proposição acima é um clássico erro de lógica.

Algo assim como: todo gato é mamífero. Meu cachorro é mamífero. Logo, meu cachorro é um gato.

Trata-se de um silogismo deturpado. Tais silogismos, mais das vezes, são usados para divertir. Mas também podem ser utilizados para enganar. E é nesse caminho que me parece ir o artigo ”Pobre é ladrão?” de José Ribamar Ferreira, na Folha de São Paulo de 04 de outubro de 2015.

No artigo em questão, José Ribamar critica argumento que ouviu sobre a causa dos arrastões de dias atrás no Rio de Janeiro:

“Logo após o fim de semana, quando a zona sul do Rio foi tomada pelos arrastões, assisti a um programa de televisão em que se debatia o assunto. Pois bem, durante o debate, a opinião dos participantes era de que… de nada adianta reprimir a ação dos pivetes, uma vez que a causa está na desigualdade: esses assaltantes são jovens de classe baixa, filhos de famílias pobres, que muitas vezes não têm nem mesmo o que comer. Noutras palavras, é a desigualdade social que os leva a roubar”.

Não nos deixemos perder, é de desigualdade que está se falando. José Ribamar decididamente discorda de tal argumento. Vejamos seu raciocínio:

“Quantos menores pobres existem na cidade do Rio de Janeiro? Não sei ao certo, mas acredito que cheguem a muitos milhares, a centenas de milhares. Se aqueles jovens assaltam por serem pobres, por que não há muitos milhares de assaltantes em vez de algumas dezenas?”

Ora, não era de pobres que se estava falando, era de desigualdade.

Essa é a malandragem de José Ribamar: desigualdade provoca violência. Pobres são vítimas da desigualdade. Logo, pobres são violentos.

José Ribamar sabe que está usando um silogismo deturpado, por isso, logo em seguida, emenda:

“Diante disso, concluo que não é apenas por ser pobre que o cara se torna assaltante. Ou vamos admitir que basta ser pobre para ser bandido? Seria uma ignomínia contra os pobres que, pelo contrário, em sua absoluta maioria trabalham para ganhar o pão de cada dia”.

Como bom malandro, José Ribamar toma seus interlocutores por tolos. Crimes também ocorrem em sociedades ricas. Citar os EEUU seria uma redundância. Só que, em contraponto, sociedades mais igualitárias tendem a ter menores índices de violência, ainda que pobres. E, por óbvio, sociedades ricas e igualitárias são praticamente imunes à violência.

Quem associou pobreza com violência foi José Ribamar, o debate tratava de desigualdade.

Mas José Ribamar não perde viagem:

“E o pessoal do Petrolão, rouba por quê? Por não ter o que comer certamente não é. Será por vocação?”.

Não sei. E não sei também como a existência do petrolão, do trensalão, da lista de Furnas, ou ainda, a fazenda do FHC ou os aeroportos de Aécio negariam o argumento de que desigualdade produz violência.

Mas, com o elogio às virtudes da pobreza e a condenação do mensalão da vez, José Ribamar está pronto para a sua “pièce de résistance”.  Vai buscar apoio em Santo Agostinho, de quem é devoto, e conclui: o mal existe porque o homem, por livre escolha, se afasta do bem:

“Citei, certa vez, numa de minhas crônicas [de tempos para cá, malandro como só, José Ribamar se garante como cronista, é cheio de histórias. Trabalho duro é coisa para quem nasceu para ser gauche na vida], o que disse uma senhora favelada: “Tenho cinco filhos, duas meninas e três meninos. Quatro deles estão estudando. Só um deles não quis estudar e virou assaltante”. 

José Ribamar é ex-comunista renegado. Estudou o velho barbudo, se comete um erro tão primário, comete-o porque é safo é não porque é bobo.

Mas, quando interessa, José Ribamar volta ao tema da desigualdade:

“Se é verdade que os pivetes assaltam porque nasceram numa sociedade desigual, significa que, enquanto a desigualdade se mantiver, haverá assaltantes, os quais não devem ser punidos, pois são vítimas da sociedade desigual. Puni-los seria cometer uma dupla injustiça, certo? No fundo, é mais ou menos essa visão do problema que levou à benevolência das leis brasileiras contra os criminosos, tenham a idade que tiver”.

Enquanto houver desigualdade social conviveremos com a violência. E com a necessidade de punição. José Ribamar sabe, que, no Brasil, o que une desigualdade com pobreza é a cadeia ou a chacina por grupos de extermínio.

José Ribamar quer mais punição que isso? Não. É que malandro se faz de morto para comer o cu do coveiro. O que incomoda José Ribamar é não poder mandar meninos para a cadeia. Matá-los com um tiro de fuzil não o incomoda.

Malandragem final – transformar vítima em agressor e agressor em vítima

“Se a causa dos crimes é a desigualdade social, e ela vai custar muito a ser superada, vamos ter de viver o resto da vida trancados em casa ou andar apavorados pelas ruas da cidade. Será que está certo?”.

Arrastão nunca impediu burguês da zona sul de frequentar Ipanema. Agora, para acabar com os arrastões, vai ser necessário esse burguês eleger e apoiar apenas governos que desenvolvam ações para a redução dessa desigualdade e, claro, pagar os seus impostos.

É só uma questão de tempo, e os “pivetes” ser transformarão em “garotos morenos” que dividirão pacificamente com o burguês as praias, os bancos da faculdade, as praças de alimentação dos shoppings e os assentos das salas de embarque dos aeroportos.

Até lá, já ajuda se burguês zona sul não esfregar cordões de ouro, relógios e iphones na cara dos garotos pobres da zona norte.

No mais, como diria o poeta: “malandragem, dá um tempo”.

PS1: José Ribamar Ferreira é o assassino impune do poeta Ferreira Gullar: ”Ferreira Gullar: do Poema Sujo ao argumento raso”.

PS2: a ilustração é uma reprodução do trabalho de Eduardo Closs, trata-se de Zé Pilintra, símbolo da malandragem.

PS3: o didático silogismo do cachorro que vira gato é do professor Cezar Mortari.

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