Lula e o espelho dos velhos.

 “Sou velho, mas não sou velhaco”. Essa profissão de fé de Ulisses Guimarães voltou-me à mente por ocasião das recentes declarações de dois senhores provectos a respeito de Lula.

Este mês de setembro de 2015 tem sido de recordações de personagens desbotadas da memória das nossas novas gerações.

Nas páginas do El País, Helio Bicudo, aos 93 anos. Nas páginas da Folha, carregando nas costas 92 primaveras, Tito Costa.

Helio Bicudo foi um herói da minha geração. Um gigante que como Procurador da Justiça de São Paulo, em plena ditadura, levou aos tribunais ninguém menos que o delegado Sergio Fleury. Em uma época em que o Esquadrão da Morte e seu comandante misturavam achaques a traficantes com a perseguição e execução, sumária ou sob tortura, de integrantes da Resistência ao Golpe de 64. Fleury foi a encarnação do mal. Para quem se interesse em saber o quanto, sugiro dois livros: “Batismo de Sangue” de Frei Beto e “A Autópsia do Medo” de Percival de Souza.

Tito Costa é uma figura posterior e de menor brilho, mas importante no seu momento. Foi prefeito de São Bernardo do Campo – SP nos anos das históricas greves operárias do ABC paulista. Um dos marcos do renascimento da nossa cidadania. Para avaliar o que isso significou para nossa redemocratização, basta uma visita à ”Greves – Vila Euclides”.

Ambos senhores têm parte de suas vidas ligadas, por algum tempo, à vida de Lula. Hélio Bicudo como fundador do PT e Tito Costa pelo explicado acima. E ambos, nos últimos dias, tornaram públicas, cada um por seus motivos pessoais, ácidas críticas a Lula – o antigo companheiro de lutas.

Para Bicudo, “hoje, ele é um milionário”. Lula teria enriquecido pela corrupção, por certo.

Para Costa, Lula perdeu a oportunidade histórica de se tornar o verdadeiro líder de um país”, culpado pela “pretensão equivocada de implantar uma era de bonança artificial pela via perversa do paternalismo e do consumismo em favor das classes menos favorecidas”.

Interessante que para justificar suas assertivas desabonadoras em relação ao Lula presidente da República, ambos lembram-se do Lula operário.

Bicudo: “Eu conheci o Lula quando ele era um operário. A casa dele não tinha nem o tamanho desta sala”. A sala em questão é a do apartamento de Bicudo no coração dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, lembra ferinamente o El País.

Já Tito Costa deita falação sobre o que jura não querer falar e recorda da “véspera da intervenção no sindicato, quando Lula ligou ao seu gabinete pedindo ajuda para retirar estoques de alimentos ali guardados”, das “reuniões, madrugadas adentro, no apartamento de Costa em São Bernardo, com figuras expressivas do mundo político e também de outras esferas, todos preocupados com a sorte de Lula, a do sindicato e também a das nossas instituições, em pleno regime militar” e até de ter “acolhido Lula em sua chácara, na pequena cidade de Torrinha, no interior de São Paulo, acobertando-o de perseguições do poder militar da época. Lula, Marisa, os filhos pequenos, vivendo horas de aflição e preocupantes expectativas”.

Trata-se de atos falhos.

Os dois senhores parecem cobrar do Lula presidente algo que creem ser lhes devido pelo Lula operário – a devida reverência.

Sem dúvida, o Lula operário é uma referência próxima nas vidas de Bicudo e de Costa. Nos governos do Lula presidente, porém, ambos ficaram na porta, estacionando os carros. Desejavam muito mais, veem se como “padrinhos” do Lula operário. Mereciam mais, mais não tiveram. Cobram o que julgam lhes devido.

Nada diferente da relação de recalque que FHC também cultiva com Lula.

Lula lhes era bom, enquanto bom selvagem. Mas o sucesso irreverente lhe é pecaminoso.

Comparam a si com o Lula operário e sentem-se superiores. Comparam suas histórias pessoais com a do Lula presidente e o sentimento de inferioridade lhes aguça a mágoa. Sentimento mesquinho a ponto de o ódio lhe ser mais nobre.

Formam um trio de autênticos representantes das nossas classes-médias e sua ojeriza à aproximação com os proletários de celular e cartão de embarque. Essas também culpam Lula.

Sou contemporâneo dos três. Não lhes nego o crédito de que trabalharam a seus modos por um Brasil melhor, tampouco deixo de reconhecer que correram riscos maiores ou menores por isso. Não posso, no entanto, deixar de enxergar-lhes o preconceito de classe e a pequenez da alma.

Tanto pior que tal ocorra em um momento em que deveriam estar preocupados com as recordações que nos deixarão.

Não deixa de provocar-me um profundo sentimento de perda.

Em relação a FHC, não cometeria a imprudência de tentar ensinar o padre-nosso ao vigário Mino Carta.

O caso Hélio Bicudo envolve alguns aspectos de drama pessoal que prefiro não comentar. Mas que seu filho José Eduardo teve a grandeza de explicitar publicamente, até em defesa da memória do pai.

Quanto a Tito Costa, nada vejo em sua “carta aberta” a mais que oportunismo. Tomou uma carona na lambreta de Helio Bicudo. Conheço Tito Costa do tempo em que eu, antes de ter completado 20 anos, já era operário na, então, “República Democrática de São Bernardo”. Na campanha para a prefeitura rolava um bordão entre o populacho:

“Bosta por bosta, vote no Tito Costa”.

Não sou adepto do argumentum ad hominem, evito-o e o repudio, mas como não perceber que o que era galhofa tinha lá o seu quê de premonitório?

PS: aviso aos navegantes, pelo menos um dos lugares abaixo cobra couvert artístico:

Tito Costa: “Carta aberta a Lula”

Hélio Bicudo: “Vamos trabalhar para que Lula não volte em 2018”

José Eduardo Bicudo: “Meu pai está sendo usado pelos articuladores do golpe”

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