Os riscos que cercam o voo do pássaro Lula.

A política é mutável como as nuvens, todos sabemos. Quando agosto de 2015 terminava em cenário favorável a Dilma, o anúncio da candidatura de Lula vem embaralhar a cena política.

Lula é um ser político na acepção do termo. Dispõem das críticas “insides informations” como ninguém. Isso quando não é, ele mesmo, as próprias.

Feitas essas ressalvas e ainda que Lula, dia 28, tenha feito o discurso óbvio:

“Não posso dizer que sou, nem que não sou [candidato]. Sinceramente, espero que tenha outras pessoas para serem candidatas. Agora, uma coisa pode ficar certa. Se a oposição pensa que vai ser candidata e que vai ganhar, que não vai ter disputa e que o PT está acabado, ela pode ficar certa do seguinte: se for necessário, eu vou para a disputa e vou trabalhar para que a oposição não ganhe as eleições.”

É inevitável a leitura de que trata-se, se não do anúncio de candidatura, pelo menos de autorização para especulá-la. Lula é o mais poderoso político brasileiro da atualidade – e estará, no mínimo, no segundo turno de qualquer eleição que dispute. O anúncio de sua candidatura, ainda que prematura, não teria como não mover placas tectônicas da política nacional.

Em 2009 e 2013, pode ter sido inteligente antecipar a campanha política, chacoalhando o barco de José Serra e Aécio, respectivamente, mas, agora, isso seria prejudicial ao governo Dilma. Prejudicial principalmente para uma possível recuperação do cenário econômico. Tornaria Dilma um governo mais provisório do que já é. Com Lula candidato, todas as decisões de investimentos de vulto ficariam adiadas para 2018. A economia ficaria “esperando Godot”.

No campo partidário, obrigaria Alckmin, o virtual candidato do PSDB em 2018, a assumir o papel que hoje é de Aécio e partir para o ataque. Mas principalmente provocaria Temer com vara curta.

Após 25 anos, o PMDB parece ter encontrado um nome para disputar a presidência da República – Michel Temer. Uma liderança calma e sênior. Porém, sua imagem nacional como terceira via ainda está sendo construída. A entrada de Lula na disputa polarizaria outra vez a disputa PT-PSDB. Um PMDB frustrado é tudo que o governo Dilma não precisa. Ao contrário, uma possível candidatura Temer pode ser a cenoura amarrada que manteria o partido puxando a carroça do governo.

Polarizaria também a próxima campanha de 2016 para as prefeituras. Os acordos passariam a ser feitos em função dos palanques de 2018.

Na mídia, a revista Época parece ter assumido o lugar da Veja na detratação de Lula e isso deverá continuar assim. Porém, o que muda com a candidatura de Lula é a intensidade e sua repercussão para os demais veículos da imprensa mainstream.

Isso pode até ser usado a favor de Lula, tamanho o nível de factoides.

Mas as ruas não. Os chamados “movimentos sociais convocados pelas internet” acabaram por se tornar uma poderosa máquina de arregimentar o povo branco instrumentalizando seu preconceito. Sem o impeachment de Dilma à vista, seus financiadores, até por uma questão de custo e oportunidade, deveriam desmobilizar esse povo até a campanha anti-Haddad de 2016.

Desmobilizar não significa desarticular. Esse é um patrimônio que a direita não tinha há meio século – gente na rua. Essa máquina tem valor, inclusive financeiro, pelo menos, para seus líderes. Continuariam ocorrendo eventos periódicos de “protesto contra Dilma” em grandes datas – 7 de setembro e 15 de novembro, por exemplo, ou em algum domingo qualquer.

Com Lula candidato, há uma razão para manter esse povo nas ruas permanentemente. Sempre criando algum fato midiático. Os eventos cercando a “turnê nacional” do boneco inflado do Lula mostram bem o risco aí envolvido. Para quem tem dúvidas sobre isso, recomendo a leitura do texto do professor Aldo Fornazieri.

E finalmente a Lava Jato. Na mídia, a Lava Jato está esfriando. Esperado.

Com a normalização política, o futuro da Lava Jato se torna uma incógnita. No entanto, o risco de uma candidatura Lula pode, em extremo, trazer de volta ideia de que prender Lula seria uma solução.

Por fim, não é isenta de riscos a volta de Lula às metáforas.

“Fiquei calado durante muito tempo porque tinha que cumprir meu papel de ex-presidente. (…) Mas não me deixam em paz. Só matam um pássaro se ele fica parado. E eu voltei a voar outra vez”.

Pode apenas estar falando de defender sua memória e seu legado político, porém, a aceitação de que se faça a leitura de que se trata do anúncio de uma candidatura extemporânea à presidência em 2018 pressupõem a aceitação dos seus riscos.

Lula sempre foi um político e um homem que assumiu riscos. Que esses sejam riscos calculados.

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