“Podemos tirar, se achar melhor” – atualizando a comédia.

Percam todas as esperanças, vós que acreditais que a maldição do PT arrastará junto o amaldiçoado PSDB. Publicado originalmente em 16nov2014.

Comédia divina – a Lava Jato chegará ao PSDB.

Vejo pelas terras do reino da esquerda a esperança de que, a partir da Lava Jato, o republicanismo tome conta do nosso sistema judiciário e que passemos o país a limpo, punindo todos os envolvidos, sejam de que partidos forem.

Não é em outro sentido as declarações da presidente Dilma, neste domingo, 16/11/2014.

“[A Operação Lava Jato da Polícia Federal] mudará para sempre a relação entre a sociedade brasileira, o Estado brasileiro e a iniciativa privada. O Brasil mudará para sempre porque acabará a impunidade”.

O passado recente não me permite nutrir tais esperanças.

Ao PT será cobrado que desça ao nono ciclo do inferno. Para os outros, os corruptores, creio que tudo não passará de uma estada dura, ainda que breve, pelo Vale dos Ventos. Sem dúvida, neste instante, a vida deles foi colhida em um vendaval, mas eles têm nas suas contabilidades paralelas o passaporte para o purgatório e, de lá, a passagem para um dos sete céus.

Agora, e para alguém do PSDB pego em caso de fogo amigo?

Para esse, haverá sempre o limbo. Junto aos pagãos virtuosos.

Não existe, por certo, corruptor ideológico ou doleiro de esquerda. PT e PSDB dividem o poder há duas décadas utilizando-se dos mesmos métodos. Mas não são tratados, de modo algum, da mesma maneira pela imprensa e pela Justiça.

Sobre o segundo, recai o protetor manto da invisibilidade midiática que retarda a cobrança de ação do letárgico braço judiciário sempre para tempos ainda vindouros.

Vejamos.

No que este escândalo da Petrobras é diferente do escândalo envolvendo a Alston-Siemens em São Paulo? As propinas milionárias do trensalão, chamadas eufemisticamente pela nossa imprensa de “cartel”.

Há no acordo de leniência da Siemens, informações suficientes vindas da Suíça, sabe-se quem pagou, quanto pagou e para quem pagou. Um presidente do TCE – Tribunal de Contas do Estado, apontado como beneficiário do esquema, tinha, e talvez ainda tenha, uma ilha em Paraty-RJ e uma mansão no Morumbi, o bairro dos milionários de São Paulo.

Um envolvido no esquema, filho da nossa alta burguesia, foi indiciado pela PF, mas isso não o impediu de ser coordenador da campanha de Aécio, nem lhe trouxe maiores problemas na Câmara dos Vereadores de São Paulo. Para 2016, é pré-candidato pelo PSDB à prefeitura paulistana.

Um procurador que cuidava do caso literalmente engavetou-o por dois anos. Declarou que havia, pasmem, colocado o pedido de informações da justiça suíça na “pasta errada”.

A que levou tudo isso? Como está o caso do trensalão?

Está assim, a Polícia Federal conclui que não houve participação de políticos do PSDB, embora, em São Paulo, o PSDB esteja no poder há 20 anos. Meia dúzia de bagrinhos, funcionários do Estado e das empreiteiras envolvidas, responde a processos.

O ministro Gilmar Mendes determinou a suspensão do processo administrativo disciplinar aberto pela Corregedoria Nacional do Ministério Público para investigar o procurador.

Já ouço que o Caso Petrobras-Lava Jato é o “maior escândalo da história” do Brasil. Ora, esse não era o mensalão do PT?

Após isso, surgiram 8 mil contas de brasileiros na Suíça, incluindo o dono da Folha de São Paulo – caíram no esquecimento. A Operação Zelotes identificou a sonegação de pelo menos R$ 19 bilhões envolvendo empresários do porte de Gerdau e ex-presidentes e conselheiros do CARF – Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Botou a Lava Jato no chinelo e corre em segredo de Justiça.

Afundar a P-36, na época, a maior plataforma de petróleo do mundo, ao custo de 11 trabalhadores mortos não é escandaloso, por certo. Que fim deu-se a esse caso? E o da Petrobrax, dos asfaltamentos da Baía de Guanabara e dos rios Birigui e Iguaçu no Paraná?

E FHC diz que está envergonhado com o que o PT fez com a Petrobras.

Pois bem, os petistas foram condenados na AP 470 e estão cumprindo pena.

Mas e o mensalão do PSDB?

Os PSDBista não serão julgados. E, nove meses depois, ainda não foram.

Eduardo Azeredo renunciou ao mandato na ultimíssima hora para escapar do julgamento no STF. E, embora já houvesse consenso de que isso não o livraria – ver caso Donadon e desdobramentos do caso Cunha Lima, livrou-se. Seu caso foi enviado à primeira estância mineira onde aguarda a prescrição. Pimenta da Veiga, que levou R$ 300 mil de Marcos Valério por “serviços internos” está soltíssimo. Foi até candidato a governador de Minas Gerais.

José Roberto Arruda, do mensalão do DEM, foi “atrevido” ao se candidatar a governador do DF. Acabou, para desgosto de FHC, seu benfeitor, tendo a candidatura impugnada, mas chegou a liderar a campanha e está por aí, livre, leve e solto. A impugnação revoltou de tal maneira ao ministro Gilmar Mendes que este chegou a classificar a Corte que assim decidiu como um “tribunal nazista”.

Alguém se recorda de como foi a atuação do ministro Gilmar Mendes no caso do mensalão do PT?

Agripino Maia, presidente do DEM, é acusado de receber R$ 1 milhão em propina, o que não o impediu de participar dos “protestos contra a corrupção”. Algum jornal ligou o nome à pessoa?

Soltos também estão Cachoeira, o bicheiro que era tratado como “emprasário do setor de jogos” e Demóstenes Torres, o mosqueteiro da ética – Gilmar Mendes devolveu-lhe o cargo de procurador do Estado. Quem se lembra de que o governador de Goiás, do PSDB, vendeu uma mansão para Carlinhos Cachoeira? Falar de Policarpo Jr. e do affair Veja-Cachoeira seria um ataque contra a liberdade de imprensa. Como também o seria qualquer alusão à Globo e o escândalo da  FIFA, pagamento de subornos, empresas em paraísos fiscais no Caribe, sonegação de impostos ou roubo de processo na Receita Federal. Alguém ainda lembra de que um ex-presidente da CBF está preso na Suíça e é investigado pelo FBI?

Sem maiores cuidados está o pessoal da “Castelo de Areia”.

Assim como José Serra e a “privataria tucana” feita no “limite da irresponsabilidade”. E seu envolvimento no “cartel” do metrô paulistano – sobre o qual só deu depoimento à PF depois de eleito senador? E o Paulo Preto?

Assim como Alckmin e o buraco do metrô – mais sete mortos. Fora alguns massacres. Quem se lembra do Pinheirinho ou da Castelinho ou de Maio de 2006? Quem não reagiu está vivo. No último massacre, em Osasco e Barueri, 19 não reagiram e foram mortos, mesmo assim.

E a eminente crise humanitária por falta de água, mas com alguns bilhões de reais pagos aos acionistas da SABESP, aqui e em Nova York? Ninguém se interessa em saber quem são eles, os acionistas, ou o que foi feito com o dinheiro que entrou com a privatização da SABESP?

A FHC, nada o perturba.

Nem a declaração de Pedro Barusco dizendo que começou a receber propinas na Petrobras em 1998, no governo FHC – podemos tirar, se achar melhor. Nem os R$ 200 mil por cabeça para comprar a emenda da reeleição, nem os seus apartamentos. Um, em Higienópolis-SP, comprado do mesmo banqueiro envolvido na lavagem de dinheiro do trensalão, o outro, em Paris, “emprestado” por um milionário brasileiro. Nem sua fazenda em Buritis-MG ou a atual empresa agropecuária sediada em um sobradinho na cidade industrial de Osasco-SP que não tem zona rural.

Não, FHC não é dono de empresa de fachada, nem da Friboi. Essa é do filho do Lula.Lula, que, aliás, possui um triplex no Guaruja-SP. Mas quando FHC começou a carreira política, que eu saiba, de terras, só possuía um pequeno sítio em Ibiúna-SP. Ninguém parece ter estranhado tal aumento de patrimônio. Fora da política, FHC era um professor aposentado da USP. Nem ele parece estar preocupado em explicar nada.

E isso, antes de se tornar milionário com suas palestras internacionais, quando tece duras críticas ao Brasil, e com seu Instituto que, lembremos, recebeu doações da SABESP.

Quanto a Lula, para a imprensa e o Ministério Público, ele não faria palestras, e sim, a promoção internacional do Brasil e suas empresas. Conquanto isso possa ser a obrigação de todo ex-presidente, viram nisso crime. Bastaram insinuações em reportagens de revistas semanais e um procurador substituto para o MPF abrir uma investigação. Lula receberia propina da Odebrecht. A Polícia Federal quebrou o sigilo de Lula – tudo vazado para a imprensa. O ciberespaço deu como eminente a sua “prisão para averiguações” pelo juiz Moro.

É pouco?

E o aeroporto construído pela Camargo Correia na fazenda vizinha a de FHC e gentilmente cedido para seu uso? Que coincidência feliz.

PSDBista gosta de aeroporto particular, quem gosta de miséria é intelectual.

Veja Aécio Neves e seus dois aeroportos em Minas. Um em Claudio – fazenda do tio, outro em Montezuma – empreendimentos do pai já falecido. Aécio está se empenhando em conseguir um terceiro turno para as eleições de 2014 e não em dar explicações sobre essas duas “obras públicas”.

O MP-MG encerrou o caso. Nada havia de errado. Em Minas, agora, desde que o PT assumiu o governo estadual, a Polícia  Federal passou a dar batidas na casa da primeira-dama.

Enquanto isso, Gilmar Mendes conseguiu reabrir no TSE ação questionando as contas da campanha de Dilma que teria recebido doações ilegais das empreiteiras envolvidas na Lava Jato. Empreiteiras que doaram valores até maiores para Aécio, mas, nesse caso, foi tudo legal. 

E tome Lista de Furnas, pasta Rosa e caso SIVAM.

E tome denúncia de Yousseff em CPI descrevendo em detalhes como Furnas pagava Aécio, via irmã e Bauruense. Mas para saber dela é preciso ser versado em inglês ou espanhol. Em português, só lendo a imprensa lusitana.

Assunto nunca faltou, mas o PSDB ser responsabilizado, algo respingar-lhes as penas?

Nem investigações referentes à fraudes em licitações envolvendo o “primo distante” que frequentava o gabinete e a vida pessoal de Beto Richa. O processo foi suspenso pelo TJ do Paraná. Surrar professores tampouco deu em alguma coisa.

O que é isso, perto de um helicóptero pertencente a um deputado federal do PSDB ser flagrado pela Polícia Federal com meia tonelada de cocaína e o assunto não despertar o interesse nem da imprensa nacional, nem da Justiça que mandou soltar os traficantes, devolveu a aeronave aos donos e encerrou o caso? Quem é capaz de dizer o que foi feito da cocaína?

Não, de tapioca à Lava Jato, passando pela AP 470, é o PT o partido mais corrupto da história brasileira. E só.

Todo o mais que poderia acrescentar aqui fica por conta da ironia sábia e desesperançada de Stanislaw Ponte Preta:

“Que se restaure a moralidade, ou que nos locupletemos todos”.

Fora disso, é comédia.

A não ser que o Procurador Geral da República resolva desvencilhar as mãos da cartolina que segura e que lhe tolhe os movimentos. Nela se lê: “Janot, você é a esperança do Brasil”.

PS1: em 28ago2015, o PGR mandou para o arquivo o inquérito sobre Anastasia. O ex-governador mineiro era o único político vivo do PSDB envolvido na Lava Jato. Sergio Guerra já é falecido e, logo, apresenta sua defesa diretamente ao Altíssimo e Aécio Neves não pertence ao mundo material. Anastasia é acusado por Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca, de ter recebido R$ 1 milhão em propinas. Janot não viu “elementos míninos” para prosseguir a investigação. Careca, ex-policial federal, é o único investigado da Lava Jato que continua foragido. A Polícia Federal não consegue localizá-lo. José Dirceu e João Vaccari continuam presos em Curitiba, ambos cumprindo pena de acusados.

PS2: quem costuma enxergar palavras em sopa de letras pode divertir-se procurando quantas vezes a Polícia Federal e o ministro Gilmar Mendes são citados neste texto.

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